Doc-LEK é um núcleo cultural do:

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sábado, 19 de setembro de 2015

ESSA DOCE HUMANIDADE

A primeira informação que tive de Ubatuba veio através de meu irmão Valter, que passou férias aqui. Nesta época eu trabalhava como jornalista na Tribuna da Imprensa e fora escolhido por Carlos Lacerda para chefiar a sucursal de São Paulo, em 1951. Passava por um período de estafa e estava me recuperando de uma operação de sinusite. Era o momento para tirar umas férias e recuperar-me em Ubatuba. Foi uma longa e cansativa viagem de ônibus: São Paulo-Taubaté-Ubatuba. A chegada dos ônibus vindos de Taubaté era uma alegria para o povo. Muita gente vinha assistir sua chegada, inclusive comerciantes e autoridades. Era uma Ubatuba lúdica, lírica e mágica. Mas a chegada, àquela noite, foi ao sabor de uma chuva torrencial. Orientado por Félix José Francisco, a primeira pessoa que conheci em Ubatuba, hospedei-me na Colônia de Férias dos Funcionários de Taubaté, na Rua Thomaz Galhardo. Na manhã seguinte, numa bicicleta alugada a 200 réis à hora, saí para conhecer as praias. A Ubatuba daquela época causou-me intensa fascinação, suas poucas ruas, sua arquitetura colonial já decadente, o antigo cinema com seus lugares marcados para as autoridades locais. Era uma Ubatuba idílica, histórica, poética. Nos anos de 53 e 54 voltei e desta vez trazendo a família de minha futura mulher, hospedando-me no Hotel Felipe. 

O BAIRRO DO ITAGUÁ 
Nós saíamos todos os dias a pé para as praias. E assim fomos conhecendo, aos poucos, o Perequê-Açú, o Itaguá, o Tenório, a Praia Grande... Aquela que mais gostamos foi o Tenório, por ser mais intimista, protetora, de águas limpíssimas e transparentes, de areia alva e fina, toda sombreada por abricoeiros. A partir daí começamos a conhecer alguns caiçaras: o Quincas, construtor e presidente da Associação dos Vicentinos; o Velho Barroso, pescador e agricultor, um homem cordial, afetuoso e alegre; Janguinho, caseiro de Wladimir Piza e sua mulher, Santana, pessoa boníssima, linda, de grande alegria, bondade e forte personalidade. Grande parteira, segundo os registros de suas anotações pessoais, fez mais de três mil partos. 

O PAPA E A CAPELA DO ITAGUÁ

Godofredo dos Santos
O Godofredo dos Santos, que era um caiçara forte, rude, espigado, agricultor e construtor nato, grande leitor de livros e com dom natural pratico; O seu Chiquinho da Praia Vermelha, agricultor de verduras e dos abacaxis mais doces que conheci; o Albino Alexandrino dos Santos, pescador e construtor de barcos, Albino era o sacristão responsável pela Capela de Nossa Senhora das Dores da Praia do Itaguá. Certa ocasião chegou à capela um padre vindo de São Paulo, para rezar a missa. Vestia-se á paisana, isto é, de calças. Albino pontificou questionando-o sobre o seu estado. O jovem padre disse ser permissão do Papa as vestes paisanas, ao que Albino retrucou: o Papa manda lá no Vaticano; aqui na Capela do Itaguá mando eu. Depois de algum tempo o padre vendo-se vencido retornou à matriz. E neste domingo não houve missa na Capela do Itaguá. 


