ISC - Idealizado em 1993, o Instituto Salerno-Chieus nasceu como organismo auxiliar do Colégio Dominique, escola particular de Ubatuba (SP), fundada em 1978 por Ana Maria Salerno de Almeida, a "Prô Aninha". Nomeando o Instituto, o Salerno vem em sua homenagem e, o Chieus, é tributo à Carolina Chieus, matriarca da família que, por várias décadas, manteve uma fazenda onde hoje estão inseridas as instalações da escola. Integrado ao espaço físico do colégio, o ISC tem a tarefa de estimular a estruturação de diversos núcleos de fomento cultural e formação profissional, atuando como uma dinâmica incubadora de empreendimentos. O Secretário Executivo do ISC é o jornalista e ex-prefeito de Ubatuba Celso Teixeira Leite.
O Núcleo de Documentação Luiz Ernesto Kawall (Doc-LEK), coordenado pelo professor Arnaldo Chieus, organiza os documentos selecionados nos diversos núcleos do Instituto Salerno-Chieus (ISC). Seu objetivo é arquivar este patrimônio (fotos, vídeos, áudios, textos, desenhos, mapas), digitalizá-los e disponibilizá-los a estudantes, pesquisadores e visitantes. O Doc-LEK divulga, também, as ações do Colégio Dominique.

LEK - Luiz Ernesto Machado Kawall (1927-2024), jornalista e crítico de artes, foi ativo colaborador do Instituto Salerno-Chieus (ISC) e do Colégio Dominique, onde, como tributo, há uma sala de aulas que leva o seu nome. É um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e do Museu Caiçara de Ubatuba.

08 abril 2026

Letras Ubatubenses

ENFIM
João Paulo Naves Fernandes
Não sei o que é terminar...
Talvez nunca saiba,
nunca termine...
percorrer constante,
plenitude inconstante.

Meio sorriso,
meio choro,
meias conquistas,
meios fracassos,
objetivos sempre intermediários...
um horizonte à perder de vista.

Sou uma tênue linha
que se basta em caminhar,
com ansiedade
permanentemente
suspensa.

Durmo desperto
acordo sonolento,
assédios opostos,
conflitos compostos...
mal faço o bem,
bem faço o mal,
nada completo,
nada encerrado.

Quem sabe um beijo
retido nos sonhos,
quem sabe um abraço
esquecido na frieza,
tragam um fim imediato,
e possa dizer enfim de algo:
Terminei!
Sinto-me realizado.

O hoje...sim o hoje

27 março 2026

Letras Ubatubenses

DESPERTARES
João Paulo Naves Fernandes
Quantos despertares
aguardam o término
de minhas ignorâncias.

Quantos de mim
sucumbem diariamente
no ostracismo
de suas ausências?

Ah...liberdade fugidia,
ninguém te ensinou
minhas fragilidades diárias,
seguem mansas tempo afora...

Escapas nas manhãs dos acasos,
distrai-se em afazeres.

Turvo o rio do meus dias,
desconhece a foz
onde desemboca,
não festeja as ribanceiras,
os frutos do caminho
nem funde os lentos contornos
sem fim...

Despertar sonolento,
sem a noite,
sem o dia,
mídiática,
anestesiada,
programada.

Quem sabe
uma seca profunda,
tempestades ruidosas,
inundações,
grandes catástrofes!

Quem sabe
vá despertando
ao longo do trajeto
em tempo de correções...

Quem sabe...

07 março 2026

Letras Ubatubenses

DOÍDAS PERIFERIAS
João Paulo Naves Fernandes
Os poderes
despencam
altivos
não há limites...

Que importam
as periferias...
seguem o ritual
da sobrevivência
entre igrejas e bares,
dividem o mundo
entre ricos e pobres

Apegam-se
a sonhos
no pesadelo.

Um ministro
se esconde,
um senador
desaparece...
um banqueiro
rouba...

Roubam!!
Todos roubam
com seus uniformes
polidos

As periferias
seguem sós,
entre igrejas e bares

A realidade
se revela crua
mulheres violentadas,
estupros coletivos,
feminicídios...

