Doc-LEK é um núcleo cultural do:

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sábado, 29 de agosto de 2015

CARTA AO FILHINHO


São Paulo, 24, 9, 985. 

Caro “seu” Filhinho 

Veja a beleza de carta anexa, que recebi do sr. Jean-Gerard Fleury, jornalista/empresário/aviador francês, residente no Rio, a quem recorri através do velho e querido amigo de imprensa, meu compadre, Luiz Edgar de Andrade, da TV Globo.

 Ao que parece, o assunto, a estada de Exupéry em Ubatuba, ocorrida há 50 anos (52 anos!) se esclarece de vez. Estou pesquisando há 21 anos, por meu lado, desde que vi o trabalho do Ewaldo Dantas Ferreira na “Folha”. 

 Se tudo é vero, quem esteve em Ubatuba, naquela tarde/noite que já entraram para a história, foi o aviador Leon Antoine, e o radiotelegrafista Chauchat. Fleury o identificou, e já tinha carta anterior da Air France, com o mesmo nome, e só queria agora ter certeza.
O nome Antoine Saint-Exupéry apareceu, tenho certeza, pela coincidência do primeiro nome (Antoine). Assim, o Brandão, em sua presença, o chamou no dia da chegada. A carta do Brandão, também, identifica Antoine Saint Exupéry.

E mais, explicando que viu a foto no Cruzeiro, no carro do Ewaldo, e achou que era Exupéry. Os dois Antoines, eram parecidos! A Irmã Rosa Maria, biógrafa de Exupéry, teve dificuldades em identificar. Acho que sua participação no caso é mais que verdadeira e honesta. A sua verdade é real, não fictícia... e bem verossímil. 

De minha parte, atuei longe dos fatos, com faro de repórter, contudo, só querendo apurar tudo direitinho para uma reportagem. Esclarecedora e definitiva. Acho que é o que está se esclarecendo.

Espero ir brevemente ao Rio, encontrar o aviador Leon Antoine. Se possível levá-lo a Ubatuba, para ele rever o local e amigos que o auxiliaram, como o senhor. E como o “seu” Filhinho já se prontificou com tanta amabilidade, na última conversa! Fico às ordens em S. Paulo, querido amigo e mestre.

Abraço de sempre e recomendações à d. Mocinha,

Luiz Ernesto Kawall

CORRESPONDÊNCIAS RECEBIDAS

1. – JEAN-GÉRARD FLEURY 
Rio de Janeiro, 19 de setembro de 1985. 

Prezado Sr. Kawall, 

Peço muitas desculpas pelo meu atraso em responder a sua carta de Julho. 
Agora colhi as informações que me permitem de responder a seu questionário. 

1º- As fotografias enviadas, não são de Saint-Exupéry. 

2º- Saint-Exupéry nunca teve acidente no Brasil. 

3º- A Aeropostale registrava todos os acidentes. Seu arquivo foi transferido ao Serviço de Documentação da Air-France em Paris a partir de 1933. Em razão de esse longo espaço de tempo, as pesquisas são muito demoradas. 

4º- A história da verdadeira epopéia da Aeropostale, que serviu de modelo o Correio Aéreo Militar brasileiro, é muito difícil de resumir. Vários livros foram escritos sobre o assunto, os mais completos são: “MEBMOZ” de Joseph Kessel, editado na França, dois livros de minha autoria: o primeiro “A LINGNE” e o seguinte “L’ATLANTQUE-SUD de L’AEROPOSTALE AU CONCORDE”. 

5º- Não só conheci Saint-Exupéry, mas fui também um de seus amigos mais íntimos. Durante um certo tempo Saint-Exupéry foi Diretor da Aéropostale na Argentina, isso fez com que ele só passasse várias vezes no Brasil, com paradas principais: Natal, Recife e no Rio. 

6º- A atuação de Saint-Exupéry na América do Sul foi na Argentina e no Chile. 

7º- Nascido na França, Jean-Gérard Fleury foi advogado na Corte de Apelação de Paris. Depois de uma viagem num dos aviões primitivos que desbravavam a “lighe” aérea “Toulouse-Santiago do Chile”, dedicou-se inteiramente ao jornalismo e à aviação. Após ter obtido o brevet de piloto, tendo o grande aviador Jean Mermoz como instrutor, fez numerosas viagens na América do Sul, onde se ligou de grande amizade, não só com Jean Mermoz com também com Antoine de Saint-Exupéry e outros heróis da Aéropostale e também com os pioneiros do Correio Militar: Brigadeiro Eduardo Gomes, Francisco Correa de Mello, Nelson Lavenere Vanderley, Clovis Travassos, etc... 
Em 1940, durante a guerra, fundou com o engenheiro René Cousinet a “Sociedade Construções Aeronáuticas S.A.” Esta sociedade construiu a Fábrica de Aviões de Lagoa-Santa, em Minas Gerais. Em 1941 reencontrou seu amigo Saint-Exupéry em Nova York ajudando a libertação da França. Saint-Exupéry teve um fim heróico em julho de1944, desaparecendo no Mar Mediterrâneo no decorrer de uma missão contra as Forças Aéreas Alemãs. 
Depois da guerra Fleury foi muitos anos correspondente do jornal “France-Soir” de Paris e no mesmo tempo representante da “Sud-Aviação”, construtor dos Caravelles e do Concorde. Atualmente é correspondente da revista francesa “Le Point”. 

8º- Achando muito simpática sua pesquisa sobre um episódio acontecido em Ubatuba, tenho um grande prazer em completar as informações pedidas. 
O avião que pousou naquela cidade em 1933 era pilotado pelo veterano Comandante Leon Antoine, acompanhado do radiotelegrafista Chauchat. 
Hoje, ainda, Antoine lembra-se da acolhida triunfal que recebeu tanto do Prefeito como do povo da cidade e evoca sempre com emoção um vinho Sauternes de um paladar admirável e de suas conversas com o Prefeito e de um cidadão alemão que falava também francês. Leon Antoine aposentado vive sempre no Brasil em Miguel Pereira, no bairro do Javari, Estado do Rio. 
Quando lembrei a ele esse episódio, ele ficou comovido e me diz que tinha uma grande vontade de ver o lugar onde uma “panne” terminou tão bem, assim como as pessoas que lhe prestaram uma assistência tão fraternal. 
Desculpo-me novamente pelo grande atraso com que respondo a sua carta w lhe devolvo as fotografias que me permitiram identificar a tripulação. 
Queira aceitar meu cordial abraço. 
Jean-Gérard Fleury

2– WASHINGTON DE OLIVEIRA 
Ubatuba, 26 de setembro de 1985. 

Prezado Luiz Ernesto. 
Recebi ontem sua carta de 24 deste mês, capeando uma outra de mr. Jean-Gerard Fleury, que vem definir o assunto bastante controvertido. Nela, Mr. Fleury esclarece que, realmente, a cinqüenta anos passados, aqui pousaram dois aviadores franceses, um deles denominado Antoine. Chega até aludir à acolhida dispensada pelo Prefeito e gabar o Sauternes que deliciou aos aeronautas. Mas, o aviador em apreço não era SAINT EXUPÉRY... 
Lamentavelmente, se houve engano de identificação, isso cabe ao meu saudoso amigo Gilberto Brandão, radiotelegrafista da L’Aeropostale naquele tempo, que atribuiu ao aviador Antoine o sobrenome Saint-Exupéry, quando na realidade era Leon Antoine. Desfeito o engano, louvo seus esforços por esclarecê-lo, e aqui vai o cordial abraço do 
Filhinho.

