ISC - Idealizado em 1993, o Instituto Salerno-Chieus nasceu como organismo auxiliar do Colégio Dominique, escola particular de Ubatuba (SP), fundada em 1978 por Ana Maria Salerno de Almeida, a "Prô Aninha". A criação do Instituto Salerno-Chieus, como fomentador das atividades culturais no Colégio Dominique, é uma homenagem para Ana “Salerno” e Carolina “Chieus”, matriarca da família que, por várias décadas, manteve uma fazenda onde hoje estão inseridas as instalações da escola. Integrado ao espaço físico do colégio, o ISC tem a tarefa de estruturar diversos núcleos de estímulo à cultura e à formação profissional, atuando como uma dinâmica incubadora de empreendimentos. O Secretário Executivo do ISC é o jornalista e ex-prefeito de Ubatuba Celso Teixeira Leite.
O Núcleo de Documentação Luiz Ernesto Kawall (Doc-LEK), coordenado pelo professor Arnaldo Chieus, organiza os documentos selecionados nos diversos núcleos do Instituto Salerno-Chieus (ISC). Seu objetivo é arquivar este patrimônio (fotos, vídeos, áudios, textos, desenhos, mapas), digitalizá-los e disponibilizá-los a estudantes, pesquisadores e visitantes. O Doc-LEK divulga, também, as ações do Colégio Dominique.

LEK - Luiz Ernesto Machado Kawall (1927-2024), jornalista e crítico de artes, foi ativo colaborador do Instituto Salerno-Chieus (ISC) e do Colégio Dominique, onde, como tributo, há uma sala de aulas que leva o seu nome. É um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e do Museu Caiçara de Ubatuba.

04 agosto 2023

RUMO VERDADEIRO

RUMO VERDADEIRO: o livro traz a história do ensino com simuladores de tráfego aéreo
 
por Arnaldo Chieus
 
A história da simulação de Tráfego Aéreo no Brasil, esta é a proposta desse trabalho que vem prestar um tributo à história do ICEA – Instituto de Controle do Espaço Aéreo e à memória da aeronáutica do Brasil. O livro foi editado em 2010, no cinquentenário do instituto responsável pela formação e capacitação de profissionais do seguimento de proteção do voo. Desde o início dos tempos o homem tem desenvolvido formas de se localizar e se locomover. Inicialmente usava referências geográficas e com o passar do tempo começou a observar a posição dos corpos celestes como referências para a navegação.
 
Evolução tecnológica
 
SISCO - Sistema de Simulação Convencional


 
Rumo verdadeiro é um tributo à história do ICEA e à sua evolução tecnológica na navegação aérea e formação de profissionais da área de controle de tráfego aéreo, desde o conhecimento dos recursos fundamentais convencionais, até aos empregados nos dias atuais. E todo esse conjunto de informações é uma contribuição ao registro da história da simulação do tráfego aéreo no Brasil, abordando as diversas fases da evolução tecnológica desde o primeiro simulador convencional via rádio até os modernos equipamentos de detecção de aeronaves por radar. 
 
Formação
 
SRBC no Laboratório de Simulação ATC do ICEA

Rumo Magnético – rumo de uma aeronave em relação ao Norte magnético. Rumo Verdadeiro – ângulo medido no sentido dos ponteiros do relógio a partir do norte verdadeiro (geográfico) até a linha representando a trajetória pretendida da aeronave. Com essas diretrizes basilares o autor traça um panorama da formação básica do profissional controlador do tráfego aéreo ressaltando a importância do conhecimento necessário desde o Sistema de Simulação Convencional (SISCO) até os mais avançados meios de comunicação por satélite e rádio navegação. 
 
A navegabilidade aérea implica no conhecimento da rota, a projeção da trajetória descrita entre dois pontos considerados, ou seja, o caminho, a direção entre estes dois pontos, podendo tomar qualquer formato gráfico (reta – curva – ziguezague). Como bem salienta Ricardo Barion no prefácio o livro simboliza o cinquentenário do ICEA e contém a história da arte de ensinar e treinar por meio de simuladores fazendo uma cronologia de todos os equipamento mais convencionais até aos programas computacionais empregados em Simuladores por Radar e nas avançadas Torres 3D, empregadas no treinamento para operação no Helicontrol empregadas no controle de voos de helicópteros no entorno de aeroportos. Em sua contribuição ao registro da história da simulação do tráfego aéreo no Brasil o livro aborda as diversas fases da evolução tecnológica desde o primeiro simulador convencional via rádio aos equipamentos de detecção de aeronaves por radar. 
 
Ao tratar da formação básica do controlador de tráfego aéreo o autor ressalta a importância em se adquirir o conhecimento de todas as etapas da evolução tecnológica desde o serviço convencional via rádio que é um dos recursos institucionais empregado até os dias atuais no ICEA: o SISCO – Sistema de Simulação Convencional e que faz parte do currículo da formação dos controladores de voo. Os textos contêm a história da arte de ensinar e treinar por meio de simuladores e todos os equipamentos e programas computacionais empregados até os dias atuais. Rumo Verdadeiro, de Cesar Rodrigues, não é apenas um tributo ao ICEA. Vai mais além, também contribuindo à memória da Aeronáutica do Brasil e, em especial, é uma homenagem a cada um dos que puderam dizer “Com orgulho, fiz e faço parte disso tudo”. Nos capítulos finais o livro apresenta uma cronologia dos simuladores de tráfego aéreo no Brasil e as referências históricas do Sistema de Proteção ao voo no Brasil.
 
*Arnaldo Chieus é professor, advogado, entusiasta da aviação e membro do Conselho Gestor do Instituto Salerno-Chieus.

19 julho 2023

Torres de Controle do Brasil



Uma resenha
por Arnaldo Chieus*

O livro “Torres de Controle do Brasil”, lançado pela Editora Livre Expressão em 2013, com o apoio cultural do NINJA – Núcleo Infantojuvenil de Aviação e do Instituto Salerno-Chieus, de autoria de Cesar Rodrigues, piloto e controlador de tráfego aéreo, trata da mais emblemática estrutura do serviço de controle de tráfego aéreo: a Torre de Controle. Fonte de informações para profissionais e estudantes de Controle de Espaço Aéreo, Transporte Aéreo e Gestão Aeroportuária. É, também, referencia para historiadores e entusiastas da aviação. Dividido em nove capítulos, Torres de Controle no Brasil traz uma combinação de informação histórica e abordagem técnica numa linguagem onde o autor demonstra plena segurança e domínio dos temas abordados. Não se trata de apenas mais um livro para profissionais do setor de controladoria de tráfego aéreo. Ele traça um panorama da evolução das Torres de Controle no Brasil, suas questões técnicas e a formação dos profissionais controladores de tráfego aéreo. Atualmente o serviço de tráfego aéreo vem passando por grande evolução tecnológica para atender o aumento dos serviços e exigências dos aeroportos e aeródromos. E a gestão eficiente desses serviços, aliado ao melhor gerenciamento logístico dos aeroportos, facilita o deslocamento de cargas e passageiros. 

A obra traz as informações básicas a respeito das Torres de Controle e sua importância nos aeroportos e aeródromos de significativo fluxo de aviões. A infraestrutura e os recursos utilizados no âmbito aéreo têm relevante papel no serviço de controle do voo das aeronaves sendo de suma importância para acompanhar a dinâmica do setor. 

Nesse trabalho o autor reúne informações sobre o Serviço de Controle Aéreo no Brasil e a evolução das atividades de proteção ao voo, nos mostrando um panorama do Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro. As Torres prestam inestimável serviço ao controle e orientação do tráfego aéreo às aeronaves que chegam e partem dos aeroportos. O livro traça em abreviado panorama da aeronavegação no Brasil e as evoluções tecnológicas que proporcionaram a melhoria do sistema de controladoria de voo desde os primórdios da navegação aérea no Brasil a partir do emprego de fogueiras como balizadoras de rota, passando pelo sistema de controle de ondas de rádio, o sistema por radar, até chegar ao sistema de navegação por satélite. 

O compêndio também aborda o sistema de controle aéreo desde o seu surgimento por volta de 1929, nos Estados Unidos. No Brasil, o primeiro aparato de controle de aeródromo foi instalado com uma estrutura improvisada, na Escola de Aeronáutica do Campo dos Afonsos, em 1941. Logo em seguido a  primeira Torre de Controle Brasileira instalada no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Ali se instalaram os primeiros controladores de tráfego aéreo no Brasil, inicialmente como funcionários da Panair e, posteriormente, integrados ao Ministério da Aeronáutica.