 E foi com essa gente bonita e alegre, os grandes troncos familiares do Itaguá, que se realizou uma integração espontânea de parte a parte. O prazer de ouvir, conversar, conhecer... Nessa época, já com muitas amizades, éramos convidados para as festas tradicionais do bairro. Em 1951, quando de minha primeira viagem, conheci o então prefeito Wilson Abirached. Conversamos longamente sobre os problemas e as dificuldades enfrentadas pelo município, as dificuldades de locomoção... Para as autoridades locais o município era um grande potencial turístico, dificultado pelas precárias vias de acesso. Para atrair turistas, a Prefeitura oferecia terrenos àqueles que demonstrassem interesse em construir. O então prefeito ofereceu-me na época um terreno na Barra da Lagoa, que não aceitei. Pouco depois, comprei um terreno na Praia Grande. Instruído por amigos, que consideravam a praia imprópria para banho, acabei por vendê-lo em seguida. Nessas idas e vindas para Ubatuba, o Barroso, em 1954, ofereceu-me uma típica casa caiçara de três cômodos, de propriedade de João Firmino, seu ajudante de pescarias, por 5 contos de réis. À época não pude despender tal importância e dispensei a compra. Em 1955, um ano depois, Barroso ofereceu-me a mesma casa pelo mesmo preço, facilitado em 5 prestações iguais de mil réis cada. Era uma proposta irrecusável. Nos anos seguintes fui comprando os terrenos vizinhos, até fazer um sítio com três mil metros quadrados que, em homenagem à casa pioneira, denominamos Sítio Sapé. 

O SÍTIO SAPÉ 

Aos poucos fomos reformando a casa e construindo outras, sempre fazendo uso de material reciclado de construções antigas de Ubatuba. Por fim, o Museu foi construído também dessa forma. A tipicidade de sua arquitetura chamou a atenção do bairro e da gente da cidade pela utilização de elementos naturais coletados na região. Pedra e madeira, portas e vidas de canela, janelas de pinho-de-riga da Fazenda Jundiaquara, telhas coloniais da Fazenda Velha. As construções foram erguidas por mestres caiçaras, hábeis artesãos e construtores, como mestre Otávio dos Santos.

DAS PRIMEIRAS FESTAS À ESCOLA DE SAMBA 

Essas construções no estilo colonial caiçara deram ao Sítio Sapé uma aura de alegria, paz, confraternização. Eram conhecidas as festas com a presença constante de violeiros, especialmente os da folia do Divino, liderados por mestre Otaviano. Nessas reuniões festivas se distinguia por suas danças, seus causos e até por suas bebedeiras o Velho Augusto (Augusto Correa Leite), que se tornou a figura símbolo do Sapé e do bairro do Itaguá. A pedido do próprio Augusto, nos idos dos anos 60, por achar o bairro à noite muito triste e sem graça, entregamos a ele 33 instrumentos musicais comprados em São Paulo, na Casa Sotero. E ele formou a Banda do Vovô, que passou a alegrar as festas e a as noites do Tenório e do Itaguá. 

Essa Banda, por volta de 1965/66 foi dissolvida e os instrumentos remanescentes, uns 15, inclusive o bumbo, doamos para o Esporte Clube Itaguá. Lá eles ficaram empilhados durante anos. Já nos idos de 70, passaram a integrar a banda da famosa Escola de Samba do Itaguá, campeã por sete anos seguidos do carnaval ubatubense. É por isso que ao lado do saudoso Antônio Pinto e dos irmãos Maneco, Edinho e Hilário, todos fundadores da escola de samba, fiz parte da primeira diretoria, sendo por dois anos, na gestão de Fiovo Frediani, seu vice-presidente. 

O CIRCO ARRANCA-TOCO 

O Circo Arranca-Toco surgiu da necessidade de se dar diversão para as crianças. Porque o Itaguá, apesar de ser um bairro grande, de muitas famílias onde as coisas aconteciam ecumenicamente, nada existia para a diversão infantil. 

No verão de 1959 construímos atrás do Sítio Sapé, com velhas tábuas, um cercado circular com uma arquibancada e junto a uma velha figueira uma casinha e artista. Este circo, batizado de Arranca-Toco, era exclusivamente composto por crianças (os artistas) para a diversão de crianças e adultos. O jornal Última Hora, numa reportagem, chamou esse cirquinho que dava espetáculos todo domingo à tarde, de primeiro circo infantil do Brasil. Meus filhos, sobrinhos e crianças do bairro faziam coisa’ “do arco da velha” no circo: mágicas, lutas romanas, equilíbrio em cordas, travessuras em trapézio, pegas infantis, etc., atraindo sempre um público de 200 pessoas por sessão entre adultos e crianças. Pena que o circo tenha acabado com o crescimento das crianças. 

