ISC - Idealizado em 1993, o Instituto Salerno-Chieus nasceu como organismo auxiliar do Colégio Dominique, escola particular de Ubatuba (SP), fundada em 1978 por Ana Maria Salerno de Almeida, a "Prô Aninha". A criação do Instituto Salerno-Chieus, como fomentador das atividades culturais no Colégio Dominique, é uma homenagem para Ana “Salerno” e Carolina “Chieus”, matriarca da família que, por várias décadas, manteve uma fazenda onde hoje estão inseridas as instalações da escola. Integrado ao espaço físico do colégio, o ISC tem a tarefa de estruturar diversos núcleos de estímulo à cultura e à formação profissional, atuando como uma dinâmica incubadora de empreendimentos. O Secretário Executivo do ISC é o jornalista e ex-prefeito de Ubatuba Celso Teixeira Leite.
O Núcleo de Documentação Luiz Ernesto Kawall (Doc-LEK), coordenado pelo professor Arnaldo Chieus, organiza os documentos selecionados nos diversos núcleos do Instituto Salerno-Chieus (ISC). Seu objetivo é arquivar este patrimônio (fotos, vídeos, áudios, textos, desenhos, mapas), digitalizá-los e disponibilizá-los a estudantes, pesquisadores e visitantes. O Doc-LEK divulga, também, as ações do Colégio Dominique.

LEK - Luiz Ernesto Machado Kawall (1927-2024), jornalista e crítico de artes, foi ativo colaborador do Instituto Salerno-Chieus (ISC) e do Colégio Dominique, onde, como tributo, há uma sala de aulas que leva o seu nome. É um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e do Museu Caiçara de Ubatuba.

09 agosto 2026

Letras Ubatubenses

QUANDO VIERES...
João Paulo Naves Fernandes
Quando vieres
traga junto a fragilidade,
os reis fiquem com seus tronos.

Ao aproximar-se
seja suave,
possa ser vista
desde longe,
e tão logo possas,
afague-me antes
de qualquer palavra.

Quando chegares
traga junto lamparinas acesas,
grandes são minhas escuridões,
clareie cômodo por cômodo,
até tudo iluminar-se.

Suas palavras sirvam de alimento
onde possa refestelar-me junto a ti,
na verdade,
a depender do grau,
sejam preservadas dos maus...

Quando vieres,
venhas inteira,
em fraternos altos e baixos,
junto às minhas volúveis
aquiescências...

Assim poderemos nos entender
no amor,
e caminharmos juntos.

31 julho 2026

Letras Ubatubenses

BEM VINDAS AS DORES
João Paulo Naves Fernandes
28/4/2024
Se tenho dores,
que tem lá alguém
a ver com isso,
se são minhas?

Ninguém carrega
dores de ninguém.
No máximo,
se é solidário.

Solidariedade
sem dor.

Quanta dor
é necessária
até perder-se
a última gota
de orgulho
e vaidade?

Muita dor é preciso...

Necessitam ocupar
o corpo inteiro,
imobilizar.

Quem sabe
aí surja
algo novo,
despido
de falsidade
e soberba?

Por isso,
sejam sempre
bem vindas
as dores
que se espalham,
seus gemidos
são fraquezas
de quem sofre,
não as entendem.

Dores servem
para serem
guardadas,
porquê não
cultivadas?

Redimem a vida
de seus vícios,
forçam conversão.

Porque não, então,
desejar dores,
dores sobre dores.

Quem sabe assim
a alegria
se redescubra,
possa usufruir
os pequenos
momentos?

Quem sabe
nos encontremos
em meio
a dores?

26 julho 2026

Letras Ubatubenses

ATÉ
João Paulo Naves Fernandes
Sequei...
Ficarei um tempo
com meu vazio
Não me procurem,
poderão decepcionar-se.
Estou cheio
de quinquilharias
dependuradas
na cabeça.
Vou fechar-me
no quarto,
fechar os olhos,
esconder-me
debaixo do lençol.
Não quero ver ninguém.
Não me liguem,
não atenderei.
Não sei quando volto.
Tenho um cansaço
de tudo e todos,
até de mim,
de como sou.
Nos vemos
a qualquer
momento,
não sei quando.
Então, até qualquer hora.