Atualmente a formação e capacitação dos controladores de tráfego aéreo no Brasil é realizada pela Escola de Especialistas de Aeronáutica, com sede em Guaratinguetá, SP e também através do ICEA - Instituto de Controle do Espaço Aéreo, localizado em São José dos Campos.

Também a proteção ao voo no Brasil e todo o conjunto de atividades contempladas a tal destinação são analisadas de forma que o leitor, pouco familiarizado com a linguagem técnica não encontre obstáculos na fluidez da leitura. Destaque para o alfabeto fonético, ideia brasileira de comunicação entre pilotos e operadores; o projeto estratégico de sistema integrado de controle do espaço aéreo e todo o modelo de gerenciamento, para dar segurança e eficiência necessárias à navegação aérea. 

Essa combinação de informações históricas e abordagem técnica tornam Torres de Controle do Brasil segura fonte de informação para profissionais e estudantes de Controle do Espaço Aéreo, Gestão Aeroportuária e também referência para historiadores e entusiastas da aviação. 

Cesar Rodrigues da Costa, piloto e controlador de tráfego aéreo é também autor de “Rumo Verdadeiro”, tratando da história da simulação de tráfico aéreo no Brasil; “Vou ali. Já volto: o voo do avião Jahú”; “A Jornada Aérea dos Andes ao Atlântico”; Voando Além do Tempo: o pensar de Gastão Madeira”; e coautor dos livros A aviação em Taubaté e os 25 anos do aeroclube regional” e “Sobre o Mar de Iperoig: a aviação em Ubatuba”. 

*Arnaldo Chieus é professor, advogado, entusiasta da aviação e membro do Conselho Gestor do Instituto Salerno Chieus

SANTOS DUMONT, herói da Revolução de 32


História de um brasileiro idealista, que inventou o avião, correu o mundo, amou a sua terra e morreu levado pelo ideal Paulista (que faz agora um reporte escrever alegre e feliz) 

“Morreu ontem em Santos... etc. etc. ... o inventor Santos-Dumont... etc. etc. ... Seus inventos... etc. etc. ...” - e o registro continuava, frio e precioso sempre como noticiado “Estadão”. 

Acontece que a notícia era, realmente, daquela robusta edição do “O Estado de São Paulo”. Dia 24 de julho de 1932. Há 15 dias, Revolução rebentara pela alma de todos os paulistas. 

E quem morrera então, tragicamente (mas isso a notícia, claro, não dava) tinha sido mesmo o “Pai da Aviação”. Morte, por suicídio. Morto, pela Revolução. 

Santos-Dumont é isso: um morto da Revolução. Como o menino Dráusio, que morrera há um mês. E como outros quase dois mil que ficaram inertes nos campos de batalha. Ilustre morto de cabelos brancos. Dono (sempre) das asas do mundo que deu ao homem. 

É sobre sua morte heroica em 32, e a sua bela vida, o que esta reportagem vai contar. 

1914, em Paris
Apurado, elegante, esguio (nunca pesou mais de 54 quilos), Santos-Dumont, aquele que fazia mais uma das suas longas caminhadas a pé. De longe, qualquer um poderia reconhecê-lo: pelas calças arregaçadas em bainha, pelo chapelão panamá, e pelos colarinhos altos quão engomados, universalmente conhecidos, mais tarde, como “colarinhos Santos- Dumont”. Andava e pensava. Viera do Brasil há pouco, onde recebera homenagens excepcionais. Há oito anos, voara pela primeira vez no mundo, com o “mais pesado que o ar”.

Era o mês de agosto de 1914. 

Súbito, alguém lhe deu a notícia trágica: a França, sua amada França, fora invadida. E, pior: aviões estavam sendo usados contra a população civil! Seu invento virara arma de morte! 

Aquele dia, aquele brasileirinho franzino que em criança gostava de olhar o voo dos pássaros e de soltar papagaios coloridos de papel de seda, e que por isso inventara os aviões para que os homens voassem como os pássaros e como os papagaios, - naquele instante, Santos-Dumont começava a morrer. 

Viveria ainda até 1932. Até a revolução. 

Viagens e “A Encantada” 

Quis assim, de imediato, defender a França. Houve um incidente, contudo, em sua residência em Deauville. Sua moderna luneta para observações astronômicas foi pretexto para uma acusação grosseira. Que esta ao serviço do inimigo! O incidente magoou profundamente aquele homem já magoado. E voltou ao Brasil. 

Daqui, seguiu para os Estados Unidos, onde presidiu um Congresso Científico. Ficou presidente igualmente da “Federação Aeronáutica do Hemisfério Ocidental”. E fez, na sessão de enceramento vigoroso discurso. Tese: o avião devia somente ser empregado como instrumento de aproximação política, cultural e econômica entre os povos. 

A glória e as aclamações cresciam. Mas a mágoa, com as notícias da Europa, aumentava também. Em 1916, Chile. Conferência Pan-Americana de Aeronáutica. Sensibilizou-se com a recepção dos chilenos lotando as ruas para aclamá-lo. E voltou numa arriscada (na época) travessia pelos Andes. 

E ficou zanzando pelo Rio, Petrópolis e São Paulo. E no morro do Encantado, em Petrópolis, construiu sua casa original, “A Encantada”. 

Teve, então, um pequeno período calmo. Recebia os amigos, escreveu um livro, fez invenções domésticas (como a mesa giratória de refeição). 

Mas a guerra estalava ainda na Europa. E os aviões, metralhando o povo. Tinha nessas horas de crise angústias e pseudo-culpa. 

Paris, novamente 

Da “A Encanada” foi para São Paulo. Num sítio entre Butantã e Osasco. Fez equitação, leu poesia, interessou-se pela pintura. Com 42 anos, tinha ainda ânsia de saber tudo. E não se fixava, esse homem contra a rotina. Subiu para Minas (era 1918) onde o governo lhe dava o sítio de Cabangu em que nascera. Virou agricultor. Mas deixa súbito o campo e corre toda a América. Quando vê, está em Paris novamente. 

Mas Paris, segundo seu biógrafo e sobrinho (o eng. Henrique Dumont Vilares), aquele Paris de “après-guerre” já não é aquele dos tempos do “petit Santos”... Ficou na vila de seu amigo, o conde Sylvio Álvares Penteado. Mas logo alugou a casa de campo do marquês de Soriano. E em seguida voltou ao Rio. Depois, Petrópolis, Cabangu. E novamente Paris... 

E passeando a pé, e encadernando livros, em 1927, estava na Suíça. 

Apelo e invenções

Amargurado sempre, Santos-Dumont dirige um apelo à Sociedade das Nações. Propunha a interdição do emprego de máquinas aéreas, dirigíveis ou aeroplanos “como armas de guerra”. Na sua cabeça, tantos anos depois, ainda se imprimiam as lembranças trágicas da guerra de 1914! Dizia inclusive com toda a modéstia:

 “aqueles que como eu foram humildes pioneiros da conquista do ar, pensavam mais em criar novos meios de expansão pacífica dos povos do que em lhes fornecer novas armas”. 

O apelo daquele cidadão vago ecoou singelamente entre aqueles burocratas oficiosos e moralistas. Eles entendiam a linguagem do imperialismo e a do ódio, não a do amor. Santos-Dumont, qual? 

Logo depois, contudo, Lindenberg atravessa o Atlântico. Santos-Dumont se alegra no seu retiro. E ainda: o Aero-Clube de França convida-o para presidir a manifestação oficial ao aviador americano. Ele responde comovido e simples. Já a saúde lhe faltava então. 

E dedica-se a novos inventos. Estuda o voo dos pássaros. Não lhe bastava a descoberta dos aeróstatos e dos aeroplanos. Queria dar corpo à ideia dos tempos de criança. A ideia do voo individual. Fez projetos. Projetou também helicópteros. E ainda ornitópteros, aparelho para o voo individual, com asas! E criou um tipo de esqui, com motor, para a subida de montanhas!

Volta então a Paris, para construir os aparelhos de vôo individuais. Mas a saúde se abala. A amargura cresce sempre. Volta ao Brasil. 

