COAQUIRA E O EMISSÁRIO DO REI
Paulo Andrade
“Voltam os Tamoyos a Iperohy, enterram
os seus mortos, e Coaquira cura os feridos.”
(Gonçalves de Magalhães in Confederação dos Tamoyos)
Ubatuba, Capitania de São Vicente – 1550
Coaquira estava em sua oca, quando foi chamado por um índio da aldeia:
— Murumuxaua, tem visita!
— Quem é? — Inquiriu o chefe da Aldeia Iperoig.
— Homem branco português. Disse que tem urgência em falar com o murumuxaua.
— Mande entrar! — ordenou o superior iperoiguense.
Um homem de meia idade, barbudo, com roupas pesadas entrou no recinto da oca e saudou;
— Vida longa a Coaquira, bravo chefe de Iperoig!
— O que Portugal quer de Coaquira? — perguntou rispidamente.
O homem continuou:
— Sou emissário de Dom João III, enviado diretamente ao senhor. O rei sabe de suas habilidades de cura e precisa de sua ajuda.
— Na casa do rei tem os melhores curandeiros brancos.
— Sim, mas não conseguem a cura.
— Tem coisas que ninguém pode mudar, porque já estão escritas nas leis do céu.
— O que o senhor quer dizer?
— Diz a João III para aceitar seu destino. Coaquira só pode ajudar o rei a sofrer menos.
— O que o senhor recomenda?
— João sofre da doença da tristeza. É o peso do reino. Seu governo o escraviza. Tem muitas dívidas. É considerado o rei mais pobre da Europa. Seus pares também reis se referem a ele com chacota. Não pode pagar as dívidas dentro e fora de Portugal com os pesados juros. Ele queria estar livre da carga, mas não pode. Isso o faz sofrer da doença da tristeza.
Ele só pode se livrar do fim que lhe está escrito se deixar o trono. Ele passa a noite pensando nisso, não dorme. Vejo que o rei cochila no trono, enquanto despacha.
— Como o senhor sabe de tudo sem nunca ter visto o rei?
— Está tudo escrito e Coaquira lê nas linhas do livro do céu. Seu rei não come direito, tem problemas de intestino, a comida não lhe faz bem.
— O que fazer murumuxaua?
— Coaquira não pode mudar o que o plano superior determinou, mas leva isso! É Cambará. Vai ajudar o rei a dormir e comer melhor. Mas não pode mudar o que vai acontecer daqui a sete anos. O rei deve aproveitar esse tempo para viver bem.
— Como é que se usa isso Murumuxaua?
— O rei vai fazer chá da folha e tomar de manhã antes de comer e à noite, antes de dormir. Um vaso pequeno basta por vez.
— Obrigado murumuxaua, o rei mandou-te esse agrado. — disse o fidalgo estendendo uma bolsa de moedas de ouro.
— A ajuda de Coaquira já foi paga pelo céu, Tupã já pagou. Agradeço a ajuda, mas prefiro que dê às crianças pobres dos orfanatos de Lisboa.
— Será feita a tua vontade murumuxaua.
O emissário saiu levando o pacote de ervas dado por Coaquira. A cada seis meses o emissário voltava para renovar a carga do remédio que ajudava o rei a se sentir melhor.
Coaquira seguiu ajudando o rei e a quem o procurava para curar seus males. Era murumuxaua, com boa vocação para Pajé.
Nenhum comentário:
Postar um comentário