25 julho 2026

Letras Ubatubenses

IMPREGNADO
João Paulo Naves Fernandes
Não tenho como esquecer
impregnado que está...
se é dor,
ficam partículas
de solidão, 
                 pesar, 
                         nos olhos...

Se são momentos
alegres
           extravasam
                        tardiamente,
chegam à língua,
pau sa da,
compreensiva,
experiente.

Não se esquece,
condensa-se.

Vivo dor e ardor,
mix pessoal
na plataforma
de streaming
da vida

Tudo guardado
no armário do tempo,
não se vestem mais...

Dão o contorno
expressivo,
mansa
compreensão...

Administram
exaltadas
fugas,
sonhos
fugazes...

Contam com o tempo...

24 julho 2026

Letras Ubatubenses

VIVA POETA
Emília Guaraci
Há de sentir, poeta,
A carícia do vento e o perfume das pétalas.

Nelas
a musa se faz presente.

É canção no tempo
Cura do sofrimento.

Feito eco diz:
Viva poeta,
pela nossa neta.

Letras Ubatubenses

MUSA
Joban Antunes
Como o poeta vive sem sua musa?
É como a rosa sem perfume
O artista sem público
O oleiro sem argila
A dor é tanta
Que não cabe no peito
Seca as lágrimas
E descolora a vida
Sobreviver é preciso
Morrer é sonho
A memória é inimiga da alegria
As lembranças atropelam a vontade de esquecer
E ficamos a mercê do tempo

23 julho 2026

Letras Ubatubenses

LOGO APAGA...
João Paulo Naves Fernandes
11/5/2026
Se negam tudo tanto,
deixem-me ser,
ao menos, poeta,
e já basta.
Fiquem com o mundo!
Explorem o povo
até a exaustão!
Guerreiem!
Matem!
Que sobre
apenas a poesia
para mim.
Este é o meu pão!
Meu coração
é manso,
busca um pasto
em algum campo
esquecido por aí,
para passar o seu dia,
não comporta
violência,
ódio,
morte.
Atenção!
Não digam a ninguém
onde estou,
finjam
que não me conhecem.
Se quiserem encontrar-me,
às altas horas da noite,
ainda verão uma estrelinha,
fraquinha...,
na borda
do monte dos desejos.
Este sou eu...
Como veem,
não é preciso
dar atenção,
logo apaga...

13 julho 2026

Letras Ubatubenses

ALMA MINHA
João Paulo Naves Fernandes
22/11/2025
Desperta-me, minha irmã,
segure o tempo um pouco mais,
enquanto pesquisamos
conchinhas coloridas
deixadas nas areias úmidas da praia.

Percorramos este vasto campo
onde se esvai o caminhar
entre as margaridas,
enamoradas da relva homogênea,
destacam-nas...

Lembra-te? desaparecemos nelas...

Alça-me além
dos escombros inevitáveis
nestes teus beijos líquidos,
pesquisam línguas extintas,
adiam meu féretro.

Querida irmã, alma minha!

Tu és a marca
formada em meu rosto,
fotografia em que me revelo
inteiramente em ti,
passos de meus tropeços,
tão constantes
imagem que me distrai,
despenca no caminho.

Leva-me junto a ti,
incapaz de ti,
carente de ti.

Amada irmã,
enciúma-me o beijo
matinal do Sol,
o banho noturno
de afagos
da Lua...
te acompanham
em minhas ausências,
velho e pequeno

Lembra-te de como
percorremos em silêncio
as grandes distâncias
dos ocasos,
tudo se encaixava
como azulejos azuis,

Tudo era possível!

Onde tocávamos
encontrávamos vida,
mesmo nas pedras,
impecáveis
disformes...

