ISC - Idealizado em 1993, o Instituto Salerno-Chieus nasceu como organismo auxiliar do Colégio Dominique, escola particular de Ubatuba (SP), fundada em 1978 por Ana Maria Salerno de Almeida, a "Prô Aninha". A criação do Instituto Salerno-Chieus, como fomentador das atividades culturais no Colégio Dominique, é uma homenagem para Ana “Salerno” e Carolina “Chieus”, matriarca da família que, por várias décadas, manteve uma fazenda onde hoje estão inseridas as instalações da escola. Integrado ao espaço físico do colégio, o ISC tem a tarefa de estruturar diversos núcleos de estímulo à cultura e à formação profissional, atuando como uma dinâmica incubadora de empreendimentos. O Secretário Executivo do ISC é o jornalista e ex-prefeito de Ubatuba Celso Teixeira Leite.
O Núcleo de Documentação Luiz Ernesto Kawall (Doc-LEK), coordenado pelo professor Arnaldo Chieus, organiza os documentos selecionados nos diversos núcleos do Instituto Salerno-Chieus (ISC). Seu objetivo é arquivar este patrimônio (fotos, vídeos, áudios, textos, desenhos, mapas), digitalizá-los e disponibilizá-los a estudantes, pesquisadores e visitantes. O Doc-LEK divulga, também, as ações do Colégio Dominique.

LEK - Luiz Ernesto Machado Kawall (1927-2024), jornalista e crítico de artes, foi ativo colaborador do Instituto Salerno-Chieus (ISC) e do Colégio Dominique, onde, como tributo, há uma sala de aulas que leva o seu nome. É um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e do Museu Caiçara de Ubatuba.

18 setembro 2023

AVIAÇÃO EM TAUBATÉ

 NINJA: Biblioteca NINJA
 
Resenha 
Um livro que conta a história da aviação em Taubaté (SP) 
Por Arnaldo Chieus *
 
“A aviação em Taubaté e os 25 anos do Aeroclube Regional” foi editado em 2018. Com a publicação deste livro seus autores, Cesar Rodrigues e Carlos Caetano Florentino, prestam à memória da aviação em Taubaté o inestimável trabalho de reunir a síntese do processo histórico da aviação, desde o primeiro pouso de Anésia Pinheiro Machado, até a importância da Aviação do Exército.
 
 Pode-se afirmar que a aviação em Taubaté teve início em 1922, na primeira aterrissagem de uma aeronave em campo improvisado nas margens da ferrovia. O pouso realizado por Anésia Pinheiro Machado, então com 18 anos, pilotando o avião Caudron G-3, de fabricação francesa, batizado de Bandeirante, com motor 120 HP, foi parte da travessia aérea entre S. Paulo e Rio de Janeiro por ocasião das comemorações do centenário da independência do Brasil. O reide foi iniciado no dia 5 de setembro, com aterragens em Taubaté, Guaratinguetá, Cruzeiro, Pinheiral (RJ) e, por fim, no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, em 8 de setembro de 1922. Importante ser lembrado que a essa mesma época outro reide havia partido de Santiago (Chile), patrocinado pela Aviação do Exército chileno também em direção ao Rio de Janeiro, sob o comando do capitão Diego Aracena. Este reide não logrou êxito até o final uma vez que a aeronave chilena fez um pouso forçado na praia do Itaguá, em Ubatuba, impossibilitando o percurso. O reide chileno está descrito no livro "A Jornada Aérea: dos Andes ao Atlântico", de Cesar Rodrigues. 
 
A revolução paulista e as operações aéreas
 
Palco de operações aéreas durante a Revolução Constitucionalista de 1932, Taubaté apoiou as (operações aéreas) manobras das aeronaves paulistas ante as tropas federais. E com a construção de um campo de aviação grande número de aeronaves passou a circular no espaço aéreo da região do Vale do Paraíba com pousos em Taubaté, Pindamonhangaba, Cruzeiro e Lorena. 
Com o fim da revolução constitucionalista, a cultura aeronáutica já estava enraizada no cerne do povo taubateano e esse espírito levou à criação do seu primeiro aeroclube. E todo esse entusiasmo contou com o apoio da elite industrial da cidade. Octavio Guizard, da Cia. Taubaté Industrial CTI, destinou terras de sua propriedade para a construção e instalação de uma pista de pouso onde atualmente se localiza o bairro Parque Aeroporto. Com o passar dos anos o aerodesporto de Taubaté foi referência regional e contou em seu plantel com grandes e renomados instrutores.
 
