ISC - Idealizado em 1993, o Instituto Salerno-Chieus nasceu como organismo auxiliar do Colégio Dominique, escola particular de Ubatuba (SP), fundada em 1978 por Ana Maria Salerno de Almeida, a "Prô Aninha". A criação do Instituto Salerno-Chieus, como fomentador das atividades culturais no Colégio Dominique, é uma homenagem para Ana “Salerno” e Carolina “Chieus”, matriarca da família que, por várias décadas, manteve uma fazenda onde hoje estão inseridas as instalações da escola. Integrado ao espaço físico do colégio, o ISC tem a tarefa de estruturar diversos núcleos de estímulo à cultura e à formação profissional, atuando como uma dinâmica incubadora de empreendimentos. O Secretário Executivo do ISC é o jornalista e ex-prefeito de Ubatuba Celso Teixeira Leite.
O Núcleo de Documentação Luiz Ernesto Kawall (Doc-LEK), coordenado pelo professor Arnaldo Chieus, organiza os documentos selecionados nos diversos núcleos do Instituto Salerno-Chieus (ISC). Seu objetivo é arquivar este patrimônio (fotos, vídeos, áudios, textos, desenhos, mapas), digitalizá-los e disponibilizá-los a estudantes, pesquisadores e visitantes. O Doc-LEK divulga, também, as ações do Colégio Dominique.

LEK - Luiz Ernesto Machado Kawall (1927-2024), jornalista e crítico de artes, foi ativo colaborador do Instituto Salerno-Chieus (ISC) e do Colégio Dominique, onde, como tributo, há uma sala de aulas que leva o seu nome. É um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e do Museu Caiçara de Ubatuba.

29 agosto 2015

SAINT-EX

SAINT-EX não pousou no Itaguá, 
 ... mas riu no céu... E pedi perdão à Lucinha, no Carnaval... (p/ Rubem Braga)


Nos anos do trinta, como diria o Volpi, constava que Saint-Exupèry, aviador e escritor famoso, de mil aventuras pelo mundo, pousara com seu “Lacotère” avariado na praia do Cruzeiro, em Ubatuba. E que teria andado pela cidade, com os ubatubenses embasbacados, à roda... E, mais ainda, que também teria tomado um autêntico champagne francês com outros tripulantes no Hotel da Idalina Graça onde, certamente, teria contado e ouvido muitas histórias. Na roda, “seu” Filhinho, o já farmacêutico famoso e alguns caiçaras da sociedade local. O champanhe, segundo a história, veio do empório do Capitão Deolindo. 

Esse fato A Folha deu, numa 2ª feira, em 1966. Não com tanta riqueza de detalhes. 

 Eu andava como jornalista, em andanças entre SP e Rio, no jornal do Lacerda; a notícia me alertou, e isso despertou-me para a história desse fato pois, já tinha casa (no Sapé), aqui, - fazia festivais de viola, enfim, andava integrado com as gentes de Uba: e, como eu, não sabia! Mas que assunto! 

Enfim, puz-me a campo, recorrendo os jornais da época, deste São Paulo, até Paris (onde contei com ajuda do Reali Jr., então correspondente de “O Estado de S. Paulo”). E também às freiras dominicanas, como Irmã Rosa Maria freira desta irmandade católica que escreveu uma tese em francês, posteriormente publicada numa versão portuguesa, versando sobre episódios do famoso escritor/aviador. E outros, que bem conheciam a vida de Saint Ex, na palma da mão. Li vários livros sobre o famoso escritor, mas, nada: ninguém falava, nem ele, de sua desastrada viagem, em que “pousara” e “ficara” numa “noite de bebedeiras”, nesta lírica cidade litorânea no Brasil. 

Foi quando, em Santo Amaro, SP, andando atrás de fotógrafo alemão - que teria fotografado Saint-Ex, e seu avião, e curiosos, na praia do Cruzeiro, Ubatuba/SP... e deu “Bingo”. 

Achei o alemão, tinha casa nas Toninhas, fotografara o aviador francês do Lacotère, andara com eles e o grupo, até o Hotel Felipe... Saint-Ex tomara champanhe, sim, e contara histórias fantásticas de suas aventuras com os mouros na África, etc., etc. (ver “Correio Del Sur”, de Saint-Ex.). Melhor. “seu” Hans tinha as fotos, do aviador acidentado, o avião parado no meio das palmeiras da praia, os basbaques à roda... Noite toda. De manhãzinha, já consertado, o “Lacotère”, prosseguia sua viajem, até Buenos Aires. Ficou a estória de Saint-Exupèry, aqui em Ubatuba... Real, gostosa, inédita, lírica. Foi o que fiz. Reuni fotos e testemunhos, e contei a saga, de 1932 (queda no Itaguá, 1966, notícia na Folha, 1984, m/reportagem, página inteira, no “Jornal da Tarde”: “A incrível estória de sua passagem por Ubatuba”. Texto do colega, que me entrevistou: Edmar Pereira. 

No dia em que o texto saiu, era um sábado, 11.1.1986, comprei uns 20 exemplares, levando a reportagem, encimada por uma “janota” - Uma viagem imaginária aos amigos interessados: “seu” Filhinho, Pedro Paulo, Cícero Assunção, Arnaldo Chieus, Ney Martins, família Lindolfo, pois o avô do Julinho Cesar Mendes foi o primeiro a cercar o avião de Saint-Ex e posar, com outros caiçaras, que ninguém desmente: que repercussão! Jornais e revistas de França deram notas - será que Antoine de Saint-Exupèry desceu, mesmo, em Ubatuba? 

Mas aí é que eu mesmo pus fim à lendária viagem de Saint-Ex, aqui nestas paragens idílicas. Escutando a TV Globo, notícia do Rio: festival de aviadores do Lecotère e Varig (sucessora) no Rio, mais de 50 veteranos se encontravam na Capital federal para recordar e comemorar seus feitos... As viagens eram, num aviãozinho monomotor, de apenas 4 lugares, de Paris a Dakar. Depois faziam paradas em Recife, Salvador, Santos, Rio, Florianópolis e seguiam depois até Montevidéu, Buenos Aires para cruzarem os Andes até o Chile. Eles levavam correspondência, em viagem de ida e volta, naqueles anos 20/30/40. Não havia correio aéreo, ainda, em nenhuma das Américas. 

Pois bem, deu “Bingo” de novo! Telefonei a Globo, no Rio e também ao Luis Edgar de Andrade, jornalista, dileto amigo: ele localizara o chefão dos pilotos franceses, Gerard Felipe, que estaria morando Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Ele tinha falado à Globo recentemente. Telefonema decisivo: Gerard me desmentiu, quem caíra em Ubatuba, era Jean Antoine, e não Antoine de Saint-Exupèry... Houve engano do telegrafista, ou, de ubatubenses, açodados em noticiar um desastre e feito, certamente, históricos: Saint-Ex em Ubatuba, acidentado, passa a noite em hotelzinho local, com amigos e curiosos, tomando champanhe e contando estórias. Bem Saint-Ex. 

Pus a campo, orientado por Gerard, e dia seguinte, domingo, fui a Japeri, RJ, com Luiz Edgard de Andrade, pequena cidade fluminense; lá estava Léon Antoine, em pessoa, casado no Brasil, com uma bela mulher, Regina. Entrevistei todo mundo... trouxe Léon Antoine e Regina à Ubatuba, hospedados no Ubatuba Palace Hotel. Deram volta pela cidade e foram homenageados pelo “Seu Filhinho, presentes este repórter, Jony e Pedro Paulo e demais ubatubenses. Eu regurgitava de contente, de terminar essa reportagem, que durara 20 e poucos anos. Fotos foram feitas e Filhinho e Léon Antoine se abraçaram cordialmente, em paz. Verdade restabelecida... É vero! 

“Fim da estória: pedi perdão à Lucinha, no Carnaval”... 

Nesse dia da gloriosa reportagem no Jornal da Tarde, era um sábado: estava em Ubatuba, e, como disse, distribuí exemplares do jornal, aos amigos – Filhinho, Pedro Paulo, Jony, Arnaldo, irmãos Veloso (Hotel), Carlota, João T. Leite, Flávio Girão, Julinho Mendes, neto do “seu” Lindolfo e outros mais... um sucesso! 

