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sábado, 26 de setembro de 2015

TERRA TAMOIA - Wladimir de Toledo Piza

Terra Tamoia é Ubatuba. 

Wladimir T. Piza
É Iperoig. É o lugar onde um dia Manoel da Nóbrega e José de Anchieta chegaram, navegando e canoas feitas de troncos de árvores, partindo da Bertioga para tentar o recurso supremo na obtenção da paz entre portugueses e índios tamoios. Estes eram aliados dos franceses de Villegagnon. E, enquanto contassem com o apoio dessa tribo numerosa e aguerrida, estariam os calvinistas tranquilos no Rio de janeiro, enquanto os católicos portugueses, se São Paulo de Piratininga, ficariam sempre aguardando sua expulsão do território recém-ocupado no planalto paulista. 

Ainda que pudessem resistir e manter o sul do Brasil e a região situada na Bahia para cana, os católicos não poderiam impedir a divisão das terras de Santa Cruz em três países: extremo note e extremo sul, falando a língua portuguesa e rezando pelo catecismo de Roma. O centro, francês e calvinista. 

Era indispensável expulsar os franceses e, para isso, ganhar a confiança dos índios tamoios, seus aliados. José Adorno providenciou a viagem. E os padres partiram ao encontro dos selvagens ferozes.

Em Iperoig, depois de longas tentativas, foi resolvido um encontro dentre enviados dos padres e portugueses de Piratininga. Nóbrega viajava com eles, mas, para penhor da vida dos embaixadores, fica Anchieta na terra tamoia, como refém. E é ali, sozinho, assediado diariamente por todas as tentações, mas com a alma cheia de fé e elevada pela paisagem maravilhosa, que compõe o seu poema à Virgem. Concluída a Paz de Iperoig, como ficou conhecido o episódio, vem a expulsão dos franceses, e, com ela a consolidação da unidade nacional. 

O Brasil salvo e gigante, viria o surgimento de um núcleo cheio de vitalidade em Ubatuba. E, quando o café chega ao Vale do Paraíba, eis Ubatuba a cidade mais rica de São Paulo. Por três anos sua renda é maior que a da capital. Estrangeiros foram morar ali, porque Ubatuba era porto de mar que comercializava com o resto do mundo. Surgiriam brasileiros descendentes de ingleses, franceses, suíços e de outras origens, na antiga taba tamoia. Sobradões senhorias ficaram para testemunhar o período de realeza, mas a fartura terminou com a construção da estrada de ferro Santos-Jundiaí e com a falência da empresa ferroviária, que os ubatubenses começaram, para tentar manter seu porto movimentado. 

Então, por quase um século, a terrinha estiolou na pobreza e no esquecimento. Quem tinha coragem para lutar, emigrou. Lá ficaram os velhos, os doentes, os muito pobres, vivendo uma vidinha rudimentar, muito próxima daquela dos antigos donos da região, os tamoios de Cunhambebe e Pindobuçu. Até que um dia, com a reconstrução da velha estrada que servira aos tropeiros no passado, chegou o primeiro automóvel, e com ele o turismo, e com este o progresso de novo, embasbacados os visitantes com a maravilha do casamento entre a serra, coberta de mata e o mar recortado em dezenas de praias lindíssimas. 

Ao lançar o livro “TERRA TAMOIA”, de Idalina Graça, a Livraria Martins Editora presta dois serviços, aos quais estão obrigadas todas as grandes empresas livreiras: a de dar oportunidade a novos escritores e aquele de mostrar aos intelectuais e dirigentes do país, em cada época, como pensa o povo brasileiro, publicando as suas opiniões reunidas em livros. 

Idalina Graça é uma pessoa do povo apenas. Dois anos em uma escolinha de praia constituem todo o seu aprendizado. O resto, foi a vida que a ensinou. O seu depoimento serve como amostragem da opinião da gente da nossa terra, indiferente ao que acontece nessa época trepidante da vida nacional e mundial. 

Figuras das mais interessantes, ela é um ponto de referência de Ubatuba, ou melhor, o mais marcante ponto de referência de Iperoig. Sua vida identificou-se com a bela terra dos tamoios, com a qual ela se julga vinculada por eterna gratidão, não apenas pela acolhida que ali teve, como pelo nome que lhe deu o finado marido, filho de Ubatuba. 

Nasceu em Ilha Bela. Viveu, como cozinheira, em Santos. Lá encontrou Albino Graça, com quem casou-se, indo ser mulher de vendeiro na Praia da Enseada, em Ubatuba, onde, para ajudar as despesas, começou fazendo pastéis, depois fornecendo refeições no balcão da venda.

Seu tempero a tornou famosa. E um dia o dono de um hotelzinho de Ubatuba, precisando urgentemente deixar sua atividade, vendeu-lhe a crédito o estabelecimento. Preço: 1250 cruzeiros velhos. Condições: 50 cruzeiros velhos por mês. Só ela sabe o sacrifício que fez para arranjar essa importância na velha e esquecida Ubatuba de então. 

No hotel, conheceu gente da terra e gente de fora. Na cozinha, no tanque de lavar roupa, na vassoura o dia inteiro, ela achava jeito de rabiscar papéis, anotando o que via e o que ouvia, escrevendo com simplicidade, mas através de uma alma de sensibilidade extraordinária. Colecionou lendas locais e pintou os tipos humanos que conheceu, com traços tão precisos, que eles ainda estão vivos nas páginas deste livro. 

Ainda hoje ela está em Ubatuba. Num fundo de quintal, fica a sua casa, a qual se chega por um estreito corredor ajardinado, entre a cassa da frente, que foi sua, e a vizinha. A casa da frente, com ais duas outras, que o trabalho penoso no hotel lhe permitiu adquirir, ela as vendeu, para poder distribuir roupas, remédios, comida e amparo aos ainda mais pobres do que ela. E que os pobres precisam ser, pois de seu, ela tem apenas essa magríssima pensão, de meio salário mínimo do IAPC! 

Entretanto, Idalina Graça vive em permanente ebulição. Sempre agitada, sempre correndo, sempre trabalhando, sempre cozinhando, atendendo alguns hóspedes amigos, para ganhar tostões, que, reunidos, formam os milhares de cruzeiros que cobrem as necessidades dos seus pobres de Ubatuba, que são muitos, e tão necessitados. 

E ainda encontra tempo e coração para distribuir com todos nós, que não faltamos em sua casa. Sempre que estamos na boa terrinha. Ali, na sua acolhedora casa de fundo de quintal, enquanto passa um café, aquecendo a água em uma lata vazia de banha, ela recita os últimos versos que compôs, ou conta a estória do caiçara que precisa ser socorrido. Nas trovas simples ou na prosa desataviada, transborda então um coração imenso. E nós saímos de lá convencidos de que Deus, que se nega sempre aos soberbos, fala e fala eloquentemente, pela palavra dos simples e dos humildes. 

Ubatuba, 28 de janeiro de 1967. 
Wladimir de Toledo Piza.
(Texto de Wladimir de Toledo Piza publicado na edição original de Terra Tamoia)

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