DEPOIMENTOS DE MORADORES DE UBATUBA SOBRE SAINT-EXUPÉRY

1 – WASHINGTON DE OLIVEIRAFILHINHO”, farmacêutico, estudou ginásio em Ubatuba, formou-se em Pindamonhangaba, filho do Cel. Ernesto de Oliveira, foi prefeito de 1938–1938 e em 1954. Depoimento em sua farmácia, em Ubatuba, em 19-8-73. – Essa história do Saint-Exupéry começou quando o repórter Ewaldo Dantas Ferreira, da “Folha de S. Paulo”, promovia a Operação Ubatuba, em nossa cidade, em 1964, que deu início à Operação Rondon anos depois... Ele me convidou para falar aos estudantes em São Paulo, na ACM. Num domingo, sobre Ubatuba e acedi... Na viagem, vi no carro umas revistas, numa delas havia a foto de Saint-Exupéry, disse ao Ewaldo que esse aviador-poeta havia estado em Ubatuba, por algumas horas, quando seu avião sofreu uma pane, na rota Rio-Santos... Ele ficou interessadíssimo e ao me apresentar aos estudantes, contou o fato e a “F.S.P.” do dia seguinte registrou a notícia, creio que pela primeira vez na imprensa... Daí para cá interessei-me pelo assunto, localizei em Niterói, após imensas buscas, o Gilberto Nogueira Brandão, radiotelegrafista da “Air France” naquele tempo... Escrevi a ele, respondeu (ver anexo), confirmando a estada de Saint-Exupéry entre nós, mas não adiantando quase nada sobre datas, etc. O incidente citado ocorreu porque Saint-Exupéry queria se hospedar na casa da “Air France”, onde morava o Gilberto com sua família, mas ele não deixou, alegando que não tinha acomodações... Exupéry foi para o Hotel Felipe, com seu companheiro, ali passaram a noite, e meu tio, Deolindo, prefeito na época, pagou a conta do Hotel... Interessante que pagou a hospedagem e, vinha acrescido na nota, duas garrafas de champanhe, “Vinne Clicot”, que Exupéry e o companheiro tomaram à noite... No dia seguinte bem cedo saiam, foram até a praia, ainda passaram pela frente de casa, se despediram com um “au revoir”, e levantaram vôo, foram embora. Não sei se eles passaram telegrama no Correio local, acho que não, pois se a “Air France” tinha estação de rádio telegráfica, porque iriam usar o Correio e não a Companhia?... Infelizmente, isso não pode ser afirmado, pois o agente daquela época, Benedito Gomes dos Santos, já morreu... Eu conversei com S. Exupéry, quando o avião desceu – todo mundo correu para lá – Ubatuba era pequena, sabia frações, pois estudara essa matéria no Ginásio daqui. Sei e tenho certeza, também, que ele ficou no Hotel Felipe, mas não há mais os livros de assentamento, o Altino Fernandes, único descendente vivo do Cap. Benedito Felipe Fernandes, que era o proprietário do Hotel com o Heleno Soares Pinto, morreu... Quando o avião desceu, um húngaro, Julio Kertz, tentou falar com Exupéry em alemão, mas o aviador não entendeu... Eu me aproximei e disse “Voulez vou quelque chose?”, e daí nasceu nossa conversa... Não sei, ouvi dizer, que o Herman Porche tirou fotos do Saint-Exupéry em Ubatuba... Não as vi... Mas, tudo isso, estou reunindo elementos, para um livro que vou publicar. 

2 – D. ISABEL DE OLIVEIRA SANTOS, 79 anos, ubatubense. Depoimento coletado em São Paulo dia 20/8/73. Sra. de Deolindo de Oliveira Santos, ubatubense, prefeito da cidade em 1933. Depoimento em São Paulo, Rua Cláudio Rossi, 861. ... Não me lembro da descida de um avião francês em Ubatuba... estou muito esquecida, desde que o Deolindo morreu... uma vez caiu um avião nas Toninhas, o aviador parece que era chinês ou coisa assim... o Deolindo ajudou em tudo, depois ele seguiu para o Rio... de volta,deixou uns papéis na cidade, acho que eram agradecimentos ao Deolindo, ou coisa assim... Não sei se o Deolindo levou vinho estrangeiro para esse francês que o senhor fala... nós tínhamos vinhos de várias partes do mundo em casa, principalmente franceses e portugueses, o Deolindo era comerciante, importava das casas de S. Paulo e do Rio... Sobre o hotel que ficou esse aviador, não me lembro, mas deve ser o Hotel Felipe, que ficava defronte de casa, na Rua Maria Alves, e era o melhor, e mais antigo hotel de Ubatuba. 

3 – IDALINA GRAÇA Nasceu em Ilha Bela, foi morar em Ubatuba, casou com Albino Graça, dirigiram o Ubatuba Hotel durante muitos anos, publicou há alguns anos o livro “Terra Tamoia”, pela Editora Martins. Depoimento em Ubatuba, em sua residência, 18.8.73. O Ubatuba Hotel foi inaugurado em 1933, antes já existia, era do Armando Bohm... Quem dirigia ele era meu marido, Albino Graça, santista que aportou em Ubatuba, e esta sua criada... O Hotel ficava na praça central, onde hoje é o Cine Iperoig, era assobradado e bonito, bem espaçoso... Não me lembro do tal Saint-Exupéry no nosso Hotel... ele deve ter ficado no Hotel Felipe... no “Ubatuba” ficaram, que eu me lembre, Monteiro Lobato, que depois me escreveu contos tão bonitos, me incentivava a fazer poesias, Wladimir Piza, Joaquim Sylos Cintra, que depois governou S. Paulo e outros... Sim, até gente estrangeira, não me lembro os nomes... O Herman Porche e o Campi foram dos primeiros hóspedes, acho que os segundos... Essa história do Saint-Exupéry é com o “Filhinho”, ele é que sabe tudo da cidade, nunca vi esse aviador francês – e dizem que poeta também – nas ruas, no meu hotel, em lugar nenhum... Sou pobre, mas sou verídica... Como, o Deolindo buscar vinho estrangeiro para tomarem no Hotel, se o prefeito daquela época estava de mal comigo?... O meu livro “Terra Tamoia”, que fala da Ubatuba antiga, não fala nada disso, aliás, está esgotado... Estou com um outro livro pronto, o Piza disse que o José de Barros Marins vai editá-lo ainda este ano. 

IDALINA GRAÇA – ADENDO 

UBATUBA HOTEL inaugurou em 1933, já existia, era do Armando Bohm; É casada com Albino Graça (Santos), era daqui, eu nasci na Ilha Bela... Não me lembro do tal Saint-Exupéry em meu Hotel... Ele ficou no Hotel Felipe... No meu estiveram Monteiro Lobato, Wladimir Piza, Joaquim de Sylos Cintra e outros... O Herman Porche esteve no Hotel com o Campi, foi dos primeiros hóspedes... Quem sabe toda essa história do Saint-Exupéry é o Filhinho... Não me lembro da cara dele, nem vi na rua nada... Deolindo era de mal comigo, como foi buscar vinho para tomar no Hotel?... Sou pobre, mas sou verídica,... 

4 – NOTAS 

4 a. – Gilberto Nogueira Brandão – Radiotelegrafista da Air France – Exupéry foi à casa dele, queria se hospedar, Brandão disse não tinha instalação, discutiram, aí foi para o Hotel Felipe... 