Mas o jornalismo é feito de crenças e superstições, quando não com a ajuda do Espírito Santo (e eu tive muitas, toda a vida... graças a Deus, e, ao Santo Espírito). Foi assim: 

Passando pela Biblioteca Municipal, na Praça Treze de Maio, onde hoje está instalado o Memorial “Ciccillo Matarazzo”, dei de pronto com uma reportagem ilustrada, “A História da Aviação - Gastão Madeira”. Interessei-me. Muito bem armada, com texto e fotos de qualidade, terminava com toda a dramática história de Gastão Madeira, ubatubense de boa cepa, engenheiro, que teria descoberto “o vôo mais pesado que ar”, nos anos do século XIX, antes de Santos-Dumont. Vibrei! Que coincidência, que fecho bem valioso pra minha estória - de Saint-Ex, em Ubatuba, já desvendado: o inventor do avião não foi Santos-Dumont, foi Gastão Madeira. Tocado pelos espíritos, então, ali na Exposição, tão laboriosamente feita pela bibliotecária Lúcia Muniz de Souza - bolei publicar - outra vez, refundindo Saint-Ex (que não veio a Ubatuba, só em folclore...) e Gastão Madeira (mas Ubatuba é que o avião foi inventado...). Mas, tinha um porém: nunca soubera da existência de Gastão Madeira Sua história ali contada, era magistral... Lutou, lutou... Em S. Paulo, Rio, Estados Unidos... Mas não levou. Anos depois Santos-Dumont inventou o avião, em Paris - que se tornou o foco da aviação mundial. E veio a Lacotère, e veio Saint-Exupèry, enfim... Ubatuba, olvidada, esquecida O assunto bate, aqui, mas não vinga... Parece “mau-olhado”. Mas, o texto, eu criaria, e a foto do Gastão Madeira. Não tinha! ... Mas, estava ali, inteira, 2 colunas, no quadro da Exposição Santos-Dumont, tão laboriosamente organizada pela diligente diretora Lúcia Muniz de Souza!. Num átimo, retirei cuidadosamente a foto de Gastão Madeira, e roubei-a (para minhas reportagens futuras...). 

Deixei bilhete de “meã culpa” para a jovem diretora... que, dias depois, me telefonou. Eu a essa altura já estava em São Paulo. Se me lembro, disse mais ou menos, assim... 

“Luiz Ernesto Kawall, alô. Aqui é Lúcia Muniz de Souza, diretora da Biblioteca Municipal de Ubatuba. Belo papel o seu, de um ladrãozinho vulgar; ainda que seja, ou não, para as valiosas... reportagens. Lamento, conhecê-lo assim. Meus protestos em nome da Prefeitura!

X x X 

Espere aí... Engoli em seco a justa reprimenda. E guardei por quase meio século todo aquele palavreado da Lucinha, a humana, porém, severa servidora. Como veio a ser chamada depois, culta, emérita, um dos orgulhos da cidade. Nunca a encontrei após esse episódio, até ontem (12.2.1013), num baile popular da Escola de Samba do Itaguá, na Av. Capitão Felipe... Ela, bela, sambando, animadíssima. Eu, tentado sambar, aos 70.15 (como disse meu amigo Joelmir Betting, em S. Paulo, falecido há pouco: “LEK, você tem gás pra toda vida... Sua idade correta é 70.15, ok?”).

Eu não pensei duas vezes quando a Lucinha se apresentou, suada, quase sambando, na roda alegre, entre antigos e novos dançarinos do Itaguá:

-“Luiz Ernesto Kawall? Eu sou a Lucia Muniz de Souza”. 

“Ah, sei, você me deu uma bronca, roubei a foto do Madeira”. 

- “Isso mesmo, você lembra?!” 

- “Sim, Lucinha, me perdoe!” 

Nossos olhos se cruzaram... Na sorveteria, ao lado, amigos e familiares tomavam chopes e chopes. Quem viu eu me curvar, ao som repicado da Escola de Samba do Itaguá, frente àquela morena de olhos vivos e lindas pernas, não entendeu... Talvez a gente - ela e eu, eu e ela - não dois litigantes ou sambistas, mas os “eternos embolados” da vida, como disse Paulo Dantas. 

E Saint-Ex, pintando, divertindo, contando estórias fabulosas... Sorrindo, nos céus e nos céus azulados de Ubatuba, que não conheceu, infelizmente. 

 L. E. K. - S. P. 16.11.2013.

Léon Antoine ou Antoine de Saint-Exupery?

A INCRÍVEL HISTÓRIA DE UM POUSO EM UBATUBA

Célia Regina e Léon Antoine

Era uma tarde luminosa do mês de junho de 1933 em Ubatuba, época de tantos peixes que as tainhas podiam ser apanhadas na praia, apenas com as mãos. Época em que os parcos 800 habitantes da cidade viviam ainda o espanto de seu primeiro contato com um automóvel, ocorrido poucas semanas antes. Mas nessa tarde o espanto seria maior: sem qualquer aviso ou preparação na praia do Cruzeiro, centro da cidade - cujas árvores haviam sido cortadas exatamente para uma emergência desse tipo na Revolução de 32, mas nunca sucedida - desceu um avião da Cia. Aero-Postale, que fazia a linha aérea regular entre França e Argentina. Nos 11 mil quilômetros do percurso passava pela costa atlântica brasileira e teria descido em Santos, na base aérea da Praia Grande, não fosse pela má visibilidade.
 

O avião era pilotado por um certo Antoine, que naturalmente não falava português, assim como os de Ubatuba não sabiam francês. No máximo um “vous voulez quelque chose?”, dos rudimentos ginasianos, recordados oportunamente por Washington de Oliveira, o Filhinho, que mais tarde ocuparia duas vezes a prefeitura da cidade e se tornaria seu principal historiador. Filhinho foi também, sem qualquer má intenção, uma espécie de cultor e divulgador de um mito que Ubatuba teve como verdade durante 52 anos. O de que, após a visita do alemão Hans Staden mais de quatro séculos antes, a cidade recebera outro visitante internacionalmente célebre. Antoine foi imediatamente dado como Antoine de Saint-Exupéry, o famoso aviador e autor de O Pequeno Príncipe, livro que provocaria erupções de sensibilidade banal em vários cantos do mundo, incluindo as passarelas por onde desfilavam as candidatas a miss Brasil.

Léon Antoine

Antoine, como esclarece hoje, após mais de 20 anos de pesquisa o jornalista, museólogo e pesquisador Luiz Ernesto Kawall, não era um prenome. Tratava-se do piloto Léon Antoine, também um dos grandes ases da aviação francesa em todos os tempos, com mais de 21 mil horas de voo, recordista mundial de voo livre com um tempo de 8 horas e 20 minutos, detentor da Legião de Honra e hoje em dia, aos 84 anos, aposentado e vivendo num bonito sítio em Javari, no Estado do Rio de Janeiro. Mas disso só se sabe agora. Tanto no folclore quanto na história de Ubatuba, o visitante que caiu do céu naquela tarde de 1933 acompanhado de um telegrafista chamado Chauchat, era mesmo Saint-Exupéry, embora em nenhum de seus livros se encontre uma única palavra sobre tal aventura.

Antoine de Saint-Exupéry

Kawall começou sua pesquisa a partir de uma notícia publicada em 9 de novembro de 1964. “Essa história foi criada como um conto de fadas. Em 1933, Ubatuba, isolada no Litoral Norte, onde só se chegava por mar ou então pelo céu – e aí só por acidente – estava reduzida a 110 casas, todas mais ou menos em ruínas e em dez anos poderia acabar. Matava-se peixe a paus e apanhava-se milhares de tainhas cujos cardumes vinham dar á praia e eram enterrados como sobras. Quando o aviãozinho desceu, um grupo logo correu à praia do Cruzeiro e cercou a nave. Hélice parada os tripulantes desceram, foram guiados por um agitado cortejo popular até a casa do radiotelegrafista da Aeropostale, Gilberto Nogueira Brandão. Léon Antoine e Chauchat queriam ficar hospedados em sua casa, mas o telegrafista não tinha acomodação suficiente e isto chegou até a causar um pequeno desentendimento.” A partir daí, Léon Antoine e Chauchat foram considerados hóspedes oficiais da cidade pelo então prefeito Deolindo de Oliveira Santos (aliás, tio do historiador Filhinho) e levados para o Hotel Felipe, de pau-a-pique, porém de linhas coloniais, hoje já demolido.

