Doc-LEK é um núcleo cultural do:

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quarta-feira, 15 de março de 2017

Universidade Autónoma de Lisboa


Desejando contribuir para o desenvolvimento e aprofundamento da colaboração nas atividades de formação científica e técnica em domínios considerados de interesse comum, foi celebrado o Protocolo de Cooperação entre a UAL - Universidade Autónoma de Lisboa, representada por António de Lencastre Bernardo e o ISC - Instituto Salerno-Chieus, representado por Celso de Almeida Jr.


O Protocolo estabelece o enquadramento da cooperação institucional entre a UAL e o ISC. A colaboração desenvolve-se nos domínios do ensino, da investigação, na articulação do ensino com a aprendizagem e o exercício de atividades profissionais através de:

a. Intercâmbio de docentes, não- docentes e investigadores;
b. Atividades de formação;
c. Seminários e conferências;
d. Projetos de investigação;
e. Intercâmbio de estudantes;
f. Estágios curriculares;
g. Acesso a fontes de informação documental;
h. Publicações;
i. Outras atividades conjuntas que as Partes considerem relevantes.


O Protocolo de Cooperação foi assinado na sede da UAL, Palácio dos Condes do Redondo, Lisboa, em 3 de março de 2017.

sábado, 24 de dezembro de 2016

A VOZ RECUPERADA

Luiz Ernesto Kawall em sua vozoteca

Com intensa atividade voltada para as promoções culturais, principalmente aquelas que surgem de forma espontânea, Luiz Ernesto Kawall, jornalista e crítico de arte é homem profundamente interessado na preservação da memória nacional. Foi sob sua orientação que se criaram instituições como o MIS – Museu da Imagem e do Som, de São Paulo, o Museu Câmara Cascudo (arte primitiva, cordel e arte popular) e o Museu do Bairro do Tenório, este último em Ubatuba, SP. 

E esse incansável ativista nos traz agora a sua mais recente criação: o Museu da Voz. Para montar este acervo que já conta com mais de duas mil vozes, Kawall fez um autêntico trabalho de garimpagem pelos sebos de São Paulo e interior do Brasil. Entre vozes, discursos e entrevistas podem-se ouvir grandes personalidades da história do Brasil e do mundo: de Gandhi a Rondon, Villa-Lobos, John Lennon, Kennedy, Getúlio, Dutra, entre outros. 

Segundo Kawall, a ideia de criar a vozoteca surgiu quando Carlos Lacerda voltou de Londres e lhe comunicou suas impressões sobre uma visita que fizera na capital inglesa a um museu público de vozes. Muito embora esse não seja um conceito novo em nosso meio isso o certo é que despertou em Kawall vivo interesse em montar um acervo que pudesse servir os meios públicos na recuperação da memória nacional. 

Entre os orgulhos de Kawall está a gravação da voz de Santos Dumont, obtida na garimpagem de um museu dos Estados Unidos. “É uma voz raríssima.” Ou a primeira gravação da voz humana em áudio, feita por Thomas Edison, em 1877. Na gravação de 1877, é possível ouvir o inventor do fonógrafo brincando com seus filhos.

Ao todo, ele catalogou 3.000 vozes. De discursos de Ruy Barbosa a comentários do escritor Mário de Andrade, passando por discursos de Gandhi ou falas do compositor Villa-Lobos, até locuções raras de jogos de futebol – uma delas, um gol de Leônidas, do São Paulo. Numa nação como a nossa que ainda não se estabilizou em sua formação é muito difícil definir um bem cultural. Conceitos ainda não cristalizados geram conflitos e muita coisa se perde principalmente por falta de recursos. Luiz Ernesto, por consciência e iniciativa própria, está invertendo esta ordem de coisas.

Museu da Aeronáutica, na Flórida, USA.


Vasculhando os cerca de 4 mil itens catalogados por seu assistente Luciano Iacocca, é possível encontrar também uma gravação única do grito olímpico dos índios Tactós e a narração da década de 40 de Orson Welles, que transmitiu pelo rádio uma versão do livro Guerra dos Mundos, apavorando o povo norte-americano que acreditou estar sendo invadido por marcianos. Sem falar da voz de Cila, o cangaceiro que presenciou a morte de Lampião.

“Muitas das obras reunidas por mim foram compradas em sebos, doadas por amigos e copiadas de outras fontes. Todos os fins e semana eu saio em busca de algo raro e precioso, e sempre volto com alguma coisa inédita”, confessa o jornalista. Essa peregrinação não se restringe apenas ao território brasileiro. Luiz Ernesto conseguiu registros raros do outro lado do oceano.


“Uma vez em viagem à Flórida (EUA), encontrei num pequeno museu um trecho do discurso de Santos Dumont após receber a Comenda de Grande Oficial da Legião de Honra em Paris, em 1930”, conta com orgulho. Segundo ele, foi o primeiro registro da voz de Santos Dumont trazido ao Brasil, pois nunca ninguém havia ouvido a voz do pai da aviação em solo nacional. Deste modo, a formação de acervos particulares, como este, vem ajudando na recuperação da memória nacional. 

Esta iniciativa vem ganhando adeptos valiosos: Cuiabá foi a primeira cidade a compreender o significado deste trabalho e deverá contar, já neste ano, com o primeiro museu público de vozes, no Brasil. 

“A voz é o registro do arquétipo humano, pessoal e intransferível. O corpo vai e as palavras ficam”. Mas não só as palavras: também os gestos simples, que buscam de forma espontânea, o resgate da memória viva através da voz. Como este, do gentil homem Luiz Ernesto Kawall.

Arnaldo Chieus

sábado, 17 de dezembro de 2016

A Barca de Gleyre


"...Meu dilema agora é este: ficar aqui metido em negócios ou remover-me para Ubatuba e passar um ano diante do mar - a namorá-lo, a cheirar-lhe as maresias, a comer-lhe os camarões e ostras, a pintar marinhas, a ouvir histórias de pescador, a pescar nas pedras, a tomar banhos e ficar ao sol da praia de mãos cruzadas sobre os olhos, como um caranguejo feliz.

Creio que foi aquele Joie de Vivre de Zola que me fincou na cabeça  tal ideia. E caso meu plano se realize, que tal ires passar lá uns três meses de licença, com a tua Bárbara? Ela há de estar precisadíssima de banhos de mar. Arranjo-te casa mobiliada junto à minha, se não couberem as duas famílias na que irei tomar - caso escape do hotel. E viveremos uns meses no mar, para o mar, do mar, pelo mar, como abandono de mulher que se entrega ao amante. Levaremos uma batelada de literatura marinha, Lotis e Conrads, e faremos literatura, contos e novelas cheias de mar, com muito verde-cana e muito azul do céu.

Ubatuba é uma grande  tapera à beira duma sucessão de praias lindas. Anda-se lé de pé no chão, com chepeirões de palha, sem paletó, a comer coco verde na  rua e a sentir de todos os modos do mar - nos banhos, nas refeições, nas pescarias, na leitura dos escritores marinheiros.

O juiz de lá é meu tio por afinidade e velho companheiro e colégio, de academia, de tudo. Aquele Eneias que se atirou do trole no desastre da ponte, lembra-se?

Uma estada assim em Ubatuba será de marcar época em nossas vidas, Rangel!... Seduz-me tanto que, podendo ser removido de Areias para Araraquara, estou negociando permuta com o promotor de Ubatuba. Talvez haja incompatibilidade por causa do tio afim. Já consultei a Secretaria e espero resposta. Mar, mar, mar... Há sempre saudades do mar na obscura trama do nosso imo. Já fomos filhos do mar, nos inícios da nossa evolução, quando eramos o peixe amphioxus..."

Trecho da correspondência entre Monteiro Monteiro Lobato e Godofredo Rangel extraído de "A Barca de Gleyre", Editora Brasiliense. 

domingo, 13 de novembro de 2016

Núcleo de Administração Luiz Bersou

O custo da burocracia no Brasil

Luiz Bersou

A questão do crescimento econômico no Brasil continua como sempre, um discurso não efetivo, onde se tem muito mais torcida por melhoria de resultados do que ações efetivas para construir o futuro que queremos.

Uma das questões que nos incomoda é a de que toda perspectiva de promoção de crescimento é colocada nas mãos do governo. É certo? É errado?

O que podemos observar: nos diversos paises em que a taxa de crescimento do PIB é superior aos 12% anuais, vê-se sim a ação do estado, mas muito mais a ação daqueles que acreditam no país, empresários e sociedade. Olhamos nos olhos de ucranianos, chineses, bielo-russos e de empresários de vários outros países e vemos luz, vontade e disposição para construir o futuro.

E no Brasil? Os empresários estão muito mais ocupados em consertar o passado e sustentar o presente do que construir o futuro. Por quê? Por que os governantes nos impuseram um país muito complicado. Por esta causa, os olhos de nossos empresários não brilham como lá fora.

Há anos comento que trabalhei para uma multinacional no Brasil que faturava 400 milhões de dólares/ano. Para fazer a gestão administrativa e financeira destes 400 milhões havia cerca de 30 colaboradores. Trabalhei em seguida em uma empresa em Grenoble na França que também faturava 400 milhões de dólares/ano. Para fazer a gestão financeira e administrativa empregava duas pessoas.

Em um mundo globalizado, onde estas duas empresas se encontram, uma está com 28 empregos falsos, mais toda a dor de cabeça de ter que administrá-los.

Recentemente tive acesso a um artigo do professor Ives Gandra. Ele comprova a minha experiência citando estudo da Price, pesquisa em relação a 175 países, onde se mostra que o Brasil é campeão absoluto em custos por exigências tributárias: gastamos em média 2.600 horas por ano. No outro lado da escala, Inglaterra e Alemanha com 105 horas, Nova Zelândia com 70 horas, Suíça com 68 horas, Cingapura com 30 horas e Emirados Árabes Unidos com 12 horas por ano.

O que mostra o estudo? Temos 24 vezes mais custos do que Alemanha e Inglaterra. Se eles podem trabalhar com 105 horas, significa que nós também podemos. O resto é emprego falso que não conduz a nada. Não faz o Brasil crescer.

Como começar a reagir? Primeiro precisamos estabelecer que evoluir até o padrão da Alemanha ou Cingapura, mais do que um objetivo que temos pela frente, temos sim um caminho a percorrer.