4 b. – Quando o avião desceu, Julio Kertz (húngaro), quis falar em alemão com ele... Saint-Exupéry não entendeu... “Filhinho” tinha 26 anos... deveria ser entre 35 e 36... (33). Brandão escreveu Vasp porque a Vasp ficou com ele e mesma casa... não era agencia, era posto radiotelegráfico... acendia lampiões a querosene e punha na praia... 

4 c. – Benedito Gomes dos Santos – morreu – Piquito – Walmor Bolin – José Correa Leite – na antiga telefônica. 


HERMANN PORCHER GUATEMALA, 1902

Luiz Ernesto Kawall e Herman Porcher

No Brasil, 1912, (pai negociante), e definitivo: 1920 (SP). Estudou na Europa (Escola Técnica, Itália). Andanças Guatemala e Europa. 1931 estabeleceu-se SP com numismática – compra e venda de moedas antigas. Até hoje.

Desde criança gostava de fotografias. Teve várias máquinas, tirava fotos Europa, Guatemala. Brasil. Já tirou milhares de fotografias, que guarda espalhadas e em álbuns. Em 1933 usava u’a Kodak especial (6 x 9). Anos depois foi roubada em Ubatuba. 

Primeira viagem a Ubatuba

Em 33, já estabelecido e, SP, gostava de jogar pôquer. Tinha uma turma de amigos – Alexandre Campi, Humberto Campi, Rafael Campi, Argemiro Rodrigues e outros – e jogavam até ½ dia, quando a sirene de “A Gazeta” tocava (o escritório de Porcher era ao lado do jornal, na Líbero Badaró). Como prejudicava a saúde, resolveram acabar com o jogo e viajaram “para um lugar onde não houvesse jogatina, não fosse o interior e pudessem fazer algum esporte a beira mar”. Ubatuba, no Litoral Norte, indicação que veio por intermédio de Antonio de Barros, comerciante, que conhecia Ubatuba. Seguiram por via marítima, único meio que havia para chegar a Ubatuba, pelo “Ubaituba”, da Cia. de Navegação Costeira, que fazia regularmente a linha Florianópolis – Rio. 

Chegamos a Ubatuba por volta das 10 horas da manhã, após o “Ubaituba” deixar presos e mantimentos no Presídio da Ilha Anchieta. Nós íamos recomendados – nós, Hermann Porcher e o Alexandre Campo – pelo Antonio de Barros ao dono do Hotel Ubatuba, Sr. Armando Bohn. Ao chegar, não o encontramos. D. Idalina Graça – caiçara local, hoje poetisa e escritora – era a proprietária, com o marido, Albino Graça. Ficaram nesse hotel – almoçaram fartamente, fizeram a barba e como pensamos que aquela terra era uma espécie de safári, pusemos roupas de caçador – culotes, perneiras, cepa, etc., que tínhamos guardado da Revolução de 32. Saímos para dar u’a volta na praça Nóbrega, no centro da cidade, as ruas eram de terra e cheias de capim. Era junho – tempo frio – por volta de 5 horas, começava a escurecer. 

Nisso, ouvimos um ruído de avião, era um monomotor que sobrevoava a cidade e soltava 2 rojões (verylight) que iluminou tudo. Vi que o avião procurava pouso e que todos caiçaras corriam em direção ao Cruzeiro (a cruz de Anchieta, que rememora junto à praia do Itaguá a Paz de Iperoig). Fomos também ver o que acontecia na praia e chegando lá vimos o avião parado e um pouco antes 2 aviadores e uma roda de curiosos em volta. E tinha um senhor de tamancos que falava com os aviadores – era o prefeito local, Deolindo de Oliveira Santos – mas estes acenavam e não entendiam nada. Esse senhor gritou: – Vai chamar a Romana (uma professora, enteada dele, que sabia francês). A Romana veio e pelo jeito os aviadores continuavam a nada entender... 

Aí, eu e meu amigo,quando vimos essas dificuldades, nos dirigimos aos 2 aviadores e perguntei a um deles, o mais alto, em francês: – Ques que vous voulez? Eles falaram que foram obrigados a aterrizar lá porque o aparelho de rádio deles tinha pifado e para a frente (S. Sebastião) estava fechado. Além disso, o campo de pouso da companhia – Companhie Generale Artopostale – estava longe, era na Praia Grande de Santos. Eles disseram que precisavam telegrafar com urgência para Santos e perguntaram se tinha telégrafo aquele lugar. Perguntei ao senhor de tamancos se tinha telégrafo e ele diz que sim, ficava junto à Igreja e disse também para transmitir aos aviadores que eram considerados hóspedes oficiais da cidade

Aí fomos ao telégrafo – uma verdadeira procissão pela Rua Condessa de Vimieiro, os 2 aviadores, eu e meu amigo e 309 ou 40 caiçaras. Eles perguntaram para mim qual era o melhor hotel de Ubatuba – mas como tinha chegado aquele dia, não sabia, perguntei ao tal senhor de Tamancos que indicou o Hotel Felipe, um antigo Hotel de Ubatuba, recentemente demolido. Transmiti o recado e os aviadores perguntaram para mim onde estava hospedado e respondi que no “Ubatuba Hotel” junto com o amigo Campi. Éramos os últimos hóspedes do “Ubatuba”, únicos e primeiros da nova fase, sob a direção de Idalina. – Então lá ficamos – o mais alto respondeu. Fomos ao telégrafo, passaram o telegrama – não sei se um ou vários, mas só poderia ter sido em francês, não me perguntaram nada. Disseram que precisavam telegrafar, pois vinham de Natal, em escalas, até o Rio, e iriam a Santos. Levavam só malas postais. Achavam que em Santos o pessoal da Companhie estaria apreensivo com a demora em sua chegada. 

Saímos do telégrafo e voltamos pela mesma calçada, até o Ubatuba Hotel, onde está o atual Bar Cruzeiro e o Cinema Iperoig e o cortejo todo atrás, inclusive o homem de tamancos. Entramos no Hotel e disse a D. Idalina: – Trouxe para a senhora dois novos hóspedes e peço que prepare uma boa janta para eles. Perguntei para eles se desejavam tomar alguma cerveja ou aperitivo e eles disseram que gostariam de tomar um vinho. Falei com D. Idalina e ela disse que não tinha vinho e respondeu: – Não tenho, fale com o Prefeito, ele está aí. Quem é o prefeito? – Aquele senhor que está na janela, o “seu” Deolindo. Aí me dirigi a ele – o Hotel ficava na esquina da Rua Salvador Correa x Praça da Igreja (Rua Condessa de Vimieiro e estava todo cercado dos caiçaras, por causa daquele fato inédito, um “acontecimento” na cidade, a chegada de dois desconhecidos, falando língua estranha e que chegaram num avião que pousou na praia) – era o homem dos tamancos. Perguntei se ele tinha um bom vinho e ele disse: – Pode deixar, eu arrumo. E saiu, atravessando a caiçarada e a Praça. E voltou com u’a garrafa de vinho francês e que eu mostrei ao aviador alto que disse: – Mas, onde arranjou isto? Este vinho na França custa um dinheirão! Comentou com o navegador, gostaram, ficaram contentes. 

Nessa altura já eram umas 7 da noite, havia escurecido totalmente, sentamos à mesa, nós quatro e começamos o jantar. D. Idalina preparara um lauto jantar – tinha peixe, uma tainha recheada, frango ensopado, arroz e feijão, outras coisas. De sobremesa, uma espécie de compota de mamão, vermelha, divina. Os 2 aviadores comeram à farta e saborearam, também deliciados, conosco, o vinho.