Hotel Felipe, em guache de João Teixeira Leite

Nas lembranças de Antoine, levado a Ubatuba 52 anos depois por Kawall, ele e Chauchat viveram uma noite memorável, regadas por duas garrafas de um inesquecível vinho Sauternes, raro e caro até mesmo na França. Após o justo sono, os franceses, bem cedinho, no dia seguinte voltaram à praia, com o propósito de retirar do avião uma parte do combustível, ofertados à população, facilitando a decolagem. Antoine se lembra que chegaram com todo o tipo de vasilhame, de latas até penicos.


Depois todos, com compreensível entusiasmo, testemunharam o pequeno avião - um Latecoère - correr pela praia, até que o aparelho adquirisse velocidade suficiente para decolar. “Tomou sul, após uma suave evolução sobre a baía de Ubatuba.” A cena jamais seria esquecida, incorporou-se ao folclore local. A crônica ubatubense registra ainda dois outros casos de ruidosas descidas de aviões em suas praias, mas nada que provocasse o mesmo frisson.


Tornada pública a partir de 64 por uma série de reportagens do jornalista Ewaldo Dantas Ferreira, a inusitada visita de Saint-Exupéry passou quase imediatamente a ser pesquisada por Luiz Ernesto Kawall, que tornou-se, então, conhecedor da obra e da vida deste francês nascido em 1900 e cujo avião desapareceu sobre o Mediterrâneo no dia 31de julho de 1944, entre Grenoble e Annecy, depois de haver partido de um campo de pouso na Córsega. “Não encontrei na obra do escritor nenhuma referência ao incidente em Ubatuba; suas maiores referências ao Brasil estão contidas no capítulo 13 de Voo Noturno, onde fala sobre as montanhas ‘recortadas com nitidez no céu brilhante’, das florestas ‘sobre as quais brilham incessantemente, sem lhes dar cor, os raios do luar’ e de ‘uma lua sem desgaste: uma fonte de luz’”.

Por depoimentos, sem nenhuma imagem, especula-se sobre a presença de Saint-Exupéry em Natal, na Praia Grande, em Itaipava, em Pelotas e Porto Alegre. Mas a descida em Ubatuba tornou-se um mito tão forte que envolveu, ou foi corroborado, até por uma especialista imbatível na biografia do escritor-piloto-aventureiro, a dominicana irmã Rosa Maria. Ela ficou nacionalmente conhecida ao responder sobre Saint-Exupéry no programa O Céu É o Limite, tendo depois disto escrito um livro sobre ele. No prefácio fazia referências a pousos forçados em Santos, Praia Grande e Ubatuba. Mas, Kawall explica, irmã Rosa Maria foi das primeiras a alertá-lo de que Ubatuba tinha poucas possibilidades de ter sido pelo menos uma vez incluída em seus roteiros.


Kawall, entre muitas outras pessoas, foi ouvir em Ubatuba – onde criou o Museu do bairro do Tenório, para preservação da memória, história e paisagem da cidade – dona Isabel de Oliveira Santos, viúva do prefeito Deolindo, que considerou os acidentados franceses hóspedes oficiais. O raro vinho Sauternes servido a Antoine e seu companheiro foi possível por ser Deolindo “um comerciante que tinha em sua casa, vinhos de várias partes do mundo, especialmente franceses e portugueses, importava das casas de São Paulo e Rio...” Dona Isabel não se lembra bem dos aviadores no depoimento, tomado em agosto de 1973 (ela já faleceu), mas conta que “eles devem ter se hospedado no Hotel Felipe, que ficava defronte da nossa casa, na Rua Maria Alves e era o melhor e mais antigo de Ubatuba”.

Washington de Oliveira - "Filhinho"

A saga exuperyana foi confirmada pelo historiador e ex-prefeito Filhinho: “Quando o avião desceu houve aquele burburinho, o aparelho foi cercado pela população. Um húngaro, Júlio Kertz, tentou falar com o piloto em alemão, mas ele não entendeu”. Ele lembra que “no dia seguinte os franceses ainda passaram a pé pela frente de casa, junto à praça da Matriz, se despediram com um au revoir e foram embora. Não sei se passaram telegrama pelo correio, acho que não, pois se a própria Air France (nome da Aero-Postale de 1933 em diante) tinha estação telegráfica não precisariam disto”. Filhinho informou que não há mais registro dos livros do hotel porque seus proprietários morreram. Mas conseguiu descobrir o telegrafista Gilberto Brandão, da Air France, morando em Niterói e este confirmou numa carta “a estada de Saint-Exupéry entre nós”, embora sem conseguir precisar exatamente a data.


A “estada de Saint-Exupéry" está fartamente documentada em fotografias. Umas foram feitas pelo próprio piloto Léon Antoine e outras por um alemão (aliás, nascido na Guatemala), Herman Porcher, também já falecido, mas ouvido por Kawall. O “alemão” estava na cidade como turista e mais tarde compraria “metade da praia de Santa Rita”. “Localizei esse Porcher morando em Santo Amaro, me diziam que ele gostava de frequentar os bares do bairro e levei tempo até encontra-lo. O garçom de uma choperia me deu o telefone dele, marcamos um encontro em seu escritório de numismática – Ele trocara a fotografia pelo comércio de moedas.


Que descoberta! Porcher não só relatou o caso dos aviadores como, depois de me descrever o jantar na companhia deles, mostrou quatro fotografias batidas na manhã de sua partida. Em Ubatuba, onde se hospedava no Hotel de Idalina Graça e planejava caçadas nas matas vizinhas com alguns amigos, usando culotes, perneiras e capas sobradas da Revolução de 32, o ‘alemão’ lembrou-se de que eram por volta de cinco horas e já começava a escurecer quando o avião desceu na praia. Falou com os tripulantes em francês, ouviu deles que vinham de Natal, fazendo várias escalas e levando malas postais até Santos”.

– Quando os franceses pediram vinho o prefeito foi buscar. O mais alto ao ver a garrafa exclamou: "Mas onde o senhor arranjou isto? Na França este vinho custa um dinheirão!” Conversamos sobre aviões e a linha aérea francesa para a América do Sul e também sobre os voos do Zeppelin, que eu tinha fotografado em São Paulo naquele mesmo ano. Depois do jantar fomos ver o avião na praia, um caiçara entrara na cabine e estava divertindo-se. “Cuidado, João, o avião pode levantar voo”, alguém gritou, e ele saiu correndo de medo.

Jornalista Luiz Ernesto Kawall coletando informações.

Porcher contou também que, “por volta de 50 e poucos, quando Saint-Exupéry começou a ficar falado e famoso, eu soube que aquele homem alto e gentil que descera em Ubatuba era ele”. O fotógrafo morreu antes de desfeito o equívoco. Mas com as fotos na mão, Kawall foi em frente. Uma das primeiras pessoas que procurou foi a dominicana Rosa Maria, que não pode dizer com certeza se nas fotos estava ou não seu amado Saint-Exupéry. Talvez no lugar do escritor piloto estivesse outra celebridade, o grande pioneiro da aviação e grande herói Jean Mermoz, que também pilotara para a Generale Aero-Postale. Kawall tentou Joseph Halfin, da Air France, e escreveu cartas para a França, mas nada de levantar com certeza a identidade dos franceses que pernoitaram em Ubatuba. 

Jean Mermoz

A verdade começou a aparecer em setembro do ano passado (1985), quando se comemorava a travessia do Atlântico por Mermoz e a TV Globo entrevistou o jornalista francês Jean-Gérard Fleury, correspondente da revista Le Point. Ao vê-lo falar sobre o heroísmo pioneiro de Mermoz, Kawall intuiu que poderia ter dele um esclarecimento definitivo. Tinha razão. Fleury, que foi amigo de Saint-Exupéry, imediatamente se interessou pelo assunto, a partir de uma conversa telefônica. Viajou para a França e lá recebeu uma carta do jornalista brasileiro, com várias perguntas. Entre as respostas, a de que “as fotos enviadas não são de Saint-Exupéry” e “Saint-Exupéry nunca teve acidente no Brasil”. E completava: “Achando muito simpática sua pesquisa sobre um episódio acontecido em Ubatuba, tenho grande prazer em completar as informações solicitadas. O avião que pousou naquela cidade em 1933 era pilotado pelo veterano comandante Leon Antoine, acompanhado pelo radiotelegrafista Chauchat. Hoje ainda Antoine se lembra da triunfal acolhida tanto pelo prefeito como pelo povo da cidade e evoca sempre com emoção um vinho Sauternes de admirável paladar, assim como suas conversas com o prefeito e um cidadão alemão que falava francês. Quando lembrei a Antoine este episódio ele se comoveu e falou de sua grande vontade de rever o lugar do acidente e as pessoas que lhe prestaram tão fraternal assistência”.


