ISC - Idealizado em 1993, o Instituto Salerno-Chieus nasceu como organismo auxiliar do Colégio Dominique, instituição particular de ensino fundada em 1978, em Ubatuba - SP. Integrado ao espaço físico da escola, o ISC tem a tarefa de estimular a estruturação de diversos núcleos de fomento cultural e formação profissional, atuando como uma dinâmica incubadora de empreendimentos. O Secretário Executivo do ISC é o jornalista e ex-prefeito de Ubatuba Celso Teixeira Leite.
O Núcleo de Documentação Luiz Ernesto Kawall (Doc-LEK), coordenado pelo professor Arnaldo Chieus, organiza os documentos selecionados nos diversos núcleos do Instituto Salerno-Chieus (ISC). Seu objetivo é arquivar este patrimônio (fotos, vídeos, áudios, textos, desenhos, mapas), digitalizá-los e disponibilizá-los a estudantes, pesquisadores e visitantes. O Doc-LEK divulga, também, as ações do Colégio Dominique.

LEK - Luiz Ernesto Machado Kawall, jornalista e crítico de artes, é ativo colaborador do Instituto Salerno-Chieus (ISC) e do Colégio Dominique. É um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e do Museu Caiçara de Ubatuba.

quinta-feira, 24 de março de 2022

Centenário do 1º pouso de avião em Ubatuba

Semana de Aviação de Ubatuba (SP) celebrará o centenário do 1º pouso de aeronave na cidade

Os 100 anos da realização do primeiro pouso de um avião em Ubatuba (SP) será comemorado, em setembro de 2022, durante a Semana de Aviação de Ubatuba. O projeto de Lei 04/22, de autoria do vereador Eugênio Zwibelberg instituindo a semana, foi aprovado no dia 22 de março de 2022, por unanimidade de votos, na Câmara Municipal. Desta forma, o evento aeronáutico está incluído na programação oficial de eventos da cidade. A proposição foi defendida com os argumentos históricos da atividade aérea na cidade. Além do fato de relembrar a primeira aterrissagem no município, em 14 de setembro de 1922, pelo capitão do Exército do Chile, Diego Aracena, com uma aeronave DH-9 Airco, a cidade de Ubatuba possui importantes marcos de eventos relacionados à aeronáutica, como o nascimento do pioneiro da aviação Gastão Madeira, estudioso da dirigibilidade de balões, na virada do século XIX para XX, e projetista de balões, do aviplano e outros sistemas aplicáveis em engenhos aéreos.

O primeiro pouso
Em 1922, quando o Brasil celebrava o centenário de sua independência, um piloto chileno voou para celebrar a festa nacional. O capitão Diego Aracena Aguilar, fez o reide Santiago – Rio de Janeiro, escalando em cidades do Chile, Argentina, Uruguai e Brasil. Naquela travessia protagonizou o que foi a primeira aterrissagem de uma aeronave na cidade de Ubatuba (SP), no dia 14 de setembro de 1922, usando, como pista de pouso, uma faixa de vegetação rasteira na orla da praia do Itaguá. Ele pilotava o biplano DH-9 número 92, batizado de El Ferroviario, em referência à doação, pelos trabalhadores ferroviários, do aparelho para o Exército do Chile.
Após efetuado o toque no solo, quando estava prestes a parar, o sistema de pouso bateu em uma fenda no gramado, provocando avarias nas rodas e asas. Em consequência, sem condições de reparos em Ubatuba, por meio telegráfico o comandante comunicou o fato às autoridades e ao embaixador chileno e deixou a cidade com destino ao Rio de Janeiro, a bordo do navio contratorpedeiro “Amazonas” (CT-1) da Armada.

Finalização da travessia Chile-Brasil
No dia 25 de setembro de 1922 - após ter realizado o que foi, no dia 14, o primeiro pouso de uma aeronave em Ubatuba (SP) - o capitão chileno, Diego Aracena (12/11/1891 – 02/05/1972) foi conduzido até a vertical da cidade - onde seu avião De Havilland Airco DH-9 ficou indisponível, devido avarias sofridas na aterrissagem. Nesse ponto, assumiu o comando do hidroavião Curtiss HS2L número 11 da Aviação Naval do Brasil, para terminar o reide aéreo Santiago – Rio de Janeiro. A operação foi uma gentileza da Marinha do Brasil para que o piloto chileno concluísse de avião o que foi a primeira travessia aérea desde a capital do seu país até a então capital do Brasil. Sua missão era trazer uma carta do presidente Arturo Alessandri ao presidente brasileiro, Epitácio Pessoa, saudando a Nação, em comemoração ao centenário da independência.

Comemoração do Centenário
A comemoração do Centenário do Primeiro Pouso de Avião em Ubatuba, em 14 de setembro de 2022, com a instituição, no calendário de eventos da cidade, da Semana de Aviação de Ubatuba (de 07 a 14/09) ganha força e é imprescindível que tenha interações de voluntários, autoridades e empresários apoiadores para um evento de cultura aeronáutica como um atrativo para a população, constituindo-se em fato turístico, histórico e cultural. A ideia nasceu entre entusiastas de aviação reunidos pelo Núcleo Infantojuvenil de Aviação – NINJA, no Espaço Cultural Aeronáutico de Ubatuba estabelecido no Colégio Dominique. Devido à envergadura da proposta, a atividade somente será viabilizada se houver engajamento da administração pública e de entidades privadas, notadamente dos setores cultural e turístico.

Ninja-Brasil: versão para a web

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Nossos Núcleos Culturais

Saiba mais sobre os núcleos culturais do Colégio Dominique, funcionando sob a supervisão do Instituto Salerno-Chieus.

Estudo Dirigido de Matemática / Clube de Matemática Malba Tahan - O estudante inscreve-se e passa a frequentar semanalmente, em horário extraclasse, pelo tempo que julgar necessário. A presença de um tutor possibilita a criação e o aperfeiçoamento de hábitos de estudo e a expansão da aprendizagem. O tutor é um profissional selecionado para esclarecer o conteúdo específico que o estudante apresenta dificuldade, interagindo com o professor titular da disciplina e com os responsáveis pelo aluno, propondo novas formas de aprendizagem e estudo. Este mesmo tutor coordena o Clube de Matemática Malba Tahan, que homenageia Júlio César de Mello e Souza, educador, pedagogo, conferencista, matemático, professor e escritor brasileiro. Através de seus romances, sob o pseudônimo de Malba Tahan, foi um dos maiores divulgadores da matemática no Brasil.

Clube de Ciências José Reis – Atende alunos do Colégio Dominique e, também, estudantes de escolas públicas e particulares interessados em ciências. O clube homenageia José Reis, saudoso cientista brasileiro, jornalista especializado em divulgação da ciência, editor, escritor e um dos fundadores da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Ao final do mês de novembro, o Clube de Ciências José Reis promoverá a Feira de Ciências e Tecnologia, expondo os trabalhos desenvolvidos durante o ano letivo.

Programação e Robótica - A parceria com a ByteLab permite levar o conhecimento de programação de jogos e robótica como atividades optativas para os alunos do 6º ao 9º anos do Colégio Dominique. Em 2022 a atividade será estendida para os alunos do 5º ano do ensino fundamental. 

Clube de Xadrez - Promove encontros semanais com os alunos do 6º ao 9º anos do ensino fundamental, em parceria com o Recanto Villas Boas-Ubatuba e a Koi e Kinguio Aquarismo.

NINJA – Núcleo Infantojuvenil de Aviação - Leva a cultura aeronáutica para alunos da educação infantil, ensino fundamental e médio, de escolas públicas e particulares, através de atividades lúdicas, oficinas, palestras e compartilhamento de conteúdo pelo Blog do Ninja. Saiba mais: ninja-brasil.blogspot.com

Observação de Aves - Tem o objetivo de preservar o espaço físico para aves, agregando a observação ao cotidiano dos alunos, destacando a diversidade da mata atlântica. Os estudantes são estimulados a desenvolver noções básicas de observação de aves, participando, também, da construção de comedouros e bebedouros no Colégio Dominique. As atividades interagem com o Núcleo Infantojuvenil de Aviação - NINJA, reportando que através da observação de aves o homem despertou para a possibilidade de voar. O Instituto Salerno-Chieus organiza visitas monitoradas ao espaço do Colégio Dominique, recebendo alunos de instituições de ensino de Ubatuba e outras cidades, mediante agendamento aos finais de semana.