Se tentarmos resolver estas questões via congresso nacional e mesmo governos de estado, vamos receber um sonoro não pela frente, pois é de interesse deles manter o status quo. Temos então que achar outros caminhos, mesmo que sejam mais longos. Temos que construir o caminho da cultura da simplificação, para desta forma transformarmos o emprego falso em emprego produtivo.

Onde estão as empresas? Nos municípios! Que tal estabelecermos como um dos objetivos de relacionamento com os municípios onde estamos uma simplificação dos processos tributários, de fiscalização, de informação, enfim de modernização?

Faz sentido, isso? É impossível mudar ou apenas dá trabalho?

Vamos mudar juntos? É mais fácil do que se pensa.

Fonte: www.luizbersou.blogspot.com em 22/11/2007

sábado, 12 de novembro de 2016

Núcleo de Administração Luiz Bersou

Bom senso em administração
O estratégico e o operacional


Fonte: Portal CeluloseOnline (14/11/2011)

domingo, 23 de outubro de 2016

Núcleo de Administração Luiz Bersou

O Núcleo de Administração Luiz Bersou, mantido pelo Instituto Salerno-Chieus, divulga o pensamento de Luiz Bersou (1940-2016), engenheiro naval, consultor de empresas, conceituado estudioso de administração que atuou, também, no Brasil e no exterior, em gerenciamento de planos estratégicos para o desenvolvimento de cidades. Em Ubatuba, contribuiu diretamente na organização definitiva do Instituto Salerno-Chieus, que passou de organismo auxiliar do Colégio Dominique para instituição autônoma de fomento cultural e estímulo a estruturação de empreendimentos.

Os grandes temas que fundamentam o crescimento auto-suficiente do território

Luiz Bersou

Quando buscamos o crescimento dos municípios em que vivemos, de imediato se pensa na busca de recursos junto aos governos do estado e federal. Esta é uma prática tradicional e são poucos os municípios que conseguem fugir desta regra.

Precisa ser assim? Sabemos hoje que governante algum pode prescindir da colaboração da sociedade e do empresariado na construção do sucesso econômico do território que ele governa. Percebemos então que existem quatro grandes temas que fundamentam o crescimento auto-suficiente do território. São eles:
  • Convergência poder público e poder privado.
  • Vocação dos territórios.
  • Infra-estrutura disponível.
  • Cultura prevalente nos territórios.

A questão da convergência do poder público e poder privado é um grande avanço que começou timidamente há cerca de 30 anos. Hoje em todos os paises em que há um crescimento significativo do PIB, o financiamento privado em projetos de ordem pública é praticamente constante. São de educação, energia, comunicação, pontes, zonas francas, portos, aeroportos, ferrovias, rodovias, silos, sistemas de processamento de safras, sistemas logísticos intermodulares, etc..

Temos casos antigos em Santa Catarina em que alianças entre a prefeitura e empresários locais na educação transformaram o município pela retenção de valores humanos no território por que antes iam buscar em outros lugares o ensino de que precisavam e daí não mais voltavam. Que belo exemplo de transformação. Como conseguiram isso tudo?

A Mondragon, do Pais Basco, começou como uma fábrica de enxadas. Hoje são mais de uma centena de empresas que fabricam desde satélites até trens de alta velocidade.Como conseguiram isso tudo?

Como construir a convergência do poder público com o poder privado? Eis aí uma grande questão. 

Um conhecimento antigo que existe entre os que tem recursos é de que o dinheiro nunca falta, mas ele não se entrega. Ele vai se entregar quando, como contrapartida do dinheiro as partes tiverem um boa proposta estratégica, participantes válidos para sustentar o projeto, as propostas estiverem bem estruturadas e disso tudo resulte um mínimo de rentabilidade. Vejam, que a questão da rentabilidade vem por último lugar.

Recursos não gostam de projetos sem planejamento, sem uma adequada identificação, sem pessoas em condições de sustentar e garantir a correta implantação do que foi prometido. Enfim, recursos gostam de propostas consistentes, conservadoras, bem estruturadas, que deem certo.

De que forma podemos no contexto da convergência público x privado apresentar projetos e investimentos que pela sua qualidade, beleza, validade e utilidade sejam naturalmente objeto de moções de apoio e efetiva colaboração?

Temos então um desdobramento importante!

De que forma podemos montar os assim chamados “projetos estruturantes”, aqueles a partir dos quais as economias locais tem apoio para se desenvolver? Projetos públicos e privados que geram projetos privados, alavancadores da economia local.

Este é um grande papel da convergência público x privado! Programas de trabalho conjuntos, a partir dos quais o município como um todo se desenvolve por que se instala um estado geral de crenças e afirmações positivas por que existem bases consistentes para tal.

Qual o milagre para isso tudo? Propor projetos consistentes, cautelosos, bem estruturados, com apoio de pessoas competentes. Faz sentido? Vamos experimentar? Vocês verão que é muito mais fácil do que se imagina.

Fonte: www.luizbersou.blogspot.com em 22/11/2007

sábado, 13 de agosto de 2016

SÃO GONÇALO

Arnaldo Chieus

Uma das mais tradicionais e populares festas de cunho religioso-folclórico é aquela destinada ao culto de São Gonçalo, tido como o padroeiro de violeiros e cantadores populares. Muito embora sua devoção tenha se disseminado largamente por todo o Brasil, suas raízes são tipicamente portuguesas e estão relacionadas às diversas crises da política social portuguesa desde a idade média até a fase inicial da colonização uma vez que “Portugal, desde os mais remotos tempos históricos, foi um país em crise de gente. As condições disgênicas da região de trânsito – pestes, epidemias, guerras – acrescidas das de meio físico em largos trechos desfavorável à vida humana e à estabilidade econômica – secas, terremotos, inundações – encarregavam-se de conservar a população rente com as necessidades nacionais”.¹

Muito embora Portugal fosse uma nação de formação católica com grande predomínio da Igreja sobre os destinos políticos de seu povo, as leis portuguesas refletiram o grave problema demográfico em sacrifício à própria ortodoxia romana. Isso provocou uma tolerância com toda a espécie de união que resultasse no aumento de gente o que se reflete tanto nas Ordenações Manuelinas quanto Filipinas. Os interesses pela procriação acabaram por abafar tanto os preceitos morais quanto os escrúpulos católicos de ortodoxia. E essa espécie de cristianismo popular tomou característicos quase pagãos de culto fálico. A eles se associaram todos os grande santos populares cultuados em Portugal a que se atribuíram a milagrosa intervenção em aproximar os sexos, em fecundar as mulheres, em proteger a maternidade: Santo Antonio, São João, São Gonçalo do Amarante, São Pedro, o Menino Jesus, Nossa Senhora do Ó, da Boa Hora, da Conceição, do Bom Sucesso, do Bom Parto. 

Na axiologia do catolicismo colonial existem dois São Gonçalo: o dominicano português de Amarante (1187-1259), canonizado pelo papa Julio III em 1261, um santo português por excelência, e o São Gonçalo Garcia, santo jesuíta, martirizado no Japão no século XVI e que teve sua igreja erguida pelos mesmos jesuítas em 1756, no local da atual igreja de São Gonçalo, na Praça João Mendes, em São Paulo, no antigo Campo de São Gonçalo. 

O santo dominicano português “quando vivo assistiu em Amarante, Portugal. Nesse tempo seria o lugar simples nucleou populacional de modesta gente aldeã. Casais se formavam ali, impulsionados pelo natural apelo do sexo, esquecidos os sacramentos da Igreja. Isso desaquietava o espírito religiosos do futuro santo, que passou a patrocinar a bênção sacerdotal de uniões antigas feitas sem a prévia passagem pelo altar. Os amancebados que, por interferência do piedoso lusitano, sacramentavam o estado de vida marital eram geralmente criaturas de idade alta. Daí, certamente, a crença de que ele, falecido sob halos de santidade, continuaria no céu como generoso deligenciador de casamentos do mulherio idoso. Bem conhecida é, de Norte a Sul, a quadrinha que assim indaga:

São Gonçalo d’Amarante, 
Casamenteiro das velhas: 
Por que não casaste as moças, 
Que mal fizeram elas? 

Hoje, o santo já não tem a parcialidade de outrora e intercede por suas devotas em geral, desatento àquele antigo princípio ou critério cronológico. Basta o fervor suplicante das mulheres, que aliás chega às vezes a extremos, como se depreende destes versos correntes em Ubatuba (SP):

 São Gonçalo eu lhe juro 
Se esse moço me querê, 
De joelhos pelo chão 
Eu hei de lhe agradecer.²

São Gonçalo do Amarante, o santo português, não tem igreja em São Paulo. Mas, em compensação, caiu no gosto popular já que todas as imagens encontradas o representam como padre dominicano com escapulário e capa ou, mais recentemente, com viola.³ 

O culto a São Gonçalo, no Brasil, foi posto em prática desde os tempos de descobrimento já que o santo era bastante cultuado em Portugal. Geraldo Brandão reflete sobre o momento histórico vivido pelos portugueses: as grandes navegações afastavam os homens de suas mulheres, noivas, namoradas, mantendo-os longe por demorado período de tempo. Muitos não regressavam, vítimas de naufrágios, doenças em alto mar. O culto a um santo casamenteiro respondia as necessidades dessas mulheres angustiadas e ansiosas pelo retorno do amado. Facilmente a ele se entregavam pois- quem sabe? – seria a solução de seus problemas. 

Essa devoção é muito popular por todo o Brasil em virtude da devoção e culto a ele prestado por violeiros e cantadores que o tem por seu padroeiro, sendo o seu culto ligado às práticas mais livres e sensuais. Atribuem-lhe a especialidade de arrumar marido ou amante para as velhas com a São Pedro a de casar as viúvas. Mas quase todos os amorosos recorrem a São Gonçalo:

“Casai-me, casai-me, 
São Gonçalinho, 
Que hei de rezar-vos, 
Amigo santinho.”

Exceção só das moças: 

“São Gonçalo do Amarante, 
Casamenteiro das velhas, 
Por que não casais as moças? 
Que mal vos fizeram elas?” 