Agora a hora se despede...
mostra-me então a noite,
sigamos este pouco juntos,
sonâmbulos do amanhã,
olhemos o entorno construído,
como reagimos
aos clamores que ouvimos,
ainda ecoam,
como choramos o mundo...
certos de não errarmos o destino.

Venha!

10 julho 2026

Letras Ubatubenses

SOERGUIMENTO
Paulo Andrade

Quando finda o encanto
Da paixão vivida
Quando vem o pranto
Da alegria perdida
Brota fundo, no entanto
Um fio fino de vida
Que enfrenta o espanto

E esse finíssimo elo
Qual uma aracne teia
Vai vencendo o flagelo
Que a alma permeia
Trazendo de modo belo
A esperança nas veias
Espessando como velo

E embora não a mesma
Alegria de outrora
Guardando tristeza, esma
De quem a sorte chora
A reação como resma
No âmago todo aflora
Ignorando sua sesma

Porque todo ser reage
À dor, ao sofrimento
E na dor mesmo age
Recriando paz e alento
Acredita na mensagem
De que em qualquer tento
O soerguer é coragem

Para Joban

09 julho 2026

Letras Ubatubenses

IMPELIDO
João Paulo Naves Fernandes
Impelido a sair, defronto-me
com as grandes estruturas,
a realidade seca.

Está em mim
transcender quimeras,
buscar novas esferas,
trilhar caminhos famintos
dispostos ao lado,
disfarçados...

Não caibo neste mundo
de perguntas suspensas,
mesmo as suaves brisas
afagam procuras fatigadas,
e esse balanço
constante do amor,
não se explica,
preso às nervuras do coração.

À espreita de mim,
ando neste complexo
edifício da vida,
onde reside
a identidade de um louco,
rouco de tanto se indagar,
pelo caminho...

Afogo-me no mar,
despenco-me ao caminhar,
silencio-me diante
de tanto barulho surdo,
inócuo...
o olhar diante da morte,
a epiderme decifrando
toques incompreensíveis,
o pousar os olhos à noite,
despertar...
sem explicações,
desconforme.

Subjaz a aparência
de uma perfeição esquecida,
numa estrada distraída,
percursos que não se encaixam...

06 julho 2026

Letras Ubatubenses

Para minha querida Andréa Palmeira Antunes
Roze Cabral

Vinícius de Moraes, com a sabedoria que só os poetas carregam, corrigiu nossa miopia diante do fim. Explicou-nos que a morte não é inesperada, como costumamos dizer. Ela é, em verdade, impressentida. 

Como guardo em mim essa quase obsessão pelos conceitos e pelas palavras, demorei-me por horas a fio no eco dessa frase tão profunda. Afinal, se a única certeza irrefutável da existência é a de que um dia abandonaremos a veste desse corpo físico, chamar a partida de "inesperada" beira a ingenuidade.

O mistério reside no fato de que nos é vedado intuir o instante exato do adeus. Disso, ninguém duvida. A última vez que vi Andréa, o cenário era uma celebração entre amigos da Literatura. E, como costuma desaguar todo bom encontro de literatos, o ar estava impregnado de leveza, riso solto e camaradagem. 

Lembro-me de que, por um capricho estranho do destino, meus olhos se demoraram nela por longos minutos. Fazia tempo que a vida não nos cruzava, e julguei que aquela urgência no olhar era apenas a saudade cobrando o seu preço. Nos abraçamos, e segredei-lhe o quanto a achei parecida com a mãe. Foram nossas últimas palavras escritas no tempo.

Hoje ela partiu. Fica em mim o silêncio da ausência, mas também uma gratidão imensa por tudo o que floresceu enquanto esteve aqui: seu riso largo, seu bem-querer sem rasuras, o desenho único de sua presença e essa derradeira imagem que o meu olhar guardou, como fotografia eterna na retina.

Há uma profunda sabedoria divina em nos poupar dos presságios da morte. O peito humano é frágil demais para carregar o peso de tamanha magnitude. Afinal, a despedida de quem amamos sempre será o inverno mais rigoroso do coração.