Conversamos durante o jantar sobre aviação, que estava nos primórdios. Até dei a ele uma foto do “Grof Zepelim”, que fizera em SP, em 1933. Agradeceu, guardou-a e disse que apesar dos zepelins atravessarem o oceano diretamente – da Europa á América – preferia o avião, que tinha “mais futuro”, como meio mais rápido de transporte. E a conversa se estendeu sobre aviação e os caiçaras até tinham se dispersado – só assistiram o começo do jantar. Depois disto nos dirigimos outra vez onde estava o avião, pois os aviadores tinham dado ordem ao prefeito de colocar alguém para guardar o monomotor. Realmente tinha um caiçara dentro do avião e mais um fora, para ninguém, mexer nele. Os outros caiçaras brincaram – Tião, João – não me lembro mais o nome – cuidado, de repente o avião levanta vôo e você sai voando. O caiçara meio amedrontado sorria amarelo. 

O aviador alto e o navegador examinaram o avião, viram que tudo estava em ordem e nós regressamos ao hotel. Sentamos de novo na sala de jantar, ficamos conversando mais um pouco e eles se retiraram para dormir, subindo ao primeiro andar, onde D. Idalina arrumara seu quarto, que dava pra a praça. Eu e o Campi estávamos no quarto da esquina. Seriam umas 9 horas, já estava tudo escuro, pois às 8 horas da noite a luz acabava pois a turbina era alimentada  pela água da represa que, àquele horário já  acabava... O hotel funcionava à luz de velas e por esse horária era fechado, e, logo, Ubatuba não tinha mais ninguém na rua. 

No dia seguinte, um outro capítulo se registrou. Descemos para tomar café – uma oito horas da manhã – e os aviadores já estavam lá. Já tinham descido e já haviam saído o hotel antes. Eu e o Campi bebemos leite, comemos pão com geleia, manteiga e fomos até a praia. Vimos então o piloto mais alto tirando gasolina, numa lata, do avião e despejando o líquido na areia. Diversas latas de querosene foram assim cheias e jogadas ao chão. Estava aliviando o peso do avião. Nesse instante fizemos 3 fotos – aliviando o avião, comigo, o piloto com seu amigo Campi e as pessoas que circundavam o avião. 

Aí deu instruções para mim e o Campi para avisar os caiçaras – novo grupo deles estava em volta do aparelho – que iam tentar levantar voo e pediam para que nós disséssemos aos caiçaras para segurar a asa do avião, tanto dum lado como do outro, enquanto eles iam aquecendo o motor. Quando saísse, daria um sinal, levantaria o braço, largaríamos as asas e o avião sairia com impulso do areão grosso daquela plataforma da praia (onde hoje está o jardim fronteiriço à cidade). Tudo foi feito como ele pediu e quando o piloto fez o sinal, gritei: – Larga. Todo mundo largou e o avião já saiu pulando, as rodas batendo no chão, na direção da praia do Itaguá no rumo sul (S. Sebastião – Santos). A uns 300 metros o avião inclinou em direção do mar, à esquerda e dado o desnível da praia – que é de tombo – o avião pegou impulso e subiu, passando, depois de sobrevoar o mar, a baia, à direita em cima do morro do Tenório, desaparecendo no horizonte, rumo a Santos. 

Os comentários dos caiçaras eram de surpresa, pois o avião subira do campo improvisado da praia, que tinha na parte plana apenas ondulações e mato. Mais adiante, tinha jabuticabeiras e goiabeiras – hoje seria defronte ao cemitério. Essas árvores foram cortadas, por um prefeito, anos depois. Voltamos ao hotel e encerado o episódio, passamos, eu e o Campi, a gozar as delícias de umas férias em Ubatuba, Ficamos uns 30 dias lá, esperando a segundo volta do navio, “Itaituba”, para regressar a Santos. Andamos a cavalo, conhecemos as praias principais – Tenório, Grande, Enseada, até Santa Rita, que me maravilhava. Anos depois, comprei toda essa praia, em negócio indicado com um padre, o Pe. Ovídio Simon, por 10 contos – onde tenho casa até hoje. Dividimos a praia pela metade, conservei a minha, mas o padre vendeu a sua. Passei a freqüentar Ubatuba, onde vou no mínimo de 15 em 15 dias, de mês em mês, em viagem de carro, que leva folgadamente 4 horas... O “Itaiutuba” saia de Santos às 18 horas e chegava a Ubatuba, na Prainha, onde hoje se situa a casa de Francisco Matarazzo Sobrinho (o “Ciccillo”, ex-prefeito da cidade), lá pelas 10 da manhã, levando umas 16 horas..., passando por São Sebastião, Caraguatatuba e Ilha Anchieta. 

Muito tempo depois, lá por 1950 e poucos, quando Saint Exupéry começou a ficar falado e famoso, soube que era ele o piloto alto, de maneiras educadas, gentil, que descera em Ubatuba, com o aparelho de rádio em pane, em Ubatuba. Não tomei providencia alguma, mas estranhei fatos que se contavam a respeito, inverídicos. Fui realmente o anfitrião, cicerone e intérprete de S. Exupéry em Ubatuba, como relatei e cujo depoimento pode ser comparado com minhas fotos – únicas que se tiraram na ocasião – e por outras testemunhas orais e visuais que possam surgir. Em 33 Ubatuba era o fim do mundo, não havia nem máquina fotográfica lá. Guardei as fotos – que eu mesmo revelei no próprio hotel – utilizando a escuridão noturna, uma lanterna vermelha com vela e ácidos e bacias de vidro que levava comigo. Essas fotos, em SP, mostrei-as a amigos e nunca foram publicadas. Agora, por solicitação do jornalista LEK, cedi-as ao “Estado de S. Paulo”, bem como postei, pela primeira vez com tantos detalhes, ao menos, este relato. S. Paulo, 16.8.73

SAINT-EX

SAINT-EX não pousou no Itaguá, 
 ... mas riu no céu... E pedi perdão à Lucinha, no Carnaval... (p/ Rubem Braga)


Nos anos do trinta, como diria o Volpi, constava que Saint-Exupèry, aviador e escritor famoso, de mil aventuras pelo mundo, pousara com seu “Lacotère” avariado na praia do Cruzeiro, em Ubatuba. E que teria andado pela cidade, com os ubatubenses embasbacados, à roda... E, mais ainda, que também teria tomado um autêntico champagne francês com outros tripulantes no Hotel da Idalina Graça onde, certamente, teria contado e ouvido muitas histórias. Na roda, “seu” Filhinho, o já farmacêutico famoso e alguns caiçaras da sociedade local. O champanhe, segundo a história, veio do empório do Capitão Deolindo. 

Esse fato A Folha deu, numa 2ª feira, em 1966. Não com tanta riqueza de detalhes. 

 Eu andava como jornalista, em andanças entre SP e Rio, no jornal do Lacerda; a notícia me alertou, e isso despertou-me para a história desse fato pois, já tinha casa (no Sapé), aqui, - fazia festivais de viola, enfim, andava integrado com as gentes de Uba: e, como eu, não sabia! Mas que assunto! 

