ISC - Idealizado em 1993, o Instituto Salerno-Chieus nasceu como organismo auxiliar do Colégio Dominique, instituição particular de ensino fundada em 1978, em Ubatuba - SP. Integrado ao espaço físico da escola, o ISC tem a tarefa de estimular a estruturação de diversos núcleos de fomento cultural e formação profissional, atuando como uma dinâmica incubadora de empreendimentos. O Secretário Executivo do ISC é o jornalista e ex-prefeito de Ubatuba Celso Teixeira Leite.
O Núcleo de Documentação Luiz Ernesto Kawall (Doc-LEK), coordenado pelo professor Arnaldo Chieus, organiza os documentos selecionados nos diversos núcleos do Instituto Salerno-Chieus (ISC). Seu objetivo é arquivar este patrimônio (fotos, vídeos, áudios, textos, desenhos, mapas), digitalizá-los e disponibilizá-los a estudantes, pesquisadores e visitantes. O Doc-LEK divulga, também, as ações do Colégio Dominique.

LEK - Luiz Ernesto Machado Kawall, jornalista e crítico de artes, é ativo colaborador do Instituto Salerno-Chieus (ISC) e do Colégio Dominique. É um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e do Museu Caiçara de Ubatuba.

sábado, 10 de outubro de 2020

O RETRATO DE CASSIANO RICARDO

Lourdes Fonseca Ricardo, Austregésilo de Athayde e Francisco de Assis Barbosa 

Por ocasião da X Semana Cassiano Ricardo, em São José dos Campos, SP, foi organizada a entrega formal do retrato do busto do poeta à Academia Brasileira de Letras, um antigo sonho de Da. Lourdes Fonseca Ricardo, sua viúva. Era intenção de Da. Lourdes entregar esse retrato com certa brevidade, pois gostaria de fazê-lo ainda na gestão de Austregésilo de Athayde na ABL. O retrato fora encomendado ao artista joseense José Carlos Queiroz por d. Lourdes através de um amigo comum, Armando Cobra, que fora também amigo do poeta e entusiasta desta homenagem. 

Cassiano Ricardo não foi apenas um grande poeta da língua portuguesa, mas também um grande estudioso da cultura e dos problemas brasileiros tendo nos legado uma obra múltipla e multifacetada, onde encontramos não somente o poeta desbravador das novas linguagens do linossígno (a estrofe pela geometria imagístico-visual da composição no seu todo). Em Cassiano Ricardo encontramos, também, uma linguagem prosística viva e saborosa onde se mesclam elementos de oralidade, de ditos coloquiais na língua erudita, de gosto pessoal na seleção e no emprego das palavras, de modulação própria na curva expressiva da frase despojada e séria, seivosamente brasileira, como bem observou Nereu Correia. 

Num breve retorno a Cassiano Ricardo não podemos esquecer, principalmente em tempos em que se tenta sensibilizar os que podem e os que devem no sentido de que não se perca a memória nacional, conforme afirmou o ilustre professor Hugo Benatti Jr. em artigo publicado na imprensa joseense à época da realização da X Semana Cassiano Ricardo. 

José Carlos Queiroz (de termo branco), na seção da ABL 

A Semana Cassiano Ricardo foi uma forma encontrada pela cidade de São José dos Campos de homenagear um de seus filhos mais ilustres. Em suas memórias é o poeta que narra o surgimento dessa homenagem: Hoje, em 1970, as palavras que pronunciei em 1967, ainda repercutem em mim, pois representam meu abraço de filho à mãe-terra. São José, cidade de minha infância me leva sempre a um exercício de introspecção e sinceridade, cheio de reminiscências inapagáveis. No núcleo formador da Semana Cassiano Ricardo, nos idos de 1967, encontramos nomes como Roberto Wagner de Almeida, Olney Borges Pinto de Souza, Altino Bondesan, Pedro Paulo Teixeira Pinto, José Madureira Lebrão, Mário Ottoboni, Hélio Pinto Ferreira, além de outros ligados à vida social, política e administrativa de São José dos Campos. 

 Para Hugo Benatti Júnior, o passado se revela no presente e uma das formas de se conservar uma certa identidade nacional, regional ou local, expressa-se na tentativa de preservar os marcos identificadores de uma época. Cassiano Ricardo registrou em modo próprio, como poeta, historiador e pesquisador, toda uma fase da vida nacional. Também incluiu a sua terra de nascimento. A história de São José dos Campos necessariamente mencionará a vida e a obra do festejado poeta. 

 “A mais importante homenagem, porém, a que mais de perto me toca, é uma, de caráter permanente, A Semana Cassiano Ricardo, que me é atribuída todos os anos, em minha cidade natal, São José dos Campos.”  Viagem no Tempo e no Espaço, 1970 pg. 254. 

 Mas voltemos ao retrato do poeta e ao artista que o concebeu, José Carlos Queiroz. O retrato, óleo sobre tela, não seria possível sem a interferência do mui nobre Armando Cobra e sua ligação com o poeta e sua esposa já por longa data. Escolhido o artista, a obra foi ganhando corpo até sua finalização sendo formalmente entregue às mãos de dona Lourdes Fonseca Ricardo numa concorrida seção da Câmara Municipal de São José dos Campos, na presença de diversos amigos e entusiastas do poeta Cassiano Ricardo. 

À época, Cassiano Ricardo já havia falecido, mas as homenagens e recordações à sua memória sempre continuaram como antes. É de se consignar aqui a alocução feita pelo então deputado Israel Dias Novais na tribuna da Assembleia Legislativa de São Paulo pelo seu 70º ano de vida e cinquentenário poético: “Tenho um velho apreço ao poeta e um crescente e irremediável fascínio pela sua obra. Perco-me, não raro, no mundo de uma poesia que às vezes escurece e mergulha no mistério, quando sabe tão constantemente ser clara e luminosa, dando a falsa impressão de facilidade”.

E, em mãos de Lourdes Fonseca Ricardo o quadro foi até a Academia Brasileira de Letras para, numa seção memorável, ser entregue àquela instituição. A comitiva partiu de São José dos Campos em ônibus fretado pela prefeitura municipal sob a direção de Fernando José de Paula Fagundes dos Santos, então o chefe da Seção de Cultura. Além de José Carlos Queiroz, sua esposa e seu pai, integraram a comitiva Olney Borges Pinto de Souza, Brasílio Duarte, Hélio Pinto Ferreira, Geraldo Fernandes Sobreiro, Maria Cristina Pires, entre outros. 

Em primeiro plano, Lourdes Fonseca Ricardo, ao lado dos imortais Francisco de Assis Barbosa,Josué Montello e Raimundo Magalhães Jr.

Na Academia fomos diligentemente recebidos pelo acadêmico Francisco de Assis Barbosa numa seção onde estavam presentes, além do presidente Austregésilo de Athayde, da. Lourdes Fonseca Ricardo, os acadêmicos José Cândido de Carvalho, Odylo Costa filho, Josué Montello, Aurélio Buarque de Hollanda, Raimundo Magalhães Júnior, Vianna Moog, entre outros. O ato de entrega do quadro do artista joseense José Carlos Queiroz revestiu-se de absoluta singeleza e a obra passou definitivamente ao acervo da Academia Brasileira de Letras. 

A homenagem foi à altura do inesgotável Cassiano Ricardo que, rompendo-se do parnasianismo inicial emergiu ao modernismo nos Borrões de Verde e Amarelo para, num crescente inesgotável atingir seu pináculo com Jeremias sem Chorar e ao máximo de sua obra poética com “Os Sobreviventes”. 

No corpo desse texto foram utilizadas para consulta as seguintes obras: 
Viagem no Tempo e no Espaço, de Cassiano Ricardo 
Jeremias sem-chorar, de Cassiano Ricardo 
Cassiano Ricardo: o prosador e o poeta, de Nereu Correia 
Habituei-me ao improviso, de Israel Dias Novaes 
O inesgotável Cassiano, artigo de Hugo Benatti Jr 
Um breve retorno a Cassiano, artigo de Hugo Benatti Jr

                     Em memória de Fernando José de Paula Fagundes dos Santos e Armando Cobra

Texto de Arnaldo Chieus

domingo, 20 de setembro de 2020

JOSE MAURO DE VASCONCELOS


José Mauro de Vasconcelos é dos escritores brasileiros mais reeditados e lidos tanto entre nós, brasileiros quanto no exterior, onde suas obras também fazem muito sucesso. 

Nascido no subúrbio carioca de Bangu, Rio de Janeiro, a 20 de fevereiro de 1920 e filho de uma família de ascendência nordestina e muito pobre, ainda menino foi viver com os tios em Natal, Rio Grande do Norte. Aos nove anos, já em Natal, aprendeu a nadar e, com grande prazer, lembra-se dos treinos de natação nas águas do rio Potengi e de seus sonhos de ser campeão. Ali passou o final da infância e a adolescência estudando no Colégio Marista até iniciar-se no curso de Medicina, que frequentou apenas por dois anos.

Esse período vivido em Natal lhe rendeu o livro “Doidão”, em que nos remete à sua adolescência de uma forma romanceada. Ao abandonar o curso de medicina decide voltar ao Rio de Janeiro num velho navio cargueiro. Ainda sem meta estabelecida para manter-se exerce um sem número de profissões desde sparing de peso pena a carregador de bananas, garçom de boate, servindo até mesmo de modelo artístico ao escultor Bruno Gíorgi à época em que este executava o seu “Monumento à Juventude”, exposto nos jardins do Ministério da Educação no Rio de Janeiro. Também foi carregador de bananas em Itaguaí, RJ, pescador no litoral fluminense e professor primário em um núcleo de pescadores em Recife. 

Sua última tentativa e malograda experiência foi em 1952, quando ganhou uma bolsa para estudar em Salamanca. Ficou três dias apenas na universidade. “Você acha que eu podia ficar uma hora inteira ouvindo chavões de literatura ou escrevendo composições sobre Cervantes?” - diz o incorrigível estudante. E acrescenta: “Tudo ali era muito chato”. De Salamanca voltou a Madrid, onde ficou poucos dias, encerrando o estágio-relâmpago de bolsista espanhol. Depois foi fazer um giro pela Itália e França, por conta própria. 

De suas atividades a que exerceu com mais vigor e plenitude foi junto aos irmãos Villas-Boas, varando rios pelas regiões hostis do Rio Araguaia e seu trabalho junto às tribos indígenas locais. Os poucos anos que frequentou a faculdade de medicina lhe proporcionaram conhecimento suficiente para atuar com enfermeiro nos sertões longínquos do Araguaia e apaixonar-se pela vida nas selvas brasileiras sentindo-se útil àquelas populações ribeirinhas. 