23 junho 2026

Letras Ubatubenses

TARIK
Paulo Andrade

Tarik veio com os pais do Iraque em 1990. O pai, Hassam e a mãe Fatma, fugiram da invasão dos Estados Unidos àquele país asiático.

Na cidade de São Paulo, o pequeno iraquiano conheceu os colegas de escola, que o receberam com festa e bolo. Isso fez com ele esquecesse um pouco do trauma da visão de sua casa sendo destruída por uma bomba americana.

Paradoxos da vida: a América o expulsou na Ásia e a mesma América o acolheu em São Paulo.

21 junho 2026

Letras Ubatubenses

ANÁLOGO
Joban Antunes
Uma coisa é ser poeta
Outra coisa é ver o mar
Uma coisa é ser artista
Outra coisa é navegar

Uma coisa é ser sincero
Outra a mentira acatar
Uma coisa é o que eu quero
Outra é o que eu possa lhe dar

Uma coisa é um país
Outra um discernimento
Uma coisa é um amor
Outra um descontentamento

Uma coisa é a verdade
Outra a falsa noticia
Uma coisa é sinceridade
Outra é viver na mesmice

Uma coisa é a certeza
Outa a inviabilidade
Uma coisa é a beleza
Outra é o chegar da idade

Enquanto a vida vai
Uma coisa que persiste
É o amor que existe
Esse não morre jamais

20 junho 2026

Letras Ubatubenses

FRIO HUMANO
João Paulo Naves Fernandes
Fria noite,
desprotegida...
fria humanidade,
desabitada...
frio amor
coabitado...

Fria miséria
rica,
indiferente
ao padecimento
da gente,
falsifica

Fria rotina,
neblina
cega,
que apega,
fina,
confina

Frio interior...
de amor
fugidio...
morte
sem fim,
calafrio,
exterior...

Frio algoz
em nós
penumbra
permanente,
pendente...
desfigurada,
incrustada

Frio mudo,
mortal,
na espinha,
na mente,
caminha,
imanente

Frio de tudo,
de ventos
polares,
isolamento
mudo
fechado
nos lares.

Frio de busca
inútil,
fútil,
terminal...

Frio humano...

19 junho 2026

Letras Ubatubenses

O DEMOLIDOR DE MUROS
João Paulo Naves Fernandes
A vida tem muros...

Tenho encontrado muros
no decorrer do tempo.

Detenho-me diante deles
sempre que surgem,
não são convidados
a participar da festa,
mas vêm.

Possuem tamanhos diversos,
fazem-se de intransponíveis,
deixam a impressão
de que ali
terminam meus passos,
velhos passos.

Já ultrapassei vários deles...

Quando me viro,
olho para trás,
nem sempre vencê-los
trouxe gosto de vitória,
mas alívio,
consciência de que algo
se perdeu,
atrasou.

Agora mesmo
está aí um muro imenso,
com seu sentimento
de impotência,
convidando a desistir,
ficar na constante maré.

Quer que pense
não ter força suficiente
para derrubá-lo,
cheguei ao fim do caminho.

Pacientemente
me dou conta
da aparência
do obstáculo,
encontrando saídas,
continuando em frente.

Aprendi a desafiar muros...

Não são tão grandes
quanto parecem,
quando nos pomos
a resolvê-los.

Surgem a todo instante,
aparentando maiores.

Sou um demolidor de muros.

Estão sempre à minha frente,
e eu sempre à derrubá-los.

13 junho 2026

Letras Ubatubenses

RETIDO
João Paulo Naves Fernandes
Não sei despedir-me,
algo retém a saída.

Não sei se nuvens
não convidam,
estão estáticas...
não sei se somos nós,
temerosos do mundo,
das descobertas...

Ando segurando
suas mãos
o quanto posso,
afago de permanência.

Temos algo a concluir
em suspenso,
ao nos despedirmos...
continuidade
por formar sentido.

São necessárias
novas buscas,
experiências,
que reguem
o jardim cultivado
em silêncio.