Enfim, puz-me a campo, recorrendo os jornais da época, deste São Paulo, até Paris (onde contei com ajuda do Reali Jr., então correspondente de “O Estado de S. Paulo”). E também às freiras dominicanas, como Irmã Rosa Maria freira desta irmandade católica que escreveu uma tese em francês, posteriormente publicada numa versão portuguesa, versando sobre episódios do famoso escritor/aviador. E outros, que bem conheciam a vida de Saint Ex, na palma da mão. Li vários livros sobre o famoso escritor, mas, nada: ninguém falava, nem ele, de sua desastrada viagem, em que “pousara” e “ficara” numa “noite de bebedeiras”, nesta lírica cidade litorânea no Brasil. 

Foi quando, em Santo Amaro, SP, andando atrás de fotógrafo alemão - que teria fotografado Saint-Ex, e seu avião, e curiosos, na praia do Cruzeiro, Ubatuba/SP... e deu “Bingo”. 

Achei o alemão, tinha casa nas Toninhas, fotografara o aviador francês do Lacotère, andara com eles e o grupo, até o Hotel Felipe... Saint-Ex tomara champanhe, sim, e contara histórias fantásticas de suas aventuras com os mouros na África, etc., etc. (ver “Correio Del Sur”, de Saint-Ex.). Melhor. “seu” Hans tinha as fotos, do aviador acidentado, o avião parado no meio das palmeiras da praia, os basbaques à roda... Noite toda. De manhãzinha, já consertado, o “Lacotère”, prosseguia sua viajem, até Buenos Aires. Ficou a estória de Saint-Exupèry, aqui em Ubatuba... Real, gostosa, inédita, lírica. Foi o que fiz. Reuni fotos e testemunhos, e contei a saga, de 1932 (queda no Itaguá, 1966, notícia na Folha, 1984, m/reportagem, página inteira, no “Jornal da Tarde”: “A incrível estória de sua passagem por Ubatuba”. Texto do colega, que me entrevistou: Edmar Pereira. 

No dia em que o texto saiu, era um sábado, 11.1.1986, comprei uns 20 exemplares, levando a reportagem, encimada por uma “janota” - Uma viagem imaginária aos amigos interessados: “seu” Filhinho, Pedro Paulo, Cícero Assunção, Arnaldo Chieus, Ney Martins, família Lindolfo, pois o avô do Julinho Cesar Mendes foi o primeiro a cercar o avião de Saint-Ex e posar, com outros caiçaras, que ninguém desmente: que repercussão! Jornais e revistas de França deram notas - será que Antoine de Saint-Exupèry desceu, mesmo, em Ubatuba? 

Mas aí é que eu mesmo pus fim à lendária viagem de Saint-Ex, aqui nestas paragens idílicas. Escutando a TV Globo, notícia do Rio: festival de aviadores do Lecotère e Varig (sucessora) no Rio, mais de 50 veteranos se encontravam na Capital federal para recordar e comemorar seus feitos... As viagens eram, num aviãozinho monomotor, de apenas 4 lugares, de Paris a Dakar. Depois faziam paradas em Recife, Salvador, Santos, Rio, Florianópolis e seguiam depois até Montevidéu, Buenos Aires para cruzarem os Andes até o Chile. Eles levavam correspondência, em viagem de ida e volta, naqueles anos 20/30/40. Não havia correio aéreo, ainda, em nenhuma das Américas. 

Pois bem, deu “Bingo” de novo! Telefonei a Globo, no Rio e também ao Luis Edgar de Andrade, jornalista, dileto amigo: ele localizara o chefão dos pilotos franceses, Gerard Felipe, que estaria morando Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Ele tinha falado à Globo recentemente. Telefonema decisivo: Gerard me desmentiu, quem caíra em Ubatuba, era Jean Antoine, e não Antoine de Saint-Exupèry... Houve engano do telegrafista, ou, de ubatubenses, açodados em noticiar um desastre e feito, certamente, históricos: Saint-Ex em Ubatuba, acidentado, passa a noite em hotelzinho local, com amigos e curiosos, tomando champanhe e contando estórias. Bem Saint-Ex. 

Pus a campo, orientado por Gerard, e dia seguinte, domingo, fui a Japeri, RJ, com Luiz Edgard de Andrade, pequena cidade fluminense; lá estava Jean Antoine, em pessoa, casado no Brasil, com uma bela mulher negra, Elizabeth. Entrevistei todo mundo... trouxe Jean Antoine e Elizabeth à Ubatuba, hospedados no Ubatuba Pálace Hotel. Deram volta pela cidade e foram homenageados pelo “Seu Filhinho, presentes este repórter, Jony e Pedro Paulo e demais ubatubenses. Eu regurgitava de contente, de terminar essa reportagem, que durara 20 e poucos anos. Fotos foram feitas e Filhinho e Jean Antoine se abraçaram cordialmente, em paz. Verdade restabelecida... É vero! 

Fim da estória: pedi perdão à Lucinha, no Carnaval”... 

Nesse dia da gloriosa reportagem no Jornal da Tarde, era um sábado: estava em Ubatuba, e, como disse, distribuí exemplares do jornal, aos amigos – Filhinho, Pedro Paulo, Jony, Arnaldo, irmãos Veloso (Hotel), Carlota, João T. Leite, Flávio Girão, Julinho Mendes, neto do “seu” Lindolfo e outros mais... um sucesso! 

Mas o jornalismo é feito de crenças e superstições, quando não com a ajuda do Espírito Santo (e eu tive muitas, toda a vida... graças a Deus, e, ao Santo Espírito). Foi assim: 

Passando pela Biblioteca Municipal, na Praça Treze de Maio, onde hoje está instalado o Memorial “Ciccillo Matarazzo”, dei de pronto com uma reportagem ilustrada, “A História da Aviação - Gastão Madeira”. Interessei-me. Muito bem armada, com texto e fotos de qualidade, terminava com toda a dramática história de Gastão Madeira, ubatubense de boa cepa, engenheiro, que teria descoberto “o vôo mais pesado que ar”, nos anos do século XIX, antes de Santos-Dumont. Vibrei! Que coincidência, que fecho bem valioso pra minha estória - de Saint-Ex, em Ubatuba, já desvendado: o inventor do avião não foi Santos-Dumont, foi Gastão Madeira. Tocado pelos espíritos, então, ali na Exposição, tão laboriosamente feita pela bibliotecária Lúcia Muniz de Souza - bolei publicar - outra vez, refundindo Saint-Ex (que não veio a Ubatuba, só em folclore...) e Gastão Madeira (mas Ubatuba é que o avião foi inventado...). Mas, tinha um porém: nunca soubera da existência de Gastão Madeira Sua história ali contada, era magistral... Lutou, lutou... Em S. Paulo, Rio, Estados Unidos... Mas não levou. Anos depois Santos-Dumont inventou o avião, em Paris - que se tornou o foco da aviação mundial. E veio a Lacotère, e veio Saint-Exupèry, enfim... Ubatuba, olvidada, esquecida O assunto bate, aqui, mas não vinga... Parece “mau-olhado”. Mas, o texto, eu criaria, e a foto do Gastão Madeira. Não tinha! ... Mas, estava ali, inteira, 2 colunas, no quadro da Exposição Santos-Dumont, tão laboriosamente organizada pela diligente diretora Lúcia Muniz de Souza!. Num átimo, retirei cuidadosamente a foto de Gastão Madeira, e roubei-a (para minhas reportagens futuras...). 

Deixei bilhete de “meã culpa” para a jovem diretora... que, dias depois, me telefonou. Eu a essa altura já estava em São Paulo. Se me lembro, disse mais ou menos, assim... 