Dotado de prodigiosa capacidade inata de contar histórias, possuindo fabulosa memória, candente imaginação e com uma volumosa experiência humana, José Mauro de Vasconcelos não quis ser escritor, foi obrigado a sê-lo. Os seus romances, como lavas de um vulcão, foram lançados para fora, porque dentro dele o “eu” estava transbordando de emoções. Ele tinha de escrever e de contar coisas. Sua fenomenal produção literária, iniciada aos 22 anos de idade, ainda não chegou ao meio caminho, porque ele está em plena ascensão, com inexauríveis reservas, que o levará a posição ainda mais elevada nas letras nacionais. 

Depois de “Banana Brava”, romance escrito em 1942, José Mauro produziu “Barro Blanco” (1945), “...Longe da Terra” (1949). “Vazante” (1951). “Arara Vermelha” (1953), “Arraia de Fogo” (1955), “Rosinha, Minha Canoa” (1964), “As Confissões de Frei Abóbora” (1966), e por último “O Meu Pé de Laranja Lima” (1968), livros que tiveram grande aceitação, todos eles elaborados à base de suas aventuras nas praias ou na selva. 

O autor desses belos romances tem método originalíssimo. De inicio, escolhe o cenário onde se movimentarão seus personagens. Transporta-se então para o local, onde realiza estudos minuciosos. Para escrever “Arara Vermelha”, percorreu cerca de 450 léguas no sertão bruto. 

Em seguida, José Mauro dá asa à sua fantasia e, na imaginação, constrói todo o romance, determinando até mesmo as frases da dialogação. Tem uma memória que, durante longo tempo, lhe permite lembrar-se dos mínimos detalhes do cenário estudado. 

“Quando a história está inteiramente feita na imaginação”, revela o escritor, “é que começo a escrever. Só trabalho quando tenho a impressão de que o romance está saindo por todos os poros do corpo. Então vai tudo num jacto”. 

Como o seu sistema de ficar dormindo na pontaria até que o livro esteja “escrito” na imaginação, conta José Mauro que, ao pôr-se em ação, na fase material de bater à máquina, tanto faz escrever os capítulos, um após outro, como dar saltos; depois de pronto o primeiro, passa à conclusão do livro, sem antes ter elaborado o entrecho. “Isso”, explica o escritor, “porque todos os capítulos estão já produzidos cerebralmente. Pouco importa escrever a sequência, como alterar a ordem. No fim dá tudo certinho”.

Um homem que não via a hora de “meter o peito no mato” para matar as saudades da selva. Seus livros vieram até nós de uma forma quase natural, logrado por seu espírito viajante e desbravador natural dos sertões do interior do Brasil. 

Como ninguém, sabia entreter o leitor com uma história bem contada por alguém que viu e vivenciou essas histórias. Em seus livros há um toque de íntima pessoalidade fruto de sua vivência no aprendizado de uma vida que parece ter sido a essência de sua literatura. 

Numa entrevista ao jornalista Audálio Dantas, José Mauro de Vasconcelos contou como travou amizade com Francisco Matarazzo Sobrinho: 

“No meu segundo livro, Barro Blanco, resultado de uma viagem aio Rio Grande do Norte, contava o drama dos trabalhadores do sal, denunciava a exploração de que eles eram vítimas por parte das grandes companhias, uma das quais a Matarazzo. Por causa disso, um Matarazzo, Ciccillo, criador da Bienal de São Paulo, amigo de escritores e artistas, quis me conhecer. Gostara muito do livro, e gostaria muito mais do autor. Pagou onze das treze operações que tive de fazer na perna. Grande parte de minha obra, posterior a Barro Blanco, foi escrita em máquina de escrever presenteada por ele”. 


Quatro de seus livros foram escritos na casa do amigo Ciccillo, na Prainha, em Ubatuba, onde permanecia isolado, sempre atendido pelo exemplar Ireno, de quem se tornou amigo, vindo posteriormente outra pessoa admirável, Idalina Graça, que nos deixou estas impressões de José Mauro de Vasconcelos: Em maravilhosa manhã de domingo no primeiro ano da feliz gestão Matarazzo em nossa terra, Paulo Florençano, artista amigo por excelência, a quem devo gratidão pela amizade e ajuda que ele e sua formosa esposa, Vanda, me têm dispensado, há longos anos, havia-me feito uma promessa, quando houvesse oportunidade, far-me-ia conhecer o admirável autor de “ROSINHA MINHA CANOA”, que no meu entender é um de seus melhores livros. Com a Graça de Deus essa hora havia chegado, pensei, ao ver acompanhando meus dos bons amigos o ser excepcional que ele é espiritual e materialmente, e continuará sendo, com a proteção de Nossa Senhora Aparecida. Seja como for, querido, eu agradeço as horas feliz em que no meu humilde lar você extravasava seu coração, quando mantendo uma conversa amena, só eu aprendia. Porque você é que tinha tudo a dar, como me deu na suave ternura da amizade espiritual. 

José Mauro de Vasconcelos morreu em São Paulo em 1984, aos 64 anos de idade, vítima de broncopneumonia.

Texto de Arnaldo Chieus

quinta-feira, 28 de maio de 2020

CENTENÁRIO DE FLORESTAN FERNANDES


FLORESTAN FERNANDES nasceu em São Paulo em 22 de junho de 1920. 

De origem humilde, deixou a escola apenas com os fundamentos básicos para trabalhar e completar a renda familiar. Porém, com seu gosto pelo estudo e pelos livros retornou aos estudos formais, ingressando no curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, licenciando-se em 1944. Ingressando como professor titular na USP, em 1953, destacou-se com brilhantismo na instituição onde apresentou tese de livre docência em 1964 com um trabalho que o deixou célebre: A integração do negro na sociedade de classes. 

Com “A Organização Social dos Tupinambá” Florestan se transforma num sociólogo maduro vindo sua obra, a partir de então, num crescente buscando sempre na educação um fator de integração política e social. Num texto publicado em 1959 ele reafirma suas esperanças na educação “como elemento crucial para o reajustamento do homem a situações sociais que se alteram celeremente”

Como sociólogo engajado nas lutas sociais e políticas de seu tempo, teve contribuição importante na cooperação entre educadores e cientistas sociais, examinando com minúcias sua participação e responsabilidade nos projetos de reconstrução do sistema educacional brasileiro de seu tempo. 

As preocupações educacionais acompanharam toda a trajetória de Florestan Fernandes fazendo parte integrante de suas cogitações intelectuais e práticas. Inestimável foi sua contribuição à prática educativa com sua produção sociológica teórica e seus estudos práticos de análise folclórica e de comunidade, de cunho eminentemente científico, associado à sua figura coerente e íntegra de professor, sociólogo e homem político. 

Florestan Fernandes tem, reconhecidamente, um papel central na institucionalização da sociologia como disciplina acadêmica e na conformação de um padrão de trabalho e de atuação intelectual dos cientistas sociais no Brasil. Sua concepção da sociologia como ciência marca a história da configuração de um campo especializado de estudos, a história da integração do pensamento sociológico ao sistema sociocultural brasileiro e a história das relações entre sociedade e ciência no Brasil moderno. 

No início de sua carreira acadêmica interessou-se pelos estudos folclóricos, iniciando suas primeiras publicações sobre o assunto em 1942, ainda estudante de Ciências Sociais. Passando a temas mais amplos debruçou-se nos estudos dos Tupinambá. 
Florestan Fernandes exerceu dois mandatos na Câmara dos Deputados  tendo se destacado em discussões nos debates sobre educação. Faleceu em São Paulo em 10 de agosto de 1995 em razão de complicações de transplante de fígado.

TUPINAMBÁ
Tem-se conhecimento que os primeiros habitantes da região de Ubatuba (SP) foram os índios tupinambá, na aldeia de Iperoig. Os tupinambá habitavam toda a região litorânea do Brasil e são considerados os antepassados de todas as tribos tupis que habitavam o litoral brasileiro no século XVI. Estes, foram objeto de intensa pesquisa de Florestan Fernandes que resultou em sua dissertação de mestrado "A organização social dos tupinambá" e, posteriormente, em outro desafiador trabalho "A função social da guerra na sociedade tupinambá".

Essas duas obras, hoje um tanto raras, foram escritas por Florestan Fernandes a partir de um minucioso método de leitura dos primeiros cronistas portugueses. Dali veio o mestrado, o doutorado e a livre docência, frutos de um esforço enorme, com uma visão original e uma potência mental que raramente encontram-se equivalentes.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Sesquicentenário de Gastão Madeira

Inédito modelo em escala mostra balão projetado por Gastão Madeira em 1890
Quando estava prestes a começar a última década do século XIX, o inventor Gastão Galhardo Madeira, propôs, com base nos seus estudos acerca dos voos dos pássaros, um balão capaz de resolver o problema de dirigibilidade dos aeróstatos. Concebido em 1890, seu aparelho era fusiforme, como outros da época, mas dotado de asas e trazia um sistema de peso, para alteração do Centro de Gravidade, o que, segundo o projeto, contribuiria para a dirigibilidade do balão. A problemática foi analisada por Gastão Madeira, nascido em 1869 na cidade de Ubatuba (SP), e a íntegra dos seus pressupostos de aerodinâmica está retratada no livro “Voando Além do Tempo: o pensar de Gastão Madeira”.

O deslocamento do Centro de Gravidade para dirigibilidade do balão, proposto pelo inventor , ainda em 1890, foi efetivamente empregado por Santos Dumont em seus balões, anos mais tarde, inclusive no premiado voo de 1901, com o número 6, quando contornou a Torre Eiffel, confirmando a possibilidade de dirigibilidade dos veículos aéreos mais leves que o ar.

Modelo em escala
De maneira inédita, em comemoração aos 150 anos de nascimento de Gastão Madeira (1869-2019), no âmbito do Núcleo Infantojuvenil de Aviação (NINJA), sediado em Ubatuba, o instrutor voluntário de aeromodelismo Arthur Bastos e o também colaborador Paulo Quaresma refizeram as plantas do balão dirigível de Gastão Madeira e montaram um modelo em escala para materializar as ideias do inventor ubatubense, entabuladas em 1890. Este processo de montagem de um inédito balão em escala foi contado no último capítulo de “Voando Além do Tempo”. Com fidelidade e riqueza de detalhes, o objeto foi apresentado, em março de 2019, ao público e incorporado ao acervo do NINJA, um projeto social movido exclusivamente por voluntários entusiastas da aviação, cuja proposta é oferecer cultura aeronáutica para crianças e jovens de escolas públicas e particulares, com atividades gratuitas, como aulas, palestras, atividades lúdicas, introdução ao aeromodelismo e orientação aos alunos sobre as formas de ingresso na aviação civil e militar.