“Gente estéril, maninha, impotente, é a São Gonçalo que se agarra nas últimas esperanças. Antigamente no dia da sua festa dançava-se dentro das igrejas – costume que de Portugal comunicou-se ao Brasil. Danço-se e namorou-se muito nas igrejas coloniais do Brasil. Representaram-se comédias de amor. Numa de suas pastorais, recomendava-se em 1726 aos padres de Pernambuco Dom Frei José Fialho, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Bispo de Olinda; ‘não consintão que se fação comedias, colloquios, representações nem bailes dentro de alguma Egreja, capella, ou seus adros.’ Isto em princípios do século XVIII.” (Casa Grande e Senzala, Gilberto Freyre, p. 246, 247). 

As danças e cantos a São Gonçalo sempre tiveram um caráter muito livre, a estas se ligando até práticas e cantigas sensuais. Em Portugal, na região de Amarante, a partir da devoção que atraia grande número de romeiros acompanhados de poetas do povo, seu “culto efetivou-se com danças e cantos de caráter muito livre, dentro da igreja, em frente ao altar. Tais eram, entre outros, a distribuição de pãezinhos em forma de falo, chamado ‘phallus de São Gonçalo’, que as mulheres levavam para casa na suposição de que proporcionariam o almejado matrimônio. Apregoava-se, na porta da igreja, para serem vendidos, rosários fálicos ou falos avulsos, feitos de massa doce.” 

Na Bahia dançava-se dia de São Gonçalo não só no Convento do Desterro como na Ermida de Nazaré, na Igreja de São Domingos, na do Amparo em várias outras. Só em 1817 os cônegos proibiram tais danças porque os europeus as censuravam como uma indecência indígena do templo de Deus. 

Maria Isaura Pereira de Queiroz, estudando a dança de São Gonçalo no povoado de Santa Brígida no interior da Bahia coletou de uma informante o seguinte depoimento: “D. Dodô, solteirona de 54 anos muito versada em coisas de religião contou-nos que Deus dera penitências diferentes a cada um de seus santos; S. Gonçalo fora encarregado de salvar as mulheres perdidas. Para tal, fazia-as dançar de dia, tanto e tanto que quando a noite chegava estavam cansadas demais para exercer o seu mister. Deus, por seu lado, fornecia milagrosamente dinheiro ao santo para distribuir entre elas, a fim de que não se vissem obrigadas a apelar para o seu antigo modo de vida, premidas pela necessidade. Por isso é que em tempos muito remotos só as prostitutas podiam dançar o S. Gonçalo; atualmente, porém, qualquer mulher o pode fazer sem desdouro, a dança perdeu a exclusividade. Quem fez a promessa da dança fornece um repasto aos executantes e à assistência, quando ela termina; é em memória da bondade divina que fornecia os meios para S. Gonçalo ter êxito em seu empreendimento”. 4 

A Dança de São Gonçalo é um dos últimos vestígios da dança religiosa, das formas universais de súplica pelo ritmo dos bailados. Humilde, paupérrima, anônima, analfabetos os cantadores, inconscientes os bailarinos, é uma sobrevivência, contra a corrente, resistindo. (LCC – Dicionário). A dança sempre foi executada como um voto religioso, em cumprimento de promessas. As pessoas prometem uma ou mais rodas de São Gonçalo em troca de uma graça que almejam. As promessas podem ser variadas, de uma ou mais rodas. 

Segundo Alceu Maynard Araújo, “os caipiras e caiçaras concebem e não conhecem a imagem de São Gonçalo sem a viola. Só no Brasil. O São Gonçalo com viola na mão é coisa muito brasileira! É uma contribuição à nossa religião; sua iconografia atual é a mesma é uma consagração à viola – o instrumento do meio rural”. 5

Alceu Maynard Araújo, ardoroso batalhador da seara folclórica, num dos seus suculentos volumes do “Folclore Nacional” deixou registrado que São Gonçalo pode também ser considerado a dança da medicina, pois encerra conteúdo curativo. Esse aspecto pode ser evidenciado tanto no litoral quanto serra-acima. Em Tatuí, SP, anotou a seguinte afirmação: “os velhos reumáticos ficarão são do reumatismo, se dançarem a dança com fé e respeito” conforme a quadra relacionada à cura do reumatismo: 
“São Gonçalo foi pro céu
mas deixô bem decretado, 
quem dança a dança dêle 
há de ficá curado 

Para os caiçaras de Ubatuba, além do aspecto devocional do sincretismo religioso associado ao casamento, São Gonçalo é também uma dança de magia que afasta os perigos de naufrágio.6 

“Já louvei a São Gonçalo, 
esse santo me valeu, 
contra todos os perigos, 
 ele já me protegeu.” 

A dança implica, necessariamente, no cumprimento de uma promessa pelo devoto do santo. Esta se realiza no interior da casa do patrocinador da dança que a ela convida seus amigos, vizinhos e violeiros para sua realização. Eventualmente, e nos lugares mais afastados, a dança pode ser realizada no interior de uma capela onde a vigilância dos párocos é frouxa. 

O caráter religioso da promessa implica respeito não sendo, neste momento, tolerados namoros ou risos. Dança-la pressupõe o recebimento de uma graça e, por isso mesmo, todos querem participar de “uma volta”: reumáticos, encarangados... E as solteironas para conseguirem casamento. 

Antes da execução da dança propriamente dita, os devotos fazem a armação do altar, o qual geralmente é preparado sobre uma pequena mesa, devidamente coberta com uma toalha branca bem alvejada em cujo centro são colocadas as imagens de São Gonçalo e de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, com duas velas em cada extremidade do altar. Excepcionalmente pode também conter duas imagens de São Gonçalo, a do padre português e a do violeiro sendo essa última uma exceção funcional em toda a iconografia católica. O serviço religioso é preparado por sangonçalistas devotos, geralmente o capelão da localidade, que dá inicio ao ofício com o terço e a salve-rainha. Findo o ofício religioso cuja duração é de aproximadamente meia hora, dá-se início aos preparatórios preliminares da dança, com uma preleção do mestre marcador a propósito da religiosidade da função propriamente dita. Conforme anotações de Francisco Pereira da Silva, este é o momento em que o marcador faz compenetrada preleção a propósito da religiosidade da função. Trata-se de “uma dança de respeito. Dançada com pouco caso, São Gonçalo não aceita”. 7 

Sob o comando de um mestre marcador que organiza os casais defronte ao altar, em fila dupla, homens de um lado e mulheres do outro, tendo à frente os violeiros voltados para o altar sendo o mestre à direita e o ajudante, à esquerda. 

Como assinala Maria Isaura Pereira de Queiroz, a dança sempre foi executada como um voto religioso, em cumprimento de promessas. As pessoas prometem uma ou mais rodas de São Gonçalo em troca e uma graça que almejam; são ‘promessas de vivos’. As promessas podem ser variadas, de uma ou mais rodas, dançadas num só dia ou em vários dias, com dançadeiras determinadas ou quaisquer dançadeiras. 

Também é encarada como uma espécie de dança curativa por encerrar tais princípios. Tanto no litoral, (em Ubatuba), como no serra-acima, (em Tatuí), encontramos esta afirmação: “os velhos reumáticos ficarão são do reumatismo, se dançarem a dança com fé e respeito”.8 

“São Gonçalo foi pro céu
mas deixo bem decratado 
quem dança a dança dele 
há de fica curado”. 

 Em Ubatuba, a Dança de São Gonçalo é considerada uma dança de magia, pois se acredita que afasta os perigos a que estariam sujeitos os incautos bem como afugenta os perigos de naufrágio das embarcações. 

 “Já louvei a São Gonçalo, 
esse santo me valeu 
contra todos os perigos ele 
já me protegeu.” 

Como assinala Kilza Setti, “em Ubatuba os violeiros andam quase sempre em parceria; geralmente o versista e o seu segunda ou cantador; muitas vezes, fazem-se acompanhar de grupos com cavaquinho, rabeca, pandeiro, caixa e ferrinhos, dependendo do gênero da cantoria. Esta quadra da dança de São Gonçalo, registrada no bairro da Estufa, em março de 1979, mostra a interferência do sagrado para reforçar e estimular o apoio recíproco na música instrumental”: 

“São Gonçalo me falou 
 Que eu tocasse com carinho
 Falô pro violeiro, 
 Ajudai o cavaquinho” (Ubatuba nos cantos das praias – paginas 154/155). 

 Os versos da dança de São Gonçalo entre os caiçaras de Ubatuba, SP, sofrem variações, à mercê dos estímulos externos da maneira como o grupo social de portadores desta tradição da religiosidade folclórica reage em face desses estímulos. 

Os que seguem abaixo é parte da variação dos versos da dança de São Gonçalo e foram coletados entre caiçaras do bairro do Perequê-Mirin, de Ubatuba, SP. Têm início com uma profecia e segue-se as louvações, em forma de repentes. No final de cada dança um dos pares volta-se para o altar onde se encontra a imagem do santo e para ali dirige mesuras. As mesuras são feitas com repentes: o casal posta-se defronte do altar e o violeiro tem a obrigação de louvar a ambos. 

PROFECIA:  
São Gonçalo de almirante 
a sua viola na mão 
ele é um violeiro 
protetor dos folião 

Meu frade São Gonçalo 
seu chapéu tem aba e copa 
disse missa no Brasil 
fosse padre na Europa 

Ele tirou a sua dança 
pela sua grande ventura 
pra livrar uma prostituta 
da rua da amargura. 

Quem tiver sua promessa 
Antes de morrer é bom pagar 
Quando deste mundo for 
A alma não irá penar.

LOUVAÇÕES EM REPENTES 
Vou louvar o mestre da dança (bis) 
passeando no salão (bis)
e junto com a sua mestra (bis)
ensinando o batalhão (bis) 
O meu frade São Gonçalo (bis) 
Ta na frente do salão (bis) 
Ensinando o meu mestre (bis) 
Acompanhando o batalhão (bis) 
O meu são Gonçalinho 
Ele é tão bonitinho 
Ele come o seu pão
Ele bebe o seu vinho.
Ora viva o São Gonçalo... 

LOUVAÇÃO DO MESTRE: 
Louva o mestre, louva o mestre (Bis) 
Fazendo sua mesura (bis) 
E na gente do altar (bis) 
Onde ta a virgem pura (bis)

O meu são Gonçalinho 
Ele é tão bonitinho 
Ele come o seu pão 
Ele bebe o seu vinho 
Ele deita, ele dorme, 
Ele é tão bonitinho. 
Ora viva São Gonçalo... 

