Doc-LEK é um núcleo cultural do:

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sábado, 19 de setembro de 2015

VIDA NOVA PARA OS CAIÇARAS

Virgínia Lefèvre

UMA BRASILEIRA ALTRUÍSTA DESPERTA SEUS PATRÍCIOS 

Escola da Almada
Foi um choque para mim descobrir, há dez anos, o abandono em que se achava o litoral norte de São Paulo. Acompanhando meu marido, que é diretor do Instituto Geográfico e Geológico, eu entrara na mata, onde faziam levantamentos para fixação de divisas entre os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. A montanha chegava quase à beira da praia, que se espichava sem fim. Nesse cenário belo e grandioso, a população vivia em regime de fome, morando em casebres de pau barrado, cobertos de sapé, com uma esteira à guisa de cama, um banco tosco, um fogão de três pedras sobre as quais se equilibrava a única panela (muitas vezes de lata). Era essa gente que havíamos apelidado de caiçaras. A verdade, porém, é que Ubatuba, o principal centro da zona, cuja população de hoje orça pelos 1.500, já fora mais importante que Santos. Seu nome, no idioma tupi, significa local onde há abundância de caniços próprios para flechas. Fundada em 1600, dentro em breve tornou-se centro exportador e importador não só para a zona do Vale do Paraíba como para o interior de Minas. Os produtos de exportação desciam a serra em lombo de burro e as pedras de cantaria, seda, sal, louças e outras importações subiam do mesmo modo. Ubatuba tinha sua própria frota de barcos que faziam cabotagem até o Rio da Prata ou Pernambuco, levando os produtos dos engenhos de açúcar, das serrarias e das olarias que ali abundavam. O ouro de Minas Gerais seguia de caravela para Lisboa. Diversos foram os flibusteiros ou traficantes franceses ou ingleses que ali resolveram estabelecer-se ou, naufragados na costa, acabavam ficando. Muitos dos atuais caiçaras ainda exibem nomes e traços fisionômicos que denotam esse legado racial, de mistura com sua herança índia, negra e portuguesa.

Canoas de pesca - ao fundo o Sobrdão do Porto
Em 1788 o governador da Capitania Geral ordenou que todos os barcos de cabotagem fizessem escala obrigatória em Santos, que sofria por falta de gêneros, vendendo o que pudessem antes de seguir para diante. Ora, a tributação ali era alta e os compradores não pagavam tanto quanto os do Rio de Janeiro e outros portos. Protestaram os ubatubenses em veementes abaixo-assinados, mas em vão. Desanimados, muitos dos agricultores abandonavam suas culturas, outros deitavam fogo aos canaviais e mudavam-se. Enquanto isso, a vila de Santos prosperava e a abertura de caminhos por terra ligando a Capital a outras cidades de planalto foi desviando mais ainda o pouco de comércio que ainda sobrava a Ubatuba. Os habitantes levaram anos protestando, mas a situação não mudou e a decadência continuou até a chegada da Família Imperial, em 1808, com a consequente liberação do comércio. No século XIX, com a introdução do café no Vale do Paraíba, Ubatuba tornou a prosperar e, por volta de 1865, escoava-se por ali cerca de metade do café exportado pela província. Lá para fins do século, alguns dos cafeicultores se juntaram a potentados ubatubenses para construir uma estrada de ferro ligando o vale ao porto. Mas o café já passara do auge, e a empresa faliu. Encontra-se ainda hoje os vestígios da obra de terraplanagem e até o edifício da estação. 

Praianos puxando rede ao amanhecer
Praticamente sem comunicação com o interior, Ubatuba entrou de novo em declínio. Dessa vez o povo aceitou a sorte com mórbida resignação. O clima era bom e o alimento farto, no mar e no mato. Os mais enérgicos plantavam mandioca, cana de açúcar e café. Faziam farinha de mandioca pelo mesmo método primitivo dos índios; da cana extraiam garapa para fazer o café; e do mar tiravam o peixe.

Mas veio a saúva e alastrou-se de tal maneira que já não era mais fácil conseguir alimento da terra. E vieram as traineiras “cercar” o peixe dentro das enseadas, deixando o caiçara sem ter o que pescar. Procedimento ilegal é claro, mas os donos sem escrúpulos, comodamente instalados nas cidades limitavam-se a pagar as multas quando apanhados em flagrante. 

Casa caiçara
Os caiçaras passaram anos vegetando, quase esquecidos, tentando extrair alimento do solo e do mar, trabalhando às vezes em obras de construção e outros biscates. O pouco que percebiam mal dava para comprar velas, fósforo, querosene. As crianças, subnutridas e expostas a doenças, só vingavam por milagre. Nasciam robustas e espertas e vicejavam em quanto a mãe os amamentasse. Em lugares mais remotos ainda se crê que é bom para o umbigo do recém-nascido passar-lhe picumã das chaminés, o que, naturalmente, causa muita infecção fatal. Ao começar a alimentação de mingaus de farinha de mandioca e bananas, porém, iam perdendo saúde. 