Estão nas casas,
dentro das casas,
estão nos trajetos
solitários,...

Solitárias mulheres

Doídas periferias,
jorram seu sangue só...
enquanto ministros
escondem-se no poder

10 fevereiro 2026

Letras Ubatubenses

DOR OCULTA
João Paulo Naves Fernandes
Dorme dor!

Durma neste passado

que vai se apagando

devagar...

Que ninguém

a descubra,

revele,

releve...

Fique aí

escondida

de todos,

ninguém

precisa saber...

Dor antiga,

às vezes

se levanta

sorri,

faz troça

da vida.

Não desperte!

Demoraste a te acalmar

tanto te escondeste.

Durma

este teu

pranto ruidoso

o tempo

silencia tudo.

Dor dura,

doída,

inquieta

proibida.

Dor de morte!

Ninguém quer

que despertes,

dor...

27 janeiro 2026

Letras Ubatubenses

5 DA TARDE
João Paulo Naves Fernandes
5 horas da tarde...

O dia se vai...
despedindo-se,
nada avisou,
não pediu opinião,
simplesmente
foi esvaindo...

Convida-me
a adormecer,
esquecer
tudo
com seus contudos,
absolvendo dívidas,
resultados sempre parciais,
transferindo expectativas
aos sonhos,
ao amanhã,
ou ao nada,
porque amanhece,
e novamente
novo parece.

5 horas da tarde...

Quem sabe um beijo
ainda reste
após o por do Sol...

Quem sabe o dia
não foi em vão
e firmamos
mais e melhor
nossa união,
este misto
de abraços,
viris compassos...

Seus batimentos,
5 da tarde,
são libidos,
meio despertos,
meio adormecidos...

Tarde te despedes...

21 janeiro 2026

Letras Ubatubenses

O QUE ESTÁ FALTANDO...
João Paulo Naves Fernandes
O que está faltando
são aquelas palavras
que tem sido guardadas
há um bom tempo,
enquanto as dificuldades
aumentam

O que está faltando
são aqueles passos
dados da porta p'ra fora,
sem esconder-se em casa,
ao encontro dos amigos,
compartilhando sofrimentos.

O que está faltando
é aquele olhar agudo,
transparente,
onde a realidade desnuda-se
sem a dissimulação
que não engana mais.

O que está faltando
são aquelas mãos dadas
diante das dificuldades,
em bloco,
nas ruas
em vez de lamentos solitários.

O que está faltando
é aquela coragem
de se por em prontidão,
e organizar-se
em vez de esconder-se
na covardia do silêncio.

O que está faltando
é você inteiro despertar-se
desta alienação de si e
por-se a campo
na luta por seus direitos.

19 janeiro 2026

Letras Ubatubenses

O JARDIM E A FLOR
João Paulo Naves Fernandes
Todas as manhãs
saio ao jardim,
para ver se encontro
a flor de meus sonhos.

A natureza reserva surpresas...

Não importa tanto o tempo,
faça chuva ou faça Sol,
abro a porta e saio...
quem sabe ela esteja
hoje ali,
em meu jardim...

Passo meus dias
saindo de casa
em uma busca constante
de uma flor
desabrochada em sonho.

Rego as plantas,
arranco as ervas,
rastelo as folhas secas caídas,
quem sabe em uma manhã alegre
ela surja diante de mim,
me surpreenda...

Conheço o talo que a sustenta,
as cores que escaparam
do pincel de Deus
em suas pétalas,
o perfume inebriante
que me aprisiona,
vegetal medusa invertida,
onde minhas pedras
adquirem vida.

Não sei onde dormes,
bela flor,
se ainda és botão
nesta noite escura,
ou te transformas em mulher,
e deitas à noite ao meu lado,
satisfeita e em paz...

Apenas essa forte sensação,
que estás aí no jardim,
quando saio...

04 janeiro 2026

Letras Ubatubenses

EM ALGUM CANTO...
João Paulo Naves Fernandes
Tenho um coração
escondido
em um vilarejo,
no mais profundo
interior do meu país.

Este coração
se esconde
das cidades...
não tem mais idade
para ocupações inúteis.