A pesquisa estava terminada, ou quase. Luiz Ernesto Kawall decidiu então que tudo só ficaria completo depois de um encontro com o próprio Léon Antoine, sobre quem Fleury informara estar vivendo no Brasil desde que se aposentara na Air France. Antoine, casado, pela segunda vez, com Célia Regina, uma bela negra brasileira, de fato mora num sítio em Barão de Javari, no interior fluminense. Aos 84 anos, pai de dois filhos, tem cinco netos e dois bisnetos. Adora o Brasil e permanece um admirador de bons vinhos. Reconheceu imediatamente as fotografias feitas em Ubatuba do seu avião Late 26. Já pilotou todos os tipos de avião, do primitivo Brequet-14 até o Super G Constellation. Seu relato sobre o episódio:

– Nossa próxima parada seria Praia Grande, mas na altura de Ubatuba a cerração impediu o voo visual. Nós nos guiávamos por carta da Marinha do Brasil, sempre observando os faróis e os homens da empresa acendiam fogueiras nos pousos de Praia Grande, Florianópolis e Pelotas para nos orientar. Com a cerração fechando o visual, baixamos um pouco e avistamos a torre da igreja de Ubatuba. Fizemos um voo em círculo, escolhemos uma praia onde a vegetação era rala e decidimos descer. Fomos imediatamente cercados pelo povo, alguns nos olhávamos como se fôssemos extraterrestres.

Sr. Lindolfo, último a direita, de chapéu e paletó branco, observa o avião, em 1933.
 Em 1985, sr Lindolfo aponta o local do pouso.

Antoine, entre muitas lembranças, conta que na hora da partida o dono do Hotel Felipe lhes ofereceu a compra do estabelecimento, “por seis mil contos, em moeda da época. Deve ter sido por causa do meu nome, Léon Antoine, que mais tarde se passou a acreditar que Saint Exupéry teria dormido na cidade. Eu era mesmo parecido com ele. Não apenas nas feições, mas também pela altura. Só que ele andava mais curvado do que eu. Além disso, Saint-Exupéry nunca fez regularmente a linha para a América do Sul, mas como passou dois anos em Buenos Aires certamente andou por aqui. Não foi meu amigo íntimo, mas eu o conheci bem, era um pouco do mundo da lua...” O piloto falou a Kawall de sua vontade de rever Ubatuba.

Luiz Ernesto Kawall, Léon Antoine e Célia Regina.

O capítulo final dessa história que remete a memória aos tempos da aviação, à lembrança de homens como Saint-Exupéry, Mermoz, Guillaumet e Dumesnil, foi encerrada a algumas semanas: Léon Antoine, após 52 anos, retornando a Ubatuba. Revendo os mesmos cenários hoje muito mudados, impossibilitado de hospedar-se no colonial Hotel Felipe, que não existe mais, para abrigar-se sob as sofisticadas quatro estrelas do Palace Hotel. As testemunhas da época são também poucas.

Célia Regina, Léon Antoine e Filhinho

Mas lá estava ainda Filhinho, o historiador, farmacêutico, ex-prefeito. O homem que ajudara cimentar um mito e que assistia à definitiva destruição do seu atraente mistério. Ubatuba, cujas areias receberam escritos de Anchieta, cujos índios foram introduzidos pelo padre Nóbrega aos rudimentos do que o Ocidente chama de civilização, cujas paisagens extasiaram o alemão Hans Staden, teria de abrir mão de sua mais palpitante história contemporânea: o Pequeno Príncipe jamais passou uma noite no Hotel Felipe.

Edição de textos e fotos após consulta a Luiz Ernesto Kawall, em julho de 2015, a partir de reportagem de Edmar Pereira, publicada no Jornal da Tarde em 11/1/1986 .

22 agosto 2015

BIGODE ETERNO


Bigode, Da Motta e Jacob

Tenho em casa uma linda estatueta entalhada em madeira de cedro das matas de Ubatuba, representando São Longuinho, que, na hagiologia católica é aquele santo responsável por descobrir os objetos perdidos. 

Há, até um refrão popular, que corre assim: “São Longuinho, São Longuinho, ... (e fala-se o objeto perdido), se o encontrar darei três pulinhos”. Em pouco tempo o objeto é encontrado. Essa é a lenda.

 Pois, em Ubatuba, um artista entalhador reportou numa pequena imagem a figura de São Longuinho, o que é muito raro. Não conheço, na escultuária ou entalharia nacional, de Brecheret a Bruno Giorgi e demais mestres, outro “São Longuinho”. 

Pois, em Ubatuba, um artista entalhador reportou numa pequena imagem a figura de São Longuinho, o que é muito raro. 

Segundo o próprio artista me disse em sua casa ateliê no Perequê-Açú, em Ubatuba, SP, que sempre gostou de “São Longuinho” desde pequeno, achando bichos e madeiras, nestes matos de Ubatuba... 

E um dia, assistindo a TV Globo, anunciaram: “veja hoje a história de S. Longuinho”... Ele vibrou, assim me disse. Pegou lápis e papel e desenhou a imaginária do santo franciscano... Depois, foi pra sua oficina, nos fundos da casa, e ”fez” S. Longuinho... que comprei, como sempre fiz, com a arte maior do mestre popular das matas , do litoral norte. 

Bigode é a alcunha dele. Por nome: Antonio Teodoro dos Santos, conhecido por sua arte não só em sua terra natal como em exposições que fez na região e na capital paulista.


O interessante é que o artista, de repente, já alguns nos conseguiu destaque na comunidade patriarcal do Vaticano onde um sacerdote regular, Frei Pio Popullin, que servia à diocese Taubaté/Ubatuba, conheceu o entalhador/artista levando algumas de suas peças para seu círculo religioso de Roma, que lhe deu justa fama. 

Conhecemos como turista e jornalista e amigos de Ubatuba, como, entre outros, os artistas João Teixeira Leite, Da Motta e Jacob, o Bigode e suas proezas na arte do esculpir em madeira pura da mata. 

 Antonio Teodoro dos Santos nasceu em 1932 de modesta família caiçara da região do Perequê-Açú e Barra Seca sendo que desde bem pequeno já demonstrava pendores para o entalhe de madeira. Desde suas primeiras entalhadas aos 7 anos de idade, como diz o jornalista Luiz Pavão (Ubatuba em Revista – n. 3/2008). Bigode já demonstrava invulgar talento para essa artesania. Paralelamente tornou-se um praticante de esportes, dedicando-se a corridas de média e longa distância sendo muito comum vê-lo pelas ruas da cidade praticando seu esporte predileto, preparando-se para a Corrida de São Silvestre, que disputava todos os anos em São Paulo. 

Bigode foi casado por mais de 50 anos com a caiçara Joana Pinheiro que lhe de 20 filhos, 40 netos e vários bisnetos, que povoavam sempre sua casa-ateliê no Perequê-Açú.

 Ali recebia também amigos e cliente, alguns deles da capital e de outros locais, que adquiriam ou encomendavam peças de madeira – bichos, santos, todo tipo de entalhes de peças caseiras. 

 Neste ano de 2015 a morte o colheu após cruel cegueira. Mesmo assim o artista entalhava suas peças de madeira, de invulgar beleza. Muitos o chamavam então de “O Aleijadinho hodierno”, mas isso só o tempo dirá.

