ISC - Idealizado em 1993, o Instituto Salerno-Chieus nasceu como organismo auxiliar do Colégio Dominique, escola particular de Ubatuba (SP), fundada em 1978 por Ana Maria Salerno de Almeida, a "Prô Aninha". Nomeando o Instituto, o "Salerno" vem em sua homenagem e, o "Chieus", é tributo à Carolina Chieus, matriarca da família que, por várias décadas, manteve uma fazenda onde hoje estão inseridas as instalações da escola. Integrado ao espaço físico do colégio, o ISC tem a tarefa de estimular a estruturação de diversos núcleos de fomento cultural e formação profissional, atuando como uma dinâmica incubadora de empreendimentos. O Secretário Executivo do ISC é o jornalista e ex-prefeito de Ubatuba Celso Teixeira Leite.
O Núcleo de Documentação Luiz Ernesto Kawall (Doc-LEK), coordenado pelo professor Arnaldo Chieus, organiza os documentos selecionados nos diversos núcleos do Instituto Salerno-Chieus (ISC). Seu objetivo é arquivar este patrimônio (fotos, vídeos, áudios, textos, desenhos, mapas), digitalizá-los e disponibilizá-los a estudantes, pesquisadores e visitantes. O Doc-LEK divulga, também, as ações do Colégio Dominique.

LEK - Luiz Ernesto Machado Kawall (1927-2024), jornalista e crítico de artes, foi ativo colaborador do Instituto Salerno-Chieus (ISC) e do Colégio Dominique, onde, como tributo, há uma sala de aulas que leva o seu nome. É um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e do Museu Caiçara de Ubatuba.

16 outubro 2023

A VIDA PRESENTE


                                                                                                              
(uma quase resenha)
por Arnaldo Chieus 

Este pequeno livro de poesias de autoria de Hélio Pinto Ferreira, magro em número de páginas, é permeado de questionamentos existenciais num misto de imagens caleidoscópicas em alto grau de espontaneidade poética. Em seus vinte e três poemas curtos o lirismo hirto de Hélio Pinto Ferreira se expõe por completo.

Poeta de um lirismo natural, sua poesia humanística transcende o limite meramente individual para pousar nas reentrâncias do cotidiano comum, 

Onde há rosas tresmalhadas 
Onde as lâmpadas substituem estrelas. 

E onde seu caminho se apega às íntimas dobras de sua condição humana. 

Joseense e valeparaibano, em sua poesia o discurso poético é uma forma de conhecimento – autoconhecimento – e aqui recorro a uma associação feita por Nereu Correa posto que sentimos o poeta na onda lírica que envolve sua mensagem. 

Em seus próprios questionamentos existenciais o poeta expõe os dramas e inquietações de seu tempo presente:

O que será de meu trigo
 Se a liba não tem abrigo
 Se a fome não tem manhã?

A vida presente não se restringe às condições meramente temporais. Não são poemas, poemetos, quase poemas. É o canto resistente da sua visão da paisagem humana construída com rigor, na ternura de um verso, na beleza de uma flor, jogando com o verso num caleidoscópio fixando sua imagética a uma absoluta subordinação à realidade. 

Por mais uma vez sirvo-me do exemplar ensaio de Nereu Correa a respeito da poética de Cassiano Ricardo para referir-me aos versos de A Vida Presente de Hélio Pinto Ferreira. Não há lugar comum na desenvoltura de sua linguagem lírica capaz de captar os secretos mecanismos para convertê-los em linguagem poética.¹ 

O livro nos traz todo um fluxo criativo natural em suas expressões líricas nos pondo diante d’ 

a ternura de um verso 
a beleza de uma flor.

Esse corte/recorte nos revela o estado de madureza de seu discurso circunstancial aproximando-se num contínuo da marcha poética de Cassiano Ricardo. 

Poeta, jornalista, advogado, Hélio Pinto Ferreira nasceu em São José dos Campos em 12 de maio de 1922.