Dois acidentes trágicos 

3 de outubro de 1928. O Rio está em festa para receber Santos-Dumont. O “Cap. Arcona” entra barra adentro. Amigos ilustres sobem no hidroavião. (“Santos-Dumont”) para recebê-lo. O avião sobrevoa o navio e joga por pára-quedas a mensagem do povo brasileiro. Súbito, numa manobra insólita, o avião precipita-se no mar e naufraga. Ninguém escapa. Santos-Dumont está quase morto. Abate-se totalmente. Não é mais o Santos-Dumont, aquele espectro que ajuda a procurar os mortos Que comparece de luto ao enterro dos amigos. Quase se isola totalmente num quarto de Copacabana. 

Assim deprimido, volta a Paris. Recebe uma condecoração r faz um discurso (tímido, só falou duas ou três vezes em público). Chega 1930. Novo golpe. Estala a revolução no Brasil. O dirigível inglês “R-101” cai num desastre.Santos Dumont se abala tragicamente. Segue para dois sanatórios (o dos Pireneus e o de Biarritz). Está no fim. 

Antonio Prado Júnior chega, exilado. É seu amigo íntimo. Visita-o. Tem dó de seu estado lastimável. Escreve à família. O sobrinho Jorge Dumont Valares vai buscá-lo na Europa. 

Santos-Dumont volta então ao Brasil para “o fim de uma bela vida”. 

Ao lado dos paulistas 

Voltou e foi se recompondo. Ia cedo para a Hípica (sempre a procura do campo). Ou ao Paulistano. À noitinha, à redação do “Estado de São Paulo”. O sobrinho Jorge, os Rangel Pestana, Plínio Barreto. Aires Neto, Júlio Mesquita Filho e outros eram as companhias favoritas. 

Mas eis que estala 32. Num átimo, São Paulo se mobiliza. Homens, mulheres, crianças. A indústria e o comércio. Os homens de cor e os baianos. Isidoro queima. Klinger desce de mato Grosso. O governo se empenha na luta cívica. Os poetas, os escoteiros e os vagabundos. Começam os pingos de sangue. Santos-Dumont parte para o Guarujá. E surpreende o Brasil, dia 14 de julho, com seu “Apelo aos patrícios”. Pede aos seus conterrâneos que ajudem a São Paulo. No restabelecimento da ordem constitucional do país. Santos-Dumont se eleva: 
“... como um crente sincero em que os problemas as ordem política e econômica, que ora se abatem somente dentro da lei magna poderão ser removidos, de forma a conduzir a nossa pátria à superior finalidade dos seus altos destinos”“Viva o Brasil Unido”. 

Eis como termina sua mensagem aos brasileiros, Alberto Santos-Dumont. O povo aplaude o ídolo. Já no dia seguinte os jornais estampam o agradecimento do governador Pedro de Toledo: 

“A Santos-Dumont, o povo paulista, por seu governador, agradece as eloquentes palavras de apoio ao movimento constitucionalista, que hoje empolga o Estado e o país. Batemo-nos pelos princípios universais da liberdade e do direito, que aplauso nos poderia calar mais fundo ao coração do que a do nome universal do grande patrício?” 

Santos-Dumont recebeu alegre aquela mensagem no Guarujá. Tinha feito outra invenção, naqueles dias: uma catapulta para salvamento no mar. E seu civismo florescia no Brasil enlameado. Ao lado dos paulistas. 

Um avião que cai no mar 

Santos-Dumont, àquele dia, estava de camisa branca e calça preta. Agora, andava com trajos mais simples. Engordara (pouco) e tinha os cabelos alvos. 

ERA dia 23 de julho. Há três dias fizera 59 anos. 

Súbito roncou no ar o barulho de aviões voando. Eram três. E Paulistas, porque tinham as cores da bandeira das treze listas gloriosas. Vinham levantar o bloqueio do porto de Santos, pelos navios legalistas da ditadura. Lisias Rodrigues, Mota Lima e Gomes Pinheiro, os pilotos, (fugiram do Rio para combater por São Paulo), faziam misérias nos pequenos “Curtiss-Falcow”, Era preciso bombardear os navios inimigos. Santos-Dumont assiste a batalha. 

De repente, o avião de Gomes Ribeiro explode ruidosamente no ar. À frente da cidade, no mar revolto, caem os pedaços do avião trágico e os corpos de Gomes Ribeiro e de seu amigo, o advogado Bittencourt. O mar traga num segundo o idealismo de ambos. 

À tarde, no Guarujá, um homem tem um gesto de desespero. É verdade que a esclerose já lhe avançava pelas veias. Mas o talho no pulso acelerou a queda daquele coração brasileiro. Que não queria ver a morte de seus irmãos através de seu invento. 

Morreu ante a dor universal. Morreu no Brasil dividido que procurara unir. 

Morreu em 32, com São Paulo, por isso é um herói também da revolução. 

O repórter agora não cita mais o seu nome. 

E o reverencia este ano, quando decorrem 50 anos de seu primeiro voo. E 24 da revolução que apoiou. 

E está alegre e feliz, porque escreveu sobre um homem idealista e bom, que amou a sua terra e aproximou os povos. 

Luiz Ernesto Kawall
TRIBUNA DA IMPRENSA 9 de julho de 1956

08 abril 2023

Biblioteca NINJA

Livros que resgatam a história da aviação em Ubatuba (SP)

Por Arnaldo Chieus * 


As criações da Biblioteca Hans Staden e do Instituto Salerno-Chieus, no Colégio Dominique, em Ubatuba (SP), proporcionaram a instalação do Núcleo Infantojuvenil de Aviação (NINJA), com trabalhos que inspiraram a publicação de quatro livros: um sobre a travessia do Oceano Atlântico pelo hidroavião Jahú, em 1927; outro sobre a história da aviação em Ubatuba, entre 1869 e 2017; um terceiro sobre a teoria e os projetos de aeronavegação do ubatubense Gastão Madeira, pioneiro da atividade aérea na virada do século XIX para XX; e, finalmente, um a respeito da grande viagem aérea desde o Chile até o Brasil, em 1922, da qual resultou o primeiro pouso de avião em Ubatuba. Esta é a abordagem, a seguir, compondo uma resenha dos quatro livros editados pelo Instituto Salerno-Chieus. 

Um colégio, uma biblioteca, um instituto e quatro livros sobre aviação 
A Biblioteca Hans Staden, no Colégio Dominique, em Ubatuba (SP), desde sua criação em agosto de 1989, tinha por um de seus principais objetivos o desenvolvimento de um programa de incentivo à leitura. Não apenas no enfoque curricular, mas, também, buscando e tentando objetivar entre os alunos o interesse por conhecimentos extracurriculares. Esse despertar para a leitura proporcionou condições de criar subsídios extracurriculares que viessem a interagir com o público alvo, que, em princípio, eram os alunos e professores. Daí surgiu a primeira série de publicações voltadas para esse público alvo.

O primeiro trabalho publicado foi a “Apostila de Folclore”, um trabalho de pesquisa e compilação com vistas no complemento extracurricular, apresentando de forma singela as linhas básicas do folclore e seu intercâmbio entre a sabedoria e a arte popular. As atividades curriculares tiveram sequência na Biblioteca Hans Staden. Porém, a série de apostilas ficou em compasso de espera de novos títulos, o que não ocorreu. Se o tempo passou, nossos sonhos não nos deixaram. E somente a partir do surgimento do ISC (Instituto Salerno-Chieus) e do NINJA (Núcleo Infantojuvenil de Aviação) uma nova geração de sonhadores se juntou aos nossos objetivos e novos projetos se tornaram realidade. 

Documentação e aviação 
Nesse período inicial foram muitas as idas e vindas até a consolidação de uma equipe mais objetiva. Iniciamos uma nova fase de publicações e criamos alguns Blogs, para divulgar novos projetos. Daí surgiu o Núcleo de Documentação Luiz Ernesto Kawall (Doc-LEK), pelo qual passou-se a divulgar a obra desse jornalista e memorialista, criador do Museu do Bairro do Tenório, em Ubatuba, um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som, de São Paulo, e de tantos outros empreendimentos culturais. Associado ao Blog, e a partir dele, deu-se corpo a novas publicações e mais colaboradores foram se associando, trazendo ideias e projetos. De um grupo entusiasta sobre aviação surgiu o NINJA (Núcleo Infantojuvenil de Aviação), objetivando a difusão da cultura aeronáutica entre crianças e jovens. E, a partir do NINJA, o grupo deu início a uma pesquisa mais aprofundada sobre a aviação em Ubatuba, única cidade do Litoral Norte do Estado de São Paulo a dispor de um aeroporto que atende às normas de segurança aeronáutica. 

