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sábado, 26 de setembro de 2015

Coronel Ernesto de Oliveira

Gosto de sonhar e vou buscar no passado, ali por volta de 1936, o vulto nobre e esforçado de um ubatubense de verdade, Coronel Ernesto de Oliveira, inteligente e convincente no modo de tratar seus semelhantes, pois era Coletor Estadual na cidade, nas horas vagas advogava e quase sempre ganhava as causas de seus constituintes. Pai extremoso, trabalhava à luz de lampião, até altas horas da noite, para poder manter seus filhos estudando fora de Ubatuba. 

A primeira entrevista que tive com o senhor Ernesto de Oliveira foi motivo de funda surpresa para mim. É que eu, recém chegada de Santos, fora residir na Praia da Enseada e fizera essa acidentada viagem por mar na lancha “Ubatuba”, que apontava semanalmente na tranquila praia dos passados anos. 

Uma pequena venda dava o pão de todos os dias. Meu marido, turrão como ele só, resolveu não pagar os impostos de nossa pequena casa de negócios. Dizia-me que iria só negociar por quatro meses e não valia a pena pagar por tão pouco tempo. 

E eu, para quem as palavras dele eram lei, achei muito natural continuarem as coisas como estavam. O caso é que uma bela manhã me encontrava na praia, esperando Albino que estava em Caraguatatuba, quando veio ao meu encontro um cidadão descalço, de chapéu de palha, simpático, que, com extrema gentileza, fez-me ver que meu marido deveria pagar os impostos atrasados na Coletoria Estadual, da qual o Sr. Ernesto de Oliveira era coletor. E assim foi que no dia seguinte travei conhecimento com o Coronel, fidalgo no tratar, dono de fluente e castiça linguagem portuguesa, que me cativou logo. E desde esse dia em que, por ordem de Albino, paguei nossa dívida atrasada com o Estado, contraí também a maior de todas as dívidas, a de gratidão e constante amizade para com o Coronel Ernesto. 

Quando mudei da Praia da Enseada para a cidade, tornei-me vizinha da família do coletor. Ele e eu já éramos amigos de verdade. Muito mais tarde aprendi a admirar seus filhos, os quais, um a um, foram se formando e se tornando com o correr dos anos a família mais unida que já conheci, muito me orgulhando de ser por eles considerada. Deposito com estas humildes frases a minha saudade sobre o túmulo do ser que, quando vivo, concedeu a mim, uma desconhecida, a sua consideração de cavalheiro e a sua amizade de irmão. 

Bom dia Ubatuba 
Páginas 91/92.

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