 Formou-se em direito pela Faculdade de Direito do Vale do Paraíba na sua primeira turma, em 1958. Além de advogado também atuou como repórter e cronista em diversos jornais joseenses.

Sua inclinação para a poesia se manifestou a partir da adolescência, influenciado principalmente pela poesia de Cassiano Ricardo, com quem teve breve convivência à época da criação da Semana Cassiano em homenagem ao grande poeta joseense. Convivendo com líderes da imprensa local e outros entusiastas da literatura, deu à luz seus primeiros poemas, futuramente enfeixados nos livros “A Vida Presente” e “Pequena Antologia Poética”, ambos sob o selo da antiga Livraria São José, do Rio de Janeiro. 

Fez parte do núcleo criador da Semana Cassiano Ricardo, nos idos de 1967, juntamente com Roberto Wagner de Almeida, Altino Bondesan, Mário Otoboni, Pedro Paulo Teixeira Pinto, José Madureira Lebrão, Olney Borges Pinto de Souza, entre outros nomes ligados à vida cultural e artística de São José dos Campos. Ainda na área cultural foi um dos fundadores da extinta Sociedade Joseense de Cultura ao lado de Brasílio Duarte, Olney Borges Pinto de Souza, Domingos de Macedo Custódio, Breno de Moura, Francisco Pereira da Silva (Chico Triste), Armando Cobra, entre outros. 

Por ocasião da IX Semana Cassiano Ricardo integrou a comissão que foi à Academia Brasileira de Letras para a entrega do retrato de Cassiano Ricardo em óleo sobre tela de autoria do pintor joseense José Carlos Queiroz. 

Ao penetrar no universo lírico de Hélio Pinto Ferreira não deixamos de notar um “quê” da seiva lírica de Cassiano Ricardo. O filtro poético de sua práxis abriga recurso de originalidade (no que me valho de um conceito de Nereu Correa), revelando amadurecimento seu natural amadurecimento lírico.

Esse fazer poético foi se consolidando lentamente ao sabor das amizades que se fortificaram em torno da linguagem proso/poética de Cassiano Ricardo. E da consolidação desse diálogo foi surgindo, delicadamente, a suave cançoneta de seus versos livres, “arquitetando o poema”, “no mais leve sentir do mundo”.

A Vida Presente” teve sua impressão concluída em agosto de 1965, sob o selo da Livraria São José, local icônico do Rio de Janeiro que reunia os grandes escritores daquela época entre seus fiéis frequentadores. O livro é dedicado a Carlos Ribeiro, “o mercador de livros, mas antes de tudo o batalhador pela cultura brasileira, a estima e a gratidão do autor”. 

Hélio Pinto Ferreira faleceu em 13 de junho de 1989, na cidade de São José dos Campos e deixou as seguintes obras: 

Seis Poemas Inéditos, 1961;

Monólogo do bacharel e outros poemas, Rio de Janeiro, RJ, 1962; 

Pequena Antologia Poética, Rio de Janeiro, 1963. 

A Vida Presente (poemas), Rio de Janeiro, 1965; 

13 Poemas num Cordel, 1982.

Em homenagem ao poeta a prefeitura de São José dos Campos criou a Biblioteca Hélio Pinto Ferreira, que está localizada na Rua Prof. Henrique Jorge Guedes, 57, no bairro Jardim das Indústrias, contando com excelente infraestrutura de atendimento ao público consulente além de área para exposições temporárias. A Biblioteca Hélio Pinto Ferreira funciona de segunda a sexta-feira, das 8h15 às 11h45/13h15 às16h45.

SELEÇÃO DE POEMAS 

1. POEMA 
Que será de meu trigo
 se a loba não tem abrigo
 se a fome não tem manhã? 

 Cresce a tarde nas fogueiras...
 que será de meu carneiro
 que será de minha lã? 

 Desce a noite nos desvelos 
 vai desfiando os novelos 
de infindável tecelã.

Que será da semeadura
 para o instante da fartura
desta terra de amanhã? 