O MUSEU DO BAIRRO DO TENÓRIO 

Este museu foi criado por mim e por Praxedes Mário de Oliveira, funcionário aposentado do Porto de Ubatuba, homem de grande coração e conhecedor profundo dos hábitos e da vida caiçara. Com essas e mais outras peças que eu estava conseguindo junto à comunidade do Itaguá e adjacências, fui formando um acervo que começa a invadir a minha casa do Sapé, para desespero de meus familiares. Chegou um ponto que o Praxedes e eu decidimos fazer um “museuzinho”, fora de casa, numa peça de 2 por 2, parecendo um galinheiro. O curioso era que as peças eram todas penduradas nas madeiras do teto. Esse Museu foi inaugurado em 1982, merecendo reportagem no Estadão e na revista “Seleções”, que circula em 43 línguas diferentes. Essa revista, editada nos Estados Unidos considerou o Museu do Bairro do Tenório o menor museu do mundo. 

O Museu era uma espécie de espaço cultural comunitário e um pouco da historia do homem caiçara dos bairros do Itaguá e adjacências. Mas como tinha muitas peças rústicas e algumas pesadas, inclusive penduradas no teto, num dia de muita chuva e trovoadas – típico de Ubatuba – o Museu veio abaixo e quase que aquela “museologia” nos pega pela cabeça. Mas Praxedes e eu fugimos a tempo. 

Passado algum tempo, resolvemos construí-lo novamente, em alvenaria e telhas, sob a batuta de mestre Otávio dos Santos, numa área de 4 por 6 metros, dentro do Sítio Sapé. Nessa construção aproveitamos as portas de canela da antiga Casa Vigneron, do Itaguá, as bandeiras envidraçadas e em forma de caixilho das sobras da demolição do Hotel Felipe, as telhas coloniais da Fazenda Velha cedidas por Domingos Chieus Filho, que também doou os primeiros tijolos, de cerca de dois palmos, fabricados em Ubatuba, marca J.B. E até uma porta artesanal do castelinho de Wladimir Piza, do Sítio Santa Etelvina nos foi doada pelo seu antigo proprietário.

Além disso, o Museu ganhou do casal Santana e Janguinho uma grande mesa, molduras antigas do mestre artesão Jacob. Inúmeras fotografias foram cedidas pelo professor Joaquim Lauro Monte Claro. Livros e ilustrações históricas foram doados por Washington de Oliveira. Peças artesanais e utilitárias dos antigos moradores do bairro que também foram cedidas com fotos e documentos familiares dos moradores do bairro do Itaguá e adjacências. 

Entre eles destacamos a especial atenção de pessoas como Velho Augusto, Velho Barroso, Quincas, Janguinho, Albino, família Parú e João Rita. Este último cedeu o primeiro banco escolar que serviu a antiga escola fundada por Virgínia Lefevre. Outros moradores entregaram ao Museu antigas peças utilitárias ainda próprias para uso como matador de formigas, “carneiro” de água, moedor de milho, moedor de café, canoplas, enxós, goivas, canastras antigas, máquina de cinema, batedor de bife, ralador de mandioca e muitas outras coisas interessantes e que foram usadas em épocas passadas por moradores do bairro. Tudo isso veio a se constituir num precioso acervo, talvez importante não só para a história do bairro, mas principalmente para tentar recuperar suas melhores lembranças e reintegra-las ao convívio de todos. 

O MUSEU E A COMUNIDADE 
Foi a partir desse rico material que o Museu passou a interagir com a comunidade promovendo estudos familiares, resgate de fotografias dos antigos moradores, concursos de desenhos, sendo aberto para visitação das escolas como Altimira Silva Abirached, Era Uma Vez, Aurelina Ferreira e Dominique, que constantemente visitavam o Museu e participavam de suas atividades, inclusive durante os festivais de viola. 

Entre as exposições promovidas destacamos a pintura primitivista de João Teixeira Leite, o entalhe intimista do artesanato de Jacob, as escultura e madeira de Bigode e as fotografias de Adilsom Mayer, exímio retratista da alma do povo caiçara, sendo famosa sua série “Vidas do Itaguá”. 

