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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Jacob: a arte de mil maneiras


Texto: Celso Teixeira Leite

A dificuldade para conversar é grande, daí seu desespero. Imita instrumentos, lembra dobrados e outro gêneros, além de batidas na mesa para se comunicar, mas não desiste de contar sua história. A doença cobrou seu preço. Jacob, 75 anos, mais conhecido pela sua obra como artesão é na verdade um fanático por música desde a infância. “ Sou um misto de escultor, músico e poeta”, diz. Morador do Perequê-Açu desde que chegou em Ubatuba na década de 60 , tem 4 filhos ( Luiz, José, Denise e Cláudio), 8 netos e 2 bisnetos, tornou-se um artista da terra ao registrar costumes locais, o índio e o caiçara . Defensor ardoroso da natureza utilizou a madeira e suas formas, cores e desenhos para compor uma figura real ou abstrata.

Jacob
Tem um carinho especial pela figura de “A caiçara”, uma escultura que se olhada de lado é uma mulher e de outro um homem . O preto velho e o cachimbo, um robô de um metro de altura, o cachorro bassê de maçaneta e o pernilongo fazem parte de uma segunda fase da produção marcada pelo aproveitamento de sucata. Algumas das peças ainda estão em seu poder, mas a maioria acha-se exposta em residências dos Estados Unidos, Portugal, Japão ou Itália. A falta de reconhecimento pelo seu artesanato nos últimos anos levou Jacó a optar pela marcenaria pois não concordava em fazer qualquer coisa só para sobreviver.

Natural de Embu das Artes, aos 8 anos já expunha na Praça da República e ajudava o pai na mercearia com o aproveitamento das tábuas das caixas de madeira para consertar móveis. Daí surgiram os pedidos para andores e esplendores do Divino e para mobiliar casas inteiras. Sua paixão pela música o acompanha desde cedo e foi passada para os filhos. Recentemente deu uma flauta japonesa para um dos netos.
" Fiz parte da Banda de Embu e toquei sob a regência do maestro Antenor Carlos Vaz", afirma com orgulho. Sua vida de cigano fez com que morasse em Gonçalves, MG e Campos de Jordão e expor sua arte em Santos, Guaratinguetá e Taubaté, para finalmente, se fixar em Ubatuba.

Foi um dos defensores do autêntico artesanato caiçara participando da montagem da Feira de Arte e Artesanato, montada em 1971 na Praça Nóbrega mais tarde transferida para a Praia do Cruzeiro e da criação da Casa do Artista, na avenida Iperoig, que despertou muita polêmica com os comerciantes locais. João Teixeira Leite, pintor primitivista, lembra do episódio do Boi Natureza que desfilou no carnaval de 1983: “ Jacob pegou na praia um tronco de madeira parecido com um boi, adaptou um tonel que encheu de vinho, colocou as rodinhas e entrou na avenida para alegria dos foliões que tinham bebida de graça. E ainda teve a marchinha para animar a festa”, diz .

O armazém de secos e molhados do Jacob na av. Padre Manoel da Nóbrega, no Perequê-Açu, além de servir a famosa caninha “Ubatubana” produzida pelos Irmãos Chieus, era a oficina onde o visitante podia também conhecer o mais legítimo e criativo artesanato caiçara.

Um comentário:

Nicholas disse...

O Marino Jacob me dava carona em sua bicicleta nas minhas voltas da escola, segundo ou terceiro ano, primeiro grau; eu me lembro da imagem em madeira da índia adorando o sol, ateliê no Perequê-açú, década de 1970; mais tarde nos encontrávamos no Itaguá, década de 1980 e depois na curva do sumidouro, próximo à minha casa. Ele estudou piano com a Lola uma época. Aprendi com ele a fazer os deliciosos amendoins torrados cobertos com açúcar, com bicarbonato pra não grudar um no outro, Gersal também não conhecia. Se dependesse de mim voltava pra década de 1970.