ISC - Idealizado em 1993, o Instituto Salerno-Chieus nasceu como organismo auxiliar do Colégio Dominique, instituição particular de ensino fundada em 1978, em Ubatuba - SP. Integrado ao espaço físico da escola, o ISC tem a tarefa de estimular a estruturação de diversos núcleos de fomento cultural e formação profissional, atuando como uma dinâmica incubadora de empreendimentos. O Secretário Executivo do ISC é o jornalista e ex-prefeito de Ubatuba Celso Teixeira Leite.
O Núcleo de Documentação Luiz Ernesto Kawall (Doc-LEK), coordenado pelo professor Arnaldo Chieus, organiza os documentos selecionados nos diversos núcleos do Instituto Salerno-Chieus (ISC). Seu objetivo é arquivar este patrimônio (fotos, vídeos, áudios, textos, desenhos, mapas), digitalizá-los e disponibilizá-los a estudantes, pesquisadores e visitantes. O Doc-LEK divulga, também, as ações do Colégio Dominique.

LEK - Luiz Ernesto Machado Kawall (1927-2024), jornalista e crítico de artes, foi ativo colaborador do Instituto Salerno-Chieus (ISC) e do Colégio Dominique. É um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e do Museu Caiçara de Ubatuba.

21 fevereiro 2025

Letras Ubatubenses

AMBIGUIDADE NECESSÁRIA
(meditando João da Cruz)
João Paulo Naves Fernandes
O amor aprende
com o sofrimento
a amar mais,
dor e o amor
são irmãos inseparáveis.

A paz
adquire significado
com a guerra,
quanto mais cruel,
maior busca pela paz.

O caminho
nem sempre
é o que
se deseja
seguir,
interrompe e desvia,
com ensinos novos,
imprevistos.

Amizades
são construídas
na exterioridade,
ao compartilhar,
se perdem.

A vida carrega
uma imensa
inconsciência
da morte,
que a acompanha,
permanentemente
interrogando
sobre a importância
disto ou daquilo.

A alegria
se desvela
diante do ódio,
mostra seu lado
sempre aberto
ao que é bom.

Acreditar
é gratuito,
e se expressa
melhor
entre descrentes.

A saúde
é descoberta
na enfermidade,
quando já é tarde;
a doença
é uma irmã
alienada.

Equilíbrio tênue
desconhecido
vai sendo
tecido
e medido
com o tempo.

Ah...condição humana,
nunca termina
de moldar o ser,
sem atingir
uma forma final.

20 fevereiro 2025

Letras Ubatubenses

EQUAÇÃO
João Paulo Naves Fernandes
Enquanto estou por aqui
decifro uma equação
que não fecha.

O sonho
não bate
com a realidade,
o amor
afoga-se nas instituições,
os caminhos
tendem a ser
os mesmos,
encontramo-nos
em diferentes solidões.

Enquanto estou aqui
estranho muito
a combinação
do belo com a dor.

Deixo um rastro
de esperança
e uma alegria
guardada
do fardo diário.

Depois dos passos,
me olho para ver
quanta força
ainda reúno,
e sigo em busca
de um resultado,
para esta equação
que não fecha.

Quem sabe
tudo esteja aberto
e eu lógico,
quem sabe
o uivo dos lobos
transcendam enfim
as montanhas
e alcancem
os roseirais
esquecidos
no jardim
da casa
de minha
infância.

15 fevereiro 2025

Letras Ubatubenses

ENTARDECER
João Paulo Naves Fernandes
Ao por do dia
guardarei um silêncio
de agradecimento;
responde mais
que mil palavras
dispersas na surdez
do mundo.

Direi de minha desatenção,
apesar do grande esforço
do tempo acumulado.

O pouco
será suficiente
para o tanto
a ser feito?

A vida escorre
em semiconsciência
entre saber
e desconhecer-me.

Não sou
quem procuro,
desconhecido de mim.

Sim, a alegria é gratuita,
mas a vida tem seu preço.

Vou guardar silêncio
em respeito ao eu
que nunca nasceu,
e ao outro,
póstumo vivo.

Que celebrem
o desencontro.

14 fevereiro 2025

Rumo aos 50!

Entrevista com Arthur e Professor Israel

Letras Ubatubenses

DOMINGAR
João Paulo Naves Fernandes
Domingo é dia
da institucionalização
da preguiça,
tão perseguida
pelo capital.

Dia de
não se fazer nada,
não desejar nada;
se for o caso
passear
por passear,
sem recitar.

Os poemas dormem
nos domingos,
porque os leitores,
que se cansam fácil;
neste dia então,
nada leem.

Ah...não ter
de escrever,
de declamar,
rimar.

Há um tédio
neste nada.

Do que será?

O que se produz
tem um limite,
e este limite
termina no nada,
e o nada,
o limite do nada,
é um tédio
da inutilidade de tudo,
descoberta
inconsciente
profunda.

Ah domingo
das velhas cavernas
ancestrais,
que evocam
longas contemplações
do por do Sol,
das estrelas noturnas.

Descanso na realidade
do vazio de mim.

02 fevereiro 2025

Letras Ubatubenses

DEFASADO
João Paulo Naves Fernandes
Poderia ter
dançado mais,
beijado mais...

Poderia ter amado
com mais frequência.

Falado mais,
ter me exposto mais.

Tudo isto fiz...
ainda assim
trago esta carência
que vem de longe...

Por isso
controlo os olhos,
disfarço,
como se estivesse realizado,
e em muitas ocasiões,
realmente estou.

Mas há um bom
desajuste neste meio.

Poderia ter sido
mais esperto,
desperto,
mais maduro,
quando imaturo.

Demorei em terminar a infância,
brinquei mais que namorei.

As meninas tornaram-se
mulheres antes,
me inibiram,
eu jogando futebol.

Agora, tudo é tarde,
ainda que me divirta.

Não tenho mais
espaço para transgressões.

Tive de redescobrir
novos modelos
de alegria
que suportassem
a agressão do tempo.

A verdade
é a dolorosa
observação
desta sequência
chamada vida.