Cultura aeronáutica 
Com a criação do Conselho Gestor do Instituto Salerno-Chieus e do grupamento de voluntários do Núcleo InfantoJuvenil de Aviação se objetivou a difusão da cultura aeronáutica entre crianças e jovens. À época já estava em curso uma nova e dinâmica gestão no Aeroporto Gastão Madeira, a mais importante referência de pista para aeronaves no litoral norte de São Paulo. O aeroporto Gastão Madeira tem o atual formato desde a década de 1960, época em que experimentou uma grande reforma, a pedido do então prefeito Francisco Matarazzo Sobrinho. Porém, já bem antes, nas décadas de 1920 e 1930 várias foram as aeronaves que pousavam em Ubatuba e usavam uma pista de pouso alternativo, junto à praia defronte à cidade. 

Antoine de Saint-Exupéry e Leon Antoine 
Muito comentado foi o pouso, em Ubatuba, do Latécoère da Aéropostale (atual Air France), em junho de 1933, pilotado por Leon Antoine que, à época, fora confundido com Antoine de Saint-Exupéry. Essa história foi esclarecida por meio das pesquisas do jornalista Luiz Ernesto Kawall, que localizou o verdadeiro piloto daquela aeronave. Ambos, Leon Antoine e Saint-Exupéry, faziam à época voos na mesma rota e eram amigos. Leon Antoine, após se desligar da aviação comercial, passou a viver no Brasil, residindo na região serrana do Rio de Janeiro. No seu retorno a Ubatuba, confirmou a história daquele pouso e de como fora recepcionado pela cidade à época.

Livros sobre a aviação em Ubatuba e Gastão Madeira 
Essas e outras histórias são contadas no livro “Sobre o Mar de Iperoig”, de autoria de Celso de Almeida Jr., Celso Teixeira Leite e Cesar Rodrigues, lançado pelo selo do Instituto Salerno-Chieus. O livro traz, ainda, as histórias do piloto Jean Pierre Patural, da Aéropostale, dos voos semanais da VASP e da Companhia Akrobátika e seus aviões Sukhoi. Essas histórias e tantas outras mais que o livro nos proporciona conhecer, representam uma significativa contribuição à preservação da memória local. 
Seguindo essa mesma linguagem surgiu o livro Voando Além do Tempo – o pensar de Gastão Madeira, do jornalista e pesquisador Cesar Rodrigues, relatando o pioneirismo de Gastão Madeira na aviação. Natural de Ubatuba, desde o início da adolescência Gastão Galhardo Madeira demonstrou vocação para pesquisas científicas. Gastão Madeira foi reconhecido pelos que conhecem a história da aviação mundial. Em 1927, viu o seu nome figurar, ao lado de Bartolomeu de Gusmão, Santos Dumont, Edu Chaves, entre outros, pelos feitos na aviação, na placa em ouro e brilhantes comemorativa da travessia do Atlântico pelo hidroavião Jahú. O livro reproduz na íntegra os importantes estudos desse pioneiro da aviação, numa época de transição entre o emprego de balões e o desenvolvimento de tecnologias capazes de dar condições de voo às aeronaves mais pesadas que o ar. E foi partindo do estudo do voo dos pássaros que ele conseguiu explicar a dirigibilidade dos balões e como um objeto mais pesado que o ar fosse capaz de vencer a força da gravidade. Seus estudos foram pioneiros no desenvolvimento da segurança do voo. Em um de seus inúmeros inventos, o Aviplano, idealizou um dispositivo estabilizador, capaz de permitir o controle da aeronave no caso de falha do motor ou perda da hélice. O livro Voando Além do Tempo foi lançado em Ubatuba em março de 2019, ano em que se comemorou o sesquicentenário do inventor ubatubense e precursor teórico de Santos Dumont. 

Livro aborda a travessia aérea do Atlântico 
Vou ali. Já volto: o voo transatlântico do avião Jahú, outro livro com o selo Salerno-Chieus, de Cesar Rodrigues, relata os feitos da primeira equipe de aeronautas genuinamente brasileiros a fazer a travessia aérea do Atlântico, em 1927. Os anos de 1920 foi a era das grandes travessias aéreas, um período pós-guerra marcado pelos desbravadores aéreos assumindo desafios e os reides dominaram a atenção de muita gente. E nessa época a aviação também começou a se evidenciar. E assim ocorreu o pioneirismo de Edu Chaves na rota Rio de Janeiro-Buenos Aires (1920) e seguiram-se muitos outros, entre os quais destacamos o raid Santiago-Rio de Janeiro (1922), sob o comando do capitão Diego Aracena, resultando no primeiro pouso de um avião em Ubatuba.
Hidroavião Jahú
Sob o comando do piloto João Ribeiro de Barros, natural de Jaú, SP, o voo do hidroavião Jahú teve início em 13 de outubro de 1926 em Sesto Caldene, próximo de Gênova, na Itália. O hidroavião escolhido para a travessia foi o Savoia Marchett S-55, rebatizado como “Jahú” em homenagem à cidade onde nasceu o piloto e comandante João Ribeiro de Barros. A travessia foi tida como um dos feitos extraordinários para as condições técnicas daquela época. E o Jahú, durante seu reide, desceu em diversos pontos da costa brasileira pousando em Salvador, BA, no dia 25 de junho; no Rio de Janeiro, em 5 de julho; em Santos (SP), no dia 29 de julho; e, finalmente, na represa de Santo Amaro, hoje Guarapiranga, em São Paulo (SP), em primeiro de agosto de 1927. O livro também relata o amplo e minucioso trabalho de restauro da aeronave, suas atuais condições e a futura disposição para ser exibida em algum museu aeronáutico. Atualmente, o hidroavião Jahú se encontra hangarado no Museu da TAM, em São Carlos, SP, mantendo-se sob a responsabilidade da Fundação Santos Dumont. “Vou ali. Já volto” é um livro que relata uma história emocionante, digna dos pioneiros da aviação internacional num feito sob o comando de bravos aviadores brasileiros. O livro é ilustrado com fotos da época dos fatos e do hidroavião Jahú, os detalhes do seu restauro e como se encontra atualmente no hangar da TAM (Museu Asas de um Sonho). E traz, ainda, uma vasta referência bibliográfica sobre o assunto.

A jornada aérea do Chile ao Brasil, de 1922, em livro
No capítulo 2 do livro Sobre o Mar de Iperoig há um relato, de forma abreviada, da primeira aterrissagem de uma aeronave em Ubatuba, ocorrida em 1922. Fruto de uma pesquisa mais apurada, esse assunto veio a ser desenvolvido por Cesar Rodrigues no seu novo livro A Jornada Aérea: dos Andes ao Atlântico, publicado pelo selo Salerno-Chieus, em novembro de 2022.
O livro relata o raid aéreo iniciado em Santiago/Chile com destino ao Rio de Janeiro, então capital federal, como forma de demonstrar as aptidões dos pilotos chilenos e executar uma missão diplomática e saudar o país irmão, o Brasil, pela passagem do centenário de sua independência. A iniciativa partiu do Serviço Aéreo do Exército chileno, com o objetivo de levar ao Brasil uma mensagem do presidente chileno, por ocasião das comemorações do centenário da proclamação da independência do Brasil.
Ao centro, Aracena e Santos Dumont
O raid foi composto por duas aeronaves do tipo De Havilland DH-9 Airco: o 96 “Talca”, com os tripulantes Capitão Baraona tendo como mecânico o cabo Manuel Barahona; e o de matrícula 92, denominado “El Ferroviario”, tendo como piloto o capitão Diego Aracena e na função de mecânico o engenheiro inglês Arthur Richard Seabrook, selecionados para a missão. Ao capitão Aracena, comandante daquele raid, foi confiada uma carta do então presidente do Chile, Arturo Alessandri, com saudação ao povo brasileiro, a ser entregue ao presidente brasileiro da época, Epitácio Pessoa. 