Horta na Escola, Farmácia Viva, Árvores da Escola - Núcleos que procuram complementar a teoria de sala de aula com atividades práticas. Horta na Escola permite o conhecimento de técnicas simples de plantio destacando o respeito à natureza e os benefícios de uma alimentação saudável. Farmácia Viva estuda o cultivo e o uso de plantas medicinais na cura de diferentes enfermidades, além de avaliar aspectos da tradição popular no uso destes recursos. Árvores da Escola estimula o estudo e o cadastramento de todas as variedades plantadas no espaço do Colégio Dominique despertando no estudante o interesse pela observação das características e pela pesquisa dos nomes científicos de cada espécie.

Memória da Gente - Promove o registro e a divulgação de ações daqueles que contribuíram e contribuem para enriquecer a história de Ubatuba. Cidadãos dos mais variados campos de atuação são lembrados em painéis fotográficos, vídeos e textos apresentados no Colégio Dominique ou em exposições itinerantes. Muitos destes ícones da cultura local e regional são homenageados como patronos das salas de aula do colégio. O material também fica à disposição de pesquisadores e visitantes no Núcleo de Documentação Luiz Ernesto Kawall

Oficinas Musicais - Em parceria com a Lira Padre Anchieta, que tem mais de seis décadas de atividades em Ubatuba, o Colégio Dominique tornou-se um polo do projeto Lira do Amanhã, cedendo o espaço para oficinais musicais e ensaios. Assim, sob o comando de dedicados músicos da cidade, com o apoio da Fundart e de empresários locais, são oferecidos cursos gratuitos aos alunos das redes estadual, municipal e particular. As oficinas musicais são estruturadas por classificação de instrumentos em cordas (violino, viola e violoncelo), flauta transversal, metais graves (trombone, bombardino e tuba), metais agudos (trompa e trompete) e percussão. 

Educação para o Trânsito - Promoção de eventos e interação com órgãos municipais, estaduais e federais que desenvolvem atividades para auxiliar nesta ação educativa prevista no Código de Trânsito Brasileiro.

Voluntariado, Manutenção e Reciclagem – Estimula alunos, familiares e funcionários a organizar campanhas de reciclagem e a participar de atividades programadas de manutenção e reforma de equipamentos da escola e/ou eventos promovidos pelo Colégio Dominique e seus diversos núcleos culturais.

Biblioteca Hans Staden - Biblioteca Hans Staden (BHS), criada pelo Colégio Dominique, em 1989, teve como primeiras ações o Programa de Incentivo à Leitura e a publicação de apostila sobre Folclore. A BHS é - na rede particular de ensino de Ubatuba - a mais completa, com mais de 10.000 livros à disposição de alunos, pais, professores, funcionários do Colégio Dominique e, também, dos participantes dos núcleos culturais supervisionados pelo Instituto Salerno-Chieus. O nome da biblioteca homenageia o viajante alemão Hans Staden, autor de Duas Viagens ao Brasil, publicado originalmente em 1557 em Marburgo (Alemanha), sendo o 1º livro no mundo a retratar as nossas terras.

BSC - Banco Salerno-Chieus - Núcleo que funciona como um banco, onde os alunos do Colégio Dominique depositam créditos denominados Estrelas. As Estrelas válidas para depósitos no BSC são conquistadas através da participação dos alunos nos eventos promovidos pela escola e por seus parceiros. Alguns exemplos de atividades que podem gerar Estrelas: Elaborar uma resenha de um livro da Biblioteca Hans Staden / Participar dos Plantões de Dúvidas do Estudo Dirigido / Participar de apresentações de música, teatro, dança / Participar de atividades esportivas / Atuar nos Clubes de Matemática, Ciências e Xadrez / Frequentar o NINJA / Participar como voluntário em atividades do Colégio Dominique e do Instituto Salerno-Chieus, entre outras possibilidades. Com as Estrelas conquistadas e depositadas o aluno poderá solicitar à gerência do BSC que converta um determinado número de Estrelas em um ponto na composição da média bimestral de alguma matéria da série em que estuda no Colégio Dominique. Essa conversão só é possível desde que o aluno tenha cumprido 80% das tarefas propostas pelo professor da matéria e não tenha mais de 10% de faltas nas respectivas aulas.

Colégio Dominique e Instituto Salerno-Chieus
NOSSA HISTÓRIA É NOSSA ENERGIA

sábado, 10 de outubro de 2020

O RETRATO DE CASSIANO RICARDO

Lourdes Fonseca Ricardo, Austregésilo de Athayde e Francisco de Assis Barbosa 

Por ocasião da X Semana Cassiano Ricardo, em São José dos Campos, SP, foi organizada a entrega formal do retrato do busto do poeta à Academia Brasileira de Letras, um antigo sonho de Da. Lourdes Fonseca Ricardo, sua viúva. Era intenção de Da. Lourdes entregar esse retrato com certa brevidade, pois gostaria de fazê-lo ainda na gestão de Austregésilo de Athayde na ABL. O retrato fora encomendado ao artista joseense José Carlos Queiroz por d. Lourdes através de um amigo comum, Armando Cobra, que fora também amigo do poeta e entusiasta desta homenagem. 

Cassiano Ricardo não foi apenas um grande poeta da língua portuguesa, mas também um grande estudioso da cultura e dos problemas brasileiros tendo nos legado uma obra múltipla e multifacetada, onde encontramos não somente o poeta desbravador das novas linguagens do linossígno (a estrofe pela geometria imagístico-visual da composição no seu todo). Em Cassiano Ricardo encontramos, também, uma linguagem prosística viva e saborosa onde se mesclam elementos de oralidade, de ditos coloquiais na língua erudita, de gosto pessoal na seleção e no emprego das palavras, de modulação própria na curva expressiva da frase despojada e séria, seivosamente brasileira, como bem observou Nereu Correia. 

Num breve retorno a Cassiano Ricardo não podemos esquecer, principalmente em tempos em que se tenta sensibilizar os que podem e os que devem no sentido de que não se perca a memória nacional, conforme afirmou o ilustre professor Hugo Benatti Jr. em artigo publicado na imprensa joseense à época da realização da X Semana Cassiano Ricardo. 

José Carlos Queiroz (de termo branco), na seção da ABL 

A Semana Cassiano Ricardo foi uma forma encontrada pela cidade de São José dos Campos de homenagear um de seus filhos mais ilustres. Em suas memórias é o poeta que narra o surgimento dessa homenagem: Hoje, em 1970, as palavras que pronunciei em 1967, ainda repercutem em mim, pois representam meu abraço de filho à mãe-terra. São José, cidade de minha infância me leva sempre a um exercício de introspecção e sinceridade, cheio de reminiscências inapagáveis. No núcleo formador da Semana Cassiano Ricardo, nos idos de 1967, encontramos nomes como Roberto Wagner de Almeida, Olney Borges Pinto de Souza, Altino Bondesan, Pedro Paulo Teixeira Pinto, José Madureira Lebrão, Mário Ottoboni, Hélio Pinto Ferreira, além de outros ligados à vida social, política e administrativa de São José dos Campos. 

 Para Hugo Benatti Júnior, o passado se revela no presente e uma das formas de se conservar uma certa identidade nacional, regional ou local, expressa-se na tentativa de preservar os marcos identificadores de uma época. Cassiano Ricardo registrou em modo próprio, como poeta, historiador e pesquisador, toda uma fase da vida nacional. Também incluiu a sua terra de nascimento. A história de São José dos Campos necessariamente mencionará a vida e a obra do festejado poeta. 

 “A mais importante homenagem, porém, a que mais de perto me toca, é uma, de caráter permanente, A Semana Cassiano Ricardo, que me é atribuída todos os anos, em minha cidade natal, São José dos Campos.”  Viagem no Tempo e no Espaço, 1970 pg. 254. 

 Mas voltemos ao retrato do poeta e ao artista que o concebeu, José Carlos Queiroz. O retrato, óleo sobre tela, não seria possível sem a interferência do mui nobre Armando Cobra e sua ligação com o poeta e sua esposa já por longa data. Escolhido o artista, a obra foi ganhando corpo até sua finalização sendo formalmente entregue às mãos de dona Lourdes Fonseca Ricardo numa concorrida seção da Câmara Municipal de São José dos Campos, na presença de diversos amigos e entusiastas do poeta Cassiano Ricardo. 

À época, Cassiano Ricardo já havia falecido, mas as homenagens e recordações à sua memória sempre continuaram como antes. É de se consignar aqui a alocução feita pelo então deputado Israel Dias Novais na tribuna da Assembleia Legislativa de São Paulo pelo seu 70º ano de vida e cinquentenário poético: “Tenho um velho apreço ao poeta e um crescente e irremediável fascínio pela sua obra. Perco-me, não raro, no mundo de uma poesia que às vezes escurece e mergulha no mistério, quando sabe tão constantemente ser clara e luminosa, dando a falsa impressão de facilidade”.