Despedidas matam!

São como
enterros antecipados
preparando os corações
a viagens distantes.

Há muito ainda
a se dizer,
a ouvir...
há muito de nós
represado na boca,
enquanto olha,
deseja estar junto.

Despeço-me
com versos
do leitor,
como quem
não quer partir,
e deixa palavras
que ficam.

Volte logo!

10 junho 2026

Letras Ubatubenses

INTRÍNSECO
Joban Antunes
Entre a fé e a coragem
Entre o medo e a certeza 
Entre o real e visagem
Entre o feio e a beleza
Entre o frontal e o reverso
E o amor que não conheço
Entre o início de um verso
E o fim de um recomeço
Entre a tristeza que aflora
Na vontade de ficar
No adeus de ir embora
Sem rumo pra navegar
Desisto na mesma hora
Me escondo em qualquer lugar

07 junho 2026

Letras Ubatubenses

TEAR NOTURNO
João Paulo Naves Fernandes
A noite é um novelo de lã
que se desfia
madrugada afora,
não sabe aonde vai...

Segue distantes
batidas de tambores,
ancestrais...

Se são daqui
ou recônditos lugares,
sabe-se lá o que fazem
estes teares,
vestem anjos
nos portais
da eternidade?

Sei que há algo
sendo tecido,
no frio auscuto
da noite,
a ser vestido
durante o dia,
preparam-me
para as noticias
de amanhã?

O tempo escuro
discerne os limites
longínquos ouvidos,
se continuam as batidas,
com indígenas expulsos
em seus cantos
celestiais soturnos.

Mal escuto de mim,
se confundo o peito
que represa o coração,
a um transcendente
ritual noturno.

Sei de portas
que se abrem,
fecham...
de estar atento
a novas linguagens...
tudo o mais palidece
de explicação.

Por fim,
embalo-me no ritmo...
sou parte desaparecida
de grupos tribais
envoltos em chamas,
vendavais clamando por justiça.

03 junho 2026

Letras Ubatubenses

TOMBO
Joban Antunes
Podem puxar meu tapete
Podem me jogar no caos
Podem me fazer de joguete
Copiar atos dos maus
Assim quando eu cair
Saberei quem derrubou
Na dor até posso rir
O tempo me consolou
Aprendi como cair
Evito me machucar
Do chão eu posso sair
E as feridas curar

Letras Ubatubenses

ONDE NASCE A MINHA POESIA
Roze Cabral
Escrevo linhas onde o papel me acolhe.
Nos cadernos, nos guardanapos esquecidos, no avesso humilde de um saco de pão.
Escrevo no que é passageiro: no desenho das nuvens, na espuma que o mar faz antes de sumir, ou ali mesmo, na crueza do chão.
Traço linhas que ganham corpo no barro úmido, na textura das peças de argila, nas formas que ganham vida e calor no trabalho das mãos.
Rascunho linhas que cortam o asfalto das estradas, que se apagam nas areias das praias, que se perdem nos labirintos do olhar e da emoção...
Escrevo linhas em toda parte, sem trégua.
De onde elas vêm?
Dos cantos inquietos, dos sentimentos revoltos, dos gritos abafados da alma.
De onde elas vêm?
Você já sabe.
Vêm de um simples coração.

02 junho 2026

Letras Ubatubenses

ENQUANTO SIGO
João Paulo Naves Fernandes
Posso oferecer-me a ti,
como sou,
quem sabe
seja aceito,
quem sabe
rejeitado.

Até onde podemos ir
me é desconhecido,
mas saiba,
pouco tem a ver
com este mundo.

Estou a experimentar
a liberdade
com o espaço
que ela possa dar,
todas as possibilidades.

Estou a perguntar-me
constantemente,
sobre tudo,
sem freios,
nem arreios.

Ando
como quem convida
a fazer festa,
comemorar,
inconscientemente,
a vida.

Por isso sorrio e choro,
grito e calo-me
no decorrer do dia...
corro se necessário,
e paro, se preciso...
sigo o vento.