Um pouso em Tremembé - A Fazenda Maristela 
 
Com a expansão industrial de Taubaté a pista de pouso foi desativada para dar lugar a um segmento na fábrica da Ford e de um novo bairro em Taubaté, o Parque Aeroporto em alusão ao antigo campo de pouso cedido pela família Guizard. 
A partir de então as operações do Aeroclube passaram a ser realizadas no campo da centenária Fazenda Maristela, erguida pelo barão de Lessa no século XIX para o cultivo do café e depois rebatizada pelos monges trapistas franceses da Ordem de Maristela. Localizada no vizinho município de Tremembé, a fazenda dispunha de um aeródromo e serviu ao Aeroclube nos últimos 15 anos de sua existência, formando e brevetando novos aviadores, tendo vários se tornado pilotos comerciais. 
O aeródromo da Fazenda Maristela, após a desativação do antigo aeroclube, serviu para pousos ocasionais e, posteriormente, abrigou oficinas para a manutenção de aeronaves ultraleves. 
 
As pioneiras da aviação em Taubaté
 
Resgatando os 25 anos do Aeroclube Regional de Taubaté o livro faz o registro de duas aviadoras que se destacaram e com seus exemplos incentivaram a prática da aviação civil nos meados das décadas dos anos 1930 e 1940: Joanna Martins Castilho e Elisa Braga, ambas treinadas pelo instrutor Astério Braga. 
 

Joanna Martins Castilho, natural de S. Paulo, nasceu em 1924 e foi apoiada pelos pais para realizar seu sonho de se tornar piloto de aviação. Sua família foi morar em Taubaté e aos 13 anos começou a frequentar aulas no Aeroclube de Taubaté demonstrando grande vocação para aprender manobras aéreas. Joanna, a Joaninha, como ficou conhecida, realizou seu primeiro voo solo com 14 anos e, aos 15 anos ganhou o primeiro campeonato de acrobacia aérea em 26 de outubro de 1940. Seus feitos como aviadora acrobata foram registrados pela imprensa da época e seu nome ganhou dimensão nacional. Joanna Martins Castilho voou desde 1938 até casar-se, em 1943, com Almerindo D'Alessandro, piloto brevetado também pelo Aeroclube de Taubaté, onde ambos também fizeram aulas de paraquedismo. Faleceu no dia 14 de junho de 1991 aos 67 anos de idade.
 

Maria Elisa Braga, também elevada à categoria de pioneira da aviação, foi brevetada em 1941 e nesse mesmo ano obteve a licença de piloto-aviador Internacional, em 8 de junho de 1941, pela Federação Aeronáutica Internacional. Além de pilotar aeronaves, Elisa Braga também saltava de paraquedas. Em 1941, durante as comemorações da Semana da Asa no aeródromo de Manguinhos, no Rio de Janeiro, após ter feito voos acrobáticos, realizou um salto de paraquedas, saindo de um avião da FAB a 500 metros de altura. Maria Elisa Braga, piloto e paraquedista, nasceu em Taubaté em 17 de novembro de 1903. Foi casada com o aviador e instrutor de voo Astério Braga.
 
Um taubateano nos céus da Itália
 
 
Nascido em Taubaté em 07 de outubro de 1922, Fernando de Barros Morgado ao atingir a maioridade ingressou no CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva) e, ao tornar-se a aspirante, candidatou- se para estar entre os oficiais e praças que compunham o núcleo do 1° GAvCA (Grupo de Aviação de Caça).
 
Após treinamento no Brasil, foi enviado aos Estados Unidos para o curso de pilotagem face à eclosão da Guerra. Concluída sua formação retornou ao Brasil onde recebeu o Gládio Alado, símbolo da Força Aérea Brasileira, na cor branca, que simbolizava a diferença (entre) com os oficiais da ativa, os quais usavam a insígnia na cor preta. 
 