E, em mãos de Lourdes Fonseca Ricardo o quadro foi até a Academia Brasileira de Letras para, numa seção memorável, ser entregue àquela instituição. A comitiva partiu de São José dos Campos em ônibus fretado pela prefeitura municipal sob a direção de Fernando José de Paula Fagundes dos Santos, então o chefe da Seção de Cultura. Além de José Carlos Queiroz, sua esposa e seu pai, integraram a comitiva Olney Borges Pinto de Souza, Brasílio Duarte, Hélio Pinto Ferreira, Geraldo Fernandes Sobreiro, Maria Cristina Pires, entre outros. 

Em primeiro plano, Lourdes Fonseca Ricardo, ao lado dos imortais Francisco de Assis Barbosa,Josué Montello e Raimundo Magalhães Jr.

Na Academia fomos diligentemente recebidos pelo acadêmico Francisco de Assis Barbosa numa seção onde estavam presentes, além do presidente Austregésilo de Athayde, da. Lourdes Fonseca Ricardo, os acadêmicos José Cândido de Carvalho, Odylo Costa filho, Josué Montello, Aurélio Buarque de Hollanda, Raimundo Magalhães Júnior, Vianna Moog, entre outros. O ato de entrega do quadro do artista joseense José Carlos Queiroz revestiu-se de absoluta singeleza e a obra passou definitivamente ao acervo da Academia Brasileira de Letras. 

A homenagem foi à altura do inesgotável Cassiano Ricardo que, rompendo-se do parnasianismo inicial emergiu ao modernismo nos Borrões de Verde e Amarelo para, num crescente inesgotável atingir seu pináculo com Jeremias sem Chorar e ao máximo de sua obra poética com “Os Sobreviventes”. 

No corpo desse texto foram utilizadas para consulta as seguintes obras: 
Viagem no Tempo e no Espaço, de Cassiano Ricardo 
Jeremias sem-chorar, de Cassiano Ricardo 
Cassiano Ricardo: o prosador e o poeta, de Nereu Correia 
Habituei-me ao improviso, de Israel Dias Novaes 
O inesgotável Cassiano, artigo de Hugo Benatti Jr 
Um breve retorno a Cassiano, artigo de Hugo Benatti Jr

                     Em memória de Fernando José de Paula Fagundes dos Santos e Armando Cobra

Texto de Arnaldo Chieus

domingo, 20 de setembro de 2020

JOSE MAURO DE VASCONCELOS


José Mauro de Vasconcelos é dos escritores brasileiros mais reeditados e lidos tanto entre nós, brasileiros quanto no exterior, onde suas obras também fazem muito sucesso. 

Nascido no subúrbio carioca de Bangu, Rio de Janeiro, a 20 de fevereiro de 1920 e filho de uma família de ascendência nordestina e muito pobre, ainda menino foi viver com os tios em Natal, Rio Grande do Norte. Aos nove anos, já em Natal, aprendeu a nadar e, com grande prazer, lembra-se dos treinos de natação nas águas do rio Potengi e de seus sonhos de ser campeão. Ali passou o final da infância e a adolescência estudando no Colégio Marista até iniciar-se no curso de Medicina, que frequentou apenas por dois anos.

Esse período vivido em Natal lhe rendeu o livro “Doidão”, em que nos remete à sua adolescência de uma forma romanceada. Ao abandonar o curso de medicina decide voltar ao Rio de Janeiro num velho navio cargueiro. Ainda sem meta estabelecida para manter-se exerce um sem número de profissões desde sparing de peso pena a carregador de bananas, garçom de boate, servindo até mesmo de modelo artístico ao escultor Bruno Gíorgi à época em que este executava o seu “Monumento à Juventude”, exposto nos jardins do Ministério da Educação no Rio de Janeiro. Também foi carregador de bananas em Itaguaí, RJ, pescador no litoral fluminense e professor primário em um núcleo de pescadores em Recife. 

Sua última tentativa e malograda experiência foi em 1952, quando ganhou uma bolsa para estudar em Salamanca. Ficou três dias apenas na universidade. “Você acha que eu podia ficar uma hora inteira ouvindo chavões de literatura ou escrevendo composições sobre Cervantes?” - diz o incorrigível estudante. E acrescenta: “Tudo ali era muito chato”. De Salamanca voltou a Madrid, onde ficou poucos dias, encerrando o estágio-relâmpago de bolsista espanhol. Depois foi fazer um giro pela Itália e França, por conta própria. 

De suas atividades a que exerceu com mais vigor e plenitude foi junto aos irmãos Villas-Boas, varando rios pelas regiões hostis do Rio Araguaia e seu trabalho junto às tribos indígenas locais. Os poucos anos que frequentou a faculdade de medicina lhe proporcionaram conhecimento suficiente para atuar com enfermeiro nos sertões longínquos do Araguaia e apaixonar-se pela vida nas selvas brasileiras sentindo-se útil àquelas populações ribeirinhas. 

Dotado de prodigiosa capacidade inata de contar histórias, possuindo fabulosa memória, candente imaginação e com uma volumosa experiência humana, José Mauro de Vasconcelos não quis ser escritor, foi obrigado a sê-lo. Os seus romances, como lavas de um vulcão, foram lançados para fora, porque dentro dele o “eu” estava transbordando de emoções. Ele tinha de escrever e de contar coisas. Sua fenomenal produção literária, iniciada aos 22 anos de idade, ainda não chegou ao meio caminho, porque ele está em plena ascensão, com inexauríveis reservas, que o levará a posição ainda mais elevada nas letras nacionais. 

Depois de “Banana Brava”, romance escrito em 1942, José Mauro produziu “Barro Blanco” (1945), “...Longe da Terra” (1949). “Vazante” (1951). “Arara Vermelha” (1953), “Arraia de Fogo” (1955), “Rosinha, Minha Canoa” (1964), “As Confissões de Frei Abóbora” (1966), e por último “O Meu Pé de Laranja Lima” (1968), livros que tiveram grande aceitação, todos eles elaborados à base de suas aventuras nas praias ou na selva. 

O autor desses belos romances tem método originalíssimo. De inicio, escolhe o cenário onde se movimentarão seus personagens. Transporta-se então para o local, onde realiza estudos minuciosos. Para escrever “Arara Vermelha”, percorreu cerca de 450 léguas no sertão bruto. 

Em seguida, José Mauro dá asa à sua fantasia e, na imaginação, constrói todo o romance, determinando até mesmo as frases da dialogação. Tem uma memória que, durante longo tempo, lhe permite lembrar-se dos mínimos detalhes do cenário estudado. 

“Quando a história está inteiramente feita na imaginação”, revela o escritor, “é que começo a escrever. Só trabalho quando tenho a impressão de que o romance está saindo por todos os poros do corpo. Então vai tudo num jacto”. 

Como o seu sistema de ficar dormindo na pontaria até que o livro esteja “escrito” na imaginação, conta José Mauro que, ao pôr-se em ação, na fase material de bater à máquina, tanto faz escrever os capítulos, um após outro, como dar saltos; depois de pronto o primeiro, passa à conclusão do livro, sem antes ter elaborado o entrecho. “Isso”, explica o escritor, “porque todos os capítulos estão já produzidos cerebralmente. Pouco importa escrever a sequência, como alterar a ordem. No fim dá tudo certinho”.

Um homem que não via a hora de “meter o peito no mato” para matar as saudades da selva. Seus livros vieram até nós de uma forma quase natural, logrado por seu espírito viajante e desbravador natural dos sertões do interior do Brasil. 

Como ninguém, sabia entreter o leitor com uma história bem contada por alguém que viu e vivenciou essas histórias. Em seus livros há um toque de íntima pessoalidade fruto de sua vivência no aprendizado de uma vida que parece ter sido a essência de sua literatura. 

Numa entrevista ao jornalista Audálio Dantas, José Mauro de Vasconcelos contou como travou amizade com Francisco Matarazzo Sobrinho: 

“No meu segundo livro, Barro Blanco, resultado de uma viagem aio Rio Grande do Norte, contava o drama dos trabalhadores do sal, denunciava a exploração de que eles eram vítimas por parte das grandes companhias, uma das quais a Matarazzo. Por causa disso, um Matarazzo, Ciccillo, criador da Bienal de São Paulo, amigo de escritores e artistas, quis me conhecer. Gostara muito do livro, e gostaria muito mais do autor. Pagou onze das treze operações que tive de fazer na perna. Grande parte de minha obra, posterior a Barro Blanco, foi escrita em máquina de escrever presenteada por ele”. 