2. ATITUDE 
Por este caminho eu não vou 
eu vim. 
O céu se retesa 
e há rosas tresmalhadas
a beira-rio. 

Não posso mais cindir estradas 
sob a poeira. Minha capa 
 é translúcida e tenho amor às montanhas. 

Percorrer o percorrido 
com o chapéu das acácias 
na cidade onde lâmpadas substituem estrelas. 

Poeta no mais leve sentir do mundo 
arquitetar o poema. 

3. AURORA ENSANGUENTADA 
Uma flor na rodovia 
na roda viva do dia 
 caída, esfacelada! 

Como pode a geografia
na triste heliografia 
ser-se rude numa estrada 

 a ponto de a poesia 
 romper a fotografia
 de uma rosa macerada

 e marcar na biografia 
 de uma vida que se ia
 a aurora ensanguentada? 

4. QUASE POEMA 
Do enigma e do mistério surge o ser 
para a triste paisagem humana. 

O homem vive e se prolonga 
na espécie: a vida desengana, 

e ele engana a existência 
em cego engano que o engana 

até que um dia parte num esquife 
 esquecido de sua própria canção. 

5. CANÇONETA 
Rosa morta dos acasos 
Que fizeste esta manhã? 
        Que âncora te conduziu? 
        Por que estrela te guiaste?

Ridente era o teu destino,
Rosa, Rosa, meu amor. 
        Não há penas, nem desculpas, 
        sob um céu de garças tontas.

Sobe os píncaros dos montes
grito solto nos rochedos. 
        Que é feito de teu sorriso? 
        Quem crestou as tuas pétalas? 

Teu silencio é de túmulos
entre goivos e ciprestes. 
        Quem manchou-te a formosura, 
        Rosa, Rosa, meu amor

[1] Cassiano Ricardo o Prosador e o Poeta, p. 57.

02 outubro 2023

ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO ABC PAULISTA: 1550-1892


Autor: WANDERLEY DOS SANTOS
Uma resenha por Arnaldo Chieus

ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO ABC PAULISTA: 1550/1892 publicado pela prefeitura de São Bernardo do Campo em 1992 é o livro que veio consolidar o nome de WANDERLEY DOS SANTOS como um dos mais importantes historiadores do Estado de São Paulo. Com uma vida toda dedicada à pesquisa da história regional, desde seus 15 anos o então adolescente começou a investigar a formação dos bairros paulistanos, estendendo suas pesquisas até a região do Grande ABC e, posteriormente, a outras regiões paulistas. 

Entre seus primeiros trabalhos de fôlego foi a História de Ribeirão Pires, de 1973, quando contava com 21 a 22 anos de idade. A partir de então, dedicando-se exclusivamente à pesquisa histórica produziu inúmeras monografias entre as quais se destacam a história dos municípios de Mauá e Rio Grande da Serra, ambos da Região da Grande São Paulo. Em 1980 sua pesquisa história sobre o bairro da Lapa foi premiado pela Prefeitura da capital no concurso de monografias sobre a história dos bairros de São Paulo. A partir de então passou a dedicar-se à pesquisa histórica integrando o corpo de funcionários da Cúria Metropolitana de São Paulo sendo chefe de seu Arquivo Histórico. 

A partir de então tece início seu mergulho profundo nas fontes da historiografia regional principalmente na leitura e interpretação de documentos manuscritos. Esse seu conhecimento em paleografia foi sendo desenvolvido a medida que seu trabalho era desenvolvido e suas pesquisas continuavam, o que foi um fator preponderante na elaboração de um rico fichário que foi crescendo ao longo do tempo e serviu de fonte para grande parte de seus trabalhos. Hoje sabemos que ao menos parte desse considerável acervo está sob a guarda da Seção de Pesquisas e Documentação da cidade de São Bernardo do Campo. 

Dedicando-se ao estudo das fontes historiográficas da região do Grande ABC paulista produziu inúmeras monografias abordando a formação histórica dos municípios de Mauá, Diadema e Rio Grande da Serra. Também se dedicou ao estudo da formação histórica dos bairros de São Paulo. Em 1980 sua monografia sobre a história do bairro da Lapa foi premiada pela Prefeitura de São Paulo. 