Canta uma modinha
escondidinha,
um versinho,
guardado,
observando
alguma moça,
passeando solta,
sem recitar,
de vergonha.

Meu coração
chora muito
quando na estrada,
vê um vilarejo,
perto da roça,
se vê aí escondido

Comporta
uma vida simples,
escondidinha,
longe...
das grandes cidades,
quer amor,
cana
e farinha.

02 janeiro 2026

Letras Ubatubenses

BOA NOITE
João Paulo Naves Fernandes
Um abat-jour acende
um quadro
ao lado da cama...

O quadro acende-me
um pensamento...

Tudo por causa
de um botão,
um simples botão
de ligar a luz...

Boa noite!

25 dezembro 2025

Letras Ubatubenses

MINHA PRIMEIRA TRISTEZA
João Paulo Naves Fernandes

A minha primeira tristeza aconteceu quando descobri que, afinal, Papai Noel não existia.
Estava em um encontro de final de catequese, num salão cheio de crianças pré adolescentes, num casarão dos dominicanos, na Cardoso de almeida, Perdizes. A catequista, esqueci-me de seu nome (guardei por muitos anos, mas já esqueci), fez uma pergunta a todos e todas que lá se encontravam:
- Quem acredita em Papai Noel?
Eu fui o único a responder em voz alta, erguendo a mão, alegremente.
Foi uma risada geral! Todas as crianças já sabiam que Papai Noel não existia.
Naquele dia, naquele exato momento, fui surpreendido, não pela mentira que fizeram comigo por longo tempo, boa mentira, mas por Papai Noel não mais existir.
Então não havia quem me mostrasse que o mundo era mágico e bom, e que fosse quem fosse, recebia seu presente sempre nesta época.
Confesso que o mundo, onde a realidade misturava-se com os sonhos, existia de fato, e que agora tudo ruíra.
Eram do meu pai e minha mãe, os presentes que recebia.
Tive que reciclar meus sonhos lá na juventude indo à luta por um outro mundo, sem opressores, mas era já outro tipo de sonho, sonho da dor de um mundo hostil. Sonho por outro mundo, novo.
Se me permitirem deixar uma recomendação aos nobres colegas, digo, sem pestanejar: Não matem o Papai Noel! Não sejam vocês os que o matam!
Deixem que o mundo faça este sonho cair.
Quem sabe Deus faça vir alguém que nos recomponha da morte de tão grande sonho, sonho real...
O menino Jesus ainda é muito pequeno e sem nada, para dar presentes...ah se o Papai Noel estivesse lá...

06 dezembro 2025

Letras Ubatubenses

CANSAÇO DE MÃE
João Paulo Naves Fernandes
O cansaço

de minha mãe

continua comigo

até hoje.

Ela morreu

há mais de duas décadas,

mas este cansaço

ainda está presente. 

Como se tivesse

continuado,

após grande

exercício.

Nascer,

desmamar,

crescer,

estudar,

trabalhar,

casar,

parir filhos,

cuidar da criação

todos os dias.

Ai, o cansaço

de minha mãe...

ecoa até hoje.

Eu

na beirada da cama,

ela falando:

- João, estou tão cansada...

Eu, sem palavras.

Apenas acariciando

sua face...

Não sai de mim

este cansaço,

tão grande cansaço.

Cansaço da vida.

17 novembro 2025

Letras Ubatubenses

VARAIS
João Paulo Naves Fernandes
Coloco minhas roupas
para secar no varal,
ao lado da jaboticabeira,
o sabiá alegra-me com o dia.

Aproveito que o Sol
me invada também,
secando a sujeira
que ficou de ontem.

Prendo com grampos
meu eu seco,
na roupa úmida,
certo que os ventos
sacudam a rabugice
para longe

Estico na roupa a ser presa,
essa língua tagarela,
para que possa calar-se,
deixando os demônios
enjaulados

No primeiro varal
ficam as mãos erguidas
com roupas
tiradas dos ombros,
pesam,
clamando um despertar
diante de tantas situações,
eu tão omisso...

No último 
ficam as peças
menos usadas,
secam na sombra,
demoradamente,
estão cansadas
do uso contínuo,
torcem por novidades.