Fotos: Acervo do NINJA

sábado, 30 de março de 2019

Prefácio à TERRA TAMOIA

Willy Aureli
Foi em janeiro de 1931 que conheci Ubatuba, quando, a serviço da ”Folha da Noite”, realizei uma reportagem na Ilha dos Porcos, onde para mais de 400 infelizes se encontravam detidos. 

Tinha alcançado aquele presídio de tão tristes recordações, a bordo de um naviozinho da “Costeira”, que, por uma deferência toda especial à minha condição de jornalista, fez uma atracação fora do programa na ilha, que agora tem o nome do taumaturgo Anchieta. Lá permaneci uns dias, entrando em contato com todos os presos, ouvindo deles as lamúrias, as queixas, os apelos. Entre eles havia nada menos do que 16 completamente inocentes, vítima da sanha de erros policiais desalmados. Um era oficial de um transatlântico italiano e fora apanhado na faixa do cais de Santos, atordoado pelas bebidas, e que, depois de despido da sua brilhante farda, descalço, sem nenhum documento e espoliado do seu dinheiro, tinha sido metido no porão do navio que levava presos para a ilha. Trabalhava como motorista do diretor do presídio, enquanto a sua família, em Gênova, continuava desesperada pelo sumiço misterioso do ente querido. 

Sucede que durante o período em que me encontrava na ilha dos Porcos, o naviozinho, que era o único elo ligado Ubatuba ao resto do mundo, pifou de vez, por não receber, a companhia a que pertencia, as subvenções governamentais que lhes eram devidas. Dessa forma fiquei ilhado também, apesar da responsabilidade que tinha em São Paulo em data certa, pois a minha reportagem deveria der o “prato forte” do número especial de aniversário do jornal. 

Metido numa grande canoa, em companhia do presídio, alcancei a duras penas, devido ao mar revolto, a praia da Enseada, de onde, encarapitado no lombo de um cavalinho, cheguei a Ubatuba, então imersa no esquecimento dos paulistas. 

Aboletei-me num vetusto casarão onde se localizava o hotel da terra. O único hóspede que lá encontrei foi o juiz de direito da pacata cidade. Havia um amigo a minha espera, Washington de Oliveira, então jovem farmacêutico e correspondente local das ”Folhas”. Até hoje essa amizade nos une fraternalmente. Ele foi o meu cicerone em Ubatuba, e, através do seu entusiasmo ao descrever as belezas rústicas do lugar, eu adentrei na arcana maravilha dessa pérola, mergulhada no marasmo das coisas esquecidas. E, pelas palavras cheias de sentimento regionalista e justificado entusiasmo pelo passado da histórica cidade, Passei a olhar o casario em ruínas, os velhos e sombrios sobradões, as candeias espetadas nas esquinas, os portais floridos, que atestavam passado brilhante, com outros olhos, bem diferentes daqueles que tinha, quando, suado, cansado, irritado, descera dos magérrimos costados da montaria que trouxera desde a Enseada. 

Acontece que Ubatuba, nessa época, estava completamente isolada do resto de São Paulo, pois não existiam estradas para coloca-la em contato com as localidades vizinhas. Apenas uma tortuosa vereda, restos desbarrancados da antiga estrada imperial, que grimpava a imensa serra em demanda ao alto, e, de lá, até São Luiz do Paraitinga, numa extensão de 10 léguas bem mantidas, ou seja, 60 quilômetros. 

O juiz, Washington de Oliveira e o então dono do hotel, deram-se ao trabalho de arrumar, para mim, uma condução. A única possível, um cavalo. Asseguraram-me que, alcançando S. Luiz, Lá encontraria condução mais confortável até Taubaté, a 60 quilômetros adiante. Impossível, em rápidas palavras, dizer dos três dias encantadores que passei em Ubatuba. Retrocedi séculos, vivendo a vida primitiva, gostosa, bela, pura, entre gente de alma e coração cheios de bondade. 

Como guia da viagem, teria aminha disposição o estafeta dos correios, que, em dias determinados, armado de uma garruchinha espanta mosquito, e carregando às costas um saco com pouca correspondência, galgava as íngremes encostas da serra para cumprir a sua missão, levando a mala postal até S. Luiz. Um herói esse homem. Iniciada a caminhada, que jamais esquecerei, ainda no sopé da serra, após estirão que parecia não ter mais fim, fui alcançado por um baiano tropeiro, que comboiava oito mulas robustas, e que, temeroso da viagem no meio da floresta, dera-se pressa em alcançar-nos, confessando a sua imensa satisfação em ter conseguido companheiros para a travessia. Foi o que me valeu. Valeu-me a sua tropilha, que o meu cavalo, após os primeiros quilômetros, não mais aguentou o meu peso. Pudera! Ele deveria ter sido nutrido com conchas da praia e estava exausto desde os primeiros passos. 

Fomos subindo aos poucos, lentamente, ziguezagueando por baixo dos túneis esverdeados da densa floresta. Alguém tinha feito uma “espera” com espingarda de carregar pela boca, e, próximo a ela, encontramos os restos de uma respeitável onça pintada, já semidevorada pela vermina e exalando cheiro pestilencial. Muitos macucos pelas adjacências, fácil me foi abater um deles com o tiro de uma 32. Mais tarde, no alto da serra, devoramo-lo no espeto. 

Subindo devagar fui notando os vestígios da velha estrada. A certa altura encontrei trilhos de estrada de ferro. O meu estafeta guia contou-me, então, que no tempo do império tinha havido uma estrada muito bem conservada, ligando o Vale do Paraíba ao porto de Ubatuba, por onde o café descia no lombo de burro para ser embarcado nos navios. Nos primórdios da República, tinha iniciada a construção e uma estrada de ferro para ligar o “continente” a Ubatuba, cousa que jamais aconteceu, devido à concorrência que favoreceu o porto de Santos. 

Notei que não seria difícil desbastar a floresta que se assenhoreava da velha estrada e restabelecer uma via de comunicação razoável, ligando Ubatuba a Taubaté. Guardei para mim esse achado e fui continuando até São Luiz, onde, exausto, mas desejando exibir as minhas qualidades de perfeito ginete às moças bonitas que enfeitavam os balcões fronteiros ao hotel, desmontei tão bem que acabei sentado no chão, pois as pernas anquilosadas não corresponderam. 

Qual não foi meu desespero quando soube que nenhuma condução havia entre S. Luiz e Taubaté! Eu deveria continuar a cavalo e sozinho, pois o baiano havia ficado para trás com a sua tropilha, e o estafeta dos Correios diluíra-se, após uma despedida apressada. 

O dono do hotel foi procurar alguém que me quisesse alugar um animal e não tardou a aparecer com um cidadão que me pesou com os olhos, calculado exatamente as minhas arrobas. Depois tratou o preço, que aceitei por não estar em condições de discutir. – uma fortuna – 50 mil réis e mais 20 mil réis para o rapazinho que iria a pé comigo, para trazer o animal de volta. Assegurou-me, o dono do cavalo, que o mesmo era bastante robusto e aguentaria bem a viagem. E foi assim que no dia imediato, sentindo as dores da primeira cavalgada, sentei-me na estreita sela e dei começo à segunda etapa da minha inesperada aventura.

Começou a chover. Só tinha, sobre o corpo, um terno de brim e carregava na pequena maleta apenas duas camisas e alguns petrechos de toalete. Aguentei a chuva com forçada filosofia. Escorreguei-me da sela, por ter pranchado o animal, uma dúzia de vezes, enlameando-me até a raiz dos cabelos. E por volta das 23 horas, num estado deplorável, esfomeado, sedento, raivoso, cheguei a uma estranha estalagem em Taubaté. 

O noturno da Central passaria às 2 da madrugada. O hoteleiro das proximidades da estação olhou-me com surpresa devido ao meu estado de... limpeza. Dando-me a conhecer, porém, aceitou-me de boa cara, fornecendo-me, apesar da hora avançada, ótima refeição. Às 2 em ponto – na época um milagre dos milagres – chegou o noturno da Central, e, pela manhã, estava em S. Paulo, onde um bom chuveiro e roupas limpas restituíram minha abalada personalidade. No mesmo dia escrevi a reportagem que se tornou famosa: “A ilha do Diabo Paulista”. E logo mais ia procurar em seu gabinete o General Cordeiro de Farias, então Secretário da Segurança em nosso Estado, para lhe entregar a lista dos inocente detidos na Ilha dos Porcos e apresentar-lhe um projeto, de aplicar os presos, que viviam na mais absoluta vadiagem, no restabelecimento da estrada, que o tempo e o abandono haviam destruído e que daria vida de novo a Ubatuba. 

Os 16 presos inocentes receberam ordem de soltura imediata e os demais, com prêmios pré-fixados foram postos a trabalhar na estrada. E o antigo caminho ressurgiu, agora permitindo a passagem de automóveis, levando o oxigênio da civilização à coletividade daquela cidade esquecida. Missão cumprida. Não pensei mais em Ubatuba. 

Eis que em 1936, lembrei-me, na época das férias, da cidade praiana. Resolvi, com minha tribo, descer pela estrada que eu ajudara a abrir. Metidos num fordeco despencamos serra abaixo. Eu, minha mulher, minha primogênita, dois cunhados, dois sobrinhos e bagagem, que mais parecia pertencer a uma companhia de operetas. Como coube tudo isso no carrinho e como fomo e voltamos sem, novidade, permanece mistério. 

Foi quando conheci Idalina Graça, a nova proprietária do hotel instalado no imenso casarão assobradado. Pagava-se, nesses maravilhosos dias, a diária de 10 mil réis. E, olhem lá, havia quem achasse muito caro... 

Aboletamo-nos, alegres, satisfeitos da vida, nos vastíssimos dormitórios que antes havia servido aos Cunhambebes da terra. Camas limpas, pregos nas paredes de madeira para pendurar as roupas. Nada mais. Mas havia tamanho coração de Idalina e no seu marido Albino, a mesa era tão farta, tão gostosa, que teríamos aceito até dormir no chão. 

Dias maravilhosos aqueles! Esbaldamo-nos pelas praias. Regressamos totalmente conquistados por Ubatuba e durante todos os anos que se seguiram continuamos a gozar nossas férias na vetusta cidade. Houve interregnos. Minhas andanças pelo sertão; jornadas nem sempre alegres em minha vida particular. Depois retomei o ritmo até hoje. É em Ubatuba que somente consigo reequilibrar o meu espírito às vezes conturbado. Foi em Ubatuba que os meus filhos deram os primeiros passos nas areias da praia. Foi em Ubatuba que os meus netinhos fizeram o mesmo. Em Deus me protegendo e deixando-me esta estupenda vital idade que me é companheira, quiçá ainda veja meus bisnetos saltitar as suas primeiras andanças marítimas em Ubatuba, a feiticeira! 