Perigosa viagem
Ao longo do livro é relatada a perigosa jornada, verdadeira façanha dos pilotos e as dificuldades no enfrentamento de situações meteorológicas e geográficas muito adversas; o sobrevoo da Cordilheira dos Andes, as baixíssimas temperaturas enfrentadas pelos pilotos, provocando avarias nas aeronaves e congelamento com princípio de gangrena nos pés do capitão Aracena, entre muitos outros incidentes ali relatados. O primeiro acidente ocorreu na aterrissagem do Talca em Castellanos, na Argentina. Ao colidir com um poste de ferro a aeronave perdeu o trem de pouso o que impediu sua sequência no raid. A missão chilena continuou a jornada aérea com apenas uma aeronave, o biplano El Ferroviario sob o comando do capitão Diego Aracena e seu mecânico. Afinal, estava a caminho de seu destino, a cidade do Rio de Janeiro e com uma missão a cumprir: entregar ao presidente Epitácio Pessoa a mensagem que lhe encaminhava o presidente chileno. Pousaram em Buenos Aires, onde foram recebidos festivamente e prosseguiram até Montevidéu. Já era 6 de setembro de 1922. Não chegariam a tempo das comemorações da independência no Rio de Janeiro. Tentariam, ao menos, alcançar terras brasileiras, no 7 de setembro. Porém, as más condições meteorológicas não permitiram e eles pousaram, ainda mais uma vez, fora do território brasileiro. Diversos foram os pousos do “El Ferroviario” necessários tanto para reabastecimento, quanto por falhas mecânicas ou imprevistos meteorológicos. Em solo brasileiro, o avião do Capitão Aracena pousou em Pelotas, Porto Alegre - onde foi recebido efusivamente- e, posteriormente, em Torres, onde passou três dias, retido pelo mau tempo. Em seguida Florianópolis, também efusivamente recepcionado. Daí pousou em Iguape para reabastecimento e Praia Grande, também em virtude de combustível. Em Santos, pousou na praia do Gonzaga, onde ficou hospedado para pernoite. 

Pouso pioneiro em Ubatuba
Capitão Diego Aracena
Ao decolar de Santos o capitão Diego Aracena dispunha de autonomia de combustível para chegar ao seu destino final, a cidade do Rio de Janeiro. Porém, mais uma vez, o tempo mostrou-se adverso o que fez o capitão Aracena aproximar-se da costa e buscar local para um pouso alternativo. Avistando a cidade de Ubatuba, escolheu uma faixa de vegetação rasteira, na orla da praia do Itaguá para o pouso. Por uma infelicidade, na corrida para desacelerar o avião, a roda direita atingiu uma fenda oculta na grama, o que fez o avião virar provocando avaria nas rodas e na asa. A tripulação saiu ilesa, mas o avião não pode continuar sua jornada. Por coincidência, esse pouso forçado do El Ferroviario nas areias da praia do Itaguá ocorreu num 14 de setembro, data das comemorações do armistício entre os colonos portugueses e os chefes índios, habitantes da localidade, no primeiro século da colonização do Brasil. Em face da gravidade da avaria mecânica, não houve como repará-lo, pois não se dispunha de peças. Impossibilitados de continuarem a jornada aérea, serviram-se dos serviços do telégrafo de Ubatuba, para informarem às autoridades chilenas, solicitando remoção por via marítima. O governo brasileiro destacou o navio contratorpedeiro Amazonas para resgatá-los e levá-los ao Rio de Janeiro, onde puderam, finalmente, entregar a carta nas mãos do então presidente brasileiro Epitácio Pessoa. Para efetuar o resgate e traslado do avião El Ferroviario foi destacado o contratorpedeiro Alagoas. O avião foi levado para o Rio de Janeiro e reparado no Arsenal da Marinha e colocado em condições de ser embarcado para retorno ao Chile. De volta ao Chile, o DH-9 El Ferroviario integrou, em 1924, uma esquadrilha de sete aviões, empreendendo um reide de Santiago até a cidade de Tacna. Todo o livro também não deixa de ser uma singela homenagem ao grande herói deste feito: Diego Aracena Aguilar. Sem nos esquecermos do mecânico de bordo, engenheiro Arturo Seabrook, e o idealizador do reide em homenagem ao centenário da independência, Ernesto Ried. A Jornada Aérea: dos Andes ao Atlântico, de Cesar Rodrigues, vem acrescentar novos e substanciosos elementos à história e cultura de Ubatuba. Esse árduo trabalho de pesquisa é o corolário de sua proposição inicial: “a história só existe se for lembrada”. 

*Arnaldo Chieus é professor, advogado, entusiasta da aviação e membro do Conselho Gestor do Instituto Salerno-Chieus.

Ninja-Brasil: versão para a web

24 março 2022

Centenário do 1º pouso de avião em Ubatuba

Semana de Aviação de Ubatuba (SP) celebrará o centenário do 1º pouso de aeronave na cidade

Os 100 anos da realização do primeiro pouso de um avião em Ubatuba (SP) será comemorado, em setembro de 2022, durante a Semana de Aviação de Ubatuba. O projeto de Lei 04/22, de autoria do vereador Eugênio Zwibelberg instituindo a semana, foi aprovado no dia 22 de março de 2022, por unanimidade de votos, na Câmara Municipal. Desta forma, o evento aeronáutico está incluído na programação oficial de eventos da cidade. A proposição foi defendida com os argumentos históricos da atividade aérea na cidade. Além do fato de relembrar a primeira aterrissagem no município, em 14 de setembro de 1922, pelo capitão do Exército do Chile, Diego Aracena, com uma aeronave DH-9 Airco, a cidade de Ubatuba possui importantes marcos de eventos relacionados à aeronáutica, como o nascimento do pioneiro da aviação Gastão Madeira, estudioso da dirigibilidade de balões, na virada do século XIX para XX, e projetista de balões, do aviplano e outros sistemas aplicáveis em engenhos aéreos.

O primeiro pouso
Em 1922, quando o Brasil celebrava o centenário de sua independência, um piloto chileno voou para celebrar a festa nacional. O capitão Diego Aracena Aguilar, fez o reide Santiago – Rio de Janeiro, escalando em cidades do Chile, Argentina, Uruguai e Brasil. Naquela travessia protagonizou o que foi a primeira aterrissagem de uma aeronave na cidade de Ubatuba (SP), no dia 14 de setembro de 1922, usando, como pista de pouso, uma faixa de vegetação rasteira na orla da praia do Itaguá. Ele pilotava o biplano DH-9 número 92, batizado de El Ferroviario, em referência à doação, pelos trabalhadores ferroviários, do aparelho para o Exército do Chile.
Após efetuado o toque no solo, quando estava prestes a parar, o sistema de pouso bateu em uma fenda no gramado, provocando avarias nas rodas e asas. Em consequência, sem condições de reparos em Ubatuba, por meio telegráfico o comandante comunicou o fato às autoridades e ao embaixador chileno e deixou a cidade com destino ao Rio de Janeiro, a bordo do navio contratorpedeiro “Amazonas” (CT-1) da Armada.

Finalização da travessia Chile-Brasil
No dia 25 de setembro de 1922 - após ter realizado o que foi, no dia 14, o primeiro pouso de uma aeronave em Ubatuba (SP) - o capitão chileno, Diego Aracena (12/11/1891 – 02/05/1972) foi conduzido até a vertical da cidade - onde seu avião De Havilland Airco DH-9 ficou indisponível, devido avarias sofridas na aterrissagem. Nesse ponto, assumiu o comando do hidroavião Curtiss HS2L número 11 da Aviação Naval do Brasil, para terminar o reide aéreo Santiago – Rio de Janeiro. A operação foi uma gentileza da Marinha do Brasil para que o piloto chileno concluísse de avião o que foi a primeira travessia aérea desde a capital do seu país até a então capital do Brasil. Sua missão era trazer uma carta do presidente Arturo Alessandri ao presidente brasileiro, Epitácio Pessoa, saudando a Nação, em comemoração ao centenário da independência.

Comemoração do Centenário
A comemoração do Centenário do Primeiro Pouso de Avião em Ubatuba, em 14 de setembro de 2022, com a instituição, no calendário de eventos da cidade, da Semana de Aviação de Ubatuba (de 07 a 14/09) ganha força e é imprescindível que tenha interações de voluntários, autoridades e empresários apoiadores para um evento de cultura aeronáutica como um atrativo para a população, constituindo-se em fato turístico, histórico e cultural. A ideia nasceu entre entusiastas de aviação reunidos pelo Núcleo Infantojuvenil de Aviação – NINJA, no Espaço Cultural Aeronáutico de Ubatuba estabelecido no Colégio Dominique. Devido à envergadura da proposta, a atividade somente será viabilizada se houver engajamento da administração pública e de entidades privadas, notadamente dos setores cultural e turístico.