Hoje,
uma mansidão
toma conta de mim,
como herança não paga.

Hoje me pergunto:
E nós, e os outros?

Sinto a velha carência de desejar
que todos consigam festejar
juntos o seu tempo.

27 maio 2026

ESCAU

Lançamento do livro "Praia do Pequeno Príncipe: a lenda", em Ubatuba (SP)
O livro "Praia do Pequeno Príncipe: a lenda" foi lançado, dia 25 de maio de 2026, no Espaço Cultural Aeronáutico de Ubatuba (ESCAU), no Colégio Dominique. A obra apresenta o desvendar de uma lenda, segundo a qual o escritor e piloto Antoine Saint-Exupéry havia aterrissado, numa praia de Ubatuba, em 1933, dez anos antes do lançamento do clássico "O Pequeno Príncipe". Teria Saint-Exupéry pisado na areia de uma praia ubatubense e se inspirado para contar as aventuras de um príncipe fabuloso, morador do asteroide B 612, e suas andanças por outros planetas? As pesquisas do jornalista Luiz Ernesto Kawall revelaram que o aviador que pousou na orla do município era outro Antoine, Léon Antoine. Este, um francês nascido em Calais, comandante na Aéropostale e Air France, e que viveu no Brasil.
O livro é de autoria de Arnaldo Chieus e Luiz Ernesto Kawall (in memorian), editado pelo Instituto Salerno-Chieus, organismo de apoio às atividades culturais do Colégio Dominique.

Tributo a Léon Antoine & Saint-Exupéry
O evento de lançamento aconteceu durante a 105ª reunião de entusiastas de aviação, denominada Café Voador, juntamente com integrantes do grupo literário Versos na Areia.
Estiveram presentes Márcia, Beatriz e Helena, filhas do jornalista Luiz Ernesto Kawall, eterno responsável pela preservação dessa parte da História de Ubatuba. Após a apresentação do livro por Arnaldo Chieus, foi inaugurada uma área temática no Espaço Cultural Aeronáutico, como tributo aos pilotos Léon Antoine e Antoine Saint-Exupéry.
A área apresenta informações sobre Saint-Exupéry, uma linha do tempo pontuando a vida de Léon Antoine (intitulada "Da França para o Brasil, com escala na História de Ubatuba") e um painel que reproduz material da exposição Entre Estrelas, gentilmente cedido por Mônica Cristina Corrêa, Presidente da Associação Memória da Aéropostale no Brasil (AMAB).

Livro:  Praia do Pequeno Príncipe: a lenda
          (Arnaldo Chieus & Luiz Ernesto Kawall)

Pedidos: dominique.ubatuba@gmail.com

Ninja-Brasil: versão para a web

23 maio 2026

Letras Ubatubenses

SENSAÇÃO ESTRANHA
João Paulo Naves Fernandes
Ando com a sensação
de estar perdendo o jogo.

Diariamente vejo o noticiário
com a esperança
de que as guerras
já estão no fim,
que os adversários
estão conversando,
tratando suas diferenças
com respeito mútuo,
que a fome
está sendo erradicada,
os que tem,
partilhando
com os que não tem,
e um ambiente de paz
tomando conta do ambiente.

Sensação de ausência,
de estar faltando algo,
um vazio crescente...

Passam os dias...
xingam,
matam...
a ferocidade não tem limites.

Perderam
conscientemente
a razão,
por interesses
econômicos,
materiais,
desumanidade,
sei lá...

Nas ruas vejo jovens
sem perspectivas,
desperdiçando o tempo
em coisas fúteis,
que nada acrescentam.

As pessoas seguem
seus mesmos trajetos de sempre,
vão e voltam.

Acostumaram-se
com o mesmo de sempre,
seus próprios destinos
sem desafios.

Tempo de resignação,
e essa sensação
que incomoda tanto,
de estar perdendo o jogo...

20 maio 2026

Letras Ubatubenses

FORTUITOS
João Paulo Naves Fernandes
Os tempos visitam,
uns aos outros
em desacordo entre si.