A Dança de São Gonçalo possui uma intrínseca função de solidariedade e integração dos indivíduos de pequenos grupos sociais, abolindo as divisões e os distanciamentos dos membros do grupo. Assim como outras práticas religiosas que ainda permanecem no seio de comunidades pontuais, a Dança de São Gonçalo tem por função principal a manutenção da estrutura e da organização sociais tradicionais, não só fomentando a coesão e solidariedade internas, como também reafirmando a vigência dos valores que tornam possíveis a existência da própria comunidade. 

São Gonçalo de Amarante é festejado no dia 10 de janeiro com danças e promessas, juntando-se dinheiro para distribuir entre os violeiros que comandam a louvação do santo dirigindo a fila dupla de fiéis em seu ritmado passo de dança. 

A esse respeito Rossini Tavares de Lima no seu livro “Folclore das Festas Cíclicas” menciona uma lenda de fundo católico, recolhida em 1960 na região de Ubatuba. Na literatura folclórica a palavra “lenda” indica a estória da vida dos santos e de homens ou mulheres consagrados em diversas religiões. No geral, as nossas lendas são quase todas de fundo católico. 

A lenda, contada por Juvenal Antonio dos Santos, diz que “São Gonçalo morava em um lugar onde havia muitas moças desiludidas, que se perdiam sem mais aquela. Ele tinha bastante idade e não sabia o que fazer para entreter as moças, impedindo-as de cair na perdição. Resolveu, então, comprar uma viola e sair à procura das moças. E quando elas se preparavam para ir se “adverti”, São Gonçalo, com jeito, convidava-as para cantar e dançar e afastava de suas cabeças todos os maus pensamentos. Isso, o santo fez durante muito tempo até que morreu. Só com a sua morte é que as moças perceberam que ele era santo. Foram buscar um retrato velho dele, colocaram perto uma bandeira e puseram-se a dançar e a cantar suas modas. E assim deixaram de andar por aí e se fizeram devotas de São Gonçalo.” 

Numa conversa informal que mantivemos em 1986 com Catarina de Oliveira Prado lembro-me do seguinte relato: “...era uma coisa que nem o São Gonçalo, era uma coisa linda, bem tirado, bem feito, bem cantado. E havia as mesuras depois que se dançava de fila em fila. Quando chegava a hora da mesura, do beijamento do santo. Era de dois em dois, do par, fazendo mesuras, até terminar.” “ O pessoal cantava com garra, com vontade de divertir, entende?... Era uma fila de homem outra de mulher. Aquilo bem passado, bem trançado, quantos que eu não dancei... Violão, cavaquinho, tinha o pandeiro, violino, uma parte de cana verde. Ah, vamos dançá a cana verde, toca aí uma cana verde e o resto é xiba...”

1 Gilberto Freyre, “Casa Grande e Senzala”, página 245.

2 Francisco Pereira da Silva, “A volta do Cajuru na Dança de São Gonçalo”, Revista Brasileira do Folclore, ano IV, nº 14, janeiro/abril de 1966.

3 Eduardo Etzel, Imagens Religiosas de São Paulo, página 33.

4   Maria Isaura Pereira de Queiros, “Sociologia e Folclore – A Dança de São Gonçalo num Povoado Bahiano – Coleção Estudos Sociais – 1 – Livraria Progresso Editora, 1958.

5   Alceu Maynard Araújo, “Documentário Folclórico Paulista”. São Paulo. Departamento de Cultura, Divisão de Arquivo, 1952. 

6 Alceu Maynard Araújo, Folclore Nacional, vol. II, Danças, Recreação, Música –  Editora Melhoramentos, 1964.

7 Francisco Pereira da Silva, “A Volta de Cajuru na Dança de São Gonçalo”, 

8 Kilza Setti, “Ubatuba nos cantos das praias”, Editora Ática, São Paulo, 1985.

 Biografia consultada: 

- Imagens Religiosas Brasileiras – Eduardo Etzel

- A Dança de São Gonçalo num povoado baiano – Maria Isaura Pereira de Queiroz 

- A volta do Cajuru na Dança de São Gonçalo – Francisco Pereira da Silva

- Notas sobre a dança de São Gonçalo do Amarante – Geraldo Brandão 

- Documentário Folclórico Paulista – Alceu Maynard Araújo 

- Ubatuba nos cantos das praias – Kilza Setti

- Folclore das Festas Cíclicas – Rossini Tavares de Lima 

 - Funções sociais do folclore - Maria Isaura Pereira de Queiroz – Revista de Cultura Vozes, out/1969.


OUTRA FORMULAÇÃO 
A festa de S. Gonçalo, se bem que de origem portuguesa, é a tal respeito particularmente significativa: aliás, ela não nos afasta, tanto quanto se poderia pensar, deste catolicismo indígena, porque mui frequentemente, no Estado de S. Paulo, a dança ante a estátua do santo é erguida, no decurso da noite, de cateretê ou de caruru. A princípio essas danças se faziam no interior das igrejas, para as raparigas casadoiras, e La Condamine teve ainda ocasião de assisti-las em 1817 no Recife. Elas se realizavam em 10 de janeiro, dia de S. Gonçalo, nas a Igreja acabou por proibir nas grandes cidades este culto, que lhe parecia indecente, e, malgrado os esforços endentes a restaurá-lo, veio a desaparecer por volta de 1889, ao mesmo tempo em que a monarquia. As danças, entretanto se conservaram nos campos, onde a fiscalização da Igreja não pode tomar senão uma forma temporária e descontínua, onde a fé tem que se alimentar a si própria, sem nada esperar de fora. Mas, acabando por ligar-se à velha instituição que a criara, tais danças já não se realizam no dia do aniversário do santo, mas em qualquer outro dia do ano, à vontade dos organizadores. Elas se tornam uma “promessa”, um ”voto”, de um roceiro que se curou de certa moléstia dolorosa ou de uma rapariga que não se casa e invoca a clemência do santo. Antes do mais, cumpre reunir os recursos necessários para a festa de maneira a contentar o santo, depois é preciso fazer chegar o aviso a uma população mui dispersa, o que requer tempo. O folclore rural torna-se assim a missa da gente humilde.
Sociologia do Folclore BrasileiroRoger Bastide 

sábado, 26 de setembro de 2015

Coronel Ernesto de Oliveira

Gosto de sonhar e vou buscar no passado, ali por volta de 1936, o vulto nobre e esforçado de um ubatubense de verdade, Coronel Ernesto de Oliveira, inteligente e convincente no modo de tratar seus semelhantes, pois era Coletor Estadual na cidade, nas horas vagas advogava e quase sempre ganhava as causas de seus constituintes. Pai extremoso, trabalhava à luz de lampião, até altas horas da noite, para poder manter seus filhos estudando fora de Ubatuba. 

A primeira entrevista que tive com o senhor Ernesto de Oliveira foi motivo de funda surpresa para mim. É que eu, recém chegada de Santos, fora residir na Praia da Enseada e fizera essa acidentada viagem por mar na lancha “Ubatuba”, que apontava semanalmente na tranquila praia dos passados anos. 

Uma pequena venda dava o pão de todos os dias. Meu marido, turrão como ele só, resolveu não pagar os impostos de nossa pequena casa de negócios. Dizia-me que iria só negociar por quatro meses e não valia a pena pagar por tão pouco tempo. 

E eu, para quem as palavras dele eram lei, achei muito natural continuarem as coisas como estavam. O caso é que uma bela manhã me encontrava na praia, esperando Albino que estava em Caraguatatuba, quando veio ao meu encontro um cidadão descalço, de chapéu de palha, simpático, que, com extrema gentileza, fez-me ver que meu marido deveria pagar os impostos atrasados na Coletoria Estadual, da qual o Sr. Ernesto de Oliveira era coletor. E assim foi que no dia seguinte travei conhecimento com o Coronel, fidalgo no tratar, dono de fluente e castiça linguagem portuguesa, que me cativou logo. E desde esse dia em que, por ordem de Albino, paguei nossa dívida atrasada com o Estado, contraí também a maior de todas as dívidas, a de gratidão e constante amizade para com o Coronel Ernesto. 

Quando mudei da Praia da Enseada para a cidade, tornei-me vizinha da família do coletor. Ele e eu já éramos amigos de verdade. Muito mais tarde aprendi a admirar seus filhos, os quais, um a um, foram se formando e se tornando com o correr dos anos a família mais unida que já conheci, muito me orgulhando de ser por eles considerada. Deposito com estas humildes frases a minha saudade sobre o túmulo do ser que, quando vivo, concedeu a mim, uma desconhecida, a sua consideração de cavalheiro e a sua amizade de irmão. 

Bom dia Ubatuba 
Páginas 91/92.

TERRA TAMOIA - Wladimir de Toledo Piza

Terra Tamoia é Ubatuba. 

Wladimir T. Piza
É Iperoig. É o lugar onde um dia Manoel da Nóbrega e José de Anchieta chegaram, navegando e canoas feitas de troncos de árvores, partindo da Bertioga para tentar o recurso supremo na obtenção da paz entre portugueses e índios tamoios. Estes eram aliados dos franceses de Villegagnon. E, enquanto contassem com o apoio dessa tribo numerosa e aguerrida, estariam os calvinistas tranquilos no Rio de janeiro, enquanto os católicos portugueses, se São Paulo de Piratininga, ficariam sempre aguardando sua expulsão do território recém-ocupado no planalto paulista. 

Ainda que pudessem resistir e manter o sul do Brasil e a região situada na Bahia para cana, os católicos não poderiam impedir a divisão das terras de Santa Cruz em três países: extremo note e extremo sul, falando a língua portuguesa e rezando pelo catecismo de Roma. O centro, francês e calvinista. 

Era indispensável expulsar os franceses e, para isso, ganhar a confiança dos índios tamoios, seus aliados. José Adorno providenciou a viagem. E os padres partiram ao encontro dos selvagens ferozes.

Em Iperoig, depois de longas tentativas, foi resolvido um encontro dentre enviados dos padres e portugueses de Piratininga. Nóbrega viajava com eles, mas, para penhor da vida dos embaixadores, fica Anchieta na terra tamoia, como refém. E é ali, sozinho, assediado diariamente por todas as tentações, mas com a alma cheia de fé e elevada pela paisagem maravilhosa, que compõe o seu poema à Virgem. Concluída a Paz de Iperoig, como ficou conhecido o episódio, vem a expulsão dos franceses, e, com ela a consolidação da unidade nacional. 