Luiz Ernesto Kawall

31 julho 2015

Museu do Tenório


      Texto inédito de LUIZ ERNESTO KAWALL


                   O Museu do Bairro do Tenório, que fundei em 1983, com o saudoso Praxedes Mário de Oliveira, procurou nestes anos resgatar a memória ubatubense, seja através dos festivais de viola, como através de seu acervo típico, com peças e objetos dos hábitos dos moradores dos bairros do Tenório, Acaraú e Itaguá. Com a ajuda inestimável de muitos colaboradores, entre os quais destaco João Teixeira Leite, Arnaldo Chieus e Mestre Otávio, reunimos no predinho do Museu Mais de 1000 pertences dos caiçaras – fotos, álbuns, formões, enxós, pilões, máquinas de moer, serras cadeiras, mesas, lampiões, cestas, anzóis, redes, garrafas – inclusive uma legítima pinga “Ubatubana”, etc., isto é, peças antigas e artesanais. Isto já tínhamos visto, em ponto maior, á claro, no Museu do Homem, de Paris, sendo que, a moderna museologia prega justamente a juntada de peças das comunidades de bairro, como os Museus de Rua, o Museu de Família, e outros, que, em ponto menor, alcançam, pela sua tipicidade, uma amostragem espontânea e fiel do grupo humano.
                   Muitas vezes, o nosso museozinho foi retratado na mídia local e de São Paulo, como único repositório da memória viva de Ubatuba, já que, o “Museu Hans Staden”, fundado nos anos 60 pelo prefeito Ciccillo Matarazzo, Wladimir de Toledo Piza, Paulo Florençano, Washington de Oliveira e este modesto escriba, acabou vitimado por sucessivas e desastrosas administrações municipais – e fechou. Seu rico acervo, dizem, está na Fundart, encostado, à espera de um salvador, que lhe dê dignidade e montagem em nome dos que se interessam pela história tão rica da cidade.
                   Pois é esse, o Museu do Bairro, composto em sua arquitetura com as portas, janelas e vitrôs do Hotel Felipe, da Casa Vigneron e da Fazenda Velha, é que agora, formalizamos sua doação ao Projeto Tamar. Entendemos que, agora associado e de todo integrado ao novo núcleo, possa somar esforços na defesa da ecologia e a natureza da costa do litoral norte do Estado, centrado em Ubatuba, e sob o comando dessa dinâmica oceanógrafa Berenice Gallo.
                   O Museu comporá os prédios administrativos do Tamar, em sua nova sede, em terreno doado pela Prefeitura municipal, sob a égide do IBAMA. Agora, não mais como Museu do Bairro, mas como Museu Caiçara, ampliando a sua ação, a sua temática e a sua filosofia de trabalho. Onde entra agora, também, a defesa da melhoria de vida do caiçara, a defesa da mata atlântica e da natureza bela e majestática da costa azul brasileira. Alguém disso, nesta solenidade, citando Monteiro Lobato – que, aliás, correspondia-se com a nossa escritora caiçara Idalina Graça – que “um país não se faz sem homens e livros”. Vamos, aqui, mudar um pouquinho a frase lobateana, adaptando-a aos propósitos do Tamar, com uma epígrafe, senão uma boutade que se pretende seja oportuna:

                   -Um país se faz com homens, livros e... tartarugas!

MINIMUSEU




TALVEZ seja o menor museu do mundo: mede apenas 4 m por 6 m. Não tem guardas de segurança, não cobra ingresso e só abre aos sábados, domingos e feriados. É assim o Museu do bairro do Tenório, em Ubatuba, São Paulo, onde o jornalista Luiz Ernesto Machado Kawall reuniu peças, documentos e fotos antigas que foi recolhendo durante 30 anos, praticamente desde que construiu sua casa nas proximidades da praia do Tenório.
A intenção do jornalista: a preservação da memória e da cultura caiçara em geral. “Ubatuba é, hoje, uma cidade que não guarda quase nenhum vestígio do seu passado, inteiramente submissa à influência externa depredatória do turismo de massa”. Seu museu comunitário é um local onde os jovens podem ver os retratos dos velhos pescadores e dos caiçaras que formaram o bairro; os documentos que testemunham os tempos antigos; e apreciar peças utilitárias – ferros de passar, anzóis, panelas, máquinas de moer cana, café e milho, lamparinas, remos, cestaria, etc. – que hoje não são mais usadas, mas que faziam parte da rotina das antigas famílias da região. Há também uma coleção de recortes de jornais que tratam do bairro.
Em matéria de museus, aliás, Luiz Ernesto Machado Kawall não é neófito. Na sua casa de São Paulo, no bairro de Pinheiros, funciona um outro museu: ex-votos, quadros de pintura primitiva, cerca de 500 xilogravuras nordestinas e aproximadamente quatro mil livretes de cordel. Foi o jornalista, também, um dos incentivadores e o principal fundador do Museu da Imagem e do Som de São Paulo, durante o Governo Roberto Costa de Abreu Sodré.

SELEÇÕES do Reader’s Digest

Junho 86

FESTIVAL DE VIOLA

Museu vai realizar festival de Arte e viola caiçara


Ubatuba - Cerca de 40 violeiros de Ubatuba, Paraty, São Luiz do Paraitinga, Caraguatatuba e Taubaté estarão reunidos no Sítio Sapé, na Praia do Tenório, em Itaguá, participando do VII Festival de Viola Caiçara e Sertaneja, que será realizado no próximo dia 29, das 14 às 18 horas. Este ano, o festival, promovido pelo Museu do Bairro do Tenório, vai homenagear o mais velho violeiro do bairro, Miguel Firme, o “Miguelzinho”, seresteiro de 76 anos, tocador de cavaquinho, pandeiro e reco-reco.
O primeiro festival de viola caiçara foi realizado em 1959, quando sete violeiros de Itaguá aceitarem o convite do jornalista e admirador da cultura popular, Luiz Ernesto Kawall, para tocarem no seu sítio. A partir desse ano o festival se repetiu com intervalos irregulares, mas sempre com um público cada vez. Nos últimos anos ele tem sido realizado de dois em dois anos e no último atraiu 32 violeiros do Litoral Norte e Vale do Paraíba.
Assim como o festival, o Museu do Bairro do Tenório - considerado o menor museu do mundo e o único do gênero no Brasil - surgiu da iniciativa de Luiz Ernesto Kawall e da adesão da comunidade. Fundado há cerca de seis anos, reúne em seu acervo objetos, quadros, livros, fotos antigas doadas pelos próprios moradores da região.  Algumas dessas peças foram expostas na I Jornada Cultural, organizada pelo Instituto de Estudos Monteiro Lobato, IEML, em junho deste ano. Além dos objetos caiçaras, o museu possui uma biblioteca rural, com livros sobre lavoura e pesca artesanal.
O museu está instalado numa casa de estilo colonial, construída com portas, janelas e tijolos velhos doados pelos próprios moradores. Atualmente, ele é presidido por Praxedes Mário de Oliveira e vem sendo mantido dentro do objetivo de funcionar como um espaço cultural comunitário.
Paralelamente ao festival - que este ano terá como patrono o historiador e ex-prefeito Washington de Oliveira, o “Filhinho” - no Sítio do Sapé estará aberto ao público uma exposição de artistas e artesãos locais, como João Teixeira Leite (máscaras em papel marche), Dona Ritinha (toalhas e cortinas de retalhos), Bigode (escultura em madeira), Adilson Mayer (fotografia) e Edson Athanásio Silva (coleção de fotos antigas de Ubatuba).
Durante o evento, os promotores vão organizar o concurso “Pinte o Museu” coma participação de alunos das escolas estaduais e municipais.
O VI Festival de Viola Caiçara e Sertaneja vai distribuir prêmios entre os participantes, que serão julgados por uma comissão presidida pelo cantor e compositor Renato Teixeira. Os inscritos vão se apresentar em duplas, grupos ou individualmente e haverá também um show com o grupo Paranga, de São Luiz do Paraitinga. O grupo, vencedor de dois festivais anteriores, tinha se dissolvido, mas há cerca de seis meses os seus integrantes voltaram a tocar juntos e o Paranga será um dos convidados desse festival.

Jornal ValeParaibano

Terça feira, 25 de outubro de 1988.

A TRADIÇÃO RESISTE



Um misto de orgulho, afinal sou um morador do Bairro do Itaguá, e de admiração se fundem quando vejo a transformação do Museu do Bairro do Tenório em Museu Caiçara, insistindo em preservar a memória de nossa gente.

Luiz Ernesto Kawall, incansável em sua luta de muitos anos, mostra na prática o que é o respeito às tradições e passa o bastão para a Associação dos Amigos do Museu Caiçara - AAMUC, presidida pelo artista João Teixeira Leite. Nosso primitivista terá pela frente a tarefa de continuar mantendo acesa a chama daquele núcleo que resiste e insiste em passar para as futuras gerações a pureza das coisas, lendas, material de trabalho, artesanato, enfim, a nossa própria história.

O dia-a-dia da campanha impediu que estivesse presente à inauguração para poder cumprimentar o “seu” Filhinho, o Félix José Francisco e os familiares de Praxedes Mário de Oliveira que vieram do Ubatumirim para comandarem a construção do museu.

É mais um importante referencial dentro de nossa política de resgatar e valorizar tudo que simboliza manifestações culturais puras e representativas do nosso folclore.

Consciente das dificuldades de angariar apoio e reconhecimento quando se está fora da administração, encaro, na condição de professor, e agora prefeito eleito, como uma saudável responsabilidade a missão de incentivas dessa natureza. Estamos de uma obra exemplo para exercitar a integração poder público-comunidade e de sua importância para o despertar do amor próprio dos filhos de Ubatuba e também daqueles que juntam a nós para criar uma cidade melhor para todos.

