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sexta-feira, 31 de julho de 2015

MONTEIRO LOBATO

No dia seguinte amanheceu chovendo, e, como não me era possível eu à praia em buscado pescado fresco, fui ao frigorífico, nesse tempo funcionando onde atualmente está o D.E.R. Da ponte avistei o Dr. Felix Guisard, proprietário do sobradão de Baltazar Fortes, parado à porta principal e em animada palestra com um senhor decentemente trajado, que olhava com viva curiosidade todos os que dali se aproximavam. Acostumada a ver poucos turistas na cidade, fiz um demorado exame do forasteiro. Achei-o bem simpático. Comprei o pescado e, ao sair, notei que ele me acompanhava com o olhar. – Deve ser por causa das vestes masculinas que uso, pensei, para logo depois, absorvida pelo trabalho, esquecê-lo completamente. 

Por este tempo estavam construindo a ponte principal que liga a cidade à praia do Perequê-Açú. – “Com certeza é um dos engenheiros” – pensei. À tarde refugiei-me no quintal para escrever algumas das impressões do dia anterior, quando de minha excursão ao Tenório. Ali fui encontrar-me Albino, que viera do correio com a correspondência, perguntando-me surpreso: 

– Idalina! Quem é aquela senhora que está sentada na sala? 

– Não sei! Tia Rita não disse nada! 

– A velha não está aí. Foi à venda. Vamos ver querida? 

– Vamos. 

Simpática e elegantemente trajada, a senhora ergueu-se sorrindo ao avistar-nos: 

– Bati palmas, ninguém atendeu; fiquei, então, absorvida neste álbum de visitas de Ubatuba, esquecendo-me de perguntar ao senhor, quando entrou, se era dono do Hotel. 

– Eu bem que vi que estava distraída e fui perguntar à minha mulher quem a senhora era. Ela, porém, ignorava sua presença aqui. Quero pedir-lhe desculpas. Estamos prontos para servi-la no que estiver ao nosso alcance. 

Voltando o luminoso olhar para mim, a visitante explicou: 

– É simples: caso não seja impertinência minha, gostaria de saber se a senhora poderá conceder hoje à noite, alguns minutos ao meu marido. Ele veio a Ubatuba conhecer a cidade e a “Solitária de Iperoig”. Se não me engano, estou em sua presença, não é verdade? 

A um gesto meu afirmativo, ela continuou: 

– O principal motivo da minha visita é de dizer a ambos que meu marido se chama José Bento Monteiro Lobato; é escritor e tem interesse em conhecê-la pessoalmente. 

Foi assim que fiquei conhecendo a esposa daquele que, desse dia em diante, seria um de meus maiores amigos. Monteiro Lobato e senhora gostavam de mim, não porque soubesse fazer quitutes, mas por qualquer motivo que eu não conseguia decifrar. Ele, o grande escritor, esta à minha procura. Hospedado no Hotel Felipe, nosso único e competente rival no ramo da hotelaria na época, queria visitar-me e conhecer-me.

E foi nessa noite chuvosa, precisamente quando o relógio da Matriz batia oito horas da noite, que o velho salão do Ubatuba Hotel teve a honra de receber o insigne escritor. Com alegria, ele conduziu a conversa habilmente para o terreno que me interessava, e contou-me porque viera a Ubatuba. Disse-me ter lido na “Folha da Manhã” uma crônica de Willy Aureli, na qual me apresentava ao público como escritora, revelando ainda a minha humilde, mas honrosa, profissão. Willy contara ter eu apenas o primeiro ano do curso primário, caracterizando-me como escritora iletrada; chamara-me a “Solitária de Iperoig”. Lobato, curioso, viera conhecer Ubatuba e a amiga de Willy Aureli. 

Ao terminar a explicação sobre sua presença em nossa cidade, perguntou, entre sério e divertido: 

– Você me quer dizer, Idalina, com que tempo e onde você vai buscar o material necessário a seus escritos? 

– Bem. Eu tenho meus dias de folga, e o restante encontro-o na fantasia dos meus sonhos de verdade. 

– Ou de mentira... agregou. 

– De ambos. Mas, para ser franca, Dr. Lobato, eu escrevo mais sobre os sonhos que tenho enquanto durmo, do que a respeito daqueles que tenho quando estou acordada. 

– E por que esta predileção? Perguntou sorrindo.

– Vou dizer-lhe. É que, durante o dia, trabalho muito, e misturo tudo: camarão, peixe, literatura...

 Soltou uma gostosa gargalhada. 

– Eu sentia que você era assim! Não me quer contar um dos seus sonhos? 

Até hoje pergunto a mim mesma a razão porque escolhi mentalmente um sonho que tivera quando moradora na Enseada. Não conhecia ainda acidade de Ubatuba, e meu marido atravessava, nessa época, uma fase difícil, pensando no lugar onde deveríamos fixar residência. Eu tivera esse sonho, que nos serviu de rumo certo, quanto ao caminho a seguir. Contei-lhe então, como pude, enquanto ele ouvia atento, “O Sonho”.

Noite de tempestade. Sozinha, eu vagava a esmo, molhada, transida de frio, sem uma porta que se abrisse para me acolher. Depois de muito vagar, enderecei minha mente ao Pai misericordioso. Então vi uma casa enorme, de paredes enegrecidas pelo tempo, e, nesta soturna hesitação, uma porta se abrira. Para lá me encaminhei, mas, ó Deus! – a casa tinha uma escada sem degraus. 

Fiz uma pausa, e ele com uma expressão divertida no simpático semblante, perguntou: 

– “E como você subiu, Idalina? 

– Foi essa força extraordinária, que cada um de nós traz em si, que me ajudou. Por três vezes consecutivas tentei subir, mas, para meu desespero, escorregava sempre. Por fim, não sei como, achei-me no topo. À minha frente, abria-se uma estrada larga e sombreada de trepadeiras cheias de flores, que derramavam suas brancas e perfumadas pétalas sobre minha cabeça. Parei, interdita. A poucos passos de distância, um homem todo de branco falava a uma multidão, que o ouvia respeitosamente. 

Nesse momento, ele volveu a cabeça. Seus olhos encontraram-se com os meus, enquanto seus lábios terminavam de pronunciar esta frase: – “Todo aquele que vier a mim, encontrará a glória.” 

Mas... então, estremeci, ferida pela semelhança profunda de Lobato com o ser do meu sonho. 

– Que há Idalina? Cansada? indagou. 

– Não! Nem um pouco. Mas, acredite-me: a tal visão era o senhor! 

Olhou para mim pensativamente e disse: 

– “Eu sabia que já nos tínhamos encontrado antes. Porém, nesta existência, é a primeira vez.” 

Já refeita da surpresa que sentira ao verificar, depois de oito longos anos que, afinal, encontrara o homem com quem sonhara naquela noite de tempestade, silenciei. 

–Terminou, Idalina? perguntou interessado. 

– Sim, senhor. Mas, estou pensado que o senhor não tem cara de santo para dar glória àqueles que se aproximam de sua pessoa. 

Ele passou lentamente a mão pelo queixo, onde a barba feita de véspera despontava violenta. – Isto é o que você diz. Muita gente errada por este mundo a fora, já me chamou de santo. E, levantando-se: 

 – “Vamos, Purezinha, que este fenômeno aqui, de dia, é cozinheira e a noite é viajante sideral...” 

Terra Tamoia – páginas 75 /79.

Um comentário:

Ligia Moreira disse...

Idalina viajante sideral, Lobato um reecarnacionista? Não importa, importa a casa a porta, peixe, camarão e poesia.