Dependuro a esperança
no calor do dia,
com a certeza
de recolhê-la à tarde,
guardá-la para o amanhã
nem tudo é para hoje,
estarão preparadas.

Meus varais estão
sempre à espera,
aproveitam a luz,
o calor,
os ventos
prendem a ordem
seguram a vida
que balança...

11 novembro 2025

Letras Ubatubenses

REFÉM
João Paulo Naves Fernandes
Admito viver pelos cantos.

Talvez tenha visto muito,
além do suportável;
talvez não tenha conseguido
seguir como esperam.

As grandes paisagens
passaram ao largo,
tudo o que vi
foram dores e sofrimentos.

Acima de tudo me quiseram calado.

A contragosto, correndo riscos,
desenhei limites de proteção
onde somente entrassem
com vendas,
sem saber onde estão,
e tudo fosse buscas

Preservei a casa,
a mulher,
os filhos...
preservei os jardins,
o que tinha de melhor,
o que sustentava
meus enigmas de existir.

Por isso o canto,
onde escoro
as laterais da vida
que não se encaixam,
deixam os olhos ácidos...

Decifro-me enquanto me dispo,
meus caminhos são muitos,
não dependem do tempo.

Tornei-me amigo
da noite e do silêncio,
amigo da verdade,
enquanto sigo 
refém do mundo.

30 outubro 2025

Letras Ubatubenses

FERIDAS
João Paulo Naves Fernandes
Vou deixando por fazer,
nesta longa estrada,
eu tão falho.

Vão ficando feridas,
abertas,
esquecidas,
neste caminhar
de atalhos.

Vou como quem
não pensa,
não sabe,
incensa...

Se chego
em algum lugar,
surpreendo-me
com o nada,
vulgar.

Vou cuidando
de feridas
no tempo,
e haja unguento...

04 setembro 2025

Letras Ubatubenses

SER OU NÃO SER
João Paulo Naves Fernandes
Os espaços,
os que busquei,
não vieram...
os que não busquei, sim.

Construí um edifício
que me foi dado,
outro está nos alicerces.

Procurei por Deus
e tenho a sensação
de não ter nem mesmo
limpado o terreno,
de repente ei-lo presente

Os amores que surgiram,
voos cegos,
geraram desejos insólitos,
além convívio,
terreno onde finquei a paz.

A morte que evitei,
porque sob o Sol,
não vejo além,
está sempre presente,
como fiel escudeira.

O caminho parece longo,
inalcançável,
cada trecho parece um fim.

Assim vou
nas reentrâncias da vida,
encontrando-me
enquanto me perco,
sendo o que não sou,
não sendo o que sou

02 agosto 2025

Letras Ubatubenses

TARIFAÇO POÉTICO
João Paulo Naves Fernandes
De hoje em diante, todos aqueles que quiserem entrar em meu coração deverão pagar taxas, conforme o que são e fazem.
São estas:

100% pela indiferença... 
100% pela maldade e ódio
100% das ausências e omissões
100% em ceder ao medo.
100% por não pensar no povo citando a pátria
100% por não conhecer nem saber viver a paz.
100% não procurar superar-se no que faz.
100% ao olhar mais para si...
100% aos ricos...encontram sempre formas de isenção

Não taxarei os esquecidos e desprezados pela maioria
Não taxarei os que vivem apertados nas periferias de todo tipo, aguardando quem os socorra.
Não taxarei as mulheres agredidas e assassinadas...
Não taxarei os que sofrem toda espécie de discriminação.
Deixarei entrar sem taxas os pobres os desempregados, os que choram escondidos seus sofrimentos. 

Tenho um coração zeloso que taxa sempre os poderosos e os maus...

Não dou prazos, nem volto atrás...

Este o TARIFAÇO que estabeleço

04 julho 2025

Letras Ubatubenses

PROCURANDO SAÍDAS
João Paulo Naves Fernandes
Não é possível dizer tudo,
então ficamos sempre meio
incompletos no meio de tudo,
faltando em alguma coisa.

Isso para os que se questionam.

Talvez, grande parte queira
apenas afagos, outros, nem isso...