O Brasil salvo e gigante, viria o surgimento de um núcleo cheio de vitalidade em Ubatuba. E, quando o café chega ao Vale do Paraíba, eis Ubatuba a cidade mais rica de São Paulo. Por três anos sua renda é maior que a da capital. Estrangeiros foram morar ali, porque Ubatuba era porto de mar que comercializava com o resto do mundo. Surgiriam brasileiros descendentes de ingleses, franceses, suíços e de outras origens, na antiga taba tamoia. Sobradões senhorias ficaram para testemunhar o período de realeza, mas a fartura terminou com a construção da estrada de ferro Santos-Jundiaí e com a falência da empresa ferroviária, que os ubatubenses começaram, para tentar manter seu porto movimentado. 

Então, por quase um século, a terrinha estiolou na pobreza e no esquecimento. Quem tinha coragem para lutar, emigrou. Lá ficaram os velhos, os doentes, os muito pobres, vivendo uma vidinha rudimentar, muito próxima daquela dos antigos donos da região, os tamoios de Cunhambebe e Pindobuçu. Até que um dia, com a reconstrução da velha estrada que servira aos tropeiros no passado, chegou o primeiro automóvel, e com ele o turismo, e com este o progresso de novo, embasbacados os visitantes com a maravilha do casamento entre a serra, coberta de mata e o mar recortado em dezenas de praias lindíssimas. 

Ao lançar o livro “TERRA TAMOIA”, de Idalina Graça, a Livraria Martins Editora presta dois serviços, aos quais estão obrigadas todas as grandes empresas livreiras: a de dar oportunidade a novos escritores e aquele de mostrar aos intelectuais e dirigentes do país, em cada época, como pensa o povo brasileiro, publicando as suas opiniões reunidas em livros. 

Idalina Graça é uma pessoa do povo apenas. Dois anos em uma escolinha de praia constituem todo o seu aprendizado. O resto, foi a vida que a ensinou. O seu depoimento serve como amostragem da opinião da gente da nossa terra, indiferente ao que acontece nessa época trepidante da vida nacional e mundial. 

Figuras das mais interessantes, ela é um ponto de referência de Ubatuba, ou melhor, o mais marcante ponto de referência de Iperoig. Sua vida identificou-se com a bela terra dos tamoios, com a qual ela se julga vinculada por eterna gratidão, não apenas pela acolhida que ali teve, como pelo nome que lhe deu o finado marido, filho de Ubatuba. 

Nasceu em Ilha Bela. Viveu, como cozinheira, em Santos. Lá encontrou Albino Graça, com quem casou-se, indo ser mulher de vendeiro na Praia da Enseada, em Ubatuba, onde, para ajudar as despesas, começou fazendo pastéis, depois fornecendo refeições no balcão da venda.

Seu tempero a tornou famosa. E um dia o dono de um hotelzinho de Ubatuba, precisando urgentemente deixar sua atividade, vendeu-lhe a crédito o estabelecimento. Preço: 1250 cruzeiros velhos. Condições: 50 cruzeiros velhos por mês. Só ela sabe o sacrifício que fez para arranjar essa importância na velha e esquecida Ubatuba de então. 

No hotel, conheceu gente da terra e gente de fora. Na cozinha, no tanque de lavar roupa, na vassoura o dia inteiro, ela achava jeito de rabiscar papéis, anotando o que via e o que ouvia, escrevendo com simplicidade, mas através de uma alma de sensibilidade extraordinária. Colecionou lendas locais e pintou os tipos humanos que conheceu, com traços tão precisos, que eles ainda estão vivos nas páginas deste livro. 

Ainda hoje ela está em Ubatuba. Num fundo de quintal, fica a sua casa, a qual se chega por um estreito corredor ajardinado, entre a cassa da frente, que foi sua, e a vizinha. A casa da frente, com ais duas outras, que o trabalho penoso no hotel lhe permitiu adquirir, ela as vendeu, para poder distribuir roupas, remédios, comida e amparo aos ainda mais pobres do que ela. E que os pobres precisam ser, pois de seu, ela tem apenas essa magríssima pensão, de meio salário mínimo do IAPC! 

Entretanto, Idalina Graça vive em permanente ebulição. Sempre agitada, sempre correndo, sempre trabalhando, sempre cozinhando, atendendo alguns hóspedes amigos, para ganhar tostões, que, reunidos, formam os milhares de cruzeiros que cobrem as necessidades dos seus pobres de Ubatuba, que são muitos, e tão necessitados. 

E ainda encontra tempo e coração para distribuir com todos nós, que não faltamos em sua casa. Sempre que estamos na boa terrinha. Ali, na sua acolhedora casa de fundo de quintal, enquanto passa um café, aquecendo a água em uma lata vazia de banha, ela recita os últimos versos que compôs, ou conta a estória do caiçara que precisa ser socorrido. Nas trovas simples ou na prosa desataviada, transborda então um coração imenso. E nós saímos de lá convencidos de que Deus, que se nega sempre aos soberbos, fala e fala eloquentemente, pela palavra dos simples e dos humildes. 

Ubatuba, 28 de janeiro de 1967. 
Wladimir de Toledo Piza.
(Texto de Wladimir de Toledo Piza publicado na edição original de Terra Tamoia)

WILSON ABIRACHED

FEVEREIRO DE 1969 
A nossa Ubatuba hoje é governada pelo digníssimo Prefeito Dr. José Alberto dos Santos. Muito amigo de Wilson Abirached, ajudou-o quando disputava a candidatura contra Washington de Oliveira. Wilson ganhou e, orientado por Dr. Alberto, político experimentado, muito aprendeu realizando uma feliz gestão por essa época. Hoje Wilson não existe mais. Porém o seu nome permanece vivo no coração daqueles que com ele conviveram e tiveram a feliz oportunidade de serem considerados amigos. E neste dia em que todos se lembram com saudade de Wilson Abirached, em meus apontamentos encontro a crônica: 

MENSAGEM DE FÉ 
Wilson Abirached
Ubatuba, como toda cidade litorânea, desperta para uma nova vida material, assim como também espiritual. Nota-se uma certa tendência nos adolescentes de hoje para as letras, setor musical e cultural. Os jovens já não se interessam só por bailes, jogos e esportes de outra natureza. Há mesmo um certo ar de maturidade nos semblantes juvenis que encontro nas minhas andanças pelas ruas da cidade. 

Assim é Ubatuba nos dias atuais. O céu sempre azul nos convida a meditar nessa melhora sensível dos homens de hoje. A administração caminha em paz. O nosso digníssimo Prefeito governa a cidade com vontade de vencer e vencerá coma Graça de Deus. Conheci Wilson criança ainda, 18 anos de idade, contava ele. Naquele tempo eu era proprietária do Ubatuba Hotel, hoje Cine Iperoig. Ali se hospedava o turbulento rapaz. Alegre, sempre pronto a pregar partidas aos companheiros de sua idade, era difícil conviver com ele ser aderir às suas brincadeiras. Uma madrugada, lembro-me bem, o jovem viera de Taubaté em “Teco-teco” de sua propriedade, hospedando-se como de costume em meu hotel. À noite caiu um temporal imprevisto como são todos eles na faixa litorânea. Apesar das minhas brigas, acompanhando Wilson até o campo de aviação, rogando para que não se arriscasse a voar, Wilson Abirached, com o mesmo sorriso de sempre nos lábios, arrancou do campo em plena tempestade voando para onde seu coração de moço o chamava. 

E assim era ele até o fim dos dias, - pois não foi fácil para sua alma generosa governar Ubatuba quando os correligionários políticos exigiam que não reatasse relações de amizade rompidas no campo da política. Wilson lutou com denodo, impondo-se com energia e coragem tão próprias do seu caráter não corrompido pelas vicissitudes da vida. E fiel às amizades do passado, estendeu a mão a todos, inclusive a mim, pois melhor do que ninguém, ela sabia que minha humilde pessoa no setor político e no setor da amizade, repito, estaria sempre até meu último dia de vida sobre a terra, ao lado de Washington de Oliveira, digno filho de Ubatuba, reconhecidamente provada sua eficiência como líder político, homem de letras e farmacêutico profissional. 

Pois bem, ao lado de Washington tive que lutar contra o nosso Prefeito. Perdemos a batalha, mas em compensação recuperei o amigo de sempre, filho espiritual que Wilson Abirached foi para mim. E nunca me negou sua ajuda quando estava dentro das possibilidades. Ubatuba, qual rainha litorânea, caminhou guiada pelo mais generoso coração que possa caber dentro de um peito de homem, de acordo com os princípios de amor, harmonia, verdade e justiça. 

Quando escrevi esta crônica, Wilson era moço e forte. Jamais pensaríamos em perdê-lo em estúpido acidente. Fazia anos que a tinha escrito e publicado na “Tribuna” de Ubatuba. Hoje transcreve para as páginas deste livro, gravando assim em letras de ouro o nome de um homem que muito trabalhou por nossa terra. Pois em ouro eu quisera gravar de verdade todo bem que os passados prefeitos em suas curtas passagens pela Terra de Cunhambebe deixaram espalhados em todos os lares. 
BOM DIA UBATUBA Editora Vida Páginas 73/74.

sábado, 19 de setembro de 2015

Luiz Ernesto Kawall

Hoje foi um dia feliz para mim, pois recebi a visita do Senhor Luiz Ernesto Kawall, jornalista credenciado junto ao Governo do Estado, muito simpático, extremamente inteligente. Dispôs-se a dar informações necessárias sobre o passado Governo Sodré, pois é meu desejo perpetuar o ilustre nome do simpático ex-governador de São Paulo nas humildes páginas do livro em preparação. Do fundo da minha alma peço aos ubatubenses serem reconhecidos ao ex-Governador Sodré, ajudando alma e coração no dia em que ele vier porventura a precisar de Ubatuba. 

Durante a feliz gestão Matarazzo-Toledo Piza na minha cidade, tive ocasião de ser apresentada ao Dr. Roberto Costa de Abreu Sodré, em visita oficial a Ubatuba, aqui vindo para inaugurar o retrato de seu falecido e inesquecível pai, em uma das salas do Museu Histórico e Pedagógico de Iperoig. Vendo-o de perto, com um sorriso simpático nos lábios, uma simplicidade nata em cada gesto, tive o prazer de analisar o cidadão que se revelava em si o homem nascido para governar não só um Estado, mas querendo Deus, uma Nação. 