Voltemos ao que interessa. 

Foi em 1938, quando já éramos hóspedes costumeiros no hotel Ubatuba, que eu “descobri” a escritora Idalina Graça, que hoje se apresenta com Terra Tamoia, fadada a esse sucesso que, já nesse ano da descoberta, eu profetizava em minha crônica da “Folha da Noite”, intitulada A Solitária de Iperoig. 

Conta, Idalina, em suas páginas, como foi descoberta, e como o episódio lhe propiciou o começo de uma nova vida, arrancando-a ao limbo onde permaneceria indefinidamente, sempre temerosa de se abrir sobre seus escritos com desconhecidos. Ela trazia em si a potente força de sentir, de monologar, de alinhavar com as garatujas e 2º ano escolar, narrativas estupendas, observações maravilhosas que lhe desnudavam a alma poética, contemplativa, trancada num invólucro rústico. Famosa na terra de Ubatuba como emérita pasteleira, arte essa que a possibilitou amealhar o suficiente para incríveis empreitadas, Idalina, nos raros momentos de lazer e às escondidas do marido, que tinha ciúme dos garranchos da nobilíssima esposa, entregava a pedaços de papel, que arrancava de cadernos ou de agendas, tudo quanto lhe ia, em tumulto, no coração generoso, no cérebro claro, na alma adamantina! 

Descobri o segredo de Idalina de forma insólita e graças a esse faro próprio de repórter sempre em busca de novidade. Enquanto aguardava um cafezinho na escura e atravancada cozinha do arcaico hotel, meti o nariz numas latas vazias, alinhadas em prateleiras, que disputava sua cor com o negro das paredes. Numa dessas latas encontrei uns escritos. E, neles, toda maravilha brotada da pena de uma escritora em potencial, de imensas possibilidades. Uma revelação! 

Lancei-a, assim como anos depois e pelo mesmo jornal eu deveria lançar Carolina de Jesus. Nasci, pelo visto, com os pendores naturais de descobrir escritores inéditos e Monteiro Lobato, o saudoso mestre, deu-me pressa em ir conhecer essa 8ª maravilha, dedicando a ela a sua boa e meiga amizade, e constatando, as reais qualidades da escritora que eu revelara ao Brasil. 

Dias sombrios, de luta, de amargor, pontilharam a vida de Idalina Graça. Firme, porém, sólida em sua caminhada atribulada, permaneceu fiel aos seus propósitos de se tornar uma escritora. Nada a abateu. Eu lhe conheço todos os percalços e poderia dizer o quanto padeceu, não fora ferir essa incrível delicadeza de alma, que lhe é traço predominante. Conservo com carinho a sua amizade e sou largamente retribuído. Hoje é-me dada a honra de prefaciar seu trabalho, encontrando nele joias maravilhosas, simples, infantis às vezes, mas sempre joias puríssimas e fulgidas! 

Terra Tamoia é um depoimento sobre usos, tipos e costumes de Ubatuba de outrora, antes do evento súbito que atraiu para ela o interesse de gente nova, que ali foi construir suas casas de recreio, colocando festões modernos nas belezas naturais, na mais linda cidade do litoral paulista, onde se aninham as mais belas praias brasileiras, e onda ainda se respira, a despeito do imenso caudal de visitantes, a pureza e a simplicidade de um passado não muito remoto de simplicidade e de pobreza. Terra Tamoia é um repositório de cousas interessantes para a história do torrão pátrio. Idalina Graça com seu notável trabalho, doa à bibliografia nacional um capítulo de raro valor, um compêndio de lendas e estórias, um feixe de facetas folclóricas, que ainda será consultado por muito escritor, desejoso de saber notícias do passado do antigo porto de café de S. Paulo. 

Idalina Graça é uma escritora que entrega, pelos seus méritos exclusivos, ao Brasil, uma gema, gema essa que brotou apenas dela, exclusivamente dela, absolutamente dela. Há, em seus escritos, verdadeiros arpejos. Há tocatas que comovem. Há harmonias que elevam o espírito. Há, sobretudo, singeleza e sinceridade! 

Nenhum valor maior teria essa obra se Idalina Graça fosse formada por alguma faculdade ou diplomada por algum instituto de cultura superior. O valor de Terra Tamoia está no extraordinário esforço de alguém que não estudou, não conheceu autores, e que conseguiu escrever o livro, palavra por palavra, juntando-as para formar sentenças, frases, episódios d, de forma escorreita, assimilável e amiga! 
Willy Aureli Prefácio ao livro “TERRA TAMOIA

CAVALHADA

Entre os folguedos populares dramatizados a cavalhada ainda guarda parte de sua tradição realizando um ato conhecido por Embaixada tendo por base a representação de lutas entre mouros e cristãos numa referência às batalhas de Carlos Magno contra os mouros onde a temática é a luta entre cristãos e mouros. 


Reminiscente dos torneios da Idade Média, a cavalhada reporta-se ao tempo em que a Península Ibérica estava em luta contra os mouros, época em que os costumes feudais da cavalaria são introduzidos nessa parte da Europa. Na renascença esses costumes caíram no ridículo e foram retratados por Cervantes em seu genial Dom Quixote de la Mancha. Porém, não deixou de ser reverenciado entre os ibéricos e foi introduzido no Brasil à época da colonização. A cavalhada brasileira é de origem ibérica e remonta a luta dos cristãos contra os mouros. 

Entre nós a cavalhada difundiu-se nas regiões tradicionalmente pastoris para o preenchimento das horas de lazer entre cavaleiros e com o tempo ganhou função dramático religiosa, constituindo-se numa grande festa, a de reviver a luta entre cristãos e mouros, apresentando aspectos lúdicos e também alguns aspectos religiosos numa espécie de torneio dramatizado. 

O início é realizado em tons solenes, aos sons de trombetas. Duas hostes de cavaleiros adentram ao campo, diferenciando-se pelas cores das roupas, uma representando os cristãos, com vestes azuis, e outra com vestes vermelhas representando os mouros. 

Segundo Alfredo Maynard Araújo, a cavalhada teatral, de herança portuguesa é a forma mais antiga, introduzida no Brasil no século XVII. Compõe-se de duas partes distintas; a dos jogos onde há disputas e evoluções e a dramática, bem mais teatral, onde se faz a representação da luta entre cristãos e mouros. 

Antes da apresentação é comum os cavaleiros desfilarem pelas ruas da cidade ao toque de clarins, anunciando a cavalhada. 


O número de participantes da cavalhada é vinte e quatro, pois doze eram os pares de França. São dois partidos que tomam parte: o Azul, ou dos Cristãos, tendo por chefe o General, e o vermelho, ou dos mouros, dirigidos pelo Rei. Tanto o General como o Rei são chamados de Mestres e ambos têm seus contramestres. Por se tratarem de duas hostes opostas, cada uma possui um espia que se veste com roupas de palhaço ou mesmo com alguma fantasia bizarra e máscaras. 

Ao início, um cavaleiro mouro, em tom provocador, dirige-se aos companheiros dizendo: – Ilustres companheiros, invencíveis contra os cristãos, a guerra para nós se faz preciso. Desde já jureis pelo Alcorão morrer ou vencer pelo Profeta ou pro nossa santa crença. Os cristãos aceitando o desafio respondem em linguagem gongórica: 

– A cruz de Cristo vencerá, como sempre, o réprobo Maomé. 

 Ao soar de clarins entram em campo os vinte e quatro cavaleiros com suas vestes reluzentes, azuis e vermelhas postando em lados distintos do campo, os cristãos a leste e os muros a oeste. 

Dentre os mouros destaca-se o espia, que envereda campo adentro. Pouco depois vem o espia cristão, mas antes que este chegue, um soldado cristão mata o espia mouro. E o soldado do General, de espada em riste, transpassa-a entre o corpo e o braço do espia, que cai no chão fingindo estar morto. O soldado cristão finge que finca a espada perto da cabeça, como quem quer separar o corpo. O contramestre do Ri, sabendo que foi morto seu espia, chega ao centro do campo e inicia uma troca de palavras dando início à Embaixada. 

Quando os mouros procuram aprisionar os cristãos que oferecem resistência, matam o espia dos azuis. Há então um pequeno combate simulado, retinir de espadas e uma luta onde os vermelhos sairão perdedores. 

São todos aprisionados, descem dos cavalos e, a começar pelo Rei, ajoelham-se frente ao General. O General, diante do mouro, coloca a espada em seu ombro, batizando-o. Em seguir todos levantam-se em congraçamento e formam um só grupo, os Doze Pares de França. 

Daí por diante, chefiados pelo General, dão início às exibições de agilidade, perícia e habilidade de cavaleiros executando manobras com diversas figurações: “oito”, “volta garupa”, “xis de espada”, “carreira avançada”, “carreira pintada”, “caramujo” e “S dobrado.”. 

Também encontramos em nossa região, à época das Festas de São Benedito e São Luiz do Paraitinga e Guaratinguetá, as chamadas Cavalhadas de Cortejo, que consiste apenas em um desfile de cavaleiros acompanhando procissão. Em geral esse tipo de cavalhada é denominado “cavalaria de um determinado santo”: Cavalaria de São Benedito (Guaratinguetá, São Luiz do Paraitinga, Atibaia), Cavalaria de São Roque ou Cavalaria de São Jorge. Em geral, quando termina a procissão, os cavaleiros ou “corredores” de tal santo fazem algumas evoluções simples como a meia lua, o caramujo e a manobra zero. 


 Aqui perto, em São Luiz do Paraitinga, se conheciam dois tipos de cavalhadas, a teatral, de cunho dramatizado e a religiosa, também chamada cavalhada de cortejo ou cavalhada de São Benedito onde os cavaleiros se vestiam de branco, a cor a roupa preferida pelo santo. 

Na literatura brasileira encontramos autores que incluem em suas narrativas os enredos de cavalhadas, como é o caso do romance O Garimpeiro, de Bernardo Guimarães Em As Minas de Prata, de José de Alencar, há uma descrição de cavalhada na Bahia, em 1609. 

No “Romance da Pedra do Reino”, de Ariano Suassuna, o festejado romancista pernambucano descreve a Cavalhada de Taperoá, interior da Paraíba onde os “Azuis” disputaram troféus com os “Encarnados”, no jogo das argolinhas, que é comum em algumas cavalhadas nordestinas. 