Quatro de seus livros foram escritos na casa do amigo Ciccillo, na Prainha, em Ubatuba, onde permanecia isolado, sempre atendido pelo exemplar Ireno, de quem se tornou amigo, vindo posteriormente outra pessoa admirável, Idalina Graça, que nos deixou estas impressões de José Mauro de Vasconcelos: Em maravilhosa manhã de domingo no primeiro ano da feliz gestão Matarazzo em nossa terra, Paulo Florençano, artista amigo por excelência, a quem devo gratidão pela amizade e ajuda que ele e sua formosa esposa, Vanda, me têm dispensado, há longos anos, havia-me feito uma promessa, quando houvesse oportunidade, far-me-ia conhecer o admirável autor de “ROSINHA MINHA CANOA”, que no meu entender é um de seus melhores livros. Com a Graça de Deus essa hora havia chegado, pensei, ao ver acompanhando meus dos bons amigos o ser excepcional que ele é espiritual e materialmente, e continuará sendo, com a proteção de Nossa Senhora Aparecida. Seja como for, querido, eu agradeço as horas feliz em que no meu humilde lar você extravasava seu coração, quando mantendo uma conversa amena, só eu aprendia. Porque você é que tinha tudo a dar, como me deu na suave ternura da amizade espiritual. 

José Mauro de Vasconcelos morreu em São Paulo em 1984, aos 64 anos de idade, vítima de broncopneumonia.

Texto de Arnaldo Chieus

quinta-feira, 28 de maio de 2020

CENTENÁRIO DE FLORESTAN FERNANDES


FLORESTAN FERNANDES nasceu em São Paulo em 22 de junho de 1920. 

De origem humilde, deixou a escola apenas com os fundamentos básicos para trabalhar e completar a renda familiar. Porém, com seu gosto pelo estudo e pelos livros retornou aos estudos formais, ingressando no curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, licenciando-se em 1944. Ingressando como professor titular na USP, em 1953, destacou-se com brilhantismo na instituição onde apresentou tese de livre docência em 1964 com um trabalho que o deixou célebre: A integração do negro na sociedade de classes. 

Com “A Organização Social dos Tupinambá” Florestan se transforma num sociólogo maduro vindo sua obra, a partir de então, num crescente buscando sempre na educação um fator de integração política e social. Num texto publicado em 1959 ele reafirma suas esperanças na educação “como elemento crucial para o reajustamento do homem a situações sociais que se alteram celeremente”

Como sociólogo engajado nas lutas sociais e políticas de seu tempo, teve contribuição importante na cooperação entre educadores e cientistas sociais, examinando com minúcias sua participação e responsabilidade nos projetos de reconstrução do sistema educacional brasileiro de seu tempo. 

As preocupações educacionais acompanharam toda a trajetória de Florestan Fernandes fazendo parte integrante de suas cogitações intelectuais e práticas. Inestimável foi sua contribuição à prática educativa com sua produção sociológica teórica e seus estudos práticos de análise folclórica e de comunidade, de cunho eminentemente científico, associado à sua figura coerente e íntegra de professor, sociólogo e homem político. 

Florestan Fernandes tem, reconhecidamente, um papel central na institucionalização da sociologia como disciplina acadêmica e na conformação de um padrão de trabalho e de atuação intelectual dos cientistas sociais no Brasil. Sua concepção da sociologia como ciência marca a história da configuração de um campo especializado de estudos, a história da integração do pensamento sociológico ao sistema sociocultural brasileiro e a história das relações entre sociedade e ciência no Brasil moderno. 

No início de sua carreira acadêmica interessou-se pelos estudos folclóricos, iniciando suas primeiras publicações sobre o assunto em 1942, ainda estudante de Ciências Sociais. Passando a temas mais amplos debruçou-se nos estudos dos Tupinambá. 
Florestan Fernandes exerceu dois mandatos na Câmara dos Deputados  tendo se destacado em discussões nos debates sobre educação. Faleceu em São Paulo em 10 de agosto de 1995 em razão de complicações de transplante de fígado.

TUPINAMBÁ
Tem-se conhecimento que os primeiros habitantes da região de Ubatuba (SP) foram os índios tupinambá, na aldeia de Iperoig. Os tupinambá habitavam toda a região litorânea do Brasil e são considerados os antepassados de todas as tribos tupis que habitavam o litoral brasileiro no século XVI. Estes, foram objeto de intensa pesquisa de Florestan Fernandes que resultou em sua dissertação de mestrado "A organização social dos tupinambá" e, posteriormente, em outro desafiador trabalho "A função social da guerra na sociedade tupinambá".

Essas duas obras, hoje um tanto raras, foram escritas por Florestan Fernandes a partir de um minucioso método de leitura dos primeiros cronistas portugueses. Dali veio o mestrado, o doutorado e a livre docência, frutos de um esforço enorme, com uma visão original e uma potência mental que raramente encontram-se equivalentes.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Sesquicentenário de Gastão Madeira

Inédito modelo em escala mostra balão projetado por Gastão Madeira em 1890
Quando estava prestes a começar a última década do século XIX, o inventor Gastão Galhardo Madeira, propôs, com base nos seus estudos acerca dos voos dos pássaros, um balão capaz de resolver o problema de dirigibilidade dos aeróstatos. Concebido em 1890, seu aparelho era fusiforme, como outros da época, mas dotado de asas e trazia um sistema de peso, para alteração do Centro de Gravidade, o que, segundo o projeto, contribuiria para a dirigibilidade do balão. A problemática foi analisada por Gastão Madeira, nascido em 1869 na cidade de Ubatuba (SP), e a íntegra dos seus pressupostos de aerodinâmica está retratada no livro “Voando Além do Tempo: o pensar de Gastão Madeira”.

O deslocamento do Centro de Gravidade para dirigibilidade do balão, proposto pelo inventor , ainda em 1890, foi efetivamente empregado por Santos Dumont em seus balões, anos mais tarde, inclusive no premiado voo de 1901, com o número 6, quando contornou a Torre Eiffel, confirmando a possibilidade de dirigibilidade dos veículos aéreos mais leves que o ar.

Modelo em escala
De maneira inédita, em comemoração aos 150 anos de nascimento de Gastão Madeira (1869-2019), no âmbito do Núcleo Infantojuvenil de Aviação (NINJA), sediado em Ubatuba, o instrutor voluntário de aeromodelismo Arthur Bastos e o também colaborador Paulo Quaresma refizeram as plantas do balão dirigível de Gastão Madeira e montaram um modelo em escala para materializar as ideias do inventor ubatubense, entabuladas em 1890. Este processo de montagem de um inédito balão em escala foi contado no último capítulo de “Voando Além do Tempo”. Com fidelidade e riqueza de detalhes, o objeto foi apresentado, em março de 2019, ao público e incorporado ao acervo do NINJA, um projeto social movido exclusivamente por voluntários entusiastas da aviação, cuja proposta é oferecer cultura aeronáutica para crianças e jovens de escolas públicas e particulares, com atividades gratuitas, como aulas, palestras, atividades lúdicas, introdução ao aeromodelismo e orientação aos alunos sobre as formas de ingresso na aviação civil e militar.

Fotos: Acervo do NINJA

sábado, 30 de março de 2019

Prefácio à TERRA TAMOIA

Willy Aureli
Foi em janeiro de 1931 que conheci Ubatuba, quando, a serviço da ”Folha da Noite”, realizei uma reportagem na Ilha dos Porcos, onde para mais de 400 infelizes se encontravam detidos. 

Tinha alcançado aquele presídio de tão tristes recordações, a bordo de um naviozinho da “Costeira”, que, por uma deferência toda especial à minha condição de jornalista, fez uma atracação fora do programa na ilha, que agora tem o nome do taumaturgo Anchieta. Lá permaneci uns dias, entrando em contato com todos os presos, ouvindo deles as lamúrias, as queixas, os apelos. Entre eles havia nada menos do que 16 completamente inocentes, vítima da sanha de erros policiais desalmados. Um era oficial de um transatlântico italiano e fora apanhado na faixa do cais de Santos, atordoado pelas bebidas, e que, depois de despido da sua brilhante farda, descalço, sem nenhum documento e espoliado do seu dinheiro, tinha sido metido no porão do navio que levava presos para a ilha. Trabalhava como motorista do diretor do presídio, enquanto a sua família, em Gênova, continuava desesperada pelo sumiço misterioso do ente querido. 