Vou seguindo só neste
emaranhado...
provavelmente os amigos...o meu amor que me escuta, nem sempre me entendendo.

Se nos encontrarmos por aí,
nos aliviaremos juntos deste
mar longínquo e suas ondas
constantes.

Me digam onde me ancoro, não vejo terra.

Eu sei que continuaremos neste vagalhão constante...

Quem sabe encontramos saídas...

25 junho 2025

Letras Ubatubenses

EXPLOSÃO
João Paulo Naves Fernandes
Vou explodir!!!

Será que você será atingido?

Cairei a qualquer momento
em algum lugar...

Você nunca saberá...

Minha explosão
é de amor...
é revolução...

Vou destroçar
tua frieza
tua ausência
de tudo.

Vou deixar pedaços
teus em rosas
suspensas em espinhos,
protegidas dos vasos.

Explodirei em você
nas noites quentes
de verão,
quando as ruas chamam
as janelas abertas

Letras Ubatubenses

EU TEU
João Paulo Naves Fernandes
Agora, já!!!
Nada é para depois
Nada para antes...
Importa o agora presente.

Por isso,
canto sempre
Recito o poema preferido
Declaro o amor
enquanto é tempo.

Os que provocam dores
fiquem com suas dores...
Os que oprimem
vivam em suas opressões...

Quanto a mim,
serei eu agora
eu que sigo
como diz meu coração,
assim declaro.

Sigo apreciando tudo
com a beleza que tem...
e quero sempre novidades.

Acerco-me de amigos.

Tenho um tempo curto,
não deixo pra depois...
sou do agora,
do olhar,
pegar,
beijar,
abraçar,
sou do amor,
de amar e amar

Sou do braço dado,
dos olhos claros
diante de tudo,
sigo como sou,
com o que tenho.

Meus amigos
não vivem do dinheiro,
mas da solidária fraternidade.

Sou um eu teu...
sempre meu amor,
grande amor,
sobrevivente do mundo

11 junho 2025

Letras Ubatubenses

ÂNSIA SOLITÁRIA
João Paulo Naves Fernandes
Tu...
passando por cima
de mim
com esta
exuberância toda...

Nem um batalhão
de choque
seria capaz
de impedir-me
rasgá-la
com minha
língua de anzóis.

Em quantas trincheiras
já não me ocultei,
aguardando a chance
de fisgá-la,
antes dos girassóis
a roubarem
o encantamento...

Quantos vinhos...
quantas vinícolas
seriam necessárias
para que
a árvore da vida
desse frutos,
e pousasses
em meus galhos?

Percorro
sinuosos campos
atento às palavras
que escapam
da multidão...

Quem sabe voltes
de teus afazeres
ancestrais,
tuas noites
intermináveis,
prisioneira das torres
de comunicação...

Quem sabe tremas
ao me encontrar...

Dos largos
espaços inexplorados
escapam
peixinhos vermelhos
balbuciando,
secreta linguagem
marítima...

Teus segregos,
recônditos,
lançam,
decididos,
tua carruagem
de odores
contra os frontões
da fortaleza
onde adormecem
tropéis de desejos.

Roubo-os dos sonhos?

Não sabes
que dormes
perigosamente?

Não ouves
a flauta do fauno
ecoando
em meio
a mata escura?

Viras teus costados
para o perigo...
não sabes
quantos deuses
vorazes
preparam armadilhas
para estas
tuas montanhas...

Tua ingênua presença
enche de perfume
a noite solitária...

Desconheces
os riscos
que corres?