Eu, pessoalmente, empenhei-me nesses anos todos em pesquisar, tal como um turista aprendiz como diria Mario de Andrade, em conhecer alguns aspectos das principais figuras históricas do bairro, como Pedro Tenório, principal comerciante e proprietário das terras da praia do Tenório e Albino Alexandrino dos Santos, o construtor da Capela do Itaguá. 

E por último, no aspecto mais amplo, a incrível história da presença em Ubatuba, por uma noite, acidentado por um avião que desceu inusitadamente na Praia do Cruzeiro, de nada menos que o célebre poeta, escritor e aviador francês Saint-Exupéry. Consegui fotos e testemunhos escritos e orais dessa façanha memorial para afinal provar que contrariamente ao que a Folha de São Paulo noticiara e a lenda corrente na intelectualidade de Ubatuba, quem pousara no Cruzeiro não foi Saint-Exupéry, mas, sim seu colega da Cie. Generale Aero Postale, Leon Antoine. Localizei Leon Antoine morando em Miguel Pereira, Rio de Janeiro e trouxe-o para Ubatuba, onde ele contou sua fantástica descida entre nós. Leon que faleceu recentemente tinha ainda em seu poder, fotos de sua venturosa excursão a Ubatuba, qual um Robinson Crosué aéreo, e ofereceu, gentilmente, ao Museu do Bairro. 

Finalmente eu destaco a contribuição que os festivais de viola promovidos pelo Sítio Sapé e Museu do Bairro do Tenório deram para a cultura popular musical caiçara de Ubatuba e do Litoral Norte. Os festivais começaram com simples reuniões de violeiros no próprio circo Arranca-Toco, em 1959 e depois de dois em dois ou três em três anos, prosseguiam no próprio Sítio Sapé, num total de 12 festivais, contando com a presença de 20 a 40 violeiros, sob o comando dos apresentadores Ari Mattos e Sidney Martins Leme, além de contar com a colaboração da Associação dos Vicentinos do Itaguá, do Ubatuba Palace Hotel, da Rádio Costa Azul, do Clube Primavera além de empresas e firmas comerciais, artistas, familiares e amigos. 

Os violeiros cantavam individualmente ou em duplas em palanques cedidos e gentilmente armados pela Prefeitura, sob as vistas de júri de premiação. Entre os jurados destaco a presença de Washington de Oliveira, Lia de Barros, Maria Carlota Marchetto, José Nélio de Carvalho, Pedro Paulo Teixeira Pinto, Paulinho Nogueira, Kilza Setti, Paulo e Wanda Florençano, Zé Ketti, Carlito Maia, Benedito Góis Filho e muitos outros. 

No festival exibiram-se notáveis violeiros como João Alegre, Grupo Paranga, de São Luiz do Paraitinga, a dupla Beira-Mar e Marília, o violeiro Carunchinho e inúmeros outros violeiros que tiveram no palanque do Festival de Viola suas primeiras aparições públicas. 

Nos três últimos festivais vivemos verdadeira festa de confraternização da sociedade, pois além dos violeiros e dos almoços beneficentes preparados pelo operoso Clube Primavera, exibiram-se jovens roqueiros, apresentaram-se grupos folclóricos como o Boizinho, a Dança da Fita do Mestre Raposa, quadrilhas populares e outras atrações. 

Os antigos moradores do bairro, gente simples e humilde, verdadeiros arquétipos da cultura caiçara, portadores da memória, essa doce humanidade de Cristo, foi homenageada... ganhando prendas, bolos de aniversário, brindes e, mais que tudo isso, o aplauso humano da comunidade dos bairros do Itaguá e adjacências. É isso aí gente, o que espero que o Projeto Tamar, agora assumindo a direção do Museu Caiçara não perca, pois o resgate da cultura caiçara não pode se perder sob pena de ser perdida a própria história, grande, bela e verdadeira, de Ubatuba.

JORNAL “A CIDADE” Edição de 18 de dezembro de 1993. (entrevista-reportagem com Luiz Ernesto Kawall) Texto de Arnaldo Chieus 

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