Jornal “A Cidade”, 10.11.96.

O MUSEU CAIÇARA


O Museu Caiçara nasceu de uma ideia do caiçara ubatubense Praxedes Mário de Oliveira e do jornalista Luiz Ernesto Kawall. Inaugurado em 1983, no Sitio Sapé, funcionou primeiramente como Museu do Bairro do Tenório. E assim permaneceu, cercado de violeiros e turistas que apreciavam a cultura caiçara. Era uma espécie de espaço cultural comunitário que contava um pouco da história dos bairros do Itaguá, Tenório, Acaraú, Ponta Grossa e adjacências. 

O Museu do Bairro do Tenório realizou 14 Festivais de Viola e inúmeros encontros caiçaras onde se apresentavam grupos folclóricos regionais. Posteriormente, em 1996, o Museu do Bairro foi doado ao Projeto Tamar-Ibama, onde funciona atualmente. Ampliando a sua ação, a sua sistemática e a sua filosofia. 

A estrutura do Museu Caiçara reporta-se à forma das antigas construções caiçaras, o pau-a-pique, também chamado taipa de pilão. Montada a estrutura básica que consiste em madeira bruta lavrada a mão pelo mestre carpinteiro e construtor Jorge Inocêncio Alves, estas são fincadas nos extremos e no meio das futuras paredes, ligadas na parte superior por madeira bruta. Os vãos dessa estrutura, tanto interna quanto externamente, são preenchidos com um trançado de juçara, obtida do troco de “pés” de palmito, unidos entre si pela casca de uma espécie de cipó denominado “imbé”. Sobre o trançado é aplicado barro convenientemente hidratado e amassado com os pés. 

O chão é de moledo, mistura de argila com cinza, em quantidades ideais que, após socada, formam o piso do Museu. 

 Foram também utilizados na construção do Museu Caiçara materiais egressos de construções antigas: as telhas são da Fazenda Velha, as bandeiras que adornam as laterais são do antigo Hotel Felipe e as vigas e portas de canela da Casa Vigneron, do Itaguá, marcos na memória de Ubatuba.

O Museu Caiçara, idealizado e doado por Luiz Ernesto Kawall, foi construído por Jorge Inocêncio Alves, Manoel Néri Barbosa, Madalena de Oliveira, todos do Ubatumirim. As pinturas são de João Teixeira Leite.

UM DOMINGO LUMINOSO

Era um domingo luminoso, desses que convidam a gente a viver. Saí, e meus passos levaram-me à Rua da Conceição, onde está localizada a Santa Casa de Misericórdia de Ubatuba. . De aspecto humilde, agora reformada pelos esforços dos novos diretores, senhor Agnaldo Salinas, gerente do Bando Novo Mundo, e Armando de Barros Pereira, este contador e fazendeiro, filho de Taubaté, irmão de Urbano Pereira, já citado nestas páginas, que dispôs com a melhor boa vontade, das horas que sobram durante o dia, para dedicá-las, exclusivamente à Santa Casa local. 

É de justiça que falemos do Sr. Armando Bohn, meu amigo de longa data, que também prestou valiosos serviços à esta Santa Casa de Caridade. Faz parte deste grupo de abnegados, Vitor Mayer Leite. Vale a pena narrar sua história. 

Foi em uma tarde de maio, lembro-me bem. Nós já morávamos na Praça Nossa Senhora da Paz de Iperoig. Para ali havíamos transferido nosso meio de vida, com um hotel muito menor que o outro. Porém, o prédio era de nossa propriedade. 

O hotel estava vazio e eu estava ao lado de Albino, já doente por esse tempo; contemplávamos o por do sol. De repente, bem em frente ao mar, surge um casal. Firmo o meu olhar no casal e vejo-o dirigir-se para mim. Ele cinquentão, simpático, bonito mesmo, distinto até nos pequenos gestos que fazia com a mão, a fim de mostrar à jovem esposa, o cenário maravilhoso de nossa terra. Ela morena, cabelos pretos, ligeiramente ondulados, muito graciosa, ouvia com maior atenção suas explicações. O destino fê-los parar diante da nossa janela. Conversamos, trocamos idéias e ficamos amigos. E desde então, quando o senhor Victor saia a passeio com Geralda, certo era parar em nossa casa para uma visita e um cafezinho. E, aos poucos, fui conhecendo melhor a ambos. Vim a saber que o nosso novo amigo era descendente de suíços radicados no Brasil, vivendo no interior do Estado, onde seus pais foram abastados fazendeiros. 

O Sr. Victor, quando jovem, viajou muito e adquiriu amplos conhecimentos de vários países, como a Alemanha, França, Portugal, uma parte da América e outros mais.. É um “gentleman” na ação e na palavra. Amando Ubatuba como ama, radicou-se aqui, lutando abnegadamente ao lado das irmãs de caridade, em missão da A.L.A. (ou seja, Associação do Litoral de Anchieta) e dos demais companheiros, para que a Santa Casa de Misericórdia viesse a ser uma casa de bondade em nossa terra, como realmente está sendo. 

Hoje, após tantos anos de serena amizade, continua sendo para mim o amigo fiel, sempre pronto a estender-me a mão quando tenho necessidade de seu apoio. 

TERRA TAMOIA, página 153/155.

WILLY AURELI

Hoje, passados tantos anos, vejo a praça quieta, simples e bela; a igreja imponente simboliza a bênção de Deus sobre Ubatuba.
Alguém, a quem até o momento estou ligada por indestrutível amizade, o farmacêutico Washington de Oliveira, vem despertar-me dos meus sonhos. Caminhando sorridente ao meu encontro, diz:
– Uma boa notícia para você, Idalina! Um amigo de São Paulo me pede para alugar dois quartos no seu hotel, para ficar mais perto da praia. Pode ser?
– Perfeitamente, meu amigo. Telegrafe que os lugares estão reservados.
– Hoje mesmo telegrafarei e logo ele estará por aqui.


Assim foi que conheci Willy Aureli, que seria o meu anjo da guarda na estrada por onde eu teria que iniciar os meus vacilantes passos na literatura. Gigante físico, cabelos castanhos, olhar claro e suave, como de criança. Apenas conversamos e já nos tornamos bons amigos. Como eu, ele era, e é, um namorado das belezas simples da terra tamoia. 
Gostava de saborear o café da tarde, no momento em que eu o coava. Foi num dia chuvoso que, impedido de tomar o banho de mar, me procurou na cozinha, onde eu trabalhava, para o bate-papo gostoso de costume. E foi sorrindo que me disse:

– Vai perdoar minha intromissão em seus domínios, mas eu adoro café passado na hora.

– Então faça o favor de sentar – disse-lhe eu, lisonjeada pela sua companhia. Sente-se enquanto vou buscar o pão.
Eu rabiscava em pedaços de papel, nos raros momentos de sossego e às escondidas do Albino, que era ciumento de tudo quanto não se referisse a ele. Longe estava de sonhar algum dia sair da minha modestíssima posição, para vir ocupar colunas de jornais e escrever um livro! Esses rabiscos, eu os escondia no bojo de algumas latas, confundidas com outras de mantimento, alinhadas nas rústicas prateleiras da minha cozinha.
Enquanto saí para ir à cata do pão, Willy Aureli guiado por esse instinto peculiar aos repórteres natos, farejou os meus escritos e, ao voltar à cozinha, encontrei-o mergulhado nos meus rabiscos, esquecido do café de que tanto gostava.
– Oh!... – exclamei, sem saber o que mais dizer. – São rabiscos com que vou me distraindo nas horas vagas...
Olhou-me demoradamente, procurando decifrar minha alma. Depois, dobrando as folhas, meteu-as no bolso do blusão.
– São meus segredos, “seu” Willy – argumentei meio embaraçada.
– Deixaram de ser seus. Agora também me pertencem. Sabe, dona Idalina? Acabo de conhecer uma escritora iletrada, mas que tem estilo, tem alma, tem inclinação. Puxa! Até parece incrível!
Sorveu o café, rebuscou em outros potes, e despedindo-se:
– Ainda terá uma surpresa...
Foi uma alegre temporada aquela, em que eu, insignificante criatura, tive a ventura de conhecer o jornalista, escritor e sertanista Willy Aureli. Quero-lhe muito, e não há um só dia que passe se que eu peça a Deus por este amigo, dotado de tão nobres qualidades.
Ele partiu. Eu fiquei sonhando com o olhar claro e simples, como uma réstea de luz que, daí por diante, iria me guiar pelo escuro caminho que eu vinha trilhando.
Passaram-se dias, e qual não foi minha surpresa quando a “Folha da Manhã” publicou uma reportagem em que ele, Willy, contava dos meus sonhos e aspirações, da minha forma de escrever e sentir. E lá estava a minha primeira crônica, “Mentira Viva”, revelando ao público de minha terra o sonho de uma hoteleira, de dizer a todos as belezas de Iperoig. Pensei morrer de alegria!
Terra Tamoia,páginas56/58.