05 junho 2025

Letras Ubatubenses

SOBRE A VERDADE
João Paulo Naves Fernandes
julho 23, 2024
A verdade dói,
quisera não dizê-la.
Calar-me?
Não posso.
A maioria não suporta.
A verdade exclui
seus defensores,
mata-os.
A verdade
se afirma
como necessidade
de consciência,
livra do padecimento
coletivo,
prisioneiro.
A verdade
não tem hora
nem lugar,
embora desejem
acorrentá-la
num tempo determinado,
em lugar seguro.
A verdade
nunca estará segura,
porque atinge
o centro do poder,
estará sempre
em risco.
A verdade
não tem limites,
mexe e remexe
estruturas individuais
e coletivas,
incluindo
quem a proclama.
A verdade
não pede licença,
por mais suave
que possa
tentar parecer,
sempre fará o mau
sentir-se ofendido,
com ódio.
A verdade
não consegue
esconder-se,
ainda que tentem
deixá-la
do lado de fora.
A verdade
mora no mais profundo
do coração do homem
e da mulher,
às vezes adormecida,
outras vezes confusa
diante de tantas falsidades.
A verdade
é limpa,
direta;
não precisa
de penduricalhos
para se expressar.
A verdade é sã,
sadia;
está ligada
a natureza
plena do ser.
A verdade
é realizante,
mesmo perseguida,
contradição
inerente,
obrigatória.
A verdade
não dorme.
Quem dorme
é o ser humano.

29 maio 2025

Letras Ubatubenses

RECOLHO EXPERIÊNCIAS
João Paulo Naves Fernandes
Recolho experiências como quem sempre nasce.
Tudo que é novo vai sendo guardado no alforje do coração.
Gera domínio do tempo, novidades enfraquecidas no longo convívio.
Trazem lágrimas e dores, esperanças e sorrisos, e acasos.
Nunca tem a palavra final, continua aprendendo.
Recolho experiências como quem morre aos poucos, quem quer saber...permanecem guardadas...
O mundo corre sem memórias e se esbarra na mesma e repetida marola, lua nova, oculta.

26 maio 2025

Letras Ubatubenses

MARÉ BAIXA
João Paulo Naves Fernandes
Maré baixa, mar distante...
há dias que de tudo
me ausento,
assento
num ponto,
e ali permaneço,
hiberno...

O mundo que fique
com seus problemas,
eu com os meus,
já bastam.

Não sinto
a direção dos ventos,
a correria do entorno,
estorvo, estorno.

O Sol vem
e já me basta
o dia com seu calor,
em ausentar-me,
sem pudor,
voz dissonante,
vou calar-me.

E a Lua muda,
esconde-se
em suas ausências,
inocente que se faz.
...e como tudo
muda na vida,
de repente,
e uma ressaca
esquecida,
me faz voltar...

Assim vou...
da proa à popa,
definindo
ritmos,
compassos..

Minhas marés
levam e trazem...

Lá vou eu ali,
e outra vez,
aqui...

16 maio 2025

Letras Ubatubenses

SE ME FALTAM PALAVRAS...
João Paulo Naves Fernandes
Se me faltam palavras,
então os fatos
falam mais alto,
ainda recolhem elementos...

Também consideram
as oportunidades,
a surdez nos emudece.

Tenho ainda
palavras prontas
sem ouvintes,
aguardam a virada do tempo.

Olho o horizonte,
me pergunto
se trago algo novo,
ainda guardo a pepita
que areja ambientes,
luzidia.

Neste meio tempo,
transito entre afazeres
supérfluos,
questionando
suas extemporaneidades.

Persegue-me
um ser completo,
que nunca se realiza...

05 maio 2025

Letras Ubatubenses

INSERIDO
João Paulo Naves Fernandes
Estrelinhas saíam
de meus olhos,
viajavam
até encontrarem lar.

A boca
amargava
conforme
segurava
momentos,
media,
desaguava.

Depois,
vinha um rio,
onde as palavras
se deleitavam,
casavam,
febris,
em oceano
profundo.

Construíam o planeta.

A realidade
mesclava
dor e sonhos.

Os pés
sobre o chão duro
tinham o impacto
de lençóis nos varais
em dias de Sol,
conectavam
terra e vento,
eu no mastro.

Era preciso
repor a vontade
sobre a ordem,
dar espaço
às descobertas noturnas
antes que tudo voltasse
a ser pedra e pó.

Por isso
o tempo,
a velha
maturação
curtida,
diariamente,
por fora
dos significados,
criando...

Observo,
pela manhã
a superfície
do mar,
em busca
de um fino
tapete,
onde esconda
meus sonhos.

Faço o mundo,
e não me arrependo...