Que destino amigo das grandes inteligências disseminadas por nossa Pátria faça desse cidadão esclarecido o Presidente do nosso Brasil é um desejo. 

Na época em que conheci o Governador Sodré, também conheci Luiz Ernesto Kawall; tornamo-nos grandes amigos e foi ele, então Assessor de Imprensa, que pronunciaria frases de admiração pelo governo Sodré, em uma conversa amiga sobre a sua personalidade. 

Ele foi admirável como Governador do nosso Estado e, sobretudo é humaníssimo, enquanto seu olhar abrange a política em todos os setores do grande São Paulo. Mente esclarecida move-se em todas as direções, solucionando diversos problemas, simultaneamente. A tudo, porém, e a todos atende, levando uma esperança, na sua voz calorosa e amiga, a cada coração”. 

Assim falou durante uma agradável palestra, Luiz Ernesto Kawall, nessa manhã de domingo, enquanto o sol amigo doirava as verdoengas encostas de Ubatuba. 

Bom Dia Ubatuba - Editora Vida, (página 115).

ESSA DOCE HUMANIDADE

A primeira informação que tive de Ubatuba veio através de meu irmão Valter, que passou férias aqui. Nesta época eu trabalhava como jornalista na Tribuna da Imprensa e fora escolhido por Carlos Lacerda para chefiar a sucursal de São Paulo, em 1951. Passava por um período de estafa e estava me recuperando de uma operação de sinusite. Era o momento para tirar umas férias e recuperar-me em Ubatuba. Foi uma longa e cansativa viagem de ônibus: São Paulo-Taubaté-Ubatuba. A chegada dos ônibus vindos de Taubaté era uma alegria para o povo. Muita gente vinha assistir sua chegada, inclusive comerciantes e autoridades. Era uma Ubatuba lúdica, lírica e mágica. Mas a chegada, àquela noite, foi ao sabor de uma chuva torrencial. Orientado por Félix José Francisco, a primeira pessoa que conheci em Ubatuba, hospedei-me na Colônia de Férias dos Funcionários de Taubaté, na Rua Thomaz Galhardo. Na manhã seguinte, numa bicicleta alugada a 200 réis à hora, saí para conhecer as praias. A Ubatuba daquela época causou-me intensa fascinação, suas poucas ruas, sua arquitetura colonial já decadente, o antigo cinema com seus lugares marcados para as autoridades locais. Era uma Ubatuba idílica, histórica, poética. Nos anos de 53 e 54 voltei e desta vez trazendo a família de minha futura mulher, hospedando-me no Hotel Felipe. 

O BAIRRO DO ITAGUÁ 
Nós saíamos todos os dias a pé para as praias. E assim fomos conhecendo, aos poucos, o Perequê-Açú, o Itaguá, o Tenório, a Praia Grande... Aquela que mais gostamos foi o Tenório, por ser mais intimista, protetora, de águas limpíssimas e transparentes, de areia alva e fina, toda sombreada por abricoeiros. A partir daí começamos a conhecer alguns caiçaras: o Quincas, construtor e presidente da Associação dos Vicentinos; o Velho Barroso, pescador e agricultor, um homem cordial, afetuoso e alegre; Janguinho, caseiro de Wladimir Piza e sua mulher, Santana, pessoa boníssima, linda, de grande alegria, bondade e forte personalidade. Grande parteira, segundo os registros de suas anotações pessoais, fez mais de três mil partos. 

O PAPA E A CAPELA DO ITAGUÁ

Godofredo dos Santos
O Godofredo dos Santos, que era um caiçara forte, rude, espigado, agricultor e construtor nato, grande leitor de livros e com dom natural pratico; O seu Chiquinho da Praia Vermelha, agricultor de verduras e dos abacaxis mais doces que conheci; o Albino Alexandrino dos Santos, pescador e construtor de barcos, Albino era o sacristão responsável pela Capela de Nossa Senhora das Dores da Praia do Itaguá. Certa ocasião chegou à capela um padre vindo de São Paulo, para rezar a missa. Vestia-se á paisana, isto é, de calças. Albino pontificou questionando-o sobre o seu estado. O jovem padre disse ser permissão do Papa as vestes paisanas, ao que Albino retrucou: o Papa manda lá no Vaticano; aqui na Capela do Itaguá mando eu. Depois de algum tempo o padre vendo-se vencido retornou à matriz. E neste domingo não houve missa na Capela do Itaguá. 


 E foi com essa gente bonita e alegre, os grandes troncos familiares do Itaguá, que se realizou uma integração espontânea de parte a parte. O prazer de ouvir, conversar, conhecer... Nessa época, já com muitas amizades, éramos convidados para as festas tradicionais do bairro. Em 1951, quando de minha primeira viagem, conheci o então prefeito Wilson Abirached. Conversamos longamente sobre os problemas e as dificuldades enfrentadas pelo município, as dificuldades de locomoção... Para as autoridades locais o município era um grande potencial turístico, dificultado pelas precárias vias de acesso. Para atrair turistas, a Prefeitura oferecia terrenos àqueles que demonstrassem interesse em construir. O então prefeito ofereceu-me na época um terreno na Barra da Lagoa, que não aceitei. Pouco depois, comprei um terreno na Praia Grande. Instruído por amigos, que consideravam a praia imprópria para banho, acabei por vendê-lo em seguida. Nessas idas e vindas para Ubatuba, o Barroso, em 1954, ofereceu-me uma típica casa caiçara de três cômodos, de propriedade de João Firmino, seu ajudante de pescarias, por 5 contos de réis. À época não pude despender tal importância e dispensei a compra. Em 1955, um ano depois, Barroso ofereceu-me a mesma casa pelo mesmo preço, facilitado em 5 prestações iguais de mil réis cada. Era uma proposta irrecusável. Nos anos seguintes fui comprando os terrenos vizinhos, até fazer um sítio com três mil metros quadrados que, em homenagem à casa pioneira, denominamos Sítio Sapé. 

O SÍTIO SAPÉ 

Aos poucos fomos reformando a casa e construindo outras, sempre fazendo uso de material reciclado de construções antigas de Ubatuba. Por fim, o Museu foi construído também dessa forma. A tipicidade de sua arquitetura chamou a atenção do bairro e da gente da cidade pela utilização de elementos naturais coletados na região. Pedra e madeira, portas e vidas de canela, janelas de pinho-de-riga da Fazenda Jundiaquara, telhas coloniais da Fazenda Velha. As construções foram erguidas por mestres caiçaras, hábeis artesãos e construtores, como mestre Otávio dos Santos.

DAS PRIMEIRAS FESTAS À ESCOLA DE SAMBA 

Essas construções no estilo colonial caiçara deram ao Sítio Sapé uma aura de alegria, paz, confraternização. Eram conhecidas as festas com a presença constante de violeiros, especialmente os da folia do Divino, liderados por mestre Otaviano. Nessas reuniões festivas se distinguia por suas danças, seus causos e até por suas bebedeiras o Velho Augusto (Augusto Correa Leite), que se tornou a figura símbolo do Sapé e do bairro do Itaguá. A pedido do próprio Augusto, nos idos dos anos 60, por achar o bairro à noite muito triste e sem graça, entregamos a ele 33 instrumentos musicais comprados em São Paulo, na Casa Sotero. E ele formou a Banda do Vovô, que passou a alegrar as festas e a as noites do Tenório e do Itaguá. 

Essa Banda, por volta de 1965/66 foi dissolvida e os instrumentos remanescentes, uns 15, inclusive o bumbo, doamos para o Esporte Clube Itaguá. Lá eles ficaram empilhados durante anos. Já nos idos de 70, passaram a integrar a banda da famosa Escola de Samba do Itaguá, campeã por sete anos seguidos do carnaval ubatubense. É por isso que ao lado do saudoso Antônio Pinto e dos irmãos Maneco, Edinho e Hilário, todos fundadores da escola de samba, fiz parte da primeira diretoria, sendo por dois anos, na gestão de Fiovo Frediani, seu vice-presidente. 

O CIRCO ARRANCA-TOCO 

O Circo Arranca-Toco surgiu da necessidade de se dar diversão para as crianças. Porque o Itaguá, apesar de ser um bairro grande, de muitas famílias onde as coisas aconteciam ecumenicamente, nada existia para a diversão infantil. 

No verão de 1959 construímos atrás do Sítio Sapé, com velhas tábuas, um cercado circular com uma arquibancada e junto a uma velha figueira uma casinha e artista. Este circo, batizado de Arranca-Toco, era exclusivamente composto por crianças (os artistas) para a diversão de crianças e adultos. O jornal Última Hora, numa reportagem, chamou esse cirquinho que dava espetáculos todo domingo à tarde, de primeiro circo infantil do Brasil. Meus filhos, sobrinhos e crianças do bairro faziam coisa’ “do arco da velha” no circo: mágicas, lutas romanas, equilíbrio em cordas, travessuras em trapézio, pegas infantis, etc., atraindo sempre um público de 200 pessoas por sessão entre adultos e crianças. Pena que o circo tenha acabado com o crescimento das crianças. 

O MUSEU DO BAIRRO DO TENÓRIO 

Este museu foi criado por mim e por Praxedes Mário de Oliveira, funcionário aposentado do Porto de Ubatuba, homem de grande coração e conhecedor profundo dos hábitos e da vida caiçara. Com essas e mais outras peças que eu estava conseguindo junto à comunidade do Itaguá e adjacências, fui formando um acervo que começa a invadir a minha casa do Sapé, para desespero de meus familiares. Chegou um ponto que o Praxedes e eu decidimos fazer um “museuzinho”, fora de casa, numa peça de 2 por 2, parecendo um galinheiro. O curioso era que as peças eram todas penduradas nas madeiras do teto. Esse Museu foi inaugurado em 1982, merecendo reportagem no Estadão e na revista “Seleções”, que circula em 43 línguas diferentes. Essa revista, editada nos Estados Unidos considerou o Museu do Bairro do Tenório o menor museu do mundo. 

O Museu era uma espécie de espaço cultural comunitário e um pouco da historia do homem caiçara dos bairros do Itaguá e adjacências. Mas como tinha muitas peças rústicas e algumas pesadas, inclusive penduradas no teto, num dia de muita chuva e trovoadas – típico de Ubatuba – o Museu veio abaixo e quase que aquela “museologia” nos pega pela cabeça. Mas Praxedes e eu fugimos a tempo. 