Jean Baptiste Debret, que veio ao Brasil em 1816, tendo permanecido por 15 anos, em Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, descreve as cavalhadas como introduzidas por governadores portugueses das províncias. Outras descrições são registradas por Auguste de Sant-Hilaire em seus livros sobre as viagens que fez pelos interiores do Brasil. Há também, alusões às cavaladas nas obras de Spix e Martius.

sábado, 16 de março de 2019

Lenda do Ouro do Corcovado


Conta a lenda que um Capitão chamado Manuel Fernandes Corrêa era proprietário de uma fazenda na Praia Dura. Um dia sua filha Alice resolveu fazer um passeio e embrenhando-se pela mata acabou se perdendo. Como prêmio o pai de Alice prometeu, ao escravo que encontrasse, liberdade imediata. Pedro, um escravo forte, conseguiu encontra-la após longa procura, trazendo-a carregada de volta. Alice fora encontrada no alto do Corcovado. No dia seguinte o escravo foi açoitado por não trabalhar devido ao cansaço, pelo esforço dispensado na procura de Alice. 

 Esta, sabendo do acontecido, exigiu do pai que cumprisse o prometido, ou seja, libertar o escravo que a encontrara. Vendo-se liberto, Pedro beijou as mãos da moça Alice e partiu sem destino para os lados do Corcovado, lá instalando uma choça ao lado de uma velha cascata, próxima à escarpa misteriosa. Pedro vinha sempre à Vila trocar canudos de Taquaruçú cheios de grãos de ouro, por fumo, cachaça, gêneros etc. 

Essa notícia foi também bater na fazenda do Capitão Corrêa que, uma noite, em companhia de um grupo armado, foi à choça de Pedro, capturou seu ex-escravo e levou-o para a fazenda. Lá chegando, Pedro foi torturado para contar como e onde descobrira aquele fabuloso tesouro. O escravo suplicava para não o forçarem a falar, pois não podia contar. Após novos sofrimentos, chicotadas etc., Pedro resolveu falar: Estava morando no Corcovado, na choça perto da cascata, quando soube da morte de Alice. A noite não conseguira dormir parecendo-lhe ouvir ao longe a voz cristalina da moça numa canção de amor. De repente, a porta do casebre tremeu e escancarou-se, penetrando por ela um vulto de mulher! Era Alice! Ele a reconheceu. Como que agarrado por mãos invisíveis, não pode se mover do lugar em que estava. Mas ouviu perfeitamente a visão dizer: “Pedro! Tu foste um dia meu salvador. Dei-te a liberdade, mas sei que tu sofres neste exílio maldito, onde te arrojou a crueldade de meu pai. Não te assustes e ouve-me. Não muito longe daqui, oculta nas entranhas da terra, existe uma grande mina de ouro. Ela será tua, sob a única condição de nunca revelares a outrem esse lugar cobiçado. Se isso tentares a vingança do gênio protetor da mina cairá sobre a tua cabeça, ouviste? Cuidado, pois, e segue os meus passos”. 

“Negro maldito” gritou o capitão: “Não retardes a revelação. Onde está o tesouro?” 

“Sinhô... Tá lá pra banda do ...” E o ruído do baque de um corpo encheu a sala da casa grande. Pedro caíra morto, fulminado antes de revelar o sítio misterioso do cobiçado tesouro, que até hoje jaz nas proximidades do Corcovado. Pedro bem dizia: “Pedro um pode conta...”

 Essa maravilhosa lenda dos idos tempos permanece até hoje no coração dos velhinhos da minha poética Ubatuba e quando a lua amiga e prateada inunda a terra tamoia com seus filamentos que se emaranham por entre o verde copado das velhas árvores de Cunhambebe, a mim me parece escutar, no murmúrio da brisa que irmana aos filamentos dessa mesma lua, a voz longínqua do preto torturado pelo açoite: 

“Sinhô, preto num pode contá...” 

BOM DIA UBATUBA páginas 77/78

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Memória da Gente

O Memória da Gente promove o registro e a divulgação de ações de cidadãos dos mais variados campos de atuação, lembrados em exposições com painéis fotográficos, vídeos e textos. O material também fica à disposição de pesquisadores e visitantes no Doc-LEK (Núcleo de Documentação Luiz Ernesto Kawall).

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Sobre o mar de Iperoig

Passando pelos principais fatos significativos da aviação em Ubatuba (SP), o livro "Sobre o Mar de Iperoig" faz um relato da história da aviação no município. A narrativa, em linguagem que mescla características jornalísticas e acadêmicas, é iniciada no século XIX, em 1869, quando nasceu, na cidade, Gastão Madeira, pioneiro da navegação aérea, autor de projetos de balões e da aeronave Aviplano, além de uma interessante teoria de voo. Passando pelos fatos do século XX, a obra termina em 2017, com a privatização do aeroporto.

Primeira aterrissagem
Em 224 páginas ilustradas e 19 capítulos, o livro expõe o trabalho de Gastão Madeira para, a seguir, revelar a primeira aterrissagem de um avião realizada em Ubatuba, em 1922. Na sequência, registra a lenda, segundo a qual o escritor e piloto francês Saint Exupéry teria feito um pouso na cidade, em 1933. O desfecho do mito é esclarecido com a reprodução do trabalho do jornalista Luiz Ernesto Kawall. Reportando os vários momentos da atividade aérea na cidade, o livro aborda os vários sítios de voo, até a implantação do atual aeroporto, o qual, a partir de julho de 2017, foi concedido para a iniciativa privada, por meio do Consórcio Voa São Paulo, organização administradora dos aeroportos de Ubatuba, Itanhaém, Jundiaí, Bragança Paulista e Campinas/Amarais, até então geridos pelo governo do Estado.

Satélite
Entre outros destaques, “Sobre o Mar de Iperoig” aborda a construção de um avião, no final dos anos 1950, por um morador. Registra o lançamento ao espaço, em 2017, de um satélite por alunos da Escola Tancredo Neves. Relata as atividades do NINJA – Núcleo Infantojuvenil de Aviação e o período do Aeroclube de Voo Acrobático de Ubatuba e da Esquadrilha Akrobátika, operadora de aeronaves russas. O leitor compreenderá os contextos das operações da aviação comercial na cidade, em períodos distintos, pela Vasp e Rio-Sul, além de outros interessantes fatos marcadores na linha do tempo da história da aviação em Ubatuba.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Universidade Autónoma de Lisboa


Desejando contribuir para o desenvolvimento e aprofundamento da colaboração nas atividades de formação científica e técnica em domínios considerados de interesse comum, foi celebrado o Protocolo de Cooperação entre a UAL - Universidade Autónoma de Lisboa, representada por António de Lencastre Bernardo e o ISC - Instituto Salerno-Chieus, representado por Celso de Almeida Jr.


O Protocolo estabelece o enquadramento da cooperação institucional entre a UAL e o ISC. A colaboração desenvolve-se nos domínios do ensino, da investigação, na articulação do ensino com a aprendizagem e o exercício de atividades profissionais através de:

a. Intercâmbio de docentes, não- docentes e investigadores;
b. Atividades de formação;
c. Seminários e conferências;
d. Projetos de investigação;
e. Intercâmbio de estudantes;
f. Estágios curriculares;
g. Acesso a fontes de informação documental;
h. Publicações;
i. Outras atividades conjuntas que as Partes considerem relevantes.


O Protocolo de Cooperação foi assinado na sede da UAL, Palácio dos Condes do Redondo, Lisboa, em 3 de março de 2017.

sábado, 24 de dezembro de 2016

A VOZ RECUPERADA

Luiz Ernesto Kawall em sua vozoteca

Com intensa atividade voltada para as promoções culturais, principalmente aquelas que surgem de forma espontânea, Luiz Ernesto Kawall, jornalista e crítico de arte é homem profundamente interessado na preservação da memória nacional. Foi sob sua orientação que se criaram instituições como o MIS – Museu da Imagem e do Som, de São Paulo, o Museu Câmara Cascudo (arte primitiva, cordel e arte popular) e o Museu do Bairro do Tenório, este último em Ubatuba, SP. 

E esse incansável ativista nos traz agora a sua mais recente criação: o Museu da Voz. Para montar este acervo que já conta com mais de duas mil vozes, Kawall fez um autêntico trabalho de garimpagem pelos sebos de São Paulo e interior do Brasil. Entre vozes, discursos e entrevistas podem-se ouvir grandes personalidades da história do Brasil e do mundo: de Gandhi a Rondon, Villa-Lobos, John Lennon, Kennedy, Getúlio, Dutra, entre outros. 

Segundo Kawall, a ideia de criar a vozoteca surgiu quando Carlos Lacerda voltou de Londres e lhe comunicou suas impressões sobre uma visita que fizera na capital inglesa a um museu público de vozes. Muito embora esse não seja um conceito novo em nosso meio isso o certo é que despertou em Kawall vivo interesse em montar um acervo que pudesse servir os meios públicos na recuperação da memória nacional. 

Entre os orgulhos de Kawall está a gravação da voz de Santos Dumont, obtida na garimpagem de um museu dos Estados Unidos. “É uma voz raríssima.” Ou a primeira gravação da voz humana em áudio, feita por Thomas Edison, em 1877. Na gravação de 1877, é possível ouvir o inventor do fonógrafo brincando com seus filhos.

Ao todo, ele catalogou 3.000 vozes. De discursos de Ruy Barbosa a comentários do escritor Mário de Andrade, passando por discursos de Gandhi ou falas do compositor Villa-Lobos, até locuções raras de jogos de futebol – uma delas, um gol de Leônidas, do São Paulo. Numa nação como a nossa que ainda não se estabilizou em sua formação é muito difícil definir um bem cultural. Conceitos ainda não cristalizados geram conflitos e muita coisa se perde principalmente por falta de recursos. Luiz Ernesto, por consciência e iniciativa própria, está invertendo esta ordem de coisas.

Museu da Aeronáutica, na Flórida, USA.


Vasculhando os cerca de 4 mil itens catalogados por seu assistente Luciano Iacocca, é possível encontrar também uma gravação única do grito olímpico dos índios Tactós e a narração da década de 40 de Orson Welles, que transmitiu pelo rádio uma versão do livro Guerra dos Mundos, apavorando o povo norte-americano que acreditou estar sendo invadido por marcianos. Sem falar da voz de Cila, o cangaceiro que presenciou a morte de Lampião.

“Muitas das obras reunidas por mim foram compradas em sebos, doadas por amigos e copiadas de outras fontes. Todos os fins e semana eu saio em busca de algo raro e precioso, e sempre volto com alguma coisa inédita”, confessa o jornalista. Essa peregrinação não se restringe apenas ao território brasileiro. Luiz Ernesto conseguiu registros raros do outro lado do oceano.


“Uma vez em viagem à Flórida (EUA), encontrei num pequeno museu um trecho do discurso de Santos Dumont após receber a Comenda de Grande Oficial da Legião de Honra em Paris, em 1930”, conta com orgulho. Segundo ele, foi o primeiro registro da voz de Santos Dumont trazido ao Brasil, pois nunca ninguém havia ouvido a voz do pai da aviação em solo nacional. Deste modo, a formação de acervos particulares, como este, vem ajudando na recuperação da memória nacional. 