E assim, como integrante desse grupamento, foi enviado para a Itália para voar o P-47 Thunderbolt, do "Senta a Pua". Nos campos da Itália executou inúmeras missões de combate e com o fim do conflito (vou e com o fim do conflito) voltou ao Brasil e passou a desempenhar funções de instrutor na Base Aérea de Santa Cruz. 
 
Ao dar baixa na Força Aérea, como segundo tenente, seguiu carreira na aviação civil, como comandante na Panair do Brasil. Fernando de Barros Morgado morreu em decorrência de desastre aéreo no dia 16 de junho de 1955 nas proximidades de Assunção, no Paraguai, a bordo de Constallation 263, num voo Londres-Buenos Aires, com escalas no Rio de Janeiro e S.Paulo. 
 
O capítulo final é dedicado ao Cavex - Comando de Aviação do Exército, a principal base aérea do Exército Brasileiro e sua importância estratégica por estar localizada em Taubaté, próximo da indústria aeronáutica e dos importantes centros de pesquisa e infraestrutura aeronáutica do Brasil. Desde 1993 a Base Aérea foi utilizada pelo Aeroclube Regional de Taubaté, que fazia uso de dois hangares civis, abrigando uma escola de pilotos e comissários de bordo.
 
* Arnaldo Chieus é professor, advogado, entusiasta da aviação e membro do Conselho Gestor do Instituto Salerno-Chieus

10 agosto 2023

A AVIAÇÃO EM LORENA

A AVIAÇÃO EM LORENA – Traços Históricos - uma resenha



  Por Arnaldo Chieus*

 
O livro A Aviação em Lorena: Traços históricos, de Cesar Rodrigues, faz uma análise do surgimento da aviação em Lorena, SP, resgatando os traços históricos desde a memorável aventura de Anésia Pinheiro Machado em 1922 quando esta fez um sobrevoo sobre Lorena em seu pioneiro reide aéreo de São Paulo ao Rio de Janeiro, nas comemorações ao Centenário da Independência do Brasil. Por se tratar de um trabalho com vista à contribuição dos registros históricos relativos aos feitos de natureza aeronáutica, o autor optou por dividir a evolução histórica da aviação em Lorena em três fases, a partir da construção da pista de pouso que serviu às tropas paulistas na Revolução Constitucionalista de 1932; a Escola de Pilotagem do Aeroclube e a aviação comercial e, finalmente, o uso do aeródromo para aeronaves que faziam a rota Rio-São Paulo, como a Esquadrilha da Fumaça. Na década de 1930, Lorena, como as demais cidades do Vale do Paraíba, passou a ser região estratégica para as tropas paulistas que lutavam contra as forças federais. Na área que seria futuramente implantado o Horto Florestal foi construída uma pista de pouso, em apoio à Aviação Constitucionalista. 

A Base Aérea e o Canteiro de Mudas 

O Campo de Aviação transformou-se em Base Aérea para as Forças Constitucionalistas e a pista um dos principais pontos de apoio à Aviação, juntamente com Guaratinguetá e Taubaté. Esse campo, criado inicialmente para servir como Canteiro de Mudas, transformou-se no primeiro Campo de Aviação de Lorena, construído por voluntários, em 1932, ao lado da Estrada de Ferro Central do Brasil, sendo um dos principais pontos de apoio às operações de aviões e um dos principais pontos de apoio às operações de aviões no município de Lorena. 
A partir desse evento histórico o autor registra as importantes operações aéreas paulistas realizadas na então chamada pista do Horto Florestal e a mobilização do efetivo para barrar o avanço das tropas federais no Vale do Paraíba e na frente mineira. Finda a Revolução Constitucionalista com a assinatura do armistício, o Campo de Aviação passou a servir às aviações do Exército e da Marinha para a realização de manobras. 
O livro é de uma excelente riqueza no registro da evolução histórica e social da cidade de Lorena resgatando e registrando os mais significativos momentos da aviação e sua importância no cenário histórico de Lorena.