Passado algum tempo, resolvemos construí-lo novamente, em alvenaria e telhas, sob a batuta de mestre Otávio dos Santos, numa área de 4 por 6 metros, dentro do Sítio Sapé. Nessa construção aproveitamos as portas de canela da antiga Casa Vigneron, do Itaguá, as bandeiras envidraçadas e em forma de caixilho das sobras da demolição do Hotel Felipe, as telhas coloniais da Fazenda Velha cedidas por Domingos Chieus Filho, que também doou os primeiros tijolos, de cerca de dois palmos, fabricados em Ubatuba, marca J.B. E até uma porta artesanal do castelinho de Wladimir Piza, do Sítio Santa Etelvina nos foi doada pelo seu antigo proprietário.

Além disso, o Museu ganhou do casal Santana e Janguinho uma grande mesa, molduras antigas do mestre artesão Jacob. Inúmeras fotografias foram cedidas pelo professor Joaquim Lauro Monte Claro. Livros e ilustrações históricas foram doados por Washington de Oliveira. Peças artesanais e utilitárias dos antigos moradores do bairro que também foram cedidas com fotos e documentos familiares dos moradores do bairro do Itaguá e adjacências. 

Entre eles destacamos a especial atenção de pessoas como Velho Augusto, Velho Barroso, Quincas, Janguinho, Albino, família Parú e João Rita. Este último cedeu o primeiro banco escolar que serviu a antiga escola fundada por Virgínia Lefevre. Outros moradores entregaram ao Museu antigas peças utilitárias ainda próprias para uso como matador de formigas, “carneiro” de água, moedor de milho, moedor de café, canoplas, enxós, goivas, canastras antigas, máquina de cinema, batedor de bife, ralador de mandioca e muitas outras coisas interessantes e que foram usadas em épocas passadas por moradores do bairro. Tudo isso veio a se constituir num precioso acervo, talvez importante não só para a história do bairro, mas principalmente para tentar recuperar suas melhores lembranças e reintegra-las ao convívio de todos. 

O MUSEU E A COMUNIDADE 
Foi a partir desse rico material que o Museu passou a interagir com a comunidade promovendo estudos familiares, resgate de fotografias dos antigos moradores, concursos de desenhos, sendo aberto para visitação das escolas como Altimira Silva Abirached, Era Uma Vez, Aurelina Ferreira e Dominique, que constantemente visitavam o Museu e participavam de suas atividades, inclusive durante os festivais de viola. 

Entre as exposições promovidas destacamos a pintura primitivista de João Teixeira Leite, o entalhe intimista do artesanato de Jacob, as escultura e madeira de Bigode e as fotografias de Adilsom Mayer, exímio retratista da alma do povo caiçara, sendo famosa sua série “Vidas do Itaguá”. 

Eu, pessoalmente, empenhei-me nesses anos todos em pesquisar, tal como um turista aprendiz como diria Mario de Andrade, em conhecer alguns aspectos das principais figuras históricas do bairro, como Pedro Tenório, principal comerciante e proprietário das terras da praia do Tenório e Albino Alexandrino dos Santos, o construtor da Capela do Itaguá. 

E por último, no aspecto mais amplo, a incrível história da presença em Ubatuba, por uma noite, acidentado por um avião que desceu inusitadamente na Praia do Cruzeiro, de nada menos que o célebre poeta, escritor e aviador francês Saint-Exupéry. Consegui fotos e testemunhos escritos e orais dessa façanha memorial para afinal provar que contrariamente ao que a Folha de São Paulo noticiara e a lenda corrente na intelectualidade de Ubatuba, quem pousara no Cruzeiro não foi Saint-Exupéry, mas, sim seu colega da Cie. Generale Aero Postale, Leon Antoine. Localizei Leon Antoine morando em Miguel Pereira, Rio de Janeiro e trouxe-o para Ubatuba, onde ele contou sua fantástica descida entre nós. Leon que faleceu recentemente tinha ainda em seu poder, fotos de sua venturosa excursão a Ubatuba, qual um Robinson Crosué aéreo, e ofereceu, gentilmente, ao Museu do Bairro. 

Finalmente eu destaco a contribuição que os festivais de viola promovidos pelo Sítio Sapé e Museu do Bairro do Tenório deram para a cultura popular musical caiçara de Ubatuba e do Litoral Norte. Os festivais começaram com simples reuniões de violeiros no próprio circo Arranca-Toco, em 1959 e depois de dois em dois ou três em três anos, prosseguiam no próprio Sítio Sapé, num total de 12 festivais, contando com a presença de 20 a 40 violeiros, sob o comando dos apresentadores Ari Mattos e Sidney Martins Leme, além de contar com a colaboração da Associação dos Vicentinos do Itaguá, do Ubatuba Palace Hotel, da Rádio Costa Azul, do Clube Primavera além de empresas e firmas comerciais, artistas, familiares e amigos. 

Os violeiros cantavam individualmente ou em duplas em palanques cedidos e gentilmente armados pela Prefeitura, sob as vistas de júri de premiação. Entre os jurados destaco a presença de Washington de Oliveira, Lia de Barros, Maria Carlota Marchetto, José Nélio de Carvalho, Pedro Paulo Teixeira Pinto, Paulinho Nogueira, Kilza Setti, Paulo e Wanda Florençano, Zé Ketti, Carlito Maia, Benedito Góis Filho e muitos outros. 

No festival exibiram-se notáveis violeiros como João Alegre, Grupo Paranga, de São Luiz do Paraitinga, a dupla Beira-Mar e Marília, o violeiro Carunchinho e inúmeros outros violeiros que tiveram no palanque do Festival de Viola suas primeiras aparições públicas. 

Nos três últimos festivais vivemos verdadeira festa de confraternização da sociedade, pois além dos violeiros e dos almoços beneficentes preparados pelo operoso Clube Primavera, exibiram-se jovens roqueiros, apresentaram-se grupos folclóricos como o Boizinho, a Dança da Fita do Mestre Raposa, quadrilhas populares e outras atrações. 

Os antigos moradores do bairro, gente simples e humilde, verdadeiros arquétipos da cultura caiçara, portadores da memória, essa doce humanidade de Cristo, foi homenageada... ganhando prendas, bolos de aniversário, brindes e, mais que tudo isso, o aplauso humano da comunidade dos bairros do Itaguá e adjacências. É isso aí gente, o que espero que o Projeto Tamar, agora assumindo a direção do Museu Caiçara não perca, pois o resgate da cultura caiçara não pode se perder sob pena de ser perdida a própria história, grande, bela e verdadeira, de Ubatuba.

JORNAL “A CIDADE” Edição de 18 de dezembro de 1993. (entrevista-reportagem com Luiz Ernesto Kawall) Texto de Arnaldo Chieus 

VIDA NOVA PARA OS CAIÇARAS

Virgínia Lefèvre

UMA BRASILEIRA ALTRUÍSTA DESPERTA SEUS PATRÍCIOS 

Escola da Almada
Foi um choque para mim descobrir, há dez anos, o abandono em que se achava o litoral norte de São Paulo. Acompanhando meu marido, que é diretor do Instituto Geográfico e Geológico, eu entrara na mata, onde faziam levantamentos para fixação de divisas entre os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. A montanha chegava quase à beira da praia, que se espichava sem fim. Nesse cenário belo e grandioso, a população vivia em regime de fome, morando em casebres de pau barrado, cobertos de sapé, com uma esteira à guisa de cama, um banco tosco, um fogão de três pedras sobre as quais se equilibrava a única panela (muitas vezes de lata). Era essa gente que havíamos apelidado de caiçaras. A verdade, porém, é que Ubatuba, o principal centro da zona, cuja população de hoje orça pelos 1.500, já fora mais importante que Santos. Seu nome, no idioma tupi, significa local onde há abundância de caniços próprios para flechas. Fundada em 1600, dentro em breve tornou-se centro exportador e importador não só para a zona do Vale do Paraíba como para o interior de Minas. Os produtos de exportação desciam a serra em lombo de burro e as pedras de cantaria, seda, sal, louças e outras importações subiam do mesmo modo. Ubatuba tinha sua própria frota de barcos que faziam cabotagem até o Rio da Prata ou Pernambuco, levando os produtos dos engenhos de açúcar, das serrarias e das olarias que ali abundavam. O ouro de Minas Gerais seguia de caravela para Lisboa. Diversos foram os flibusteiros ou traficantes franceses ou ingleses que ali resolveram estabelecer-se ou, naufragados na costa, acabavam ficando. Muitos dos atuais caiçaras ainda exibem nomes e traços fisionômicos que denotam esse legado racial, de mistura com sua herança índia, negra e portuguesa.

Canoas de pesca - ao fundo o Sobrdão do Porto
Em 1788 o governador da Capitania Geral ordenou que todos os barcos de cabotagem fizessem escala obrigatória em Santos, que sofria por falta de gêneros, vendendo o que pudessem antes de seguir para diante. Ora, a tributação ali era alta e os compradores não pagavam tanto quanto os do Rio de Janeiro e outros portos. Protestaram os ubatubenses em veementes abaixo-assinados, mas em vão. Desanimados, muitos dos agricultores abandonavam suas culturas, outros deitavam fogo aos canaviais e mudavam-se. Enquanto isso, a vila de Santos prosperava e a abertura de caminhos por terra ligando a Capital a outras cidades de planalto foi desviando mais ainda o pouco de comércio que ainda sobrava a Ubatuba. Os habitantes levaram anos protestando, mas a situação não mudou e a decadência continuou até a chegada da Família Imperial, em 1808, com a consequente liberação do comércio. No século XIX, com a introdução do café no Vale do Paraíba, Ubatuba tornou a prosperar e, por volta de 1865, escoava-se por ali cerca de metade do café exportado pela província. Lá para fins do século, alguns dos cafeicultores se juntaram a potentados ubatubenses para construir uma estrada de ferro ligando o vale ao porto. Mas o café já passara do auge, e a empresa faliu. Encontra-se ainda hoje os vestígios da obra de terraplanagem e até o edifício da estação. 