Ninja-Brasil: versão para a web

28 janeiro 2022

Nossos Núcleos Culturais

Saiba mais sobre os núcleos culturais do Colégio Dominique, funcionando sob a supervisão do Instituto Salerno-Chieus.

Estudo Dirigido de Matemática / Clube de Matemática Malba Tahan - O estudante inscreve-se e passa a frequentar semanalmente, em horário extraclasse, pelo tempo que julgar necessário. A presença de um tutor possibilita a criação e o aperfeiçoamento de hábitos de estudo e a expansão da aprendizagem. O tutor é um profissional selecionado para esclarecer o conteúdo específico que o estudante apresenta dificuldade, interagindo com o professor titular da disciplina e com os responsáveis pelo aluno, propondo novas formas de aprendizagem e estudo. Este mesmo tutor coordena o Clube de Matemática Malba Tahan, que homenageia Júlio César de Mello e Souza, educador, pedagogo, conferencista, matemático, professor e escritor brasileiro. Através de seus romances, sob o pseudônimo de Malba Tahan, foi um dos maiores divulgadores da matemática no Brasil.

Clube de Ciências José Reis – Atende alunos do Colégio Dominique e, também, estudantes de escolas públicas e particulares interessados em ciências. O clube homenageia José Reis, saudoso cientista brasileiro, jornalista especializado em divulgação da ciência, editor, escritor e um dos fundadores da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Ao final do mês de novembro, o Clube de Ciências José Reis promoverá a Feira de Ciências e Tecnologia, expondo os trabalhos desenvolvidos durante o ano letivo.

Programação e Robótica - A parceria com a ByteLab permite levar o conhecimento de programação de jogos e robótica como atividades optativas para os alunos do 6º ao 9º anos do Colégio Dominique. Em 2022 a atividade será estendida para os alunos do 5º ano do ensino fundamental. 

Clube de Xadrez - Promove encontros semanais com os alunos do 6º ao 9º anos do ensino fundamental, em parceria com o Recanto Villas Boas-Ubatuba e a Koi e Kinguio Aquarismo.

NINJA – Núcleo Infantojuvenil de Aviação - Leva a cultura aeronáutica para alunos da educação infantil, ensino fundamental e médio, de escolas públicas e particulares, através de atividades lúdicas, oficinas, palestras e compartilhamento de conteúdo pelo Blog do Ninja. Saiba mais: ninja-brasil.blogspot.com

Observação de Aves - Tem o objetivo de preservar o espaço físico para aves, agregando a observação ao cotidiano dos alunos, destacando a diversidade da mata atlântica. Os estudantes são estimulados a desenvolver noções básicas de observação de aves, participando, também, da construção de comedouros e bebedouros no Colégio Dominique. As atividades interagem com o Núcleo Infantojuvenil de Aviação - NINJA, reportando que através da observação de aves o homem despertou para a possibilidade de voar. O Instituto Salerno-Chieus organiza visitas monitoradas ao espaço do Colégio Dominique, recebendo alunos de instituições de ensino de Ubatuba e outras cidades, mediante agendamento aos finais de semana.

Horta na Escola, Farmácia Viva, Árvores da Escola - Núcleos que procuram complementar a teoria de sala de aula com atividades práticas. Horta na Escola permite o conhecimento de técnicas simples de plantio destacando o respeito à natureza e os benefícios de uma alimentação saudável. Farmácia Viva estuda o cultivo e o uso de plantas medicinais na cura de diferentes enfermidades, além de avaliar aspectos da tradição popular no uso destes recursos. Árvores da Escola estimula o estudo e o cadastramento de todas as variedades plantadas no espaço do Colégio Dominique despertando no estudante o interesse pela observação das características e pela pesquisa dos nomes científicos de cada espécie.

Memória da Gente - Promove o registro e a divulgação de ações daqueles que contribuíram e contribuem para enriquecer a história de Ubatuba. Cidadãos dos mais variados campos de atuação são lembrados em painéis fotográficos, vídeos e textos apresentados no Colégio Dominique ou em exposições itinerantes. Muitos destes ícones da cultura local e regional são homenageados como patronos das salas de aula do colégio. O material também fica à disposição de pesquisadores e visitantes no Núcleo de Documentação Luiz Ernesto Kawall

Oficinas Musicais - Em parceria com a Lira Padre Anchieta, que tem mais de seis décadas de atividades em Ubatuba, o Colégio Dominique tornou-se um polo do projeto Lira do Amanhã, cedendo o espaço para oficinais musicais e ensaios. Assim, sob o comando de dedicados músicos da cidade, com o apoio da Fundart e de empresários locais, são oferecidos cursos gratuitos aos alunos das redes estadual, municipal e particular. As oficinas musicais são estruturadas por classificação de instrumentos em cordas (violino, viola e violoncelo), flauta transversal, metais graves (trombone, bombardino e tuba), metais agudos (trompa e trompete) e percussão. 

Educação para o Trânsito - Promoção de eventos e interação com órgãos municipais, estaduais e federais que desenvolvem atividades para auxiliar nesta ação educativa prevista no Código de Trânsito Brasileiro.

Voluntariado, Manutenção e Reciclagem – Estimula alunos, familiares e funcionários a organizar campanhas de reciclagem e a participar de atividades programadas de manutenção e reforma de equipamentos da escola e/ou eventos promovidos pelo Colégio Dominique e seus diversos núcleos culturais.

Biblioteca Hans Staden - Biblioteca Hans Staden (BHS), criada pelo Colégio Dominique, em 1989, teve como primeiras ações o Programa de Incentivo à Leitura e a publicação de apostila sobre Folclore. A BHS é - na rede particular de ensino de Ubatuba - a mais completa, com mais de 10.000 livros à disposição de alunos, pais, professores, funcionários do Colégio Dominique e, também, dos participantes dos núcleos culturais supervisionados pelo Instituto Salerno-Chieus. O nome da biblioteca homenageia o viajante alemão Hans Staden, autor de Duas Viagens ao Brasil, publicado originalmente em 1557 em Marburgo (Alemanha), sendo o 1º livro no mundo a retratar as nossas terras.

BSC - Banco Salerno-Chieus - Núcleo que funciona como um banco, onde os alunos do Colégio Dominique depositam créditos denominados Estrelas. As Estrelas válidas para depósitos no BSC são conquistadas através da participação dos alunos nos eventos promovidos pela escola e por seus parceiros. Alguns exemplos de atividades que podem gerar Estrelas: Elaborar uma resenha de um livro da Biblioteca Hans Staden / Participar dos Plantões de Dúvidas do Estudo Dirigido / Participar de apresentações de música, teatro, dança / Participar de atividades esportivas / Atuar nos Clubes de Matemática, Ciências e Xadrez / Frequentar o NINJA / Participar como voluntário em atividades do Colégio Dominique e do Instituto Salerno-Chieus, entre outras possibilidades. Com as Estrelas conquistadas e depositadas o aluno poderá solicitar à gerência do BSC que converta um determinado número de Estrelas em um ponto na composição da média bimestral de alguma matéria da série em que estuda no Colégio Dominique. Essa conversão só é possível desde que o aluno tenha cumprido 80% das tarefas propostas pelo professor da matéria e não tenha mais de 10% de faltas nas respectivas aulas.

Colégio Dominique e Instituto Salerno-Chieus
NOSSA HISTÓRIA É NOSSA ENERGIA

10 outubro 2020

O RETRATO DE CASSIANO RICARDO

Lourdes Fonseca Ricardo, Austregésilo de Athayde e Francisco de Assis Barbosa 

Por ocasião da X Semana Cassiano Ricardo, em São José dos Campos, SP, foi organizada a entrega formal do retrato do busto do poeta à Academia Brasileira de Letras, um antigo sonho de Da. Lourdes Fonseca Ricardo, sua viúva. Era intenção de Da. Lourdes entregar esse retrato com certa brevidade, pois gostaria de fazê-lo ainda na gestão de Austregésilo de Athayde na ABL. O retrato fora encomendado ao artista joseense José Carlos Queiroz por d. Lourdes através de um amigo comum, Armando Cobra, que fora também amigo do poeta e entusiasta desta homenagem. 

