ISC - Idealizado em 1993, o Instituto Salerno-Chieus nasceu como organismo auxiliar do Colégio Dominique, escola particular de Ubatuba (SP), fundada em 1978 por Ana Maria Salerno de Almeida, a "Prô Aninha". A criação do Instituto Salerno-Chieus, como fomentador das atividades culturais no Colégio Dominique, é uma homenagem para Ana “Salerno” e Carolina “Chieus”, matriarca da família que, por várias décadas, manteve uma fazenda onde hoje estão inseridas as instalações da escola. Integrado ao espaço físico do colégio, o ISC tem a tarefa de estruturar diversos núcleos de estímulo à cultura e à formação profissional, atuando como uma dinâmica incubadora de empreendimentos. O Secretário Executivo do ISC é o jornalista e ex-prefeito de Ubatuba Celso Teixeira Leite.
O Núcleo de Documentação Luiz Ernesto Kawall (Doc-LEK), coordenado pelo professor Arnaldo Chieus, organiza os documentos selecionados nos diversos núcleos do Instituto Salerno-Chieus (ISC). Seu objetivo é arquivar este patrimônio (fotos, vídeos, áudios, textos, desenhos, mapas), digitalizá-los e disponibilizá-los a estudantes, pesquisadores e visitantes. O Doc-LEK divulga, também, as ações do Colégio Dominique.

LEK - Luiz Ernesto Machado Kawall (1927-2024), jornalista e crítico de artes, foi ativo colaborador do Instituto Salerno-Chieus (ISC) e do Colégio Dominique, onde, como tributo, há uma sala de aulas que leva o seu nome. É um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e do Museu Caiçara de Ubatuba.

23 junho 2026

Letras Ubatubenses

TARIK
Paulo Andrade

Tarik veio com os pais do Iraque em 1990. O pai, Hassam e a mãe Fatma, fugiram da invasão dos Estados Unidos àquele país asiático.

Na cidade de São Paulo, o pequeno iraquiano conheceu os colegas de escola, que o receberam com festa e bolo. Isso fez com ele esquecesse um pouco do trauma da visão de sua casa sendo destruída por uma bomba americana.

Paradoxos da vida: a América o expulsou na Ásia e a mesma América o acolheu em São Paulo.

21 junho 2026

Letras Ubatubenses

ANÁLOGO
Joban Antunes
Uma coisa é ser poeta
Outra coisa é ver o mar
Uma coisa é ser artista
Outra coisa é navegar

Uma coisa é ser sincero
Outra a mentira acatar
Uma coisa é o que eu quero
Outra é o que eu possa lhe dar

Uma coisa é um país
Outra um discernimento
Uma coisa é um amor
Outra um descontentamento

Uma coisa é a verdade
Outra a falsa noticia
Uma coisa é sinceridade
Outra é viver na mesmice

Uma coisa é a certeza
Outa a inviabilidade
Uma coisa é a beleza
Outra é o chegar da idade

Enquanto a vida vai
Uma coisa que persiste
É o amor que existe
Esse não morre jamais

20 junho 2026

Letras Ubatubenses

FRIO HUMANO
João Paulo Naves Fernandes
Fria noite,
desprotegida...
fria humanidade,
desabitada...
frio amor
coabitado...

Fria miséria
rica,
indiferente
ao padecimento
da gente,
falsifica

Fria rotina,
neblina
cega,
que apega,
fina,
confina

Frio interior...
de amor
fugidio...
morte
sem fim,
calafrio,
exterior...

Frio algoz
em nós
penumbra
permanente,
pendente...
desfigurada,
incrustada

Frio mudo,
mortal,
na espinha,
na mente,
caminha,
imanente

Frio de tudo,
de ventos
polares,
isolamento
mudo
fechado
nos lares.

Frio de busca
inútil,
fútil,
terminal...

Frio humano...

19 junho 2026

Letras Ubatubenses

O DEMOLIDOR DE MUROS
João Paulo Naves Fernandes
A vida tem muros...

Tenho encontrado muros
no decorrer do tempo.

Detenho-me diante deles
sempre que surgem,
não são convidados
a participar da festa,
mas vêm.

Possuem tamanhos diversos,
fazem-se de intransponíveis,
deixam a impressão
de que ali
terminam meus passos,
velhos passos.

Já ultrapassei vários deles...

Quando me viro,
olho para trás,
nem sempre vencê-los
trouxe gosto de vitória,
mas alívio,
consciência de que algo
se perdeu,
atrasou.

Agora mesmo
está aí um muro imenso,
com seu sentimento
de impotência,
convidando a desistir,
ficar na constante maré.

Quer que pense
não ter força suficiente
para derrubá-lo,
cheguei ao fim do caminho.

Pacientemente
me dou conta
da aparência
do obstáculo,
encontrando saídas,
continuando em frente.

Aprendi a desafiar muros...

Não são tão grandes
quanto parecem,
quando nos pomos
a resolvê-los.