REVISÃO HISTÓRICA 
Partido de criteriosa análise documental o autor dividiu a obra em duas partes num apreciável sentido integrativo. Na primeira parte estuda os primórdios do povoamento a partir do início do século 16 e traça uma grande linha do tempo enumerando sesmarias e aldeamentos, ramos familiares e povoações que foram se instalando ao longo da subida da Serra do Mar, às bordas dos campos de Santo André e regiões adjacentes.

Obra de excepcional importância para a historiografia regional, ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO ABC PAULISTA: 1550-1892 foi publicado pela Prefeitura do Município de São Bernardo do Campo, em 1992 e veio consolidar o nome de Wanderley dos Santos como um dos mais importantes historiadores do Estado de São Paulo. 

Como bem acentuou o historiador e jornalista Ademir Médice, “ a obra revela e esclarece algumas distorções impostas pela história oficial, com informações coletadas através de pesquisas em fontes primárias e relatos orais, além das notas acrescentadas em cada capítulo, que fornecem ao leitor um complemento de fontes e informações bibliográficas”.

Trata-se de uma obra que “mostra caminhos e aponta fontes” sempre em busca de soluções firmadas em pesquisa documental que muitas das vezes difere do conformismo da historiografia oficial. Munido de largo senso de observação aliado ao seu profundo conhecimento que adquiriu nos anos que esteve na direção do Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo produziu uma obra que “retrata com veracidade documental os grupos étnicos, a formação e a transformação sociocultural da região e mostra os caminhos percorridos pelos desbravadores e colonizadores” que passaram e deixaram suas marcas naquela região. 

Muito há que se falar ainda a respeito da obra do grande historiador que foi Wanderley dos Santos. Tive a oportunidade de conhecê-lo quando ainda estava à frente do Arquivo Histórico da Cúria Metropolitana de São Paulo, funcionando na Avenida Nazaré, no bairro do Ipiranga. Posteriormente, numa rápida passagem que fiz até Franca, SP, pude mais uma e derradeira vez cumprimentá-lo enquanto instalava o arquivo histórico daquela cidade o qual esteve sob sua direção até a sua prematura morte. 

Seus arquivos hoje integrando o Banco de Dados do “Diário do Grande ABC”, o principal jornal daquela região, é um grande manancial histórico e inesgotável fonte de informações para conhecer a história real daquele trecho da Região Metropolitana. 

Obra essencial e basilar, ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO ABC PAULISTA é fruto de aproximadamente 20 anos de pesquisas nos tantos possíveis arquivos públicos e privados a que o autor teve acesso. Uma obra que não apenas consegue elucidar aspectos obscuros e desconhecidos relativos à histórica do grande ABC paulista como, também, rendeu frutos para novos trabalhos investigativos em prol da memória histórica e social daquela região. 

Além da obra que acima tecemos breves e despretensiosos comentários, Wanderley dos Santos é autor dos seguintes trabalhos:

Lapa - livro que compõe a série: História dos Bairros de São Paulo, volume 18. Divisão de Arquivo Histórico da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, 1980.

História do Município de Ribeirão Pires. Trabalho mimeografado, PMRP (1974) e editado em livro pela edUFABC em 2017;

Mauá Ano Vinte. Imprensa Metodista (1975); 

História do Município de Rio Grande da Serra – trabalho datilografado (s/d); 

História do Município de Diadema, publicado postumamente (2000). 

Também realizou, entre outros, os seguintes trabalhos: elaboração da história dos bairros do Tatuapé e Vila Carrão, em São Paulo e história dos municípios de Franca, Peruíbe, Rifaina e Tapiratiba.Escreveu, ainda, textos de palestras e artigos divulgados em circunstâncias diversas.

ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO ABC PAULISTA: 1550-1892 é um livro que deve ser lido com interesse, não mero com admiração.Um livro com tais qualidades bem merece ser celebrado.