Esta iniciativa vem ganhando adeptos valiosos: Cuiabá foi a primeira cidade a compreender o significado deste trabalho e deverá contar, já neste ano, com o primeiro museu público de vozes, no Brasil. 

“A voz é o registro do arquétipo humano, pessoal e intransferível. O corpo vai e as palavras ficam”. Mas não só as palavras: também os gestos simples, que buscam de forma espontânea, o resgate da memória viva através da voz. Como este, do gentil homem Luiz Ernesto Kawall.

Arnaldo Chieus

sábado, 17 de dezembro de 2016

A Barca de Gleyre


"...Meu dilema agora é este: ficar aqui metido em negócios ou remover-me para Ubatuba e passar um ano diante do mar - a namorá-lo, a cheirar-lhe as maresias, a comer-lhe os camarões e ostras, a pintar marinhas, a ouvir histórias de pescador, a pescar nas pedras, a tomar banhos e ficar ao sol da praia de mãos cruzadas sobre os olhos, como um caranguejo feliz.

Creio que foi aquele Joie de Vivre de Zola que me fincou na cabeça  tal ideia. E caso meu plano se realize, que tal ires passar lá uns três meses de licença, com a tua Bárbara? Ela há de estar precisadíssima de banhos de mar. Arranjo-te casa mobiliada junto à minha, se não couberem as duas famílias na que irei tomar - caso escape do hotel. E viveremos uns meses no mar, para o mar, do mar, pelo mar, como abandono de mulher que se entrega ao amante. Levaremos uma batelada de literatura marinha, Lotis e Conrads, e faremos literatura, contos e novelas cheias de mar, com muito verde-cana e muito azul do céu.

Ubatuba é uma grande  tapera à beira duma sucessão de praias lindas. Anda-se lé de pé no chão, com chepeirões de palha, sem paletó, a comer coco verde na  rua e a sentir de todos os modos do mar - nos banhos, nas refeições, nas pescarias, na leitura dos escritores marinheiros.

O juiz de lá é meu tio por afinidade e velho companheiro e colégio, de academia, de tudo. Aquele Eneias que se atirou do trole no desastre da ponte, lembra-se?

Uma estada assim em Ubatuba será de marcar época em nossas vidas, Rangel!... Seduz-me tanto que, podendo ser removido de Areias para Araraquara, estou negociando permuta com o promotor de Ubatuba. Talvez haja incompatibilidade por causa do tio afim. Já consultei a Secretaria e espero resposta. Mar, mar, mar... Há sempre saudades do mar na obscura trama do nosso imo. Já fomos filhos do mar, nos inícios da nossa evolução, quando eramos o peixe amphioxus..."

Trecho da correspondência entre Monteiro Monteiro Lobato e Godofredo Rangel extraído de "A Barca de Gleyre", Editora Brasiliense. 

domingo, 13 de novembro de 2016

Núcleo de Administração Luiz Bersou

O custo da burocracia no Brasil

Luiz Bersou

A questão do crescimento econômico no Brasil continua como sempre, um discurso não efetivo, onde se tem muito mais torcida por melhoria de resultados do que ações efetivas para construir o futuro que queremos.

Uma das questões que nos incomoda é a de que toda perspectiva de promoção de crescimento é colocada nas mãos do governo. É certo? É errado?

O que podemos observar: nos diversos paises em que a taxa de crescimento do PIB é superior aos 12% anuais, vê-se sim a ação do estado, mas muito mais a ação daqueles que acreditam no país, empresários e sociedade. Olhamos nos olhos de ucranianos, chineses, bielo-russos e de empresários de vários outros países e vemos luz, vontade e disposição para construir o futuro.

E no Brasil? Os empresários estão muito mais ocupados em consertar o passado e sustentar o presente do que construir o futuro. Por quê? Por que os governantes nos impuseram um país muito complicado. Por esta causa, os olhos de nossos empresários não brilham como lá fora.

Há anos comento que trabalhei para uma multinacional no Brasil que faturava 400 milhões de dólares/ano. Para fazer a gestão administrativa e financeira destes 400 milhões havia cerca de 30 colaboradores. Trabalhei em seguida em uma empresa em Grenoble na França que também faturava 400 milhões de dólares/ano. Para fazer a gestão financeira e administrativa empregava duas pessoas.

Em um mundo globalizado, onde estas duas empresas se encontram, uma está com 28 empregos falsos, mais toda a dor de cabeça de ter que administrá-los.

Recentemente tive acesso a um artigo do professor Ives Gandra. Ele comprova a minha experiência citando estudo da Price, pesquisa em relação a 175 países, onde se mostra que o Brasil é campeão absoluto em custos por exigências tributárias: gastamos em média 2.600 horas por ano. No outro lado da escala, Inglaterra e Alemanha com 105 horas, Nova Zelândia com 70 horas, Suíça com 68 horas, Cingapura com 30 horas e Emirados Árabes Unidos com 12 horas por ano.

O que mostra o estudo? Temos 24 vezes mais custos do que Alemanha e Inglaterra. Se eles podem trabalhar com 105 horas, significa que nós também podemos. O resto é emprego falso que não conduz a nada. Não faz o Brasil crescer.

Como começar a reagir? Primeiro precisamos estabelecer que evoluir até o padrão da Alemanha ou Cingapura, mais do que um objetivo que temos pela frente, temos sim um caminho a percorrer.

Se tentarmos resolver estas questões via congresso nacional e mesmo governos de estado, vamos receber um sonoro não pela frente, pois é de interesse deles manter o status quo. Temos então que achar outros caminhos, mesmo que sejam mais longos. Temos que construir o caminho da cultura da simplificação, para desta forma transformarmos o emprego falso em emprego produtivo.

Onde estão as empresas? Nos municípios! Que tal estabelecermos como um dos objetivos de relacionamento com os municípios onde estamos uma simplificação dos processos tributários, de fiscalização, de informação, enfim de modernização?

Faz sentido, isso? É impossível mudar ou apenas dá trabalho?

Vamos mudar juntos? É mais fácil do que se pensa.

Fonte: www.luizbersou.blogspot.com em 22/11/2007

sábado, 12 de novembro de 2016

domingo, 23 de outubro de 2016

Núcleo de Administração Luiz Bersou

O Núcleo de Administração Luiz Bersou, mantido pelo Instituto Salerno-Chieus, divulga o pensamento de Luiz Bersou (1940-2016), engenheiro naval, consultor de empresas, conceituado estudioso de administração que atuou, também, no Brasil e no exterior, em gerenciamento de planos estratégicos para o desenvolvimento de cidades. Em Ubatuba, contribuiu diretamente na organização definitiva do Instituto Salerno-Chieus, que passou de organismo auxiliar do Colégio Dominique para instituição autônoma de fomento cultural e estímulo a estruturação de empreendimentos.

Os grandes temas que fundamentam o crescimento auto-suficiente do território

Luiz Bersou

Quando buscamos o crescimento dos municípios em que vivemos, de imediato se pensa na busca de recursos junto aos governos do estado e federal. Esta é uma prática tradicional e são poucos os municípios que conseguem fugir desta regra.

Precisa ser assim? Sabemos hoje que governante algum pode prescindir da colaboração da sociedade e do empresariado na construção do sucesso econômico do território que ele governa. Percebemos então que existem quatro grandes temas que fundamentam o crescimento auto-suficiente do território. São eles:
  • Convergência poder público e poder privado.
  • Vocação dos territórios.
  • Infra-estrutura disponível.
  • Cultura prevalente nos territórios.

A questão da convergência do poder público e poder privado é um grande avanço que começou timidamente há cerca de 30 anos. Hoje em todos os paises em que há um crescimento significativo do PIB, o financiamento privado em projetos de ordem pública é praticamente constante. São de educação, energia, comunicação, pontes, zonas francas, portos, aeroportos, ferrovias, rodovias, silos, sistemas de processamento de safras, sistemas logísticos intermodulares, etc..

Temos casos antigos em Santa Catarina em que alianças entre a prefeitura e empresários locais na educação transformaram o município pela retenção de valores humanos no território por que antes iam buscar em outros lugares o ensino de que precisavam e daí não mais voltavam. Que belo exemplo de transformação. Como conseguiram isso tudo?

A Mondragon, do Pais Basco, começou como uma fábrica de enxadas. Hoje são mais de uma centena de empresas que fabricam desde satélites até trens de alta velocidade.Como conseguiram isso tudo?

Como construir a convergência do poder público com o poder privado? Eis aí uma grande questão. 

Um conhecimento antigo que existe entre os que tem recursos é de que o dinheiro nunca falta, mas ele não se entrega. Ele vai se entregar quando, como contrapartida do dinheiro as partes tiverem um boa proposta estratégica, participantes válidos para sustentar o projeto, as propostas estiverem bem estruturadas e disso tudo resulte um mínimo de rentabilidade. Vejam, que a questão da rentabilidade vem por último lugar.

Recursos não gostam de projetos sem planejamento, sem uma adequada identificação, sem pessoas em condições de sustentar e garantir a correta implantação do que foi prometido. Enfim, recursos gostam de propostas consistentes, conservadoras, bem estruturadas, que deem certo.

De que forma podemos no contexto da convergência público x privado apresentar projetos e investimentos que pela sua qualidade, beleza, validade e utilidade sejam naturalmente objeto de moções de apoio e efetiva colaboração?

Temos então um desdobramento importante!

De que forma podemos montar os assim chamados “projetos estruturantes”, aqueles a partir dos quais as economias locais tem apoio para se desenvolver? Projetos públicos e privados que geram projetos privados, alavancadores da economia local.

Este é um grande papel da convergência público x privado! Programas de trabalho conjuntos, a partir dos quais o município como um todo se desenvolve por que se instala um estado geral de crenças e afirmações positivas por que existem bases consistentes para tal.

Qual o milagre para isso tudo? Propor projetos consistentes, cautelosos, bem estruturados, com apoio de pessoas competentes. Faz sentido? Vamos experimentar? Vocês verão que é muito mais fácil do que se imagina.