Cassiano Ricardo não foi apenas um grande poeta da língua portuguesa, mas também um grande estudioso da cultura e dos problemas brasileiros tendo nos legado uma obra múltipla e multifacetada, onde encontramos não somente o poeta desbravador das novas linguagens do linossígno (a estrofe pela geometria imagístico-visual da composição no seu todo). Em Cassiano Ricardo encontramos, também, uma linguagem prosística viva e saborosa onde se mesclam elementos de oralidade, de ditos coloquiais na língua erudita, de gosto pessoal na seleção e no emprego das palavras, de modulação própria na curva expressiva da frase despojada e séria, seivosamente brasileira, como bem observou Nereu Correia. 

Num breve retorno a Cassiano Ricardo não podemos esquecer, principalmente em tempos em que se tenta sensibilizar os que podem e os que devem no sentido de que não se perca a memória nacional, conforme afirmou o ilustre professor Hugo Benatti Jr. em artigo publicado na imprensa joseense à época da realização da X Semana Cassiano Ricardo. 

José Carlos Queiroz (de termo branco), na seção da ABL 

A Semana Cassiano Ricardo foi uma forma encontrada pela cidade de São José dos Campos de homenagear um de seus filhos mais ilustres. Em suas memórias é o poeta que narra o surgimento dessa homenagem: Hoje, em 1970, as palavras que pronunciei em 1967, ainda repercutem em mim, pois representam meu abraço de filho à mãe-terra. São José, cidade de minha infância me leva sempre a um exercício de introspecção e sinceridade, cheio de reminiscências inapagáveis. No núcleo formador da Semana Cassiano Ricardo, nos idos de 1967, encontramos nomes como Roberto Wagner de Almeida, Olney Borges Pinto de Souza, Altino Bondesan, Pedro Paulo Teixeira Pinto, José Madureira Lebrão, Mário Ottoboni, Hélio Pinto Ferreira, além de outros ligados à vida social, política e administrativa de São José dos Campos. 

 Para Hugo Benatti Júnior, o passado se revela no presente e uma das formas de se conservar uma certa identidade nacional, regional ou local, expressa-se na tentativa de preservar os marcos identificadores de uma época. Cassiano Ricardo registrou em modo próprio, como poeta, historiador e pesquisador, toda uma fase da vida nacional. Também incluiu a sua terra de nascimento. A história de São José dos Campos necessariamente mencionará a vida e a obra do festejado poeta. 

 “A mais importante homenagem, porém, a que mais de perto me toca, é uma, de caráter permanente, A Semana Cassiano Ricardo, que me é atribuída todos os anos, em minha cidade natal, São José dos Campos.”  Viagem no Tempo e no Espaço, 1970 pg. 254. 

Mas voltemos ao retrato do poeta e ao artista que o concebeu, José Carlos Queiroz. O retrato, óleo sobre tela, não seria possível sem a interferência do mui nobre Armando Cobra e sua ligação com o poeta e sua esposa já por longa data. Escolhido o artista, a obra foi ganhando corpo até sua finalização sendo formalmente entregue às mãos de dona Lourdes Fonseca Ricardo numa concorrida seção da Câmara Municipal de São José dos Campos, na presença de diversos amigos e entusiastas do poeta Cassiano Ricardo. 

À época, Cassiano Ricardo já havia falecido, mas as homenagens e recordações à sua memória sempre continuaram como antes. É de se consignar aqui a alocução feita pelo então deputado Israel Dias Novais na tribuna da Assembleia Legislativa de São Paulo pelo seu 70º ano de vida e cinquentenário poético: “Tenho um velho apreço ao poeta e um crescente e irremediável fascínio pela sua obra. Perco-me, não raro, no mundo de uma poesia que às vezes escurece e mergulha no mistério, quando sabe tão constantemente ser clara e luminosa, dando a falsa impressão de facilidade”.

E, em mãos de Lourdes Fonseca Ricardo o quadro foi até a Academia Brasileira de Letras para, numa seção memorável, ser entregue àquela instituição. A comitiva partiu de São José dos Campos em ônibus fretado pela prefeitura municipal sob a direção de Fernando José de Paula Fagundes dos Santos, então o chefe da Seção de Cultura. Além de José Carlos Queiroz, sua esposa e seu pai, integraram a comitiva Olney Borges Pinto de Souza, Brasílio Duarte, Hélio Pinto Ferreira, Geraldo Fernandes Sobreiro, Maria Cristina Pires, entre outros. 

Em primeiro plano, Lourdes Fonseca Ricardo, ao lado dos imortais Francisco de Assis Barbosa,Josué Montello e Raimundo Magalhães Jr.

Na Academia fomos diligentemente recebidos pelo acadêmico Francisco de Assis Barbosa numa seção onde estavam presentes, além do presidente Austregésilo de Athayde, da. Lourdes Fonseca Ricardo, os acadêmicos José Cândido de Carvalho, Odylo Costa filho, Josué Montello, Aurélio Buarque de Hollanda, Raimundo Magalhães Júnior, Vianna Moog, entre outros. O ato de entrega do quadro do artista joseense José Carlos Queiroz revestiu-se de absoluta singeleza e a obra passou definitivamente ao acervo da Academia Brasileira de Letras. 

A homenagem foi à altura do inesgotável Cassiano Ricardo que, rompendo-se do parnasianismo inicial emergiu ao modernismo nos Borrões de Verde e Amarelo para, num crescente inesgotável atingir seu pináculo com Jeremias sem Chorar e ao máximo de sua obra poética com “Os Sobreviventes”. 

No corpo desse texto foram utilizadas para consulta as seguintes obras: 
Viagem no Tempo e no Espaço, de Cassiano Ricardo 
Jeremias sem-chorar, de Cassiano Ricardo 
Cassiano Ricardo: o prosador e o poeta, de Nereu Correia 
Habituei-me ao improviso, de Israel Dias Novaes 
O inesgotável Cassiano, artigo de Hugo Benatti Jr 
Um breve retorno a Cassiano, artigo de Hugo Benatti Jr

                     Em memória de Fernando José de Paula Fagundes dos Santos e Armando Cobra

Texto de Arnaldo Chieus

20 setembro 2020

JOSE MAURO DE VASCONCELOS


José Mauro de Vasconcelos é dos escritores brasileiros mais reeditados e lidos tanto entre nós, brasileiros quanto no exterior, onde suas obras também fazem muito sucesso. 

Nascido no subúrbio carioca de Bangu, Rio de Janeiro, a 20 de fevereiro de 1920 e filho de uma família de ascendência nordestina e muito pobre, ainda menino foi viver com os tios em Natal, Rio Grande do Norte. Aos nove anos, já em Natal, aprendeu a nadar e, com grande prazer, lembra-se dos treinos de natação nas águas do rio Potengi e de seus sonhos de ser campeão. Ali passou o final da infância e a adolescência estudando no Colégio Marista até iniciar-se no curso de Medicina, que frequentou apenas por dois anos.

Esse período vivido em Natal lhe rendeu o livro “Doidão”, em que nos remete à sua adolescência de uma forma romanceada. Ao abandonar o curso de medicina decide voltar ao Rio de Janeiro num velho navio cargueiro. Ainda sem meta estabelecida para manter-se exerce um sem número de profissões desde sparing de peso pena a carregador de bananas, garçom de boate, servindo até mesmo de modelo artístico ao escultor Bruno Gíorgi à época em que este executava o seu “Monumento à Juventude”, exposto nos jardins do Ministério da Educação no Rio de Janeiro. Também foi carregador de bananas em Itaguaí, RJ, pescador no litoral fluminense e professor primário em um núcleo de pescadores em Recife. 

Sua última tentativa e malograda experiência foi em 1952, quando ganhou uma bolsa para estudar em Salamanca. Ficou três dias apenas na universidade. “Você acha que eu podia ficar uma hora inteira ouvindo chavões de literatura ou escrevendo composições sobre Cervantes?” - diz o incorrigível estudante. E acrescenta: “Tudo ali era muito chato”. De Salamanca voltou a Madrid, onde ficou poucos dias, encerrando o estágio-relâmpago de bolsista espanhol. Depois foi fazer um giro pela Itália e França, por conta própria. 

De suas atividades a que exerceu com mais vigor e plenitude foi junto aos irmãos Villas-Boas, varando rios pelas regiões hostis do Rio Araguaia e seu trabalho junto às tribos indígenas locais. Os poucos anos que frequentou a faculdade de medicina lhe proporcionaram conhecimento suficiente para atuar com enfermeiro nos sertões longínquos do Araguaia e apaixonar-se pela vida nas selvas brasileiras sentindo-se útil àquelas populações ribeirinhas. 