18 setembro 2023

AVIAÇÃO EM TAUBATÉ

 NINJA: Biblioteca NINJA
 
Resenha 
Um livro que conta a história da aviação em Taubaté (SP) 
Por Arnaldo Chieus *
 
“A aviação em Taubaté e os 25 anos do Aeroclube Regional” foi editado em 2018. Com a publicação deste livro seus autores, Cesar Rodrigues e Carlos Caetano Florentino, prestam à memória da aviação em Taubaté o inestimável trabalho de reunir a síntese do processo histórico da aviação, desde o primeiro pouso de Anésia Pinheiro Machado, até a importância da Aviação do Exército.
 
 Pode-se afirmar que a aviação em Taubaté teve início em 1922, na primeira aterrissagem de uma aeronave em campo improvisado nas margens da ferrovia. O pouso realizado por Anésia Pinheiro Machado, então com 18 anos, pilotando o avião Caudron G-3, de fabricação francesa, batizado de Bandeirante, com motor 120 HP, foi parte da travessia aérea entre S. Paulo e Rio de Janeiro por ocasião das comemorações do centenário da independência do Brasil. O reide foi iniciado no dia 5 de setembro, com aterragens em Taubaté, Guaratinguetá, Cruzeiro, Pinheiral (RJ) e, por fim, no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, em 8 de setembro de 1922. Importante ser lembrado que a essa mesma época outro reide havia partido de Santiago (Chile), patrocinado pela Aviação do Exército chileno também em direção ao Rio de Janeiro, sob o comando do capitão Diego Aracena. Este reide não logrou êxito até o final uma vez que a aeronave chilena fez um pouso forçado na praia do Itaguá, em Ubatuba, impossibilitando o percurso. O reide chileno está descrito no livro "A Jornada Aérea: dos Andes ao Atlântico", de Cesar Rodrigues. 
 
A revolução paulista e as operações aéreas
 
Palco de operações aéreas durante a Revolução Constitucionalista de 1932, Taubaté apoiou as (operações aéreas) manobras das aeronaves paulistas ante as tropas federais. E com a construção de um campo de aviação grande número de aeronaves passou a circular no espaço aéreo da região do Vale do Paraíba com pousos em Taubaté, Pindamonhangaba, Cruzeiro e Lorena. 
Com o fim da revolução constitucionalista, a cultura aeronáutica já estava enraizada no cerne do povo taubateano e esse espírito levou à criação do seu primeiro aeroclube. E todo esse entusiasmo contou com o apoio da elite industrial da cidade. Octavio Guizard, da Cia. Taubaté Industrial CTI, destinou terras de sua propriedade para a construção e instalação de uma pista de pouso onde atualmente se localiza o bairro Parque Aeroporto. Com o passar dos anos o aerodesporto de Taubaté foi referência regional e contou em seu plantel com grandes e renomados instrutores.
 
Um pouso em Tremembé - A Fazenda Maristela 
 
Com a expansão industrial de Taubaté a pista de pouso foi desativada para dar lugar a um segmento na fábrica da Ford e de um novo bairro em Taubaté, o Parque Aeroporto em alusão ao antigo campo de pouso cedido pela família Guizard. 
A partir de então as operações do Aeroclube passaram a ser realizadas no campo da centenária Fazenda Maristela, erguida pelo barão de Lessa no século XIX para o cultivo do café e depois rebatizada pelos monges trapistas franceses da Ordem de Maristela. Localizada no vizinho município de Tremembé, a fazenda dispunha de um aeródromo e serviu ao Aeroclube nos últimos 15 anos de sua existência, formando e brevetando novos aviadores, tendo vários se tornado pilotos comerciais. 
O aeródromo da Fazenda Maristela, após a desativação do antigo aeroclube, serviu para pousos ocasionais e, posteriormente, abrigou oficinas para a manutenção de aeronaves ultraleves. 
 
As pioneiras da aviação em Taubaté
 
Resgatando os 25 anos do Aeroclube Regional de Taubaté o livro faz o registro de duas aviadoras que se destacaram e com seus exemplos incentivaram a prática da aviação civil nos meados das décadas dos anos 1930 e 1940: Joanna Martins Castilho e Elisa Braga, ambas treinadas pelo instrutor Astério Braga. 
 