“Luiz Ernesto Kawall, alô. Aqui é Lúcia Muniz de Souza, diretora da Biblioteca Municipal de Ubatuba. Belo papel o seu, de um ladrãozinho vulgar; ainda que seja, ou não, para as valiosas... reportagens. Lamento, conhecê-lo assim. Meus protestos em nome da Prefeitura!

X x X 

Espere aí... Engoli em seco a justa reprimenda. E guardei por quase meio século todo aquele palavreado da Lucinha, a humana, porém, severa servidora. Como veio a ser chamada depois, culta, emérita, um dos orgulhos da cidade. Nunca a encontrei após esse episódio, até ontem (12.2.1013), num baile popular da Escola de Samba do Itaguá, na Av. Capitão Felipe... Ela, bela, sambando, animadíssima. Eu, tentado sambar, aos 70.15 (como disse meu amigo Joelmir Betting, em S. Paulo, falecido há pouco: “LEK, você tem gás pra toda vida... Sua idade correta é 70.15, ok?”).

Eu não pensei duas vezes quando a Lucinha se apresentou, suada, quase sambando, na roda alegre, entre antigos e novos dançarinos do Itaguá:

-“Luiz Ernesto Kawall? Eu sou a Lucia Muniz de Souza”. 

“Ah, sei, você me deu uma bronca, roubei a foto do Madeira”. 

- “Isso mesmo, você lembra?!” 

- “Sim, Lucinha, me perdoe!” 

Nossos olhos se cruzaram... Na sorveteria, ao lado, amigos e familiares tomavam chopes e chopes. Quem viu eu me curvar, ao som repicado da Escola de Samba do Itaguá, frente àquela morena de olhos vivos e lindas pernas, não entendeu... Talvez a gente - ela e eu, eu e ela - não dois litigantes ou sambistas, mas os “eternos embolados” da vida, como disse Paulo Dantas. 

E Saint-Ex, pintando, divertindo, contando estórias fabulosas... Sorrindo, nos céus e nos céus azulados de Ubatuba, que não conheceu, infelizmente. 

 L. E. K. - S. P. 16.11.2013.

Léon Antoine ou Antoine de Saint-Exupery?

A INCRÍVEL HISTÓRIA DE UM POUSO EM UBATUBA

Célia Regina e Léon Antoine

Era uma tarde luminosa do mês de junho de 1933 em Ubatuba, época de tantos peixes que as tainhas podiam ser apanhadas na praia, apenas com as mãos. Época em que os parcos 800 habitantes da cidade viviam ainda o espanto de seu primeiro contato com um automóvel, ocorrido poucas semanas antes. Mas nessa tarde o espanto seria maior: sem qualquer aviso ou preparação na praia do Cruzeiro, centro da cidade - cujas árvores haviam sido cortadas exatamente para uma emergência desse tipo na Revolução de 32, mas nunca sucedida - desceu um avião da Cia. Aero-Postale, que fazia a linha aérea regular entre França e Argentina. Nos 11 mil quilômetros do percurso passava pela costa atlântica brasileira e teria descido em Santos, na base aérea da Praia Grande, não fosse pela má visibilidade.
 

O avião era pilotado por um certo Antoine, que naturalmente não falava português, assim como os de Ubatuba não sabiam francês. No máximo um “vous voulez quelque chose?”, dos rudimentos ginasianos, recordados oportunamente por Washington de Oliveira, o Filhinho, que mais tarde ocuparia duas vezes a prefeitura da cidade e se tornaria seu principal historiador. Filhinho foi também, sem qualquer má intenção, uma espécie de cultor e divulgador de um mito que Ubatuba teve como verdade durante 52 anos. O de que, após a visita do alemão Hans Staden mais de quatro séculos antes, a cidade recebera outro visitante internacionalmente célebre. Antoine foi imediatamente dado como Antoine de Saint-Exupéry, o famoso aviador e autor de O Pequeno Príncipe, livro que provocaria erupções de sensibilidade banal em vários cantos do mundo, incluindo as passarelas por onde desfilavam as candidatas a miss Brasil.

Léon Antoine

Antoine, como esclarece hoje, após mais de 20 anos de pesquisa o jornalista, museólogo e pesquisador Luiz Ernesto Kawall, não era um prenome. Tratava-se do piloto Léon Antoine, também um dos grandes ases da aviação francesa em todos os tempos, com mais de 21 mil horas de voo, recordista mundial de voo livre com um tempo de 8 horas e 20 minutos, detentor da Legião de Honra e hoje em dia, aos 84 anos, aposentado e vivendo num bonito sítio em Javari, no Estado do Rio de Janeiro. Mas disso só se sabe agora. Tanto no folclore quanto na história de Ubatuba, o visitante que caiu do céu naquela tarde de 1933 acompanhado de um telegrafista chamado Chauchat, era mesmo Saint-Exupéry, embora em nenhum de seus livros se encontre uma única palavra sobre tal aventura.

Antoine de Saint-Exupéry

Kawall começou sua pesquisa a partir de uma notícia publicada em 9 de novembro de 1964. “Essa história foi criada como um conto de fadas. Em 1933, Ubatuba, isolada no Litoral Norte, onde só se chegava por mar ou então pelo céu – e aí só por acidente – estava reduzida a 110 casas, todas mais ou menos em ruínas e em dez anos poderia acabar. Matava-se peixe a paus e apanhava-se milhares de tainhas cujos cardumes vinham dar á praia e eram enterrados como sobras. Quando o aviãozinho desceu, um grupo logo correu à praia do Cruzeiro e cercou a nave. Hélice parada os tripulantes desceram, foram guiados por um agitado cortejo popular até a casa do radiotelegrafista da Aeropostale, Gilberto Nogueira Brandão. Léon Antoine e Chauchat queriam ficar hospedados em sua casa, mas o telegrafista não tinha acomodação suficiente e isto chegou até a causar um pequeno desentendimento.” A partir daí, Léon Antoine e Chauchat foram considerados hóspedes oficiais da cidade pelo então prefeito Deolindo de Oliveira Santos (aliás, tio do historiador Filhinho) e levados para o Hotel Felipe, de pau-a-pique, porém de linhas coloniais, hoje já demolido.

Hotel Felipe, em guache de João Teixeira Leite

Nas lembranças de Antoine, levado a Ubatuba 52 anos depois por Kawall, ele e Chauchat viveram uma noite memorável, regadas por duas garrafas de um inesquecível vinho Sauternes, raro e caro até mesmo na França. Após o justo sono, os franceses, bem cedinho, no dia seguinte voltaram à praia, com o propósito de retirar do avião uma parte do combustível, ofertados à população, facilitando a decolagem. Antoine se lembra que chegaram com todo o tipo de vasilhame, de latas até penicos.


Depois todos, com compreensível entusiasmo, testemunharam o pequeno avião - um Latecoère - correr pela praia, até que o aparelho adquirisse velocidade suficiente para decolar. “Tomou sul, após uma suave evolução sobre a baía de Ubatuba.” A cena jamais seria esquecida, incorporou-se ao folclore local. A crônica ubatubense registra ainda dois outros casos de ruidosas descidas de aviões em suas praias, mas nada que provocasse o mesmo frisson.