Sucede que durante o período em que me encontrava na ilha dos Porcos, o naviozinho, que era o único elo ligado Ubatuba ao resto do mundo, pifou de vez, por não receber, a companhia a que pertencia, as subvenções governamentais que lhes eram devidas. Dessa forma fiquei ilhado também, apesar da responsabilidade que tinha em São Paulo em data certa, pois a minha reportagem deveria der o “prato forte” do número especial de aniversário do jornal. 

Metido numa grande canoa, em companhia do presídio, alcancei a duras penas, devido ao mar revolto, a praia da Enseada, de onde, encarapitado no lombo de um cavalinho, cheguei a Ubatuba, então imersa no esquecimento dos paulistas. 

Aboletei-me num vetusto casarão onde se localizava o hotel da terra. O único hóspede que lá encontrei foi o juiz de direito da pacata cidade. Havia um amigo a minha espera, Washington de Oliveira, então jovem farmacêutico e correspondente local das ”Folhas”. Até hoje essa amizade nos une fraternalmente. Ele foi o meu cicerone em Ubatuba, e, através do seu entusiasmo ao descrever as belezas rústicas do lugar, eu adentrei na arcana maravilha dessa pérola, mergulhada no marasmo das coisas esquecidas. E, pelas palavras cheias de sentimento regionalista e justificado entusiasmo pelo passado da histórica cidade, Passei a olhar o casario em ruínas, os velhos e sombrios sobradões, as candeias espetadas nas esquinas, os portais floridos, que atestavam passado brilhante, com outros olhos, bem diferentes daqueles que tinha, quando, suado, cansado, irritado, descera dos magérrimos costados da montaria que trouxera desde a Enseada. 

Acontece que Ubatuba, nessa época, estava completamente isolada do resto de São Paulo, pois não existiam estradas para coloca-la em contato com as localidades vizinhas. Apenas uma tortuosa vereda, restos desbarrancados da antiga estrada imperial, que grimpava a imensa serra em demanda ao alto, e, de lá, até São Luiz do Paraitinga, numa extensão de 10 léguas bem mantidas, ou seja, 60 quilômetros. 

O juiz, Washington de Oliveira e o então dono do hotel, deram-se ao trabalho de arrumar, para mim, uma condução. A única possível, um cavalo. Asseguraram-me que, alcançando S. Luiz, Lá encontraria condução mais confortável até Taubaté, a 60 quilômetros adiante. Impossível, em rápidas palavras, dizer dos três dias encantadores que passei em Ubatuba. Retrocedi séculos, vivendo a vida primitiva, gostosa, bela, pura, entre gente de alma e coração cheios de bondade. 

Como guia da viagem, teria aminha disposição o estafeta dos correios, que, em dias determinados, armado de uma garruchinha espanta mosquito, e carregando às costas um saco com pouca correspondência, galgava as íngremes encostas da serra para cumprir a sua missão, levando a mala postal até S. Luiz. Um herói esse homem. Iniciada a caminhada, que jamais esquecerei, ainda no sopé da serra, após estirão que parecia não ter mais fim, fui alcançado por um baiano tropeiro, que comboiava oito mulas robustas, e que, temeroso da viagem no meio da floresta, dera-se pressa em alcançar-nos, confessando a sua imensa satisfação em ter conseguido companheiros para a travessia. Foi o que me valeu. Valeu-me a sua tropilha, que o meu cavalo, após os primeiros quilômetros, não mais aguentou o meu peso. Pudera! Ele deveria ter sido nutrido com conchas da praia e estava exausto desde os primeiros passos. 

Fomos subindo aos poucos, lentamente, ziguezagueando por baixo dos túneis esverdeados da densa floresta. Alguém tinha feito uma “espera” com espingarda de carregar pela boca, e, próximo a ela, encontramos os restos de uma respeitável onça pintada, já semidevorada pela vermina e exalando cheiro pestilencial. Muitos macucos pelas adjacências, fácil me foi abater um deles com o tiro de uma 32. Mais tarde, no alto da serra, devoramo-lo no espeto. 

Subindo devagar fui notando os vestígios da velha estrada. A certa altura encontrei trilhos de estrada de ferro. O meu estafeta guia contou-me, então, que no tempo do império tinha havido uma estrada muito bem conservada, ligando o Vale do Paraíba ao porto de Ubatuba, por onde o café descia no lombo de burro para ser embarcado nos navios. Nos primórdios da República, tinha iniciada a construção e uma estrada de ferro para ligar o “continente” a Ubatuba, cousa que jamais aconteceu, devido à concorrência que favoreceu o porto de Santos. 

Notei que não seria difícil desbastar a floresta que se assenhoreava da velha estrada e restabelecer uma via de comunicação razoável, ligando Ubatuba a Taubaté. Guardei para mim esse achado e fui continuando até São Luiz, onde, exausto, mas desejando exibir as minhas qualidades de perfeito ginete às moças bonitas que enfeitavam os balcões fronteiros ao hotel, desmontei tão bem que acabei sentado no chão, pois as pernas anquilosadas não corresponderam. 

Qual não foi meu desespero quando soube que nenhuma condução havia entre S. Luiz e Taubaté! Eu deveria continuar a cavalo e sozinho, pois o baiano havia ficado para trás com a sua tropilha, e o estafeta dos Correios diluíra-se, após uma despedida apressada. 

O dono do hotel foi procurar alguém que me quisesse alugar um animal e não tardou a aparecer com um cidadão que me pesou com os olhos, calculado exatamente as minhas arrobas. Depois tratou o preço, que aceitei por não estar em condições de discutir. – uma fortuna – 50 mil réis e mais 20 mil réis para o rapazinho que iria a pé comigo, para trazer o animal de volta. Assegurou-me, o dono do cavalo, que o mesmo era bastante robusto e aguentaria bem a viagem. E foi assim que no dia imediato, sentindo as dores da primeira cavalgada, sentei-me na estreita sela e dei começo à segunda etapa da minha inesperada aventura.

Começou a chover. Só tinha, sobre o corpo, um terno de brim e carregava na pequena maleta apenas duas camisas e alguns petrechos de toalete. Aguentei a chuva com forçada filosofia. Escorreguei-me da sela, por ter pranchado o animal, uma dúzia de vezes, enlameando-me até a raiz dos cabelos. E por volta das 23 horas, num estado deplorável, esfomeado, sedento, raivoso, cheguei a uma estranha estalagem em Taubaté. 

O noturno da Central passaria às 2 da madrugada. O hoteleiro das proximidades da estação olhou-me com surpresa devido ao meu estado de... limpeza. Dando-me a conhecer, porém, aceitou-me de boa cara, fornecendo-me, apesar da hora avançada, ótima refeição. Às 2 em ponto – na época um milagre dos milagres – chegou o noturno da Central, e, pela manhã, estava em S. Paulo, onde um bom chuveiro e roupas limpas restituíram minha abalada personalidade. No mesmo dia escrevi a reportagem que se tornou famosa: “A ilha do Diabo Paulista”. E logo mais ia procurar em seu gabinete o General Cordeiro de Farias, então Secretário da Segurança em nosso Estado, para lhe entregar a lista dos inocente detidos na Ilha dos Porcos e apresentar-lhe um projeto, de aplicar os presos, que viviam na mais absoluta vadiagem, no restabelecimento da estrada, que o tempo e o abandono haviam destruído e que daria vida de novo a Ubatuba. 

Os 16 presos inocentes receberam ordem de soltura imediata e os demais, com prêmios pré-fixados foram postos a trabalhar na estrada. E o antigo caminho ressurgiu, agora permitindo a passagem de automóveis, levando o oxigênio da civilização à coletividade daquela cidade esquecida. Missão cumprida. Não pensei mais em Ubatuba. 

Eis que em 1936, lembrei-me, na época das férias, da cidade praiana. Resolvi, com minha tribo, descer pela estrada que eu ajudara a abrir. Metidos num fordeco despencamos serra abaixo. Eu, minha mulher, minha primogênita, dois cunhados, dois sobrinhos e bagagem, que mais parecia pertencer a uma companhia de operetas. Como coube tudo isso no carrinho e como fomo e voltamos sem, novidade, permanece mistério. 

Foi quando conheci Idalina Graça, a nova proprietária do hotel instalado no imenso casarão assobradado. Pagava-se, nesses maravilhosos dias, a diária de 10 mil réis. E, olhem lá, havia quem achasse muito caro... 