Surgem a todo instante,
aparentando maiores.

Sou um demolidor de muros.

Estão sempre à minha frente,
e eu sempre à derrubá-los.

13 junho 2026

Letras Ubatubenses

RETIDO
João Paulo Naves Fernandes
Não sei despedir-me,
algo retém a saída.

Não sei se nuvens
não convidam,
estão estáticas...
não sei se somos nós,
temerosos do mundo,
das descobertas...

Ando segurando
suas mãos
o quanto posso,
afago de permanência.

Temos algo a concluir
em suspenso,
ao nos despedirmos...
continuidade
por formar sentido.

São necessárias
novas buscas,
experiências,
que reguem
o jardim cultivado
em silêncio.

Despedidas matam!

São como
enterros antecipados
preparando os corações
a viagens distantes.

Há muito ainda
a se dizer,
a ouvir...
há muito de nós
represado na boca,
enquanto olha,
deseja estar junto.

Despeço-me
com versos
do leitor,
como quem
não quer partir,
e deixa palavras
que ficam.

Volte logo!

10 junho 2026

Letras Ubatubenses

INTRÍNSECO
Joban Antunes
Entre a fé e a coragem
Entre o medo e a certeza 
Entre o real e visagem
Entre o feio e a beleza
Entre o frontal e o reverso
E o amor que não conheço
Entre o início de um verso
E o fim de um recomeço
Entre a tristeza que aflora
Na vontade de ficar
No adeus de ir embora
Sem rumo pra navegar
Desisto na mesma hora
Me escondo em qualquer lugar

07 junho 2026

Letras Ubatubenses

TEAR NOTURNO
João Paulo Naves Fernandes
A noite é um novelo de lã
que se desfia
madrugada afora,
não sabe aonde vai...

Segue distantes
batidas de tambores,
ancestrais...

Se são daqui
ou recônditos lugares,
sabe-se lá o que fazem
estes teares,
vestem anjos
nos portais
da eternidade?

Sei que há algo
sendo tecido,
no frio auscuto
da noite,
a ser vestido
durante o dia,
preparam-me
para as noticias
de amanhã?

O tempo escuro
discerne os limites
longínquos ouvidos,
se continuam as batidas,
com indígenas expulsos
em seus cantos
celestiais soturnos.

Mal escuto de mim,
se confundo o peito
que represa o coração,
a um transcendente
ritual noturno.

Sei de portas
que se abrem,
fecham...
de estar atento
a novas linguagens...
tudo o mais palidece
de explicação.

Por fim,
embalo-me no ritmo...
sou parte desaparecida
de grupos tribais
envoltos em chamas,
vendavais clamando por justiça.

03 junho 2026

Letras Ubatubenses

TOMBO
Joban Antunes
Podem puxar meu tapete
Podem me jogar no caos
Podem me fazer de joguete
Copiar atos dos maus
Assim quando eu cair
Saberei quem derrubou
Na dor até posso rir
O tempo me consolou
Aprendi como cair
Evito me machucar
Do chão eu posso sair
E as feridas curar

Letras Ubatubenses

ONDE NASCE A MINHA POESIA
Roze Cabral
Escrevo linhas onde o papel me acolhe.
Nos cadernos, nos guardanapos esquecidos, no avesso humilde de um saco de pão.
Escrevo no que é passageiro: no desenho das nuvens, na espuma que o mar faz antes de sumir, ou ali mesmo, na crueza do chão.
Traço linhas que ganham corpo no barro úmido, na textura das peças de argila, nas formas que ganham vida e calor no trabalho das mãos.
Rascunho linhas que cortam o asfalto das estradas, que se apagam nas areias das praias, que se perdem nos labirintos do olhar e da emoção...
Escrevo linhas em toda parte, sem trégua.
De onde elas vêm?
Dos cantos inquietos, dos sentimentos revoltos, dos gritos abafados da alma.
De onde elas vêm?
Você já sabe.
Vêm de um simples coração.

02 junho 2026

Letras Ubatubenses

ENQUANTO SIGO
João Paulo Naves Fernandes
Posso oferecer-me a ti,
como sou,
quem sabe
seja aceito,
quem sabe
rejeitado.

Até onde podemos ir
me é desconhecido,
mas saiba,
pouco tem a ver
com este mundo.

Estou a experimentar
a liberdade
com o espaço
que ela possa dar,
todas as possibilidades.

Estou a perguntar-me
constantemente,
sobre tudo,
sem freios,
nem arreios.

Ando
como quem convida
a fazer festa,
comemorar,
inconscientemente,
a vida.

Por isso sorrio e choro,
grito e calo-me
no decorrer do dia...
corro se necessário,
e paro, se preciso...
sigo o vento.

Hoje,
uma mansidão
toma conta de mim,
como herança não paga.

Hoje me pergunto:
E nós, e os outros?

Sinto a velha carência de desejar
que todos consigam festejar
juntos o seu tempo.