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sexta-feira, 31 de julho de 2015

WILLY AURELI

Hoje, passados tantos anos, vejo a praça quieta, simples e bela; a igreja imponente simboliza a bênção de Deus sobre Ubatuba.
Alguém, a quem até o momento estou ligada por indestrutível amizade, o farmacêutico Washington de Oliveira, vem despertar-me dos meus sonhos. Caminhando sorridente ao meu encontro, diz:
– Uma boa notícia para você, Idalina! Um amigo de São Paulo me pede para alugar dois quartos no seu hotel, para ficar mais perto da praia. Pode ser?
– Perfeitamente, meu amigo. Telegrafe que os lugares estão reservados.
– Hoje mesmo telegrafarei e logo ele estará por aqui.


Assim foi que conheci Willy Aureli, que seria o meu anjo da guarda na estrada por onde eu teria que iniciar os meus vacilantes passos na literatura. Gigante físico, cabelos castanhos, olhar claro e suave, como de criança. Apenas conversamos e já nos tornamos bons amigos. Como eu, ele era, e é, um namorado das belezas simples da terra tamoia. 
Gostava de saborear o café da tarde, no momento em que eu o coava. Foi num dia chuvoso que, impedido de tomar o banho de mar, me procurou na cozinha, onde eu trabalhava, para o bate-papo gostoso de costume. E foi sorrindo que me disse:

– Vai perdoar minha intromissão em seus domínios, mas eu adoro café passado na hora.

– Então faça o favor de sentar – disse-lhe eu, lisonjeada pela sua companhia. Sente-se enquanto vou buscar o pão.
Eu rabiscava em pedaços de papel, nos raros momentos de sossego e às escondidas do Albino, que era ciumento de tudo quanto não se referisse a ele. Longe estava de sonhar algum dia sair da minha modestíssima posição, para vir ocupar colunas de jornais e escrever um livro! Esses rabiscos, eu os escondia no bojo de algumas latas, confundidas com outras de mantimento, alinhadas nas rústicas prateleiras da minha cozinha.
Enquanto saí para ir à cata do pão, Willy Aureli guiado por esse instinto peculiar aos repórteres natos, farejou os meus escritos e, ao voltar à cozinha, encontrei-o mergulhado nos meus rabiscos, esquecido do café de que tanto gostava.
– Oh!... – exclamei, sem saber o que mais dizer. – São rabiscos com que vou me distraindo nas horas vagas...
Olhou-me demoradamente, procurando decifrar minha alma. Depois, dobrando as folhas, meteu-as no bolso do blusão.
– São meus segredos, “seu” Willy – argumentei meio embaraçada.
– Deixaram de ser seus. Agora também me pertencem. Sabe, dona Idalina? Acabo de conhecer uma escritora iletrada, mas que tem estilo, tem alma, tem inclinação. Puxa! Até parece incrível!
Sorveu o café, rebuscou em outros potes, e despedindo-se:
– Ainda terá uma surpresa...
Foi uma alegre temporada aquela, em que eu, insignificante criatura, tive a ventura de conhecer o jornalista, escritor e sertanista Willy Aureli. Quero-lhe muito, e não há um só dia que passe se que eu peça a Deus por este amigo, dotado de tão nobres qualidades.
Ele partiu. Eu fiquei sonhando com o olhar claro e simples, como uma réstea de luz que, daí por diante, iria me guiar pelo escuro caminho que eu vinha trilhando.
Passaram-se dias, e qual não foi minha surpresa quando a “Folha da Manhã” publicou uma reportagem em que ele, Willy, contava dos meus sonhos e aspirações, da minha forma de escrever e sentir. E lá estava a minha primeira crônica, “Mentira Viva”, revelando ao público de minha terra o sonho de uma hoteleira, de dizer a todos as belezas de Iperoig. Pensei morrer de alegria!
Terra Tamoia,páginas56/58.



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