ISC - Idealizado em 1993, o Instituto Salerno-Chieus nasceu como organismo auxiliar do Colégio Dominique, instituição particular de ensino fundada em 1978, em Ubatuba - SP. Integrado ao espaço físico da escola, o ISC tem a tarefa de estimular a estruturação de diversos núcleos de fomento cultural e formação profissional, atuando como uma dinâmica incubadora de empreendimentos. O Secretário Executivo do ISC é o jornalista e ex-prefeito de Ubatuba Celso Teixeira Leite.
O Núcleo de Documentação Luiz Ernesto Kawall (Doc-LEK), coordenado pelo professor Arnaldo Chieus, organiza os documentos selecionados nos diversos núcleos do Instituto Salerno-Chieus (ISC). Seu objetivo é arquivar este patrimônio (fotos, vídeos, áudios, textos, desenhos, mapas), digitalizá-los e disponibilizá-los a estudantes, pesquisadores e visitantes. O Doc-LEK divulga, também, as ações do Colégio Dominique.

LEK - Luiz Ernesto Machado Kawall (1927-2024), jornalista e crítico de artes, foi ativo colaborador do Instituto Salerno-Chieus (ISC) e do Colégio Dominique. É um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e do Museu Caiçara de Ubatuba.

20 novembro 2024

Letras Ubatubenses

COAQUIRA E O EMISSÁRIO DO REI 

Paulo Andrade 

“Voltam os Tamoyos a Iperohy, enterram

os seus mortos, e Coaquira cura os feridos.

(Gonçalves de Magalhães in Confederação dos Tamoyos) 

Ubatuba, Capitania de São Vicente – 1550

Coaquira estava em sua oca, quando foi chamado por um índio da aldeia:

— Murumuxaua, tem visita!

— Quem é? — Inquiriu o chefe da Aldeia Iperoig.

— Homem branco português. Disse que tem urgência em falar com o murumuxaua.

— Mande entrar! — ordenou o superior iperoiguense.

Um homem de meia idade, barbudo, com roupas pesadas entrou no recinto da oca e saudou;

— Vida longa a Coaquira, bravo chefe de Iperoig!

— O que Portugal quer de Coaquira? — perguntou rispidamente.

O homem continuou:

— Sou emissário de Dom João III, enviado diretamente ao senhor. O rei sabe de suas habilidades de cura e precisa de sua ajuda.

— Na casa do rei tem os melhores curandeiros brancos.

— Sim, mas não conseguem a cura.

— Tem coisas que ninguém pode mudar, porque já estão escritas nas leis do céu.

— O que o senhor quer dizer?

— Diz a João III para aceitar seu destino. Coaquira só pode ajudar o rei a sofrer menos.

— O que o senhor recomenda?

— João sofre da doença da tristeza. É o peso do reino. Seu governo o escraviza. Tem muitas dívidas. É considerado o rei mais pobre da Europa. Seus pares também reis se referem a ele com chacota. Não pode pagar as dívidas dentro e fora de Portugal com os pesados juros. Ele queria estar livre da carga, mas não pode. Isso o faz sofrer da doença da tristeza.

Ele só pode se livrar do fim que lhe está escrito se deixar o trono. Ele passa a noite pensando nisso, não dorme. Vejo que o rei cochila no trono, enquanto despacha.

— Como o senhor sabe de tudo sem nunca ter visto o rei?

— Está tudo escrito e Coaquira lê nas linhas do livro  do céu. Seu rei não come direito, tem problemas de intestino, a comida não lhe faz bem.

— O que fazer murumuxaua?

— Coaquira não pode mudar o que o plano superior determinou, mas leva isso! É Cambará. Vai ajudar o rei a dormir e comer melhor. Mas não pode mudar o que vai acontecer daqui a sete anos. O rei deve aproveitar esse tempo para viver bem.

— Como é que se usa isso Murumuxaua?

— O rei vai fazer chá da folha e tomar de manhã antes de comer e à noite, antes de dormir. Um vaso pequeno basta por vez.

— Obrigado murumuxaua, o rei mandou-te esse agrado. — disse o fidalgo estendendo uma bolsa de moedas de ouro.

— A ajuda de Coaquira já foi paga pelo céu, Tupã já pagou. Agradeço a ajuda, mas prefiro que dê às crianças pobres dos orfanatos de Lisboa.

— Será feita a tua vontade murumuxaua.

O emissário saiu levando o pacote de ervas dado por Coaquira. A cada seis meses o emissário voltava para renovar a carga do remédio que ajudava o rei a se sentir melhor.

Coaquira seguiu ajudando o rei e a quem o procurava para curar seus males. Era murumuxaua, com boa vocação para Pajé.

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