Aboletamo-nos, alegres, satisfeitos da vida, nos vastíssimos dormitórios que antes havia servido aos Cunhambebes da terra. Camas limpas, pregos nas paredes de madeira para pendurar as roupas. Nada mais. Mas havia tamanho coração de Idalina e no seu marido Albino, a mesa era tão farta, tão gostosa, que teríamos aceito até dormir no chão. 

Dias maravilhosos aqueles! Esbaldamo-nos pelas praias. Regressamos totalmente conquistados por Ubatuba e durante todos os anos que se seguiram continuamos a gozar nossas férias na vetusta cidade. Houve interregnos. Minhas andanças pelo sertão; jornadas nem sempre alegres em minha vida particular. Depois retomei o ritmo até hoje. É em Ubatuba que somente consigo reequilibrar o meu espírito às vezes conturbado. Foi em Ubatuba que os meus filhos deram os primeiros passos nas areias da praia. Foi em Ubatuba que os meus netinhos fizeram o mesmo. Em Deus me protegendo e deixando-me esta estupenda vital idade que me é companheira, quiçá ainda veja meus bisnetos saltitar as suas primeiras andanças marítimas em Ubatuba, a feiticeira! 

Voltemos ao que interessa. 

Foi em 1938, quando já éramos hóspedes costumeiros no hotel Ubatuba, que eu “descobri” a escritora Idalina Graça, que hoje se apresenta com Terra Tamoia, fadada a esse sucesso que, já nesse ano da descoberta, eu profetizava em minha crônica da “Folha da Noite”, intitulada A Solitária de Iperoig. 

Conta, Idalina, em suas páginas, como foi descoberta, e como o episódio lhe propiciou o começo de uma nova vida, arrancando-a ao limbo onde permaneceria indefinidamente, sempre temerosa de se abrir sobre seus escritos com desconhecidos. Ela trazia em si a potente força de sentir, de monologar, de alinhavar com as garatujas e 2º ano escolar, narrativas estupendas, observações maravilhosas que lhe desnudavam a alma poética, contemplativa, trancada num invólucro rústico. Famosa na terra de Ubatuba como emérita pasteleira, arte essa que a possibilitou amealhar o suficiente para incríveis empreitadas, Idalina, nos raros momentos de lazer e às escondidas do marido, que tinha ciúme dos garranchos da nobilíssima esposa, entregava a pedaços de papel, que arrancava de cadernos ou de agendas, tudo quanto lhe ia, em tumulto, no coração generoso, no cérebro claro, na alma adamantina! 

Descobri o segredo de Idalina de forma insólita e graças a esse faro próprio de repórter sempre em busca de novidade. Enquanto aguardava um cafezinho na escura e atravancada cozinha do arcaico hotel, meti o nariz numas latas vazias, alinhadas em prateleiras, que disputava sua cor com o negro das paredes. Numa dessas latas encontrei uns escritos. E, neles, toda maravilha brotada da pena de uma escritora em potencial, de imensas possibilidades. Uma revelação! 

Lancei-a, assim como anos depois e pelo mesmo jornal eu deveria lançar Carolina de Jesus. Nasci, pelo visto, com os pendores naturais de descobrir escritores inéditos e Monteiro Lobato, o saudoso mestre, deu-me pressa em ir conhecer essa 8ª maravilha, dedicando a ela a sua boa e meiga amizade, e constatando, as reais qualidades da escritora que eu revelara ao Brasil. 

Dias sombrios, de luta, de amargor, pontilharam a vida de Idalina Graça. Firme, porém, sólida em sua caminhada atribulada, permaneceu fiel aos seus propósitos de se tornar uma escritora. Nada a abateu. Eu lhe conheço todos os percalços e poderia dizer o quanto padeceu, não fora ferir essa incrível delicadeza de alma, que lhe é traço predominante. Conservo com carinho a sua amizade e sou largamente retribuído. Hoje é-me dada a honra de prefaciar seu trabalho, encontrando nele joias maravilhosas, simples, infantis às vezes, mas sempre joias puríssimas e fulgidas! 

Terra Tamoia é um depoimento sobre usos, tipos e costumes de Ubatuba de outrora, antes do evento súbito que atraiu para ela o interesse de gente nova, que ali foi construir suas casas de recreio, colocando festões modernos nas belezas naturais, na mais linda cidade do litoral paulista, onde se aninham as mais belas praias brasileiras, e onda ainda se respira, a despeito do imenso caudal de visitantes, a pureza e a simplicidade de um passado não muito remoto de simplicidade e de pobreza. Terra Tamoia é um repositório de cousas interessantes para a história do torrão pátrio. Idalina Graça com seu notável trabalho, doa à bibliografia nacional um capítulo de raro valor, um compêndio de lendas e estórias, um feixe de facetas folclóricas, que ainda será consultado por muito escritor, desejoso de saber notícias do passado do antigo porto de café de S. Paulo. 

Idalina Graça é uma escritora que entrega, pelos seus méritos exclusivos, ao Brasil, uma gema, gema essa que brotou apenas dela, exclusivamente dela, absolutamente dela. Há, em seus escritos, verdadeiros arpejos. Há tocatas que comovem. Há harmonias que elevam o espírito. Há, sobretudo, singeleza e sinceridade! 

Nenhum valor maior teria essa obra se Idalina Graça fosse formada por alguma faculdade ou diplomada por algum instituto de cultura superior. O valor de Terra Tamoia está no extraordinário esforço de alguém que não estudou, não conheceu autores, e que conseguiu escrever o livro, palavra por palavra, juntando-as para formar sentenças, frases, episódios d, de forma escorreita, assimilável e amiga! 
Willy Aureli Prefácio ao livro “TERRA TAMOIA

CAVALHADA

Entre os folguedos populares dramatizados a cavalhada ainda guarda parte de sua tradição realizando um ato conhecido por Embaixada tendo por base a representação de lutas entre mouros e cristãos numa referência às batalhas de Carlos Magno contra os mouros onde a temática é a luta entre cristãos e mouros. 


Reminiscente dos torneios da Idade Média, a cavalhada reporta-se ao tempo em que a Península Ibérica estava em luta contra os mouros, época em que os costumes feudais da cavalaria são introduzidos nessa parte da Europa. Na renascença esses costumes caíram no ridículo e foram retratados por Cervantes em seu genial Dom Quixote de la Mancha. Porém, não deixou de ser reverenciado entre os ibéricos e foi introduzido no Brasil à época da colonização. A cavalhada brasileira é de origem ibérica e remonta a luta dos cristãos contra os mouros. 

Entre nós a cavalhada difundiu-se nas regiões tradicionalmente pastoris para o preenchimento das horas de lazer entre cavaleiros e com o tempo ganhou função dramático religiosa, constituindo-se numa grande festa, a de reviver a luta entre cristãos e mouros, apresentando aspectos lúdicos e também alguns aspectos religiosos numa espécie de torneio dramatizado. 

O início é realizado em tons solenes, aos sons de trombetas. Duas hostes de cavaleiros adentram ao campo, diferenciando-se pelas cores das roupas, uma representando os cristãos, com vestes azuis, e outra com vestes vermelhas representando os mouros. 

Segundo Alfredo Maynard Araújo, a cavalhada teatral, de herança portuguesa é a forma mais antiga, introduzida no Brasil no século XVII. Compõe-se de duas partes distintas; a dos jogos onde há disputas e evoluções e a dramática, bem mais teatral, onde se faz a representação da luta entre cristãos e mouros. 

Antes da apresentação é comum os cavaleiros desfilarem pelas ruas da cidade ao toque de clarins, anunciando a cavalhada. 


O número de participantes da cavalhada é vinte e quatro, pois doze eram os pares de França. São dois partidos que tomam parte: o Azul, ou dos Cristãos, tendo por chefe o General, e o vermelho, ou dos mouros, dirigidos pelo Rei. Tanto o General como o Rei são chamados de Mestres e ambos têm seus contramestres. Por se tratarem de duas hostes opostas, cada uma possui um espia que se veste com roupas de palhaço ou mesmo com alguma fantasia bizarra e máscaras. 

Ao início, um cavaleiro mouro, em tom provocador, dirige-se aos companheiros dizendo: – Ilustres companheiros, invencíveis contra os cristãos, a guerra para nós se faz preciso. Desde já jureis pelo Alcorão morrer ou vencer pelo Profeta ou pro nossa santa crença. Os cristãos aceitando o desafio respondem em linguagem gongórica: 

– A cruz de Cristo vencerá, como sempre, o réprobo Maomé. 