29 abril 2025

Letras Ubatubenses

DEFASADO
João Paulo Naves Fernandes
Não dá tempo para ler de tudo o que recebo.
Não está havendo tempo para conversar com todos que gostaria e estou precisando.
Não encontro tempo para ler todos os livros que tenho e os que gostaria.
Falta tempo para visitar os amigos e prosear.
São muitos os lugares que desejo visitar neste adiantado da vida.
Vivo a ansiedade por tudo que não consigo.
Reconheço a profunda defasagem entre o que está oferecido diante de minha pequena capacidade.
Então, passo a vista por alto, ligo ora a um, ora a outro.
Deixo muitos livros abertos na mesa e saboreio partes de todos.
Visito pontualmente.
Assim acompanho, meio por dentro, meio por fora.
Recuso-me a correr só por correr...ainda sou eu, com meu ritmo e meu tempo.

Rumo aos 50!

Entrevista com Claudia e Eduardo Medina

21 abril 2025

Letras Ubatubenses

A PÁSCOA ATUALIZADA NA IGREJA
João Paulo Naves Fernandes
A morte vencida na esperança e a vida em despedida.
Seu nome, Francisco.
Amou tanto as pessoas, a ponto de criar uma Igreja em saída, com altares nas praças, e fiéis nas sarjetas, nos escombros das guerras.
Disse o que via sem esquivar-se aos poderosos, e sorriu muito por ter olhos bons.
Tirou apetrechos inúteis e varreu os penduricalhos nas celebrações, dirigia-se ao principal, ao Senhor Jesus, ao Pai, ao Espírito Santo.
O meio ambiente tornou-se seu verdadeiro altar, e os peixes, aves e as plantas os anjos que ornamentam o mundo.
Seu testemunho continuará ecoando nos corações dos pequenos esquecidos deste mundo.

18 abril 2025

Letras Ubatubenses

SEXTA FEIRA SANTA
João Paulo Naves Fernandes
Vou guardar-me hoje, guardar-me das palavras soltas e vãs, guardar-me das grandes distrações diante deste mundo de opressão.
Vou deter-me em mim, encarcerado às pobrezas d'alma que me afastam dos que sofrem, enquanto me divirto.
Vou questionar-me sobre a viagem da alegria que me deixou, e não a trago de volta.
Hoje observo o que fiz de minha fé, se a consumi na solidão da oração, ou se a testei junto aos mais necessitados.
Denunciar-me das eternas devoções ao lado de um mundo que sofre.
Quantas vezes Jesus Cristo deverá subir à cruz por mim?
Oh espírito fugidio...

08 abril 2025

Letras Ubatubenses

PEQUENOS
João Paulo Naves Fernandes
Somos os pequenos
conhecidos...
das pequenas presenças,
das poucas palavras.

Não nos importamos
com as modestas divulgações,
e dividimos alegremente
pequenos sucessos.

Prezamos as pequenas palavras
e aguardamos longo tempo
até que possam ser ouvidas.

Conhecemos os pequenos
ouvidos,
que se posicionam,
não incluem
o coração.

Somos das pequenas decisões
que nem precisam
ser conhecidas.

De tudo participamos
sorrateiramente.

Raros os grandes conhecidos.

A estes nossos lauréis,
nossas reverências.

Somos sonhos pequenos
que passam rápido.

Se puderes, ouça...

07 abril 2025

Letras Ubatubenses

DESPERTAR
João Paulo Naves Fernandes
Estes montes altos
que sobrevivem nas penumbras...
Estas florestas densas
sempre desbravadas...
o despertar dos grilos...
Esta noite que amanhece,
ao passear das mãos...
Este dorme e acorda
não se decide...
essa sensação de novo
no mesmo de sempre...
Essa visita de vida constante...
Este mar bravio sem margem...
Este sonhar sobre a realidade...
Esta calma da noite, absolvida...
Estas pernas que abrem e
fecham,
como conchas,
tesouros profundos...
este desejar das marés,
feitiço por terra...
esta sombra que não se assume,
estes olhos acostumando-se à luz.
Estes beijos deixados
à porta da entrada,
este convite para a manhã...