Joanna Martins Castilho, natural de S. Paulo, nasceu em 1924 e foi apoiada pelos pais para realizar seu sonho de se tornar piloto de aviação. Sua família foi morar em Taubaté e aos 13 anos começou a frequentar aulas no Aeroclube de Taubaté demonstrando grande vocação para aprender manobras aéreas. Joanna, a Joaninha, como ficou conhecida, realizou seu primeiro voo solo com 14 anos e, aos 15 anos ganhou o primeiro campeonato de acrobacia aérea em 26 de outubro de 1940. Seus feitos como aviadora acrobata foram registrados pela imprensa da época e seu nome ganhou dimensão nacional. Joanna Martins Castilho voou desde 1938 até casar-se, em 1943, com Almerindo D'Alessandro, piloto brevetado também pelo Aeroclube de Taubaté, onde ambos também fizeram aulas de paraquedismo. Faleceu no dia 14 de junho de 1991 aos 67 anos de idade.
 

Maria Elisa Braga, também elevada à categoria de pioneira da aviação, foi brevetada em 1941 e nesse mesmo ano obteve a licença de piloto-aviador Internacional, em 8 de junho de 1941, pela Federação Aeronáutica Internacional. Além de pilotar aeronaves, Elisa Braga também saltava de paraquedas. Em 1941, durante as comemorações da Semana da Asa no aeródromo de Manguinhos, no Rio de Janeiro, após ter feito voos acrobáticos, realizou um salto de paraquedas, saindo de um avião da FAB a 500 metros de altura. Maria Elisa Braga, piloto e paraquedista, nasceu em Taubaté em 17 de novembro de 1903. Foi casada com o aviador e instrutor de voo Astério Braga.
 
Um taubateano nos céus da Itália
 
 
Nascido em Taubaté em 07 de outubro de 1922, Fernando de Barros Morgado ao atingir a maioridade ingressou no CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva) e, ao tornar-se a aspirante, candidatou- se para estar entre os oficiais e praças que compunham o núcleo do 1° GAvCA (Grupo de Aviação de Caça).
 
Após treinamento no Brasil, foi enviado aos Estados Unidos para o curso de pilotagem face à eclosão da Guerra. Concluída sua formação retornou ao Brasil onde recebeu o Gládio Alado, símbolo da Força Aérea Brasileira, na cor branca, que simbolizava a diferença (entre) com os oficiais da ativa, os quais usavam a insígnia na cor preta. 
 
E assim, como integrante desse grupamento, foi enviado para a Itália para voar o P-47 Thunderbolt, do "Senta a Pua". Nos campos da Itália executou inúmeras missões de combate e com o fim do conflito (vou e com o fim do conflito) voltou ao Brasil e passou a desempenhar funções de instrutor na Base Aérea de Santa Cruz. 
 
Ao dar baixa na Força Aérea, como segundo tenente, seguiu carreira na aviação civil, como comandante na Panair do Brasil. Fernando de Barros Morgado morreu em decorrência de desastre aéreo no dia 16 de junho de 1955 nas proximidades de Assunção, no Paraguai, a bordo de Constallation 263, num voo Londres-Buenos Aires, com escalas no Rio de Janeiro e S.Paulo. 
 
O capítulo final é dedicado ao Cavex - Comando de Aviação do Exército, a principal base aérea do Exército Brasileiro e sua importância estratégica por estar localizada em Taubaté, próximo da indústria aeronáutica e dos importantes centros de pesquisa e infraestrutura aeronáutica do Brasil. Desde 1993 a Base Aérea foi utilizada pelo Aeroclube Regional de Taubaté, que fazia uso de dois hangares civis, abrigando uma escola de pilotos e comissários de bordo.
 
* Arnaldo Chieus é professor, advogado, entusiasta da aviação e membro do Conselho Gestor do Instituto Salerno-Chieus