 Ao soar de clarins entram em campo os vinte e quatro cavaleiros com suas vestes reluzentes, azuis e vermelhas postando em lados distintos do campo, os cristãos a leste e os muros a oeste. 

Dentre os mouros destaca-se o espia, que envereda campo adentro. Pouco depois vem o espia cristão, mas antes que este chegue, um soldado cristão mata o espia mouro. E o soldado do General, de espada em riste, transpassa-a entre o corpo e o braço do espia, que cai no chão fingindo estar morto. O soldado cristão finge que finca a espada perto da cabeça, como quem quer separar o corpo. O contramestre do Ri, sabendo que foi morto seu espia, chega ao centro do campo e inicia uma troca de palavras dando início à Embaixada. 

Quando os mouros procuram aprisionar os cristãos que oferecem resistência, matam o espia dos azuis. Há então um pequeno combate simulado, retinir de espadas e uma luta onde os vermelhos sairão perdedores. 

São todos aprisionados, descem dos cavalos e, a começar pelo Rei, ajoelham-se frente ao General. O General, diante do mouro, coloca a espada em seu ombro, batizando-o. Em seguir todos levantam-se em congraçamento e formam um só grupo, os Doze Pares de França. 

Daí por diante, chefiados pelo General, dão início às exibições de agilidade, perícia e habilidade de cavaleiros executando manobras com diversas figurações: “oito”, “volta garupa”, “xis de espada”, “carreira avançada”, “carreira pintada”, “caramujo” e “S dobrado.”. 

Também encontramos em nossa região, à época das Festas de São Benedito e São Luiz do Paraitinga e Guaratinguetá, as chamadas Cavalhadas de Cortejo, que consiste apenas em um desfile de cavaleiros acompanhando procissão. Em geral esse tipo de cavalhada é denominado “cavalaria de um determinado santo”: Cavalaria de São Benedito (Guaratinguetá, São Luiz do Paraitinga, Atibaia), Cavalaria de São Roque ou Cavalaria de São Jorge. Em geral, quando termina a procissão, os cavaleiros ou “corredores” de tal santo fazem algumas evoluções simples como a meia lua, o caramujo e a manobra zero. 


 Aqui perto, em São Luiz do Paraitinga, se conheciam dois tipos de cavalhadas, a teatral, de cunho dramatizado e a religiosa, também chamada cavalhada de cortejo ou cavalhada de São Benedito onde os cavaleiros se vestiam de branco, a cor a roupa preferida pelo santo. 

Na literatura brasileira encontramos autores que incluem em suas narrativas os enredos de cavalhadas, como é o caso do romance O Garimpeiro, de Bernardo Guimarães Em As Minas de Prata, de José de Alencar, há uma descrição de cavalhada na Bahia, em 1609. 

No “Romance da Pedra do Reino”, de Ariano Suassuna, o festejado romancista pernambucano descreve a Cavalhada de Taperoá, interior da Paraíba onde os “Azuis” disputaram troféus com os “Encarnados”, no jogo das argolinhas, que é comum em algumas cavalhadas nordestinas. 

Jean Baptiste Debret, que veio ao Brasil em 1816, tendo permanecido por 15 anos, em Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, descreve as cavalhadas como introduzidas por governadores portugueses das províncias. Outras descrições são registradas por Auguste de Sant-Hilaire em seus livros sobre as viagens que fez pelos interiores do Brasil. Há também, alusões às cavaladas nas obras de Spix e Martius.

sábado, 16 de março de 2019

Lenda do Ouro do Corcovado


Conta a lenda que um Capitão chamado Manuel Fernandes Corrêa era proprietário de uma fazenda na Praia Dura. Um dia sua filha Alice resolveu fazer um passeio e embrenhando-se pela mata acabou se perdendo. Como prêmio o pai de Alice prometeu, ao escravo que encontrasse, liberdade imediata. Pedro, um escravo forte, conseguiu encontra-la após longa procura, trazendo-a carregada de volta. Alice fora encontrada no alto do Corcovado. No dia seguinte o escravo foi açoitado por não trabalhar devido ao cansaço, pelo esforço dispensado na procura de Alice. 

 Esta, sabendo do acontecido, exigiu do pai que cumprisse o prometido, ou seja, libertar o escravo que a encontrara. Vendo-se liberto, Pedro beijou as mãos da moça Alice e partiu sem destino para os lados do Corcovado, lá instalando uma choça ao lado de uma velha cascata, próxima à escarpa misteriosa. Pedro vinha sempre à Vila trocar canudos de Taquaruçú cheios de grãos de ouro, por fumo, cachaça, gêneros etc. 

Essa notícia foi também bater na fazenda do Capitão Corrêa que, uma noite, em companhia de um grupo armado, foi à choça de Pedro, capturou seu ex-escravo e levou-o para a fazenda. Lá chegando, Pedro foi torturado para contar como e onde descobrira aquele fabuloso tesouro. O escravo suplicava para não o forçarem a falar, pois não podia contar. Após novos sofrimentos, chicotadas etc., Pedro resolveu falar: Estava morando no Corcovado, na choça perto da cascata, quando soube da morte de Alice. A noite não conseguira dormir parecendo-lhe ouvir ao longe a voz cristalina da moça numa canção de amor. De repente, a porta do casebre tremeu e escancarou-se, penetrando por ela um vulto de mulher! Era Alice! Ele a reconheceu. Como que agarrado por mãos invisíveis, não pode se mover do lugar em que estava. Mas ouviu perfeitamente a visão dizer: “Pedro! Tu foste um dia meu salvador. Dei-te a liberdade, mas sei que tu sofres neste exílio maldito, onde te arrojou a crueldade de meu pai. Não te assustes e ouve-me. Não muito longe daqui, oculta nas entranhas da terra, existe uma grande mina de ouro. Ela será tua, sob a única condição de nunca revelares a outrem esse lugar cobiçado. Se isso tentares a vingança do gênio protetor da mina cairá sobre a tua cabeça, ouviste? Cuidado, pois, e segue os meus passos”. 

“Negro maldito” gritou o capitão: “Não retardes a revelação. Onde está o tesouro?” 

“Sinhô... Tá lá pra banda do ...” E o ruído do baque de um corpo encheu a sala da casa grande. Pedro caíra morto, fulminado antes de revelar o sítio misterioso do cobiçado tesouro, que até hoje jaz nas proximidades do Corcovado. Pedro bem dizia: “Pedro um pode conta...”

 Essa maravilhosa lenda dos idos tempos permanece até hoje no coração dos velhinhos da minha poética Ubatuba e quando a lua amiga e prateada inunda a terra tamoia com seus filamentos que se emaranham por entre o verde copado das velhas árvores de Cunhambebe, a mim me parece escutar, no murmúrio da brisa que irmana aos filamentos dessa mesma lua, a voz longínqua do preto torturado pelo açoite: 

“Sinhô, preto num pode contá...” 

BOM DIA UBATUBA páginas 77/78

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Memória da Gente

O Memória da Gente promove o registro e a divulgação de ações de cidadãos dos mais variados campos de atuação, lembrados em exposições com painéis fotográficos, vídeos e textos. O material também fica à disposição de pesquisadores e visitantes no Doc-LEK (Núcleo de Documentação Luiz Ernesto Kawall).

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Sobre o mar de Iperoig

Passando pelos principais fatos significativos da aviação em Ubatuba (SP), o livro "Sobre o Mar de Iperoig" faz um relato da história da aviação no município. A narrativa, em linguagem que mescla características jornalísticas e acadêmicas, é iniciada no século XIX, em 1869, quando nasceu, na cidade, Gastão Madeira, pioneiro da navegação aérea, autor de projetos de balões e da aeronave Aviplano, além de uma interessante teoria de voo. Passando pelos fatos do século XX, a obra termina em 2017, com a privatização do aeroporto.

Primeira aterrissagem
Em 224 páginas ilustradas e 19 capítulos, o livro expõe o trabalho de Gastão Madeira para, a seguir, revelar a primeira aterrissagem de um avião realizada em Ubatuba, em 1922. Na sequência, registra a lenda, segundo a qual o escritor e piloto francês Saint Exupéry teria feito um pouso na cidade, em 1933. O desfecho do mito é esclarecido com a reprodução do trabalho do jornalista Luiz Ernesto Kawall. Reportando os vários momentos da atividade aérea na cidade, o livro aborda os vários sítios de voo, até a implantação do atual aeroporto, o qual, a partir de julho de 2017, foi concedido para a iniciativa privada, por meio do Consórcio Voa São Paulo, organização administradora dos aeroportos de Ubatuba, Itanhaém, Jundiaí, Bragança Paulista e Campinas/Amarais, até então geridos pelo governo do Estado.