Manobras militares
A situação geográfica de Lorena mostrou seu grande valor estratégico e geopolítico para abrigar as forças militares paulistas para barrar o avanço das tropas federais no Vale do Paraíba e na frente mineira. E o campo de aviação foi um ponto de pouso e decolagem além de camuflar as aeronaves paulistas que ali estacionavam. Dessa forma a contribuição lorenense foi também fator pendular para o fim do conflito e assinatura do armistício pondo fim à Revolução Constitucionalista. 
O campo de aviação continuou em operação e em 1940 contou com um Centro de Operações para servir às manobras militares das aviações do Exército e da Marinha. Por várias ocasiões o local foi escolhido para que nele fossem passadas em revista as tropas pelo presidente da república Getúlio Vargas e seu ministro da guerra general Eurico Gaspar Dutra. 

O Aeroclube de Lorena e a aviação comercial 
Hangar do Aeroclube de Lorena

A grande movimentação de aeronaves e pilotos na cidade de Lorena associada a uma intensa campanha de incentivo à campanha nacional de aviação foi o incremento para mobilizar a fundação de um aeroclube. 
O autor nos traça as principais momentos do aeroclube desde sua fundação com a descrição das principais aeronaves, pilotos e instrutores. Amparado em depoimentos, levantamento de jornais da época e amplo registro fotográfico a trajetória do aeroclube e sua diretoria nos é desenhada num panorama histórico, dando conta de sua importância na região do Vale do Paraíba. 

DC3 Douglas Dakota que operava na rota Rio-Lorena-S. Paulo

O autor também faz em seu relato o importante registro da aviação comercial em Lorena. A empresa aérea TAL – Transportes Aéreos Limitada – entre os anos de 1948 fazia a rota Rio-São-Paulo e a cada dois dias pousava, desembarcava e embarcava passageiros e decolava com duas aeronaves empregadas no percurso. 

A Esquadrilha da Fumaça na rota de Lorena 
O antigo Horto Florestal, hoje Floresta Nacional de Lorena, onde em suas margens surgiu o primeiro campo de aviação é hoje um símbolo na proteção da mata atlântica remanescente. Por diversas ocasiões a Esquadrilha de Demonstrações Aéreas esteve em Lorena fazendo suas demonstrações sobrevoando o Horto Florestal. Laços efetivos e fraternos ligavam os integrantes dos “fumaceiros” com os lorenenses. Shows programados e eventuais aconteciam sempre muito concorridos. Isso ocorreu até 1973 quando o aeródromo viria a ser fechado. 
Grandes pilotos acrobatas visitaram Lorena em diversas oportunidades registrando-se principalmente a passagem de Alberto Bertelli, o primeiro piloto honorário da Esquadrilha da Fumaça e de Arthur Braga, outro mito da acrobacia aérea brasileira. 

Uma trilha na história

Voluntários produzindo os marcos alusivos às visitas dos presidentes Vargas e Dutra ao aeródromo de Lorena

Uma placa num marco histórico da Floresta Nacional de Lorena registra os principais fatos históricos no Campo de Aviação de Lorena. Do antigo hangar restam ruínas. Somente a memória afetiva do autor foi capaz de recompilar esse painel de relatos que resgatam os traços históricos das atividades aéreas em Lorena. Do extinto aeroclube restam apenas as paredes que serviam como quadro para as orientações que os comandantes passavam para as tropas. O tempo passou e aquele menino que brincava de montar avião transformou-se no piloto e controlador de trafego aéreo, jornalista e historiador dos feitos de um tempo onde a cultura aeronáutica estava vivamente presente. O livro é um relato que registra a trajetória da aviação em Lorena e sua importância no contexto histórico. Das antigas ruínas do aeroclube e seu hangar surgiram uma trilha ecológica e um sítio histórico com os marcos alusivos às visitas dos presidentes Getúlio Vargas e Gaspar Dutra. E a Floresta Nacional que a tudo esteve sempre presente. 

*Arnaldo Chieus é professor, advogado, entusiasta da aviação e membro do Conselho Gestor do Instituto Salerno-Chieus