Dotado de prodigiosa capacidade inata de contar histórias, possuindo fabulosa memória, candente imaginação e com uma volumosa experiência humana, José Mauro de Vasconcelos não quis ser escritor, foi obrigado a sê-lo. Os seus romances, como lavas de um vulcão, foram lançados para fora, porque dentro dele o “eu” estava transbordando de emoções. Ele tinha de escrever e de contar coisas. Sua fenomenal produção literária, iniciada aos 22 anos de idade, ainda não chegou ao meio caminho, porque ele está em plena ascensão, com inexauríveis reservas, que o levará a posição ainda mais elevada nas letras nacionais. 

Depois de “Banana Brava”, romance escrito em 1942, José Mauro produziu “Barro Blanco” (1945), “...Longe da Terra” (1949). “Vazante” (1951). “Arara Vermelha” (1953), “Arraia de Fogo” (1955), “Rosinha, Minha Canoa” (1964), “As Confissões de Frei Abóbora” (1966), e por último “O Meu Pé de Laranja Lima” (1968), livros que tiveram grande aceitação, todos eles elaborados à base de suas aventuras nas praias ou na selva. 

O autor desses belos romances tem método originalíssimo. De inicio, escolhe o cenário onde se movimentarão seus personagens. Transporta-se então para o local, onde realiza estudos minuciosos. Para escrever “Arara Vermelha”, percorreu cerca de 450 léguas no sertão bruto. 

Em seguida, José Mauro dá asa à sua fantasia e, na imaginação, constrói todo o romance, determinando até mesmo as frases da dialogação. Tem uma memória que, durante longo tempo, lhe permite lembrar-se dos mínimos detalhes do cenário estudado. 

“Quando a história está inteiramente feita na imaginação”, revela o escritor, “é que começo a escrever. Só trabalho quando tenho a impressão de que o romance está saindo por todos os poros do corpo. Então vai tudo num jacto”. 

Como o seu sistema de ficar dormindo na pontaria até que o livro esteja “escrito” na imaginação, conta José Mauro que, ao pôr-se em ação, na fase material de bater à máquina, tanto faz escrever os capítulos, um após outro, como dar saltos; depois de pronto o primeiro, passa à conclusão do livro, sem antes ter elaborado o entrecho. “Isso”, explica o escritor, “porque todos os capítulos estão já produzidos cerebralmente. Pouco importa escrever a sequência, como alterar a ordem. No fim dá tudo certinho”.

Um homem que não via a hora de “meter o peito no mato” para matar as saudades da selva. Seus livros vieram até nós de uma forma quase natural, logrado por seu espírito viajante e desbravador natural dos sertões do interior do Brasil. 

Como ninguém, sabia entreter o leitor com uma história bem contada por alguém que viu e vivenciou essas histórias. Em seus livros há um toque de íntima pessoalidade fruto de sua vivência no aprendizado de uma vida que parece ter sido a essência de sua literatura. 

Numa entrevista ao jornalista Audálio Dantas, José Mauro de Vasconcelos contou como travou amizade com Francisco Matarazzo Sobrinho: 

“No meu segundo livro, Barro Blanco, resultado de uma viagem aio Rio Grande do Norte, contava o drama dos trabalhadores do sal, denunciava a exploração de que eles eram vítimas por parte das grandes companhias, uma das quais a Matarazzo. Por causa disso, um Matarazzo, Ciccillo, criador da Bienal de São Paulo, amigo de escritores e artistas, quis me conhecer. Gostara muito do livro, e gostaria muito mais do autor. Pagou onze das treze operações que tive de fazer na perna. Grande parte de minha obra, posterior a Barro Blanco, foi escrita em máquina de escrever presenteada por ele”. 


Quatro de seus livros foram escritos na casa do amigo Ciccillo, na Prainha, em Ubatuba, onde permanecia isolado, sempre atendido pelo exemplar Ireno, de quem se tornou amigo, vindo posteriormente outra pessoa admirável, Idalina Graça, que nos deixou estas impressões de José Mauro de Vasconcelos: Em maravilhosa manhã de domingo no primeiro ano da feliz gestão Matarazzo em nossa terra, Paulo Florençano, artista amigo por excelência, a quem devo gratidão pela amizade e ajuda que ele e sua formosa esposa, Vanda, me têm dispensado, há longos anos, havia-me feito uma promessa, quando houvesse oportunidade, far-me-ia conhecer o admirável autor de “ROSINHA MINHA CANOA”, que no meu entender é um de seus melhores livros. Com a Graça de Deus essa hora havia chegado, pensei, ao ver acompanhando meus dos bons amigos o ser excepcional que ele é espiritual e materialmente, e continuará sendo, com a proteção de Nossa Senhora Aparecida. Seja como for, querido, eu agradeço as horas feliz em que no meu humilde lar você extravasava seu coração, quando mantendo uma conversa amena, só eu aprendia. Porque você é que tinha tudo a dar, como me deu na suave ternura da amizade espiritual. 

José Mauro de Vasconcelos morreu em São Paulo em 1984, aos 64 anos de idade, vítima de broncopneumonia.

Texto de Arnaldo Chieus

Saiba mais:



28 maio 2020

CENTENÁRIO DE FLORESTAN FERNANDES


FLORESTAN FERNANDES nasceu em São Paulo em 22 de junho de 1920. 

De origem humilde, deixou a escola apenas com os fundamentos básicos para trabalhar e completar a renda familiar. Porém, com seu gosto pelo estudo e pelos livros retornou aos estudos formais, ingressando no curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, licenciando-se em 1944. Ingressando como professor titular na USP, em 1953, destacou-se com brilhantismo na instituição onde apresentou tese de livre docência em 1964 com um trabalho que o deixou célebre: A integração do negro na sociedade de classes. 

Com “A Organização Social dos Tupinambá” Florestan se transforma num sociólogo maduro vindo sua obra, a partir de então, num crescente buscando sempre na educação um fator de integração política e social. Num texto publicado em 1959 ele reafirma suas esperanças na educação “como elemento crucial para o reajustamento do homem a situações sociais que se alteram celeremente”

Como sociólogo engajado nas lutas sociais e políticas de seu tempo, teve contribuição importante na cooperação entre educadores e cientistas sociais, examinando com minúcias sua participação e responsabilidade nos projetos de reconstrução do sistema educacional brasileiro de seu tempo. 

As preocupações educacionais acompanharam toda a trajetória de Florestan Fernandes fazendo parte integrante de suas cogitações intelectuais e práticas. Inestimável foi sua contribuição à prática educativa com sua produção sociológica teórica e seus estudos práticos de análise folclórica e de comunidade, de cunho eminentemente científico, associado à sua figura coerente e íntegra de professor, sociólogo e homem político. 

Florestan Fernandes tem, reconhecidamente, um papel central na institucionalização da sociologia como disciplina acadêmica e na conformação de um padrão de trabalho e de atuação intelectual dos cientistas sociais no Brasil. Sua concepção da sociologia como ciência marca a história da configuração de um campo especializado de estudos, a história da integração do pensamento sociológico ao sistema sociocultural brasileiro e a história das relações entre sociedade e ciência no Brasil moderno. 

No início de sua carreira acadêmica interessou-se pelos estudos folclóricos, iniciando suas primeiras publicações sobre o assunto em 1942, ainda estudante de Ciências Sociais. Passando a temas mais amplos debruçou-se nos estudos dos Tupinambá. 
Florestan Fernandes exerceu dois mandatos na Câmara dos Deputados  tendo se destacado em discussões nos debates sobre educação. Faleceu em São Paulo em 10 de agosto de 1995 em razão de complicações de transplante de fígado.

TUPINAMBÁ
Tem-se conhecimento que os primeiros habitantes da região de Ubatuba (SP) foram os índios tupinambá, na aldeia de Iperoig. Os tupinambá habitavam toda a região litorânea do Brasil e são considerados os antepassados de todas as tribos tupis que habitavam o litoral brasileiro no século XVI. Estes, foram objeto de intensa pesquisa de Florestan Fernandes que resultou em sua dissertação de mestrado "A organização social dos tupinambá" e, posteriormente, em outro desafiador trabalho "A função social da guerra na sociedade tupinambá".

Essas duas obras, hoje um tanto raras, foram escritas por Florestan Fernandes a partir de um minucioso método de leitura dos primeiros cronistas portugueses. Dali veio o mestrado, o doutorado e a livre docência, frutos de um esforço enorme, com uma visão original e uma potência mental que raramente encontram-se equivalentes.