Satélite
Entre outros destaques, “Sobre o Mar de Iperoig” aborda a construção de um avião, no final dos anos 1950, por um morador. Registra o lançamento ao espaço, em 2017, de um satélite por alunos da Escola Tancredo Neves. Relata as atividades do NINJA – Núcleo Infantojuvenil de Aviação e o período do Aeroclube de Voo Acrobático de Ubatuba e da Esquadrilha Akrobátika, operadora de aeronaves russas. O leitor compreenderá os contextos das operações da aviação comercial na cidade, em períodos distintos, pela Vasp e Rio-Sul, além de outros interessantes fatos marcadores na linha do tempo da história da aviação em Ubatuba.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Universidade Autónoma de Lisboa


Desejando contribuir para o desenvolvimento e aprofundamento da colaboração nas atividades de formação científica e técnica em domínios considerados de interesse comum, foi celebrado o Protocolo de Cooperação entre a UAL - Universidade Autónoma de Lisboa, representada por António de Lencastre Bernardo e o ISC - Instituto Salerno-Chieus, representado por Celso de Almeida Jr.


O Protocolo estabelece o enquadramento da cooperação institucional entre a UAL e o ISC. A colaboração desenvolve-se nos domínios do ensino, da investigação, na articulação do ensino com a aprendizagem e o exercício de atividades profissionais através de:

a. Intercâmbio de docentes, não- docentes e investigadores;
b. Atividades de formação;
c. Seminários e conferências;
d. Projetos de investigação;
e. Intercâmbio de estudantes;
f. Estágios curriculares;
g. Acesso a fontes de informação documental;
h. Publicações;
i. Outras atividades conjuntas que as Partes considerem relevantes.


O Protocolo de Cooperação foi assinado na sede da UAL, Palácio dos Condes do Redondo, Lisboa, em 3 de março de 2017.

sábado, 24 de dezembro de 2016

A VOZ RECUPERADA

Luiz Ernesto Kawall em sua vozoteca

Com intensa atividade voltada para as promoções culturais, principalmente aquelas que surgem de forma espontânea, Luiz Ernesto Kawall, jornalista e crítico de arte é homem profundamente interessado na preservação da memória nacional. Foi sob sua orientação que se criaram instituições como o MIS – Museu da Imagem e do Som, de São Paulo, o Museu Câmara Cascudo (arte primitiva, cordel e arte popular) e o Museu do Bairro do Tenório, este último em Ubatuba, SP. 

E esse incansável ativista nos traz agora a sua mais recente criação: o Museu da Voz. Para montar este acervo que já conta com mais de duas mil vozes, Kawall fez um autêntico trabalho de garimpagem pelos sebos de São Paulo e interior do Brasil. Entre vozes, discursos e entrevistas podem-se ouvir grandes personalidades da história do Brasil e do mundo: de Gandhi a Rondon, Villa-Lobos, John Lennon, Kennedy, Getúlio, Dutra, entre outros. 

Segundo Kawall, a ideia de criar a vozoteca surgiu quando Carlos Lacerda voltou de Londres e lhe comunicou suas impressões sobre uma visita que fizera na capital inglesa a um museu público de vozes. Muito embora esse não seja um conceito novo em nosso meio isso o certo é que despertou em Kawall vivo interesse em montar um acervo que pudesse servir os meios públicos na recuperação da memória nacional. 

Entre os orgulhos de Kawall está a gravação da voz de Santos Dumont, obtida na garimpagem de um museu dos Estados Unidos. “É uma voz raríssima.” Ou a primeira gravação da voz humana em áudio, feita por Thomas Edison, em 1877. Na gravação de 1877, é possível ouvir o inventor do fonógrafo brincando com seus filhos.

Ao todo, ele catalogou 3.000 vozes. De discursos de Ruy Barbosa a comentários do escritor Mário de Andrade, passando por discursos de Gandhi ou falas do compositor Villa-Lobos, até locuções raras de jogos de futebol – uma delas, um gol de Leônidas, do São Paulo. Numa nação como a nossa que ainda não se estabilizou em sua formação é muito difícil definir um bem cultural. Conceitos ainda não cristalizados geram conflitos e muita coisa se perde principalmente por falta de recursos. Luiz Ernesto, por consciência e iniciativa própria, está invertendo esta ordem de coisas.

Museu da Aeronáutica, na Flórida, USA.


Vasculhando os cerca de 4 mil itens catalogados por seu assistente Luciano Iacocca, é possível encontrar também uma gravação única do grito olímpico dos índios Tactós e a narração da década de 40 de Orson Welles, que transmitiu pelo rádio uma versão do livro Guerra dos Mundos, apavorando o povo norte-americano que acreditou estar sendo invadido por marcianos. Sem falar da voz de Cila, o cangaceiro que presenciou a morte de Lampião.

“Muitas das obras reunidas por mim foram compradas em sebos, doadas por amigos e copiadas de outras fontes. Todos os fins e semana eu saio em busca de algo raro e precioso, e sempre volto com alguma coisa inédita”, confessa o jornalista. Essa peregrinação não se restringe apenas ao território brasileiro. Luiz Ernesto conseguiu registros raros do outro lado do oceano.


“Uma vez em viagem à Flórida (EUA), encontrei num pequeno museu um trecho do discurso de Santos Dumont após receber a Comenda de Grande Oficial da Legião de Honra em Paris, em 1930”, conta com orgulho. Segundo ele, foi o primeiro registro da voz de Santos Dumont trazido ao Brasil, pois nunca ninguém havia ouvido a voz do pai da aviação em solo nacional. Deste modo, a formação de acervos particulares, como este, vem ajudando na recuperação da memória nacional. 

Esta iniciativa vem ganhando adeptos valiosos: Cuiabá foi a primeira cidade a compreender o significado deste trabalho e deverá contar, já neste ano, com o primeiro museu público de vozes, no Brasil. 

“A voz é o registro do arquétipo humano, pessoal e intransferível. O corpo vai e as palavras ficam”. Mas não só as palavras: também os gestos simples, que buscam de forma espontânea, o resgate da memória viva através da voz. Como este, do gentil homem Luiz Ernesto Kawall.

Arnaldo Chieus

sábado, 17 de dezembro de 2016

A Barca de Gleyre


"...Meu dilema agora é este: ficar aqui metido em negócios ou remover-me para Ubatuba e passar um ano diante do mar - a namorá-lo, a cheirar-lhe as maresias, a comer-lhe os camarões e ostras, a pintar marinhas, a ouvir histórias de pescador, a pescar nas pedras, a tomar banhos e ficar ao sol da praia de mãos cruzadas sobre os olhos, como um caranguejo feliz.

Creio que foi aquele Joie de Vivre de Zola que me fincou na cabeça  tal ideia. E caso meu plano se realize, que tal ires passar lá uns três meses de licença, com a tua Bárbara? Ela há de estar precisadíssima de banhos de mar. Arranjo-te casa mobiliada junto à minha, se não couberem as duas famílias na que irei tomar - caso escape do hotel. E viveremos uns meses no mar, para o mar, do mar, pelo mar, como abandono de mulher que se entrega ao amante. Levaremos uma batelada de literatura marinha, Lotis e Conrads, e faremos literatura, contos e novelas cheias de mar, com muito verde-cana e muito azul do céu.

Ubatuba é uma grande  tapera à beira duma sucessão de praias lindas. Anda-se lé de pé no chão, com chepeirões de palha, sem paletó, a comer coco verde na  rua e a sentir de todos os modos do mar - nos banhos, nas refeições, nas pescarias, na leitura dos escritores marinheiros.

O juiz de lá é meu tio por afinidade e velho companheiro e colégio, de academia, de tudo. Aquele Eneias que se atirou do trole no desastre da ponte, lembra-se?

Uma estada assim em Ubatuba será de marcar época em nossas vidas, Rangel!... Seduz-me tanto que, podendo ser removido de Areias para Araraquara, estou negociando permuta com o promotor de Ubatuba. Talvez haja incompatibilidade por causa do tio afim. Já consultei a Secretaria e espero resposta. Mar, mar, mar... Há sempre saudades do mar na obscura trama do nosso imo. Já fomos filhos do mar, nos inícios da nossa evolução, quando eramos o peixe amphioxus..."

Trecho da correspondência entre Monteiro Monteiro Lobato e Godofredo Rangel extraído de "A Barca de Gleyre", Editora Brasiliense.