MONTEIRO LOBATO

No dia seguinte amanheceu chovendo, e, como não me era possível eu à praia em buscado pescado fresco, fui ao frigorífico, nesse tempo funcionando onde atualmente está o D.E.R. Da ponte avistei o Dr. Felix Guisard, proprietário do sobradão de Baltazar Fortes, parado à porta principal e em animada palestra com um senhor decentemente trajado, que olhava com viva curiosidade todos os que dali se aproximavam. Acostumada a ver poucos turistas na cidade, fiz um demorado exame do forasteiro. Achei-o bem simpático. Comprei o pescado e, ao sair, notei que ele me acompanhava com o olhar. – Deve ser por causa das vestes masculinas que uso, pensei, para logo depois, absorvida pelo trabalho, esquecê-lo completamente. 

Por este tempo estavam construindo a ponte principal que liga a cidade à praia do Perequê-Açú. – “Com certeza é um dos engenheiros” – pensei. À tarde refugiei-me no quintal para escrever algumas das impressões do dia anterior, quando de minha excursão ao Tenório. Ali fui encontrar-me Albino, que viera do correio com a correspondência, perguntando-me surpreso: 

– Idalina! Quem é aquela senhora que está sentada na sala? 

– Não sei! Tia Rita não disse nada! 

– A velha não está aí. Foi à venda. Vamos ver querida? 

– Vamos. 

Simpática e elegantemente trajada, a senhora ergueu-se sorrindo ao avistar-nos: 

– Bati palmas, ninguém atendeu; fiquei, então, absorvida neste álbum de visitas de Ubatuba, esquecendo-me de perguntar ao senhor, quando entrou, se era dono do Hotel. 

– Eu bem que vi que estava distraída e fui perguntar à minha mulher quem a senhora era. Ela, porém, ignorava sua presença aqui. Quero pedir-lhe desculpas. Estamos prontos para servi-la no que estiver ao nosso alcance. 

Voltando o luminoso olhar para mim, a visitante explicou: 

– É simples: caso não seja impertinência minha, gostaria de saber se a senhora poderá conceder hoje à noite, alguns minutos ao meu marido. Ele veio a Ubatuba conhecer a cidade e a “Solitária de Iperoig”. Se não me engano, estou em sua presença, não é verdade? 

A um gesto meu afirmativo, ela continuou: 

– O principal motivo da minha visita é de dizer a ambos que meu marido se chama José Bento Monteiro Lobato; é escritor e tem interesse em conhecê-la pessoalmente. 

Foi assim que fiquei conhecendo a esposa daquele que, desse dia em diante, seria um de meus maiores amigos. Monteiro Lobato e senhora gostavam de mim, não porque soubesse fazer quitutes, mas por qualquer motivo que eu não conseguia decifrar. Ele, o grande escritor, esta à minha procura. Hospedado no Hotel Felipe, nosso único e competente rival no ramo da hotelaria na época, queria visitar-me e conhecer-me.

E foi nessa noite chuvosa, precisamente quando o relógio da Matriz batia oito horas da noite, que o velho salão do Ubatuba Hotel teve a honra de receber o insigne escritor. Com alegria, ele conduziu a conversa habilmente para o terreno que me interessava, e contou-me porque viera a Ubatuba. Disse-me ter lido na “Folha da Manhã” uma crônica de Willy Aureli, na qual me apresentava ao público como escritora, revelando ainda a minha humilde, mas honrosa, profissão. Willy contara ter eu apenas o primeiro ano do curso primário, caracterizando-me como escritora iletrada; chamara-me a “Solitária de Iperoig”. Lobato, curioso, viera conhecer Ubatuba e a amiga de Willy Aureli. 

Ao terminar a explicação sobre sua presença em nossa cidade, perguntou, entre sério e divertido: 

– Você me quer dizer, Idalina, com que tempo e onde você vai buscar o material necessário a seus escritos? 

– Bem. Eu tenho meus dias de folga, e o restante encontro-o na fantasia dos meus sonhos de verdade. 

– Ou de mentira... agregou. 

– De ambos. Mas, para ser franca, Dr. Lobato, eu escrevo mais sobre os sonhos que tenho enquanto durmo, do que a respeito daqueles que tenho quando estou acordada. 

– E por que esta predileção? Perguntou sorrindo.

– Vou dizer-lhe. É que, durante o dia, trabalho muito, e misturo tudo: camarão, peixe, literatura...

 Soltou uma gostosa gargalhada. 

– Eu sentia que você era assim! Não me quer contar um dos seus sonhos? 

Até hoje pergunto a mim mesma a razão porque escolhi mentalmente um sonho que tivera quando moradora na Enseada. Não conhecia ainda acidade de Ubatuba, e meu marido atravessava, nessa época, uma fase difícil, pensando no lugar onde deveríamos fixar residência. Eu tivera esse sonho, que nos serviu de rumo certo, quanto ao caminho a seguir. Contei-lhe então, como pude, enquanto ele ouvia atento, “O Sonho”.

Noite de tempestade. Sozinha, eu vagava a esmo, molhada, transida de frio, sem uma porta que se abrisse para me acolher. Depois de muito vagar, enderecei minha mente ao Pai misericordioso. Então vi uma casa enorme, de paredes enegrecidas pelo tempo, e, nesta soturna hesitação, uma porta se abrira. Para lá me encaminhei, mas, ó Deus! – a casa tinha uma escada sem degraus. 

Fiz uma pausa, e ele com uma expressão divertida no simpático semblante, perguntou: 

– “E como você subiu, Idalina? 

– Foi essa força extraordinária, que cada um de nós traz em si, que me ajudou. Por três vezes consecutivas tentei subir, mas, para meu desespero, escorregava sempre. Por fim, não sei como, achei-me no topo. À minha frente, abria-se uma estrada larga e sombreada de trepadeiras cheias de flores, que derramavam suas brancas e perfumadas pétalas sobre minha cabeça. Parei, interdita. A poucos passos de distância, um homem todo de branco falava a uma multidão, que o ouvia respeitosamente. 

Nesse momento, ele volveu a cabeça. Seus olhos encontraram-se com os meus, enquanto seus lábios terminavam de pronunciar esta frase: – “Todo aquele que vier a mim, encontrará a glória.” 

Mas... então, estremeci, ferida pela semelhança profunda de Lobato com o ser do meu sonho. 

– Que há Idalina? Cansada? indagou. 

– Não! Nem um pouco. Mas, acredite-me: a tal visão era o senhor! 

Olhou para mim pensativamente e disse: 

– “Eu sabia que já nos tínhamos encontrado antes. Porém, nesta existência, é a primeira vez.” 

Já refeita da surpresa que sentira ao verificar, depois de oito longos anos que, afinal, encontrara o homem com quem sonhara naquela noite de tempestade, silenciei. 

–Terminou, Idalina? perguntou interessado. 

– Sim, senhor. Mas, estou pensado que o senhor não tem cara de santo para dar glória àqueles que se aproximam de sua pessoa. 

Ele passou lentamente a mão pelo queixo, onde a barba feita de véspera despontava violenta. – Isto é o que você diz. Muita gente errada por este mundo a fora, já me chamou de santo. E, levantando-se: 

 – “Vamos, Purezinha, que este fenômeno aqui, de dia, é cozinheira e a noite é viajante sideral...” 

Terra Tamoia – páginas 75 /79.

PROFESSOR TEODORICO DE OLIVEIRA

Durante a minha ausência, tinha chegado hóspedes. Um deles conquistou-me desde logo. Simpático, alegre, dono de uma prosa que fazia muitos meses eu não tivera oportunidade de ouvir no hotel. Tornamo-nos bons amigos. Disse-me ser professor aposentado.

– Sou filho do município de Ubatuba. Nasci lá para os lados da Ribeira. Saí criança daqui, estudei e me formei, porém, na minha mocidade, lecionando por este mundo a fora, nunca esqueci minha terra; aqui estou agora, incumbido pelo governo do Estado de fundar o Entreposto de Pesca. 