Tornada pública a partir de 64 por uma série de reportagens do jornalista Ewaldo Dantas Ferreira, a inusitada visita de Saint-Exupéry passou quase imediatamente a ser pesquisada por Luiz Ernesto Kawall, que tornou-se, então, conhecedor da obra e da vida deste francês nascido em 1900 e cujo avião desapareceu sobre o Mediterrâneo no dia 31de julho de 1944, entre Grenoble e Annecy, depois de haver partido de um campo de pouso na Córsega. “Não encontrei na obra do escritor nenhuma referência ao incidente em Ubatuba; suas maiores referências ao Brasil estão contidas no capítulo 13 de Voo Noturno, onde fala sobre as montanhas ‘recortadas com nitidez no céu brilhante’, das florestas ‘sobre as quais brilham incessantemente, sem lhes dar cor, os raios do luar’ e de ‘uma lua sem desgaste: uma fonte de luz’”.

Por depoimentos, sem nenhuma imagem, especula-se sobre a presença de Saint-Exupéry em Natal, na Praia Grande, em Itaipava, em Pelotas e Porto Alegre. Mas a descida em Ubatuba tornou-se um mito tão forte que envolveu, ou foi corroborado, até por uma especialista imbatível na biografia do escritor-piloto-aventureiro, a dominicana irmã Rosa Maria. Ela ficou nacionalmente conhecida ao responder sobre Saint-Exupéry no programa O Céu É o Limite, tendo depois disto escrito um livro sobre ele. No prefácio fazia referências a pousos forçados em Santos, Praia Grande e Ubatuba. Mas, Kawall explica, irmã Rosa Maria foi das primeiras a alertá-lo de que Ubatuba tinha poucas possibilidades de ter sido pelo menos uma vez incluída em seus roteiros.


Kawall, entre muitas outras pessoas, foi ouvir em Ubatuba – onde criou o Museu do bairro do Tenório, para preservação da memória, história e paisagem da cidade – dona Isabel de Oliveira Santos, viúva do prefeito Deolindo, que considerou os acidentados franceses hóspedes oficiais. O raro vinho Sauternes servido a Antoine e seu companheiro foi possível por ser Deolindo “um comerciante que tinha em sua casa, vinhos de várias partes do mundo, especialmente franceses e portugueses, importava das casas de São Paulo e Rio...” Dona Isabel não se lembra bem dos aviadores no depoimento, tomado em agosto de 1973 (ela já faleceu), mas conta que “eles devem ter se hospedado no Hotel Felipe, que ficava defronte da nossa casa, na Rua Maria Alves e era o melhor e mais antigo de Ubatuba”.

Washington de Oliveira - "Filhinho"

A saga exuperyana foi confirmada pelo historiador e ex-prefeito Filhinho: “Quando o avião desceu houve aquele burburinho, o aparelho foi cercado pela população. Um húngaro, Júlio Kertz, tentou falar com o piloto em alemão, mas ele não entendeu”. Ele lembra que “no dia seguinte os franceses ainda passaram a pé pela frente de casa, junto à praça da Matriz, se despediram com um au revoir e foram embora. Não sei se passaram telegrama pelo correio, acho que não, pois se a própria Air France (nome da Aero-Postale de 1933 em diante) tinha estação telegráfica não precisariam disto”. Filhinho informou que não há mais registro dos livros do hotel porque seus proprietários morreram. Mas conseguiu descobrir o telegrafista Gilberto Brandão, da Air France, morando em Niterói e este confirmou numa carta “a estada de Saint-Exupéry entre nós”, embora sem conseguir precisar exatamente a data.


A “estada de Saint-Exupéry" está fartamente documentada em fotografias. Umas foram feitas pelo próprio piloto Léon Antoine e outras por um alemão (aliás, nascido na Guatemala), Herman Porcher, também já falecido, mas ouvido por Kawall. O “alemão” estava na cidade como turista e mais tarde compraria “metade da praia de Santa Rita”. “Localizei esse Porcher morando em Santo Amaro, me diziam que ele gostava de frequentar os bares do bairro e levei tempo até encontra-lo. O garçom de uma choperia me deu o telefone dele, marcamos um encontro em seu escritório de numismática – Ele trocara a fotografia pelo comércio de moedas.


Que descoberta! Porcher não só relatou o caso dos aviadores como, depois de me descrever o jantar na companhia deles, mostrou quatro fotografias batidas na manhã de sua partida. Em Ubatuba, onde se hospedava no Hotel de Idalina Graça e planejava caçadas nas matas vizinhas com alguns amigos, usando culotes, perneiras e capas sobradas da Revolução de 32, o ‘alemão’ lembrou-se de que eram por volta de cinco horas e já começava a escurecer quando o avião desceu na praia. Falou com os tripulantes em francês, ouviu deles que vinham de Natal, fazendo várias escalas e levando malas postais até Santos”.

– Quando os franceses pediram vinho o prefeito foi buscar. O mais alto ao ver a garrafa exclamou: "Mas onde o senhor arranjou isto? Na França este vinho custa um dinheirão!” Conversamos sobre aviões e a linha aérea francesa para a América do Sul e também sobre os voos do Zeppelin, que eu tinha fotografado em São Paulo naquele mesmo ano. Depois do jantar fomos ver o avião na praia, um caiçara entrara na cabine e estava divertindo-se. “Cuidado, João, o avião pode levantar voo”, alguém gritou, e ele saiu correndo de medo.

Jornalista Luiz Ernesto Kawall coletando informações.

Porcher contou também que, “por volta de 50 e poucos, quando Saint-Exupéry começou a ficar falado e famoso, eu soube que aquele homem alto e gentil que descera em Ubatuba era ele”. O fotógrafo morreu antes de desfeito o equívoco. Mas com as fotos na mão, Kawall foi em frente. Uma das primeiras pessoas que procurou foi a dominicana Rosa Maria, que não pode dizer com certeza se nas fotos estava ou não seu amado Saint-Exupéry. Talvez no lugar do escritor piloto estivesse outra celebridade, o grande pioneiro da aviação e grande herói Jean Mermoz, que também pilotara para a Generale Aero-Postale. Kawall tentou Joseph Halfin, da Air France, e escreveu cartas para a França, mas nada de levantar com certeza a identidade dos franceses que pernoitaram em Ubatuba. 

Jean Mermoz

A verdade começou a aparecer em setembro do ano passado (1985), quando se comemorava a travessia do Atlântico por Mermoz e a TV Globo entrevistou o jornalista francês Jean-Gérard Fleury, correspondente da revista Le Point. Ao vê-lo falar sobre o heroísmo pioneiro de Mermoz, Kawall intuiu que poderia ter dele um esclarecimento definitivo. Tinha razão. Fleury, que foi amigo de Saint-Exupéry, imediatamente se interessou pelo assunto, a partir de uma conversa telefônica. Viajou para a França e lá recebeu uma carta do jornalista brasileiro, com várias perguntas. Entre as respostas, a de que “as fotos enviadas não são de Saint-Exupéry” e “Saint-Exupéry nunca teve acidente no Brasil”. E completava: “Achando muito simpática sua pesquisa sobre um episódio acontecido em Ubatuba, tenho grande prazer em completar as informações solicitadas. O avião que pousou naquela cidade em 1933 era pilotado pelo veterano comandante Leon Antoine, acompanhado pelo radiotelegrafista Chauchat. Hoje ainda Antoine se lembra da triunfal acolhida tanto pelo prefeito como pelo povo da cidade e evoca sempre com emoção um vinho Sauternes de admirável paladar, assim como suas conversas com o prefeito e um cidadão alemão que falava francês. Quando lembrei a Antoine este episódio ele se comoveu e falou de sua grande vontade de rever o lugar do acidente e as pessoas que lhe prestaram tão fraternal assistência”.