Não se entendem
em suas badaladas,
horas que se confundem.

Tornam a lembrança
presença morta,
mirra de desventuras,
transcendem
a realidade
estática.

Guardam histórias
incontáveis,
submetem sonhos,
embranquecem cabelos,
confrontam cenários.

Despertam
alta noite,
detêm-se,
por instantes,
no presente,
como um ausente...
estão, não estão,
depois vão,
como se não
tivessem vindo.

Perseguem
um rearranjo
que delimite
fronteiras distantes
do ser,
mantendo o percurso,
nada descartando.

Buscam razões
de estarem aí,
ao lado,
interpelando
caminhos,
corrigindo.

Por fim,
dissolvem-se,
fortuitos...

18 maio 2026

Letras Ubatubenses

DIA DE MENINA
Roze Cabral
Tem dias em que eu só quero estar de pijama, e tudo bem.
Dias como o de hoje, com um friozinho gostoso, nublado, cidade vazia, silêncio e paz.
Dias que me fazem pensar sobre a crueldade e a arrogância da guerreira que grita o tempo todo comigo, me cobrando performance.
São dias em que assumo minhas imperfeições e fragilidades.
Eu me recolho.
Deixo de lado a armadura que tanto pesa e machuca.
Olho-me no espelho e chamo pela minha alma.
Vou até a janela, inspiro a quietude e volto ao reflexo.
Lá está ela: minha menina interior, sorrindo para mim com um jeito maroto.
Hoje, eu escolhi me render a ela.

Rumo aos 50!

Entrevista com Gabriela Fernandes

16 maio 2026

Letras Ubatubenses

PERDIDO
João Paulo Naves Fernandes
Que palavras posso deixar
de tudo que observo e sinto...

Como posso dizer
sem ser repetitivo,
sensibilizando...
nós que somos
tão frios e distantes.

Nos acostumamos
com tantas desgraças,
que, rendidos, normalizamos
o que devia nos escandalizar.

Tornamo-nos
indiferentes
Insensíveis,
apáticos,
impotentes.

O passo seguinte
é o de adotar o mal,
por exclusão,
passar a condenar
os que sofrem,
por suas "impertinentes incapacidades"...

Assim,
seguimos nos justificando
de nossa desumanidade,
nossa covardia diária...

Completa-se o círculo
da dominação,
em domar o justo,
torná-lo dominador.

Que palavras posso deixar,
que rompam este espectro
de dor e sofrimento?

10 maio 2026

Letras Ubatubenses

MÃE
João Paulo Naves Fernandes
Mãe, porquê me deixastes crescer?

Não sabias como é o mundo?
Não terias como me proteger.
O mundo não tem regaço.
não consola,
não compreende,
não perdoa...

Partiste na hora errada,
és chamada estar presente sempre.

Neste teu dia,
interrogo tua ausência,
como filho sempre carente,
de teus ouvidos santos,
teus braços acolhedores
de minhas dores

08 maio 2026

Letras Ubatubenses

JOGO DE PALAVRAS
João Paulo Naves Fernandes
A mesa à espera,
a boca à espera,
as palavras à espera.

A mesa vazia,
as bocas vazias,
as palavras vazias.

A mesa farta,
as bocas abertas,
as palavras ditas.

A mesa à espera,
vazia,
farta...
as bocas à espera,
vazias,
abertas...
as palavras à espera,
vazias,
ditas...

A mesa
serve a boca,
a boca
serve as palavras,
as palavras
servem a mesa.

A mesa
à espera da boca,
a boca
à espera das palavras,
as palavras
à espera da mesa

05 maio 2026

Letras Ubatubenses

PENSADOR
Nicholas Gianelli
Na insegurança me perdi, nas falas falhei e no pensamento sucumbi.
Nossa mente é perversa, cria cenários fictícios que leva o eu a eutanásia.
Errar ou ser manipulado?
Existe a auto-manipulação?
Ou seria autodestruição?
Em tempo de guerra, o intelecto pede folga, o sentimento se bloqueia e a visão embranquece.
Como fugir de si mesmo?
Como indagar a si próprio?
Sentir...
A chave da libertação está no sentir?
Como o florescer de uma flor o eu volta ao seu estado intrínseco.