Fonte: www.luizbersou.blogspot.com em 22/11/2007

sábado, 13 de agosto de 2016

SÃO GONÇALO

Arnaldo Chieus

Uma das mais tradicionais e populares festas de cunho religioso-folclórico é aquela destinada ao culto de São Gonçalo, tido como o padroeiro de violeiros e cantadores populares. Muito embora sua devoção tenha se disseminado largamente por todo o Brasil, suas raízes são tipicamente portuguesas e estão relacionadas às diversas crises da política social portuguesa desde a idade média até a fase inicial da colonização uma vez que “Portugal, desde os mais remotos tempos históricos, foi um país em crise de gente. As condições disgênicas da região de trânsito – pestes, epidemias, guerras – acrescidas das de meio físico em largos trechos desfavorável à vida humana e à estabilidade econômica – secas, terremotos, inundações – encarregavam-se de conservar a população rente com as necessidades nacionais”.¹

Muito embora Portugal fosse uma nação de formação católica com grande predomínio da Igreja sobre os destinos políticos de seu povo, as leis portuguesas refletiram o grave problema demográfico em sacrifício à própria ortodoxia romana. Isso provocou uma tolerância com toda a espécie de união que resultasse no aumento de gente o que se reflete tanto nas Ordenações Manuelinas quanto Filipinas. Os interesses pela procriação acabaram por abafar tanto os preceitos morais quanto os escrúpulos católicos de ortodoxia. E essa espécie de cristianismo popular tomou característicos quase pagãos de culto fálico. A eles se associaram todos os grande santos populares cultuados em Portugal a que se atribuíram a milagrosa intervenção em aproximar os sexos, em fecundar as mulheres, em proteger a maternidade: Santo Antonio, São João, São Gonçalo do Amarante, São Pedro, o Menino Jesus, Nossa Senhora do Ó, da Boa Hora, da Conceição, do Bom Sucesso, do Bom Parto. 

Na axiologia do catolicismo colonial existem dois São Gonçalo: o dominicano português de Amarante (1187-1259), canonizado pelo papa Julio III em 1261, um santo português por excelência, e o São Gonçalo Garcia, santo jesuíta, martirizado no Japão no século XVI e que teve sua igreja erguida pelos mesmos jesuítas em 1756, no local da atual igreja de São Gonçalo, na Praça João Mendes, em São Paulo, no antigo Campo de São Gonçalo. 

O santo dominicano português “quando vivo assistiu em Amarante, Portugal. Nesse tempo seria o lugar simples nucleou populacional de modesta gente aldeã. Casais se formavam ali, impulsionados pelo natural apelo do sexo, esquecidos os sacramentos da Igreja. Isso desaquietava o espírito religiosos do futuro santo, que passou a patrocinar a bênção sacerdotal de uniões antigas feitas sem a prévia passagem pelo altar. Os amancebados que, por interferência do piedoso lusitano, sacramentavam o estado de vida marital eram geralmente criaturas de idade alta. Daí, certamente, a crença de que ele, falecido sob halos de santidade, continuaria no céu como generoso deligenciador de casamentos do mulherio idoso. Bem conhecida é, de Norte a Sul, a quadrinha que assim indaga:

São Gonçalo d’Amarante, 
Casamenteiro das velhas: 
Por que não casaste as moças, 
Que mal fizeram elas? 

Hoje, o santo já não tem a parcialidade de outrora e intercede por suas devotas em geral, desatento àquele antigo princípio ou critério cronológico. Basta o fervor suplicante das mulheres, que aliás chega às vezes a extremos, como se depreende destes versos correntes em Ubatuba (SP):

 São Gonçalo eu lhe juro 
Se esse moço me querê, 
De joelhos pelo chão 
Eu hei de lhe agradecer.²

São Gonçalo do Amarante, o santo português, não tem igreja em São Paulo. Mas, em compensação, caiu no gosto popular já que todas as imagens encontradas o representam como padre dominicano com escapulário e capa ou, mais recentemente, com viola.³ 

O culto a São Gonçalo, no Brasil, foi posto em prática desde os tempos de descobrimento já que o santo era bastante cultuado em Portugal. Geraldo Brandão reflete sobre o momento histórico vivido pelos portugueses: as grandes navegações afastavam os homens de suas mulheres, noivas, namoradas, mantendo-os longe por demorado período de tempo. Muitos não regressavam, vítimas de naufrágios, doenças em alto mar. O culto a um santo casamenteiro respondia as necessidades dessas mulheres angustiadas e ansiosas pelo retorno do amado. Facilmente a ele se entregavam pois- quem sabe? – seria a solução de seus problemas. 

Essa devoção é muito popular por todo o Brasil em virtude da devoção e culto a ele prestado por violeiros e cantadores que o tem por seu padroeiro, sendo o seu culto ligado às práticas mais livres e sensuais. Atribuem-lhe a especialidade de arrumar marido ou amante para as velhas com a São Pedro a de casar as viúvas. Mas quase todos os amorosos recorrem a São Gonçalo:

“Casai-me, casai-me, 
São Gonçalinho, 
Que hei de rezar-vos, 
Amigo santinho.”

Exceção só das moças: 

“São Gonçalo do Amarante, 
Casamenteiro das velhas, 
Por que não casais as moças? 
Que mal vos fizeram elas?” 

“Gente estéril, maninha, impotente, é a São Gonçalo que se agarra nas últimas esperanças. Antigamente no dia da sua festa dançava-se dentro das igrejas – costume que de Portugal comunicou-se ao Brasil. Danço-se e namorou-se muito nas igrejas coloniais do Brasil. Representaram-se comédias de amor. Numa de suas pastorais, recomendava-se em 1726 aos padres de Pernambuco Dom Frei José Fialho, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Bispo de Olinda; ‘não consintão que se fação comedias, colloquios, representações nem bailes dentro de alguma Egreja, capella, ou seus adros.’ Isto em princípios do século XVIII.” (Casa Grande e Senzala, Gilberto Freyre, p. 246, 247). 

As danças e cantos a São Gonçalo sempre tiveram um caráter muito livre, a estas se ligando até práticas e cantigas sensuais. Em Portugal, na região de Amarante, a partir da devoção que atraia grande número de romeiros acompanhados de poetas do povo, seu “culto efetivou-se com danças e cantos de caráter muito livre, dentro da igreja, em frente ao altar. Tais eram, entre outros, a distribuição de pãezinhos em forma de falo, chamado ‘phallus de São Gonçalo’, que as mulheres levavam para casa na suposição de que proporcionariam o almejado matrimônio. Apregoava-se, na porta da igreja, para serem vendidos, rosários fálicos ou falos avulsos, feitos de massa doce.” 

Na Bahia dançava-se dia de São Gonçalo não só no Convento do Desterro como na Ermida de Nazaré, na Igreja de São Domingos, na do Amparo em várias outras. Só em 1817 os cônegos proibiram tais danças porque os europeus as censuravam como uma indecência indígena do templo de Deus. 

Maria Isaura Pereira de Queiroz, estudando a dança de São Gonçalo no povoado de Santa Brígida no interior da Bahia coletou de uma informante o seguinte depoimento: “D. Dodô, solteirona de 54 anos muito versada em coisas de religião contou-nos que Deus dera penitências diferentes a cada um de seus santos; S. Gonçalo fora encarregado de salvar as mulheres perdidas. Para tal, fazia-as dançar de dia, tanto e tanto que quando a noite chegava estavam cansadas demais para exercer o seu mister. Deus, por seu lado, fornecia milagrosamente dinheiro ao santo para distribuir entre elas, a fim de que não se vissem obrigadas a apelar para o seu antigo modo de vida, premidas pela necessidade. Por isso é que em tempos muito remotos só as prostitutas podiam dançar o S. Gonçalo; atualmente, porém, qualquer mulher o pode fazer sem desdouro, a dança perdeu a exclusividade. Quem fez a promessa da dança fornece um repasto aos executantes e à assistência, quando ela termina; é em memória da bondade divina que fornecia os meios para S. Gonçalo ter êxito em seu empreendimento”. 4 

A Dança de São Gonçalo é um dos últimos vestígios da dança religiosa, das formas universais de súplica pelo ritmo dos bailados. Humilde, paupérrima, anônima, analfabetos os cantadores, inconscientes os bailarinos, é uma sobrevivência, contra a corrente, resistindo. (LCC – Dicionário). A dança sempre foi executada como um voto religioso, em cumprimento de promessas. As pessoas prometem uma ou mais rodas de São Gonçalo em troca de uma graça que almejam. As promessas podem ser variadas, de uma ou mais rodas. 

Segundo Alceu Maynard Araújo, “os caipiras e caiçaras concebem e não conhecem a imagem de São Gonçalo sem a viola. Só no Brasil. O São Gonçalo com viola na mão é coisa muito brasileira! É uma contribuição à nossa religião; sua iconografia atual é a mesma é uma consagração à viola – o instrumento do meio rural”. 5

Alceu Maynard Araújo, ardoroso batalhador da seara folclórica, num dos seus suculentos volumes do “Folclore Nacional” deixou registrado que São Gonçalo pode também ser considerado a dança da medicina, pois encerra conteúdo curativo. Esse aspecto pode ser evidenciado tanto no litoral quanto serra-acima. Em Tatuí, SP, anotou a seguinte afirmação: “os velhos reumáticos ficarão são do reumatismo, se dançarem a dança com fé e respeito” conforme a quadra relacionada à cura do reumatismo: 
“São Gonçalo foi pro céu
mas deixô bem decretado, 
quem dança a dança dêle 
há de ficá curado 

Para os caiçaras de Ubatuba, além do aspecto devocional do sincretismo religioso associado ao casamento, São Gonçalo é também uma dança de magia que afasta os perigos de naufrágio.6 

“Já louvei a São Gonçalo, 
esse santo me valeu, 
contra todos os perigos, 
 ele já me protegeu.” 

A dança implica, necessariamente, no cumprimento de uma promessa pelo devoto do santo. Esta se realiza no interior da casa do patrocinador da dança que a ela convida seus amigos, vizinhos e violeiros para sua realização. Eventualmente, e nos lugares mais afastados, a dança pode ser realizada no interior de uma capela onde a vigilância dos párocos é frouxa. 

O caráter religioso da promessa implica respeito não sendo, neste momento, tolerados namoros ou risos. Dança-la pressupõe o recebimento de uma graça e, por isso mesmo, todos querem participar de “uma volta”: reumáticos, encarangados... E as solteironas para conseguirem casamento. 

Antes da execução da dança propriamente dita, os devotos fazem a armação do altar, o qual geralmente é preparado sobre uma pequena mesa, devidamente coberta com uma toalha branca bem alvejada em cujo centro são colocadas as imagens de São Gonçalo e de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, com duas velas em cada extremidade do altar. Excepcionalmente pode também conter duas imagens de São Gonçalo, a do padre português e a do violeiro sendo essa última uma exceção funcional em toda a iconografia católica. O serviço religioso é preparado por sangonçalistas devotos, geralmente o capelão da localidade, que dá inicio ao ofício com o terço e a salve-rainha. Findo o ofício religioso cuja duração é de aproximadamente meia hora, dá-se início aos preparatórios preliminares da dança, com uma preleção do mestre marcador a propósito da religiosidade da função propriamente dita. Conforme anotações de Francisco Pereira da Silva, este é o momento em que o marcador faz compenetrada preleção a propósito da religiosidade da função. Trata-se de “uma dança de respeito. Dançada com pouco caso, São Gonçalo não aceita”. 7 

Sob o comando de um mestre marcador que organiza os casais defronte ao altar, em fila dupla, homens de um lado e mulheres do outro, tendo à frente os violeiros voltados para o altar sendo o mestre à direita e o ajudante, à esquerda. 

