Para minha querida Andréa Palmeira Antunes
Roze Cabral
Vinícius de Moraes, com a sabedoria que só os poetas carregam, corrigiu nossa miopia diante do fim. Explicou-nos que a morte não é inesperada, como costumamos dizer. Ela é, em verdade, impressentida.
Como guardo em mim essa quase obsessão pelos conceitos e pelas palavras, demorei-me por horas a fio no eco dessa frase tão profunda. Afinal, se a única certeza irrefutável da existência é a de que um dia abandonaremos a veste desse corpo físico, chamar a partida de "inesperada" beira a ingenuidade.
O mistério reside no fato de que nos é vedado intuir o instante exato do adeus. Disso, ninguém duvida.
A última vez que vi Andréa, o cenário era uma celebração entre amigos da Literatura. E, como costuma desaguar todo bom encontro de literatos, o ar estava impregnado de leveza, riso solto e camaradagem.
Lembro-me de que, por um capricho estranho do destino, meus olhos se demoraram nela por longos minutos. Fazia tempo que a vida não nos cruzava, e julguei que aquela urgência no olhar era apenas a saudade cobrando o seu preço. Nos abraçamos, e segredei-lhe o quanto a achei parecida com a mãe. Foram nossas últimas palavras escritas no tempo.
Hoje ela partiu. Fica em mim o silêncio da ausência, mas também uma gratidão imensa por tudo o que floresceu enquanto esteve aqui: seu riso largo, seu bem-querer sem rasuras, o desenho único de sua presença e essa derradeira imagem que o meu olhar guardou, como fotografia eterna na retina.
Há uma profunda sabedoria divina em nos poupar dos presságios da morte. O peito humano é frágil demais para carregar o peso de tamanha magnitude. Afinal, a despedida de quem amamos sempre será o inverno mais rigoroso do coração.
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