A pesquisa estava terminada, ou quase. Luiz Ernesto Kawall decidiu então que tudo só ficaria completo depois de um encontro com o próprio Léon Antoine, sobre quem Fleury informara estar vivendo no Brasil desde que se aposentara na Air France. Antoine, casado, pela segunda vez, com Célia Regina, uma bela negra brasileira, de fato mora num sítio em Barão de Javari, no interior fluminense. Aos 84 anos, pai de dois filhos, tem cinco netos e dois bisnetos. Adora o Brasil e permanece um admirador de bons vinhos. Reconheceu imediatamente as fotografias feitas em Ubatuba do seu avião Late 26. Já pilotou todos os tipos de avião, do primitivo Brequet-14 até o Super G Constellation. Seu relato sobre o episódio:

Nossa próxima parada seria Praia Grande, mas na altura de Ubatuba a cerração impediu o voo visual. Nós nos guiávamos por carta da Marinha do Brasil, sempre observando os faróis e os homens da empresa acendiam fogueiras nos pousos de Praia Grande, Florianópolis e Pelotas para nos orientar. Com a cerração fechando o visual, baixamos um pouco e avistamos a torre da igreja de Ubatuba. Fizemos um voo em círculo, escolhemos uma praia onde a vegetação era rala e decidimos descer. Fomos imediatamente cercados pelo povo, alguns nos olhávamos como se fôssemos extraterrestres.

Sr. Lindolfo, último a direita, de chapéu e paletó branco, observa o avião, em 1933.
 Em 1985, sr Lindolfo aponta o local do pouso.

Antoine, entre muitas lembranças, conta que na hora da partida o dono do Hotel Felipe lhes ofereceu a compra do estabelecimento, “por seis mil contos, em moeda da época. Deve ter sido por causa do meu nome, Léon Antoine, que mais tarde se passou a acreditar que Saint Exupéry teria dormido na cidade. Eu era mesmo parecido com ele. Não apenas nas feições, mas também pela altura. Só que ele andava mais curvado do que eu. Além disso, Saint-Exupéry nunca fez regularmente a linha para a América do Sul, mas como passou dois anos em Buenos Aires certamente andou por aqui. Não foi meu amigo íntimo, mas eu o conheci bem, era um pouco do mundo da lua...” O piloto falou a Kawall de sua vontade de rever Ubatuba.

Luiz Ernesto Kawall, Léon Antoine e Célia Regina.

O capítulo final dessa história que remete a memória aos tempos da aviação, à lembrança de homens como Saint-Exupéry, Mermoz, Guillaumet e Dumesnil, foi encerrada a algumas semanas: Léon Antoine, após 52 anos, retornando a Ubatuba. Revendo os mesmos cenários hoje muito mudados, impossibilitado de hospedar-se no colonial Hotel Felipe, que não existe mais, para abrigar-se sob as sofisticadas quatro estrelas do Palace Hotel. As testemunhas da época são também poucas.

Célia Regina, Léon Antoine e Filhinho

Mas lá estava ainda Filhinho, o historiador, farmacêutico, ex-prefeito. O homem que ajudara cimentar um mito e que assistia à definitiva destruição do seu atraente mistério. Ubatuba, cujas areias receberam escritos de Anchieta, cujos índios foram introduzidos pelo padre Nóbrega aos rudimentos do que o Ocidente chama de civilização, cujas paisagens extasiaram o alemão Hans Staden, teria de abrir mão de sua mais palpitante história contemporânea: o Pequeno Príncipe jamais passou uma noite no Hotel Felipe.

Edição de textos e fotos após consulta a Luiz Ernesto Kawall, em julho de 2015, a partir de reportagem de Edmar Pereira, publicada no Jornal da Tarde em 11/1/1986 .

sábado, 22 de agosto de 2015

BIGODE ETERNO


Bigode, Da Motta e Jacob

Tenho em casa uma linda estatueta entalhada em madeira de cedro das matas de Ubatuba, representando São Longuinho, que, na hagiologia católica é aquele santo responsável por descobrir os objetos perdidos. 

Há, até um refrão popular, que corre assim: “São Longuinho, São Longuinho, ... (e fala-se o objeto perdido), se o encontrar darei três pulinhos”. Em pouco tempo o objeto é encontrado. Essa é a lenda.

 Pois, em Ubatuba, um artista entalhador reportou numa pequena imagem a figura de São Longuinho, o que é muito raro. Não conheço, na escultuária ou entalharia nacional, de Brecheret a Bruno Giorgi e demais mestres, outro “São Longuinho”. 

Pois, em Ubatuba, um artista entalhador reportou numa pequena imagem a figura de São Longuinho, o que é muito raro. 

Segundo o próprio artista me disse em sua casa ateliê no Perequê-Açú, em Ubatuba, SP, que sempre gostou de “São Longuinho” desde pequeno, achando bichos e madeiras, nestes matos de Ubatuba... 

E um dia, assistindo a TV Globo, anunciaram: “veja hoje a história de S. Longuinho”... Ele vibrou, assim me disse. Pegou lápis e papel e desenhou a imaginária do santo franciscano... Depois, foi pra sua oficina, nos fundos da casa, e ”fez” S. Longuinho... que comprei, como sempre fiz, com a arte maior do mestre popular das matas , do litoral norte. 

Bigode é a alcunha dele. Por nome: Antonio Teodoro dos Santos, conhecido por sua arte não só em sua terra natal como em exposições que fez na região e na capital paulista.


O interessante é que o artista, de repente, já alguns nos conseguiu destaque na comunidade patriarcal do Vaticano onde um sacerdote regular, Frei Pio Popullin, que servia à diocese Taubaté/Ubatuba, conheceu o entalhador/artista levando algumas de suas peças para seu círculo religioso de Roma, que lhe deu justa fama. 

Conhecemos como turista e jornalista e amigos de Ubatuba, como, entre outros, os artistas João Teixeira Leite, Da Motta e Jacob, o Bigode e suas proezas na arte do esculpir em madeira pura da mata. 

 Antonio Teodoro dos Santos nasceu em 1932 de modesta família caiçara da região do Perequê-Açú e Barra Seca sendo que desde bem pequeno já demonstrava pendores para o entalhe de madeira. Desde suas primeiras entalhadas aos 7 anos de idade, como diz o jornalista Luiz Pavão (Ubatuba em Revista – n. 3/2008). Bigode já demonstrava invulgar talento para essa artesania. Paralelamente tornou-se um praticante de esportes, dedicando-se a corridas de média e longa distância sendo muito comum vê-lo pelas ruas da cidade praticando seu esporte predileto, preparando-se para a Corrida de São Silvestre, que disputava todos os anos em São Paulo. 

Bigode foi casado por mais de 50 anos com a caiçara Joana Pinheiro que lhe de 20 filhos, 40 netos e vários bisnetos, que povoavam sempre sua casa-ateliê no Perequê-Açú.

 Ali recebia também amigos e cliente, alguns deles da capital e de outros locais, que adquiriam ou encomendavam peças de madeira – bichos, santos, todo tipo de entalhes de peças caseiras. 

 Neste ano de 2015 a morte o colheu após cruel cegueira. Mesmo assim o artista entalhava suas peças de madeira, de invulgar beleza. Muitos o chamavam então de “O Aleijadinho hodierno”, mas isso só o tempo dirá.

Luiz Ernesto Kawall