O RESPEITO DO CAIÇARA AO MAR
EXPRESSO NA ARTE DE JOÃO ALEGRE
Paulo Andrade
Parte 1
O mar, para o caiçara, não é apenas uma paisagem ou uma fonte de recursos econômicos; é um universo, o princípio e o fim, uma entidade cheia de mistério e soberania. Na canção "O mar levou", do cantador de Ubatuba, João Alegre, essa relação de profunda reverência ganha contornos trágicos e poéticos. O eu lírico não se revolta contra o oceano, mas reconhece sua força implacável, transformando a dor da perda em um retrato da própria condição humana do homem litorâneo.
A seguir, analisamos como esse discurso se constrói artisticamente sob a ótica do respeito e da simbiose entre o homem e o mar.
Essa é a melodia, onde podemos ver o fluxo das notas semelhantes às ondas que vem e vão. A própria introdução constrói o desenho deixado no lagamar pela dinâmica das vagas que colhem o domínio das areias.
Vejamos a letra completa, cuja segunda estrofe tem melodia semelhante à primeira. Seus versos vêm complementar e ampliar os sentimentos do eu lírico, expressos na primeira estrofe, O refrão, antes da primeira estrofe traz a razão que desencadeia a sorte de infortúnios sofridos pelo ente que perdeu seu amor.
O mar levou
(João Alegre)
O mar levou pra longe de mim o meu amor
O mar levou pra longe de mim o meu amor
Ando de pernas tão trôpegas
Ando de cabeça vaga
Sonhos de um final tão triste
Tristeza que o tempo não apaga
Vida sem razão de ser
Homem sem ter aonde ir
Homem sem ter que voltar
Crianças sem ter que sorrir
E mães tão tristes sem ter que implorar
A Soberania do Mar e o Respeito na Dor
A repetição dos primeiros versos funciona como um mantra de aceitação dolorosa:
"O mar levou pra longe de mim o meu amor / O mar levou pra longe de mim o meu amor"
Do ponto de vista discursivo, note que a ação é totalmente atribuída ao mar. Não há questionamento, culpa ou tentativa de lutar contra o ocorrido. O caiçara compreende que o mar dá, mas também tira. Essa resignação não é passividade, mas o grau mais alto de respeito: o reconhecimento de que o oceano responde a leis próprias, ancestrais e incontroláveis. O amor foi levado "para longe", uma metáfora que transita entre a distância física da deriva e a distância eterna da morte.
O impacto no corpo e na mente caiçara
Quando o mar altera a vida do pescador, o impacto é físico e geográfico:
"Pernas tão trôpegas": O homem do mar, acostumado ao equilíbrio do barco nas ondas, perde o prumo em terra firme diante do luto. O caminhar vacilante reflete o chão que lhes foi tirado.
"Cabeça vaga": O horizonte, que antes era o guia para a navegação e o sustento, passa a ser um espaço de vazio de esperanças e um depósito de memórias perdidas.
Os "sonhos de um final tão triste" ecoam o medo constante que habita o subconsciente de toda comunidade pesqueira. O mar, provedor da vida, traz também a carga latente da tragédia, uma "tristeza que o tempo não apaga".
A Desestruturação da Identidade e da Comunidade
A segunda parte da letra expande a dor individual para o coletivo, mostrando como a perda no mar desaba todo o ecossistema social caiçara:
Dimensão Poética
Identidade
Verso da Canção
"Homem sem ter onde ir / Homem sem ter que voltar"
Análise Artística e Cultural
O mar define o destino do caiçara. Sem o amor (que pode ser a companheira em terra ou o próprio mar-parceiro), rompe-se o ciclo de partida e retorno que dá sentido à sua existência.
Dimensão Poética
Futuro
Verso da Canção
"Crianças sem ter que sorrir"
Análise Artística e Cultural
A tragédia no mar rouba a inocência e a alegria da próxima geração, que cresce sob a sombra do respeito temeroso pelas águas.
Dimensão Poética
Ancestralidade
Verso da Canção
"E mães tão tristes sem ter que implorar"
Análise Artística e Cultural
O sofrimento das mães atinge um ponto de exaustão em que o clamor cessa; resta apenas o silêncio respeitoso e devastado diante do absoluto do oceano.
A expressão "vida sem razão de ser" sintetiza o homem que perdeu sua âncora existencial. Ao cantar o sumiço do amor nas águas de Ubatuba, João Alegre traduz a alma caiçara: uma vida moldada pela beleza e simplicidade do verso que se aproxima da imensidão do mar, mas eternamente consciente de sua imensa e devastadora soberania.
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