Praianos puxando rede ao amanhecer
Praticamente sem comunicação com o interior, Ubatuba entrou de novo em declínio. Dessa vez o povo aceitou a sorte com mórbida resignação. O clima era bom e o alimento farto, no mar e no mato. Os mais enérgicos plantavam mandioca, cana de açúcar e café. Faziam farinha de mandioca pelo mesmo método primitivo dos índios; da cana extraiam garapa para fazer o café; e do mar tiravam o peixe.

Mas veio a saúva e alastrou-se de tal maneira que já não era mais fácil conseguir alimento da terra. E vieram as traineiras “cercar” o peixe dentro das enseadas, deixando o caiçara sem ter o que pescar. Procedimento ilegal é claro, mas os donos sem escrúpulos, comodamente instalados nas cidades limitavam-se a pagar as multas quando apanhados em flagrante. 

Casa caiçara
Os caiçaras passaram anos vegetando, quase esquecidos, tentando extrair alimento do solo e do mar, trabalhando às vezes em obras de construção e outros biscates. O pouco que percebiam mal dava para comprar velas, fósforo, querosene. As crianças, subnutridas e expostas a doenças, só vingavam por milagre. Nasciam robustas e espertas e vicejavam em quanto a mãe os amamentasse. Em lugares mais remotos ainda se crê que é bom para o umbigo do recém-nascido passar-lhe picumã das chaminés, o que, naturalmente, causa muita infecção fatal. Ao começar a alimentação de mingaus de farinha de mandioca e bananas, porém, iam perdendo saúde. 

Entre as poucas distrações do caiçara contavam-se as danças herdadas dos negros, sem música, num ritmo de pandeiro e tambor, e as festas religiosas, idênticas ao que era há um século. Sua imaginação se nutria das superstições herdadas dos brancos, índios e negros. Acreditava no lobisomem, em monstros marinhos e na mãe d’água. Em longos anos de ignorância, acumulara “receitas” como estas contra doença: para picada de cobra, beber uma xícara de querosene com três dentes de alho socados. 

Em Camburi a escola iniciou-se na capelinha
De uns anos para cá, o litoral paulista começou a ser “descoberto” pelos turistas. Muitos deles, orientados por gente poderosa e inescrupulosa, puseram-se a ludibriar o caiçara, “comprando” suas terras. O turista chega, constrói casa de luxo que abre durante poucas semanas por ano, mas nada planta nas terras compradas. Os gêneros desaparecem e os preços sobem. 

Início da escolinha no Sertão de Ubatumirim
Foi assim que encontrei Ubatuba há dez anos. Apesar de desconfiado e acanhado a princípio, o caiçara me pareceu inteligente, bom e muitíssimo aproveitável. Tive uma ideia. Em São Paulo, com um grupo de amigas eu vinha há alguns anos tentando ajudar crianças superdotadas que, por falta de meios, não poderiam continuar os estudos por precisarem ajudar as famílias. Percorremos duas ou três escolas públicas e escolhemos cinco meninas das que tiravam as melhores notas e pertenciam a famílias mais pobres. Angariando alguns poucos recursos entre parentes e amigos, não nos contentamos em encaminhá-las para o ginásio ou curso comercial; tomamos conta da família toda, dando-lhe tratamento médico e dentário, enfim, elevando-lhes o nível econômico. Queríamos provar que a boa vontade e o idealismo eram coisas mais valiosas e produtivas que as grandes verbas. E foi assim que formamos a Sociedade Pro-Educação e Saúde. Por que não levar o seu auxílio ao litoral de Ubatuba, abrindo uma escola ali? Compreendíamos muito bem a enorme carga que o governo estadual carregava para manter os serviços sociais oficializados. Poderíamos, porém, dar a nossa migalha e, se conseguíssemos elevar o nível de vida de uma dúzia de famílias, estas iriam multiplicando os dons recebidos e um dia a seara seria grande. 

Escola na Caçandoca
Mas, na capital, ninguém queria ajudar o caiçara “preguiçoso, malandro, indiferente”. Perdemos até um de nossos sócios contribuintes dos mais generosos. Mas não desanimamos, pois queríamos demonstrar que o caiçara só precisava de um impulso. 

Infelizmente minhas companheiras na Sociedade, quase todas mães de família como eu, não podem ausentar-se da capital, ajudando-me só a levantar dinheiro. Assim, tive de empreender o trabalho em Ubatuba como pude. Meu marido, temendo que eu me esgotasse, a princípio não via com bons olhos a ideia. Hoje, entretanto, é meu principal colaborador, orientando-me nas questões técnicas e abrindo-me caminho nas Secretarias de Estado, onde tenho sempre assunto a tratar. 

Os próprios caiçaras também resistiram no começo, embora alguns, mais ousados, se entusiasmassem com o plano da escola e pedissem até remédios e médico. Em primeiro lugar, pareceu-me que era necessário combater o amarelão; mas quando sugeri a abertura de fossas, a indignação foi geral. “A fossa é imoral”, disseram. Preferiam o mato, “onde ninguém vê a gente”. Mas, com muita paciência e alguns caixotes, construíram-se, afinal, as fossas. 

René Vigneron, octogenário
As necessidades daquela gente não tinham fim. A maioria das crianças teria de caminhar mais de um quilômetro para chegar à escolinha; quase todas estavam subnutridas ou atacadas de amarelão. Saíam de cassa com um gole de café e um pedaço de peixe salgado, quando tinha disso. Assim, além do prédio da escola, um quarto para a professora, equipamento didático, livros, papel, lápis, tinta, etc., o remédio seria dar-lhes uma sopa ou lanche forte, com legumes, cereais, extrato de carne, fortificantes. Outra despesa necessária era o fornecimento de uniformes. 

O mais difícil, porem, foi a matrícula. O governo exige, para isso, que a criança apresente certidão de nascimento. Mas a maioria não era registrada. E muitos dos pais nem sequer conheciam a prática do casamento civil, contentando-se com bênção nupcial coletiva de um abnegado sacerdote lhes ia levar pelo menos uma vez por ano. Não me agradava ver na certidão das crianças a pecha de “filho natural” (na época a lei exigia a diferenciação) e por isso comecei a fazer os casamentos civis. 

Foi uma epopeia! Tinha de dormir na esteira, sobre o chão de terra batida, de farolete em punho, esperando a visita indesejável de alguma cobra ou ratazana curiosa ou aranha peluda. O desconforto, aliás, não era sacrifício para mim, pois eu adoro o mato e o mar e não me importo de dormir em chão duro. Quanto à segunda parte, o cansaço em geral vencia o medo e era um sono só... 

Durante o dia, ia anotando os dados. Ninguém sabia a data do nascimento. Muitos ignoravam o nome dos pais. Outros tinham dois sobrenomes. Todos eram analfabetos. Depois de árdua e vã pesquisa, resolvi ir escolhendo uma data bonita para o aniversário deles: 3 de maio, 8 de dezembro, 25 de janeiro... Quanto ao ano, após longas conferências com os mais velhos, escolhia um que parecesse mais perto da realidade. Tudo isso ia numa folha de papel almaço e no canto direito inferior o homem ou a mulher colocava a impressão digital do polegar direito. 

Com a certidão de nascimento e casamento o caiçara passava a existir juridicamente. Ninguém poderia tomar a terra que era sua. E meti-me a promover requerimentos de posse pela lei da usucapião. 

Crianças tomando a merenda escolar
A escolinha, afinal, começou a funcionar em 1946, na praia do Itaguá, a quatro quilômetros de Ubatuba, num terreno doado pelo Sr. Bráulio Santos. E os alunos sempre encheram a modesta sala de aula, não raro ultrapassando o número legal de quarenta. Como tinham parentes em Caçandoca, estes vieram pedir uma escola também. Esta foi inaugurada em 1949. No ano seguinte a Prefeitura de Ubatuba autorizava a instalação de outra no Camburi, de uma quarta na praia da Almada, em 1951, e mais uma em 1954 no Sertão de Ubatumirim, longínquo e isolado. Todas foram construídas e são mantidas pela S.P.E.S., sendo que a municipalidade de Ubatuba paga os ordenados das professoras nas três últimas e o Estado, nas duas primeiras. Em 1953 a Sociedade passou a receber subvenções do Estado, por ter sido declarada de utilidade pública. O programa das escolas é uniforme, idêntico, aliás, ao de qualquer Grupo Escolar, e elas recebem visita anual do Inspetor Estadual. Em 1955 tínhamos duas dezenas e poucas crianças em todas elas (por falta de auxiliares, minhas estatísticas são muito falhas). 

Mas nossas escolas não se limitam só às crianças e à sala de aula. Cuidam também dos adultos, alfabetizando-os à noite, ensinando as mulheres a costurar a máquina e preparar alimentos mais sadios; distribuem aos pescadores fios para as redes e peças para os barquinhos que eles próprios constroem; aos lavradores dão formicida contra a saúva, ensinando-os a diversificar suas culturas e fazendo distribuição de sementes e remédios. Esse auxílio abrange umas seiscentas pessoas, atualmente.

Há pouco tempo, a Sociedade realizou um concerto beneficente e, com a renda, comprou um motor para um dos barcos, a fim de que os homens do Sertão de Ubatumirim possam levar víveres para vender ao caiçara de Itaguá mais barato do que os armazéns de Ubatuba. 

Padre João Beil em visita aos caiçaras isolados
Nosso bom aparelhamento didático faz com que as substitutas diplomadas deem preferência a trabalhar conosco. Em Itaguá temos professoras formadas, donas das cadeiras; na Almada e no Camburi, duas substitutas diplomadas; e na Caçandoca e no Sertão de Ubatumirim, professoras leigas, isto é, sem diploma, que fizeram estágio no Auxílio ao Litoral de Anchieta, em Santos. Três outras moças de Ubatuba, que atualmente moram comigo em São Paulo, também estão estudando para voltar ao litoral e ensinar seus conterrâneos. 

Reconheço que chegamos agora ao limite de nossas possibilidades de ação, A S.P.E.S. já provou que a dedicação muito pode, mesmo com parcos recursos, e que o caiçara, com um pouco mais de saúde, melhor alimentação e rudimentos de instrução, é outro homem. Entrei em contato com uns frades missionários aos quais pretendo passar meu trabalho de direção, continuando como simples colaboradora. Sob a égide da Igreja Católica, eles poderão realizar um trabalho em escala muito maior. 

Texto publicado na revista AMÉRICAS – Volume VIII, Número 3, Março de 1956. (revista mensal publicada pela União Pan-Americana em português, inglês e espanhol).