O professor Teodorico de Oliveira foi o primeiro homem que conheci naqueles dias, a serviço do governo do Estado, disposto a amparar o pequeno pescador. 

Outros dias vieram. E era de ver a alegria que ele irradiava, metido em uma calça de zuarte grosseiro, camisa aberta ao peito, uma inseparável piteira nos lábios, movimentando-se entre os operários, exposto ao sol causticante, que, no dizer dele, o rejuvenescia. 

E, daquele charco de guanxuma e lama surgiram, pouco a pouco, os alicerceares do edifício que atualmente é a sede do D.E.R. 

Mas, voltemos àqueles dias, em que o progresso estava bem longe de Iperoig e nós tínhamos o sentimento de que o sol, mar, praia e luar, eram propriedades nossas. 

O professor dizia: 

– Antevejo, Idalina, que não alcançarei o progresso de Ubatuba. A idade não permitirá. Mas se você viver até lá, lembre-se de que dei o que pude para alcançar o sonhado objetivo: a proteção ao pequeno pescador. 

Ele morreu. Não sem antes ser ferido pela ingratidão dos homens. Paz à sua alma. Que os mesmos que o feriram compreendam um dia, nesta vida, como erraram e assim possam alcançar o perdão. 

TERRA TAMOIA – Páginas 88/89.

06 julho 2015

FLORES, ARTES, CANÇÕES E A ALMA DOS FESTIVAIS...


O Sitio Sapé se engalanou, sempre, com os Festivais de Viola – Caiçara e Sertaneja. Vinham sertanejos das cidades e dos sertões. O Grupo Paranga, de São Luiz do Paraitinga, moças lindas, ganhavam cada vez que se exibia. “Seu” Otávio, o violeiro, sempre ajudava a receber o pessoal da viola e da dança. Era um folclore puro, uma festa de cores e alegrias, que reinou 13 vezes no Tenório, atraindo a atenção popular e das autoridades. 

Lembro da criançada do “Era uma Vez”, escola pioneira do Itaguá, com suas professoras Odete e Tixa, desenhando e pintando as duplas de cantadores, o Ari Mattos como sempre o apresentador oficial da festa, o júri dos festivais, comandado por um “seu” Filhinho, um Felix Francisco, os comes e bebes comandado pelas senhoras voluntárias da Cida Origuella. Elas faziam um gostoso “peixe azul” no fogo de lenha e todos se deliciavam (os violeiros, de graça). 

Quem ajudava eram os amigos e os caiçaras do bairro. Se havia algum “lucro”, com a venda de doces, pipocas, entradas (“Circo Arranca Toco” se exibia), era destinado aos vicentinos da Capela do Itaguá. Os caseiros do Sítio Sapé, Velho Augusto e Parú, comandavam a engrenagem do Festival. E também amigos como o Arnaldo Chieus e o Celsinho, e o casal Walmar e Ricardo que traziam as crianças da Escola Altimira Silva Abirached, do bairro do Itaguá promovendo todo tipo de recreação, promovendo trabalhos manuais, arte infantil e pinturas. Tudo isso exposto na hora mesma da produção e apreciado pelos adultos, pais, familiares e o público em geral. 

O João Alegre cantava, sempre. 

Cada Festival durava o dia inteiro, exibiam-se as duplas e os violeiros, num tablado arrumado no centro do Sítio – onde estava uma escultura espontânea, que armei com bambus cheios de cracas, achados na Praia Grande, depois das chuvas. Ficou um trabalho original, a la Niemayer, que depois chamei “Homenagem ao Pescador Caiçara Desconhecido”. O Paulo Florençano, folclorista e escritor, vindo de Taubaté, fotografou aquela arte “espontânea” e bela. 

Lembro-me dos prefeitos de Ubatuba, que vinham sempre, gostavam da festa, abraçavam os cantadores, davam entrevista ao Jurabello, da Costa Azul. Celso Teixeira Leite, Pedro Paulo Teixeira Pinto, Zizinho Vigneron, Fiovo Frediani, José Nélio de Carvalho... Certa vez, trouxe de São Paulo o Zé Ketti, que presidiu o júri. Também veio o Paulinho Nogueira. O Renato Teixeira certa ocasião participou de um dos festivais, dando um verdadeiro show, tocou músicas do sertão, contou histórias dos tempos da Ilha Anchieta... 

No Museu do Bairro do Tenório, a gente expunha fotografias da memória caiçara do colecionador Edson Silva, além das pinturas primitivistas de João Teixeira Leite, esculturas do “Bigode”, cerâmica das figureiras de Taubaté, pássaros e artesanato dos quilombolas da Casanga. O Jacob num misto de escultor, músico e filósofo performático expunha seus emblemáticos entalhes e composições com madeira. 

Uma vez chegou um fotógrafo de Lorena, Adilson Maier, com excelentes fotos da gente caiçara e dos “velhos” da Picinguaba num trabalho denominado por ele como “Miscelânea Caiçara”, numa homenagem à nossa sempre querida e inesquecível Idalina Graça. Tudo era um show de arte, cultura, cantoria, dança e folclore. A TV Globo chegou a cobrir umas 5 vezes o Festival, com Carlito Maia à frente, e o repórter Ernesto Paglia. A mistureba estava assim feita... O Julinho, o Velho Rita, o Jorge, o Otávio, os Barroso, o Beto, o Raposa, os Quincas e Janguinhos, o artesão Carlos Rizzo, o Miguelsinho, o seu Albino... Ali estava todo o Tenório, o Acaraú, o Itaguá. A linda Carlota e o Cícero Assunção, o Zizi e o Barriquinha, o Professor Joaquim Lauro e Dª Zezé, as famílias Pirozzi, Dª Carmem, Aloysio, Ruth, Zilda, Márcia, Tixa, Helena, gente entrando e saindo, o quentão e a comida, os corações e as almas da gente voando, ganhando o céu radioso de Ubatuba.

12 janeiro 2015

TERRA TAMOIA - Coronel Ernesto de Oliveira

Gosto de sonhar e vou buscar no passado, ali por volta de 1936, o vulto nobre e esforçado de um ubatubense de verdade, Coronel Ernesto de Oliveira, inteligente e convincente no modo de tratar seus semelhantes, pois era Coletor Estadual na cidade, nas horas vagas advogava e quase sempre ganhava as causas de seus constituintes. Pai extremoso, trabalhava à luz de lampião, até altas horas da noite, para poder manter seus filhos estudando fora de Ubatuba. 

A primeira entrevista que tive com o senhor Ernesto de Oliveira foi motivo de funda surpresa para mim. É que eu, recém chegada de Santos, fora residir na Praia da Enseada e fizera essa acidentada viagem por mar na lancha “Ubatuba”, que apontava semanalmente na tranquila praia dos passados anos. 

Uma pequena venda dava o pão de todos os dias. Meu marido, turrão como ele só, resolveu não pagar os impostos de nossa pequena casa de negócios. Dizia-me que iria só negociar por quatro meses e não valia a pena pagar por tão pouco tempo. 

E eu, para quem as palavras dele eram lei, achei muito natural continuarem as coisas como estavam. O caso é que uma bela manhã me encontrava na praia, esperando Albino que estava em Caraguatatuba, quando veio ao meu encontro um cidadão descalço, de chapéu de palha, simpático, que, com extrema gentileza, fez-me ver que meu marido deveria pagar os impostos atrasados na Coletoria Estadual, da qual o Sr. Ernesto de Oliveira era coletor. E assim foi que no dia seguinte travei conhecimento com o Coronel, fidalgo no tratar, dono de fluente e castiça linguagem portuguesa, que me cativou logo. E desde esse dia em que, por ordem de Albino, paguei nossa dívida atrasada com o Estado, contraí também a maior de todas as dívidas, a de gratidão e constante amizade para com o Coronel Ernesto. 

Quando mudei da Praia da Enseada para a cidade, tornei-me vizinha da família do coletor. Ele e eu já éramos amigos de verdade. Muito mais tarde aprendi a admirar seus filhos, os quais, um a um, foram se formando e se tornando com o correr dos anos a família mais unida que já conheci, muito me orgulhando de ser por eles considerada. Deposito com estas humildes frases a minha saudade sobre o túmulo do ser que, quando vivo, concedeu a mim, uma desconhecida, a sua consideração de cavalheiro e a sua amizade de irmão. Bom dia Ubatuba Páginas 91/92.