Como assinala Maria Isaura Pereira de Queiroz, a dança sempre foi executada como um voto religioso, em cumprimento de promessas. As pessoas prometem uma ou mais rodas de São Gonçalo em troca e uma graça que almejam; são ‘promessas de vivos’. As promessas podem ser variadas, de uma ou mais rodas, dançadas num só dia ou em vários dias, com dançadeiras determinadas ou quaisquer dançadeiras. 

Também é encarada como uma espécie de dança curativa por encerrar tais princípios. Tanto no litoral, (em Ubatuba), como no serra-acima, (em Tatuí), encontramos esta afirmação: “os velhos reumáticos ficarão são do reumatismo, se dançarem a dança com fé e respeito”.8 

“São Gonçalo foi pro céu
mas deixo bem decratado 
quem dança a dança dele 
há de fica curado”. 

 Em Ubatuba, a Dança de São Gonçalo é considerada uma dança de magia, pois se acredita que afasta os perigos a que estariam sujeitos os incautos bem como afugenta os perigos de naufrágio das embarcações. 

 “Já louvei a São Gonçalo, 
esse santo me valeu 
contra todos os perigos ele 
já me protegeu.” 

Como assinala Kilza Setti, “em Ubatuba os violeiros andam quase sempre em parceria; geralmente o versista e o seu segunda ou cantador; muitas vezes, fazem-se acompanhar de grupos com cavaquinho, rabeca, pandeiro, caixa e ferrinhos, dependendo do gênero da cantoria. Esta quadra da dança de São Gonçalo, registrada no bairro da Estufa, em março de 1979, mostra a interferência do sagrado para reforçar e estimular o apoio recíproco na música instrumental”: 

“São Gonçalo me falou 
 Que eu tocasse com carinho
 Falô pro violeiro, 
 Ajudai o cavaquinho” (Ubatuba nos cantos das praias – paginas 154/155). 

 Os versos da dança de São Gonçalo entre os caiçaras de Ubatuba, SP, sofrem variações, à mercê dos estímulos externos da maneira como o grupo social de portadores desta tradição da religiosidade folclórica reage em face desses estímulos. 

Os que seguem abaixo é parte da variação dos versos da dança de São Gonçalo e foram coletados entre caiçaras do bairro do Perequê-Mirin, de Ubatuba, SP. Têm início com uma profecia e segue-se as louvações, em forma de repentes. No final de cada dança um dos pares volta-se para o altar onde se encontra a imagem do santo e para ali dirige mesuras. As mesuras são feitas com repentes: o casal posta-se defronte do altar e o violeiro tem a obrigação de louvar a ambos. 

PROFECIA:  
São Gonçalo de almirante 
a sua viola na mão 
ele é um violeiro 
protetor dos folião 

Meu frade São Gonçalo 
seu chapéu tem aba e copa 
disse missa no Brasil 
fosse padre na Europa 

Ele tirou a sua dança 
pela sua grande ventura 
pra livrar uma prostituta 
da rua da amargura. 

Quem tiver sua promessa 
Antes de morrer é bom pagar 
Quando deste mundo for 
A alma não irá penar.

LOUVAÇÕES EM REPENTES 
Vou louvar o mestre da dança (bis) 
passeando no salão (bis)
e junto com a sua mestra (bis)
ensinando o batalhão (bis) 
O meu frade São Gonçalo (bis) 
Ta na frente do salão (bis) 
Ensinando o meu mestre (bis) 
Acompanhando o batalhão (bis) 
O meu são Gonçalinho 
Ele é tão bonitinho 
Ele come o seu pão
Ele bebe o seu vinho.
Ora viva o São Gonçalo... 

LOUVAÇÃO DO MESTRE: 
Louva o mestre, louva o mestre (Bis) 
Fazendo sua mesura (bis) 
E na gente do altar (bis) 
Onde ta a virgem pura (bis)

O meu são Gonçalinho 
Ele é tão bonitinho 
Ele come o seu pão 
Ele bebe o seu vinho 
Ele deita, ele dorme, 
Ele é tão bonitinho. 
Ora viva São Gonçalo... 

A Dança de São Gonçalo possui uma intrínseca função de solidariedade e integração dos indivíduos de pequenos grupos sociais, abolindo as divisões e os distanciamentos dos membros do grupo. Assim como outras práticas religiosas que ainda permanecem no seio de comunidades pontuais, a Dança de São Gonçalo tem por função principal a manutenção da estrutura e da organização sociais tradicionais, não só fomentando a coesão e solidariedade internas, como também reafirmando a vigência dos valores que tornam possíveis a existência da própria comunidade. 

São Gonçalo de Amarante é festejado no dia 10 de janeiro com danças e promessas, juntando-se dinheiro para distribuir entre os violeiros que comandam a louvação do santo dirigindo a fila dupla de fiéis em seu ritmado passo de dança. 

A esse respeito Rossini Tavares de Lima no seu livro “Folclore das Festas Cíclicas” menciona uma lenda de fundo católico, recolhida em 1960 na região de Ubatuba. Na literatura folclórica a palavra “lenda” indica a estória da vida dos santos e de homens ou mulheres consagrados em diversas religiões. No geral, as nossas lendas são quase todas de fundo católico. 

A lenda, contada por Juvenal Antonio dos Santos, diz que “São Gonçalo morava em um lugar onde havia muitas moças desiludidas, que se perdiam sem mais aquela. Ele tinha bastante idade e não sabia o que fazer para entreter as moças, impedindo-as de cair na perdição. Resolveu, então, comprar uma viola e sair à procura das moças. E quando elas se preparavam para ir se “adverti”, São Gonçalo, com jeito, convidava-as para cantar e dançar e afastava de suas cabeças todos os maus pensamentos. Isso, o santo fez durante muito tempo até que morreu. Só com a sua morte é que as moças perceberam que ele era santo. Foram buscar um retrato velho dele, colocaram perto uma bandeira e puseram-se a dançar e a cantar suas modas. E assim deixaram de andar por aí e se fizeram devotas de São Gonçalo.” 

Numa conversa informal que mantivemos em 1986 com Catarina de Oliveira Prado lembro-me do seguinte relato: “...era uma coisa que nem o São Gonçalo, era uma coisa linda, bem tirado, bem feito, bem cantado. E havia as mesuras depois que se dançava de fila em fila. Quando chegava a hora da mesura, do beijamento do santo. Era de dois em dois, do par, fazendo mesuras, até terminar.” “ O pessoal cantava com garra, com vontade de divertir, entende?... Era uma fila de homem outra de mulher. Aquilo bem passado, bem trançado, quantos que eu não dancei... Violão, cavaquinho, tinha o pandeiro, violino, uma parte de cana verde. Ah, vamos dançá a cana verde, toca aí uma cana verde e o resto é xiba...”

Notas:

1 Gilberto Freyre, “Casa Grande e Senzala”, página 245.

2 Francisco Pereira da Silva, “A volta do Cajuru na Dança de São Gonçalo”, Revista Brasileira do Folclore, ano IV, nº 14, janeiro/abril de 1966.

3 Eduardo Etzel, Imagens Religiosas de São Paulo, página 33.

4   Maria Isaura Pereira de Queiros, “Sociologia e Folclore – A Dança de São Gonçalo num Povoado Bahiano – Coleção Estudos Sociais – 1 – Livraria Progresso Editora, 1958.

5   Alceu Maynard Araújo, “Documentário Folclórico Paulista”. São Paulo. Departamento de Cultura, Divisão de Arquivo, 1952. 

6 Alceu Maynard Araújo, Folclore Nacional, vol. II, Danças, Recreação, Música –  Editora Melhoramentos, 1964.

7 Francisco Pereira da Silva, “A Volta do Cajuru na Dança de São Gonçalo”, 

8 Kilza Setti, “Ubatuba nos cantos das praias”, Editora Ática, São Paulo, 1985.

 Biografia consultada: 

- Imagens Religiosas Brasileiras – Eduardo Etzel

- A Dança de São Gonçalo num povoado baiano – Maria Isaura Pereira de Queiroz 

- A volta do Cajuru na Dança de São Gonçalo – Francisco Pereira da Silva

- Notas sobre a dança de São Gonçalo do Amarante – Geraldo Brandão 

- Documentário Folclórico Paulista – Alceu Maynard Araújo 

- Ubatuba nos cantos das praias – Kilza Setti

- Folclore das Festas Cíclicas – Rossini Tavares de Lima 

 - Funções sociais do folclore - Maria Isaura Pereira de Queiroz – Revista de Cultura Vozes, out/1969.


OUTRA FORMULAÇÃO 
A festa de S. Gonçalo, se bem que de origem portuguesa, é a tal respeito particularmente significativa: aliás, ela não nos afasta, tanto quanto se poderia pensar, deste catolicismo indígena, porque mui frequentemente, no Estado de S. Paulo, a dança ante a estátua do santo é erguida, no decurso da noite, de cateretê ou de caruru. A princípio essas danças se faziam no interior das igrejas, para as raparigas casadoiras, e La Condamine teve ainda ocasião de assisti-las em 1817 no Recife. Elas se realizavam em 10 de janeiro, dia de S. Gonçalo, nas a Igreja acabou por proibir nas grandes cidades este culto, que lhe parecia indecente, e, malgrado os esforços endentes a restaurá-lo, veio a desaparecer por volta de 1889, ao mesmo tempo em que a monarquia. As danças, entretanto se conservaram nos campos, onde a fiscalização da Igreja não pode tomar senão uma forma temporária e descontínua, onde a fé tem que se alimentar a si própria, sem nada esperar de fora. Mas, acabando por ligar-se à velha instituição que a criara, tais danças já não se realizam no dia do aniversário do santo, mas em qualquer outro dia do ano, à vontade dos organizadores. Elas se tornam uma “promessa”, um ”voto”, de um roceiro que se curou de certa moléstia dolorosa ou de uma rapariga que não se casa e invoca a clemência do santo. Antes do mais, cumpre reunir os recursos necessários para a festa de maneira a contentar o santo, depois é preciso fazer chegar o aviso a uma população mui dispersa, o que requer tempo. O folclore rural torna-se assim a missa da gente humilde.
Sociologia do Folclore BrasileiroRoger Bastide