Letras Ubatubenses

SÓ ISSO
Roze Cabral
Uma crônica, pequenina que só.
Só para falar do que a alma está cheia.
Um dia de sol...um vento...um mar...uma pedra só para sentar.
De resto, só eu.
Não só, mas só infinito.
Porque era só isso que o coração pedia.
Porque só isso já me bastaria.

Letras Ubatubenses

DOLORIDO
Joban Antunes
Não faço verso redondo
Não faço versos de amor
Só faço verso odiondo
Só faço verso de dor

A dor minha companheira
Nas horas de aflição
Companheira verdadeira
No tombo do coração

Se a dor não alivia
Num gesto de afeição
Amargo no dia a dia
As dores da solidão

Letras Ubatubenses

REFLEXÃO ANTIGA
Nicholas Gianelli
Sinto falta de jardins floridos...
É amargo viver onde as flores não florescem, onde a terra não é umedecida.
Vejo muitas plantas de caules secos, as quais abafaram a luz para demonstrarem algo frio com vidas inativas.
Exteriorização se tornou raro, feita apenas por gigantes pensantes.

Letras Ubatubenses

TÉRMINO
João Paulo Naves Fernandes
Termina o dia,
termino com o dia...
Não sei como percorri,
quanto percorri,
se percorri se deixo o coração
inteiro e em paz.

Uma sensação de derrota
consome a noite.

Os cães latem lá fora
para o quê?
Para quem?

Não me adapto
ao que acontece...

Sim, alegro-me
quando amanhece,
canto, respiro
mas segue o dia, esta força amainece,
desfia.

Então busco estar só,
resisto:
É só um dia!
Amanhã será melhor.

Assim,
vou seguindo o tempo,
cultivando
uma esperança atroz
em meio a destroços.

Quando chega a noite
Deixo os olhos
olharem-me
nesta solidão.

Perceberão uma tristeza
que escondo
para que ninguém saiba:
de não ter
a quem recorrer
este indagar da vida
de tanta gente perdida
em falsas urgências,
indiferentes.

Longa noite,
esta minha,
sem ninguém...
só...
irremediavelmente só

04 maio 2026

Letras Ubatubenses

FLORES NUAS
Joban Antunes
Não quero a culpa de o sol brilhar
Mas a culpa de ver a chuva cair
Sem eu poder me molhar
A culpa de oferecer a lua
Aos meus amores
Que como flores nuas
Não fui capaz de amar

Letras Ubatubenses

MEA CULPA
João Paulo Naves Fernandes
Que culpa tem o Sol, de mim?
Deixe-o brilhar...
Que culpa tem a Lua de seus amantes,
deixe-os apreciar.
Que culpa tem o coração de seus muitos batimentos?
Deixe-o pulsar
Que culpa tem os olhos de tudo observar?
Deixe-os discernir
Que culpa tem as diferenças em seu divergir.
Deixe-as ensinar.
E as montanhas, que culpa tem em elevar-se?
Deixe-as desafiar.
Nada tem em si alguma culpa, deixe ser...
a vida sempre continua...

02 maio 2026

Letras Ubatubenses

DISTANTE
João Paulo Naves Fernandes
As estrelas escondem
segredos distantes,
longe da imaginação.

Sequer geram esperanças,
pulsam soltas,
coladas a um céu inatingível

Perdi-me neste olhar sem sentido.

Buscava explicar a rua, as pessoas, o poder...

Impossível.

Por isso,
descia à pé
o trajeto
todos os dias...

Explicava os peixinhos amarelos
presos aos aquários,
as mudanças inesperadas
da velha ordem...

Olhar incansável
de perguntas e buscas,
nunca cessam

Por isso continuo olhando as estrelas
em seus segredos distantes