Entre as poucas distrações do caiçara contavam-se as danças herdadas dos negros, sem música, num ritmo de pandeiro e tambor, e as festas religiosas, idênticas ao que era há um século. Sua imaginação se nutria das superstições herdadas dos brancos, índios e negros. Acreditava no lobisomem, em monstros marinhos e na mãe d’água. Em longos anos de ignorância, acumulara “receitas” como estas contra doença: para picada de cobra, beber uma xícara de querosene com três dentes de alho socados. 

Em Camburi a escola iniciou-se na capelinha
De uns anos para cá, o litoral paulista começou a ser “descoberto” pelos turistas. Muitos deles, orientados por gente poderosa e inescrupulosa, puseram-se a ludibriar o caiçara, “comprando” suas terras. O turista chega, constrói casa de luxo que abre durante poucas semanas por ano, mas nada planta nas terras compradas. Os gêneros desaparecem e os preços sobem. 

Início da escolinha no Sertão de Ubatumirim
Foi assim que encontrei Ubatuba há dez anos. Apesar de desconfiado e acanhado a princípio, o caiçara me pareceu inteligente, bom e muitíssimo aproveitável. Tive uma ideia. Em São Paulo, com um grupo de amigas eu vinha há alguns anos tentando ajudar crianças superdotadas que, por falta de meios, não poderiam continuar os estudos por precisarem ajudar as famílias. Percorremos duas ou três escolas públicas e escolhemos cinco meninas das que tiravam as melhores notas e pertenciam a famílias mais pobres. Angariando alguns poucos recursos entre parentes e amigos, não nos contentamos em encaminhá-las para o ginásio ou curso comercial; tomamos conta da família toda, dando-lhe tratamento médico e dentário, enfim, elevando-lhes o nível econômico. Queríamos provar que a boa vontade e o idealismo eram coisas mais valiosas e produtivas que as grandes verbas. E foi assim que formamos a Sociedade Pro-Educação e Saúde. Por que não levar o seu auxílio ao litoral de Ubatuba, abrindo uma escola ali? Compreendíamos muito bem a enorme carga que o governo estadual carregava para manter os serviços sociais oficializados. Poderíamos, porém, dar a nossa migalha e, se conseguíssemos elevar o nível de vida de uma dúzia de famílias, estas iriam multiplicando os dons recebidos e um dia a seara seria grande. 

Escola na Caçandoca
Mas, na capital, ninguém queria ajudar o caiçara “preguiçoso, malandro, indiferente”. Perdemos até um de nossos sócios contribuintes dos mais generosos. Mas não desanimamos, pois queríamos demonstrar que o caiçara só precisava de um impulso. 

Infelizmente minhas companheiras na Sociedade, quase todas mães de família como eu, não podem ausentar-se da capital, ajudando-me só a levantar dinheiro. Assim, tive de empreender o trabalho em Ubatuba como pude. Meu marido, temendo que eu me esgotasse, a princípio não via com bons olhos a ideia. Hoje, entretanto, é meu principal colaborador, orientando-me nas questões técnicas e abrindo-me caminho nas Secretarias de Estado, onde tenho sempre assunto a tratar. 

Os próprios caiçaras também resistiram no começo, embora alguns, mais ousados, se entusiasmassem com o plano da escola e pedissem até remédios e médico. Em primeiro lugar, pareceu-me que era necessário combater o amarelão; mas quando sugeri a abertura de fossas, a indignação foi geral. “A fossa é imoral”, disseram. Preferiam o mato, “onde ninguém vê a gente”. Mas, com muita paciência e alguns caixotes, construíram-se, afinal, as fossas. 

René Vigneron, octogenário
As necessidades daquela gente não tinham fim. A maioria das crianças teria de caminhar mais de um quilômetro para chegar à escolinha; quase todas estavam subnutridas ou atacadas de amarelão. Saíam de cassa com um gole de café e um pedaço de peixe salgado, quando tinha disso. Assim, além do prédio da escola, um quarto para a professora, equipamento didático, livros, papel, lápis, tinta, etc., o remédio seria dar-lhes uma sopa ou lanche forte, com legumes, cereais, extrato de carne, fortificantes. Outra despesa necessária era o fornecimento de uniformes. 

O mais difícil, porem, foi a matrícula. O governo exige, para isso, que a criança apresente certidão de nascimento. Mas a maioria não era registrada. E muitos dos pais nem sequer conheciam a prática do casamento civil, contentando-se com bênção nupcial coletiva de um abnegado sacerdote lhes ia levar pelo menos uma vez por ano. Não me agradava ver na certidão das crianças a pecha de “filho natural” (na época a lei exigia a diferenciação) e por isso comecei a fazer os casamentos civis. 

Foi uma epopeia! Tinha de dormir na esteira, sobre o chão de terra batida, de farolete em punho, esperando a visita indesejável de alguma cobra ou ratazana curiosa ou aranha peluda. O desconforto, aliás, não era sacrifício para mim, pois eu adoro o mato e o mar e não me importo de dormir em chão duro. Quanto à segunda parte, o cansaço em geral vencia o medo e era um sono só... 

Durante o dia, ia anotando os dados. Ninguém sabia a data do nascimento. Muitos ignoravam o nome dos pais. Outros tinham dois sobrenomes. Todos eram analfabetos. Depois de árdua e vã pesquisa, resolvi ir escolhendo uma data bonita para o aniversário deles: 3 de maio, 8 de dezembro, 25 de janeiro... Quanto ao ano, após longas conferências com os mais velhos, escolhia um que parecesse mais perto da realidade. Tudo isso ia numa folha de papel almaço e no canto direito inferior o homem ou a mulher colocava a impressão digital do polegar direito. 

Com a certidão de nascimento e casamento o caiçara passava a existir juridicamente. Ninguém poderia tomar a terra que era sua. E meti-me a promover requerimentos de posse pela lei da usucapião. 

Crianças tomando a merenda escolar
A escolinha, afinal, começou a funcionar em 1946, na praia do Itaguá, a quatro quilômetros de Ubatuba, num terreno doado pelo Sr. Bráulio Santos. E os alunos sempre encheram a modesta sala de aula, não raro ultrapassando o número legal de quarenta. Como tinham parentes em Caçandoca, estes vieram pedir uma escola também. Esta foi inaugurada em 1949. No ano seguinte a Prefeitura de Ubatuba autorizava a instalação de outra no Camburi, de uma quarta na praia da Almada, em 1951, e mais uma em 1954 no Sertão de Ubatumirim, longínquo e isolado. Todas foram construídas e são mantidas pela S.P.E.S., sendo que a municipalidade de Ubatuba paga os ordenados das professoras nas três últimas e o Estado, nas duas primeiras. Em 1953 a Sociedade passou a receber subvenções do Estado, por ter sido declarada de utilidade pública. O programa das escolas é uniforme, idêntico, aliás, ao de qualquer Grupo Escolar, e elas recebem visita anual do Inspetor Estadual. Em 1955 tínhamos duas dezenas e poucas crianças em todas elas (por falta de auxiliares, minhas estatísticas são muito falhas). 

Mas nossas escolas não se limitam só às crianças e à sala de aula. Cuidam também dos adultos, alfabetizando-os à noite, ensinando as mulheres a costurar a máquina e preparar alimentos mais sadios; distribuem aos pescadores fios para as redes e peças para os barquinhos que eles próprios constroem; aos lavradores dão formicida contra a saúva, ensinando-os a diversificar suas culturas e fazendo distribuição de sementes e remédios. Esse auxílio abrange umas seiscentas pessoas, atualmente.

Há pouco tempo, a Sociedade realizou um concerto beneficente e, com a renda, comprou um motor para um dos barcos, a fim de que os homens do Sertão de Ubatumirim possam levar víveres para vender ao caiçara de Itaguá mais barato do que os armazéns de Ubatuba. 

Padre João Beil em visita aos caiçaras isolados
Nosso bom aparelhamento didático faz com que as substitutas diplomadas deem preferência a trabalhar conosco. Em Itaguá temos professoras formadas, donas das cadeiras; na Almada e no Camburi, duas substitutas diplomadas; e na Caçandoca e no Sertão de Ubatumirim, professoras leigas, isto é, sem diploma, que fizeram estágio no Auxílio ao Litoral de Anchieta, em Santos. Três outras moças de Ubatuba, que atualmente moram comigo em São Paulo, também estão estudando para voltar ao litoral e ensinar seus conterrâneos. 

Reconheço que chegamos agora ao limite de nossas possibilidades de ação, A S.P.E.S. já provou que a dedicação muito pode, mesmo com parcos recursos, e que o caiçara, com um pouco mais de saúde, melhor alimentação e rudimentos de instrução, é outro homem. Entrei em contato com uns frades missionários aos quais pretendo passar meu trabalho de direção, continuando como simples colaboradora. Sob a égide da Igreja Católica, eles poderão realizar um trabalho em escala muito maior. 

Texto publicado na revista AMÉRICAS – Volume VIII, Número 3, Março de 1956. (revista mensal publicada pela União Pan-